Batalha de Naísso, travada em 268 ou 269, foi a derrota de uma coalizão gótica pelo exército romano liderado pelo imperador Galiano (ou Cláudio II) perto de Naísso (a moderna Niš, na Sérvia). Os eventos que levaram à invasão e à batalha são uma parte importante da história da chamada "crise do terceiro século".

O resultado foi uma grande vitória romana que, combinada a uma eficiente perseguição aos invasores sobreviventes logo na sequência do combate e aos diligentes esforços do imperador Aureliano, eliminaram quase completamente a ameaça representada pelas tribos germânicas na fronteira balcânica por muitas décadas.

Fontes primárias Como é geralmente o caso na história do Império Romano durante o turbulento , é bastante difícil reconstruir a sequência de eventos que levaram ao confronto em Naísso. Os relatos da época que chegaram aos nossos dias, incluindo a "História Nova" de Zósimo, a "Epítome da História" de Zonaras, a "Seleção da Cronografia" de Jorge Sincelo e a "História Augusta", baseiam-se todas principalmente na perdida "História" do ateniense Déxipo, cujo texto sobreviveu apenas em citações indiretas na "História Augusta", do , e alguns trechos selecionados em compilações bizantinas do David S. Potter, p.232–233. Apesar de sua importância para o período, Déxipo é considerada uma fonte "pobre" pelo historiador moderno David S. PotterDavid S. Potter, p.232–234. Para piorar a situação, as obras que fazem uso do texto Déxipo (e, provavelmente, algum outro texto desconhecido) interpretam os eventos de forma radicalmente contráriaJohn Bray, p.283, David S. Potter, p.641–642, n.4.. A propaganda imperial na época da dinastia Constantiniana aumentou ainda mais a confusão ao atribuir todas as calamidades ao reinado de Galiano para evitar manchar a memória de Cláudio II (supostamente um antepassado da dinastia)David S. Potter, p.266.

Como resultado, ainda há muita controvérsia sobre o número de invasões, a ordem dos eventos e ao reinado de qual imperador um determinado evento deve ser atribuídoJohn Bray, p.279. Também David S. Potter, p.263. Portanto, há disputas sobre quem era o imperador e o comandante do exército na época da batalha, por exemplo. Em 1939, Andreas Alföldi, defensor da teoria da invasão única, sugeriu que Galiano seria o único responsável por derrotar as invasões bárbaras, inclusive a batalha de NaíssoThe Cambridge Ancient History, vol 12, chapter 6, p.165–231, Cambridge University Press, 1939. Seu ponto de vista tem sido amplamente aceito desde então, mas estudiosos mais modernos geralmente atribuem a vitória final a Cláudio IIJohn Bray, p.284–285, Pat Southern, p.109. Ver também Alaric Watson, p.215, David S. Potter, p.266, H. Wolfram, p.54. A teoria da invasão única também tem sido rejeitada em prol de outra que defende duas invasões distintas. A narrativa abaixo segue este ponto de vista mais moderno, mas o leitor deve estar ciente de que as evidências são confusas demais para uma reconstrução completamente certaJohn Bray, p.286–288, Alaric Watson, p.216.

Contexto thumb|esquerda|250px|Mapa das invasões góticas de 268-269. A batalha de Naísso ocorreu como resultado de duas grandes invasões de tribos "citas" (como chamam-nas as fontesZósimo, ver também Sincelo, p.716 de forma anacronística) ao território romano entre 267 e 269. A primeira ocorreu durante o reinado de Galiano, em 267, iniciada quando os hérulos, embarcados em mais de 500 navios, arrasaram a costa sul do Mar Negro e atacaram, sem sucesso, Bizâncio (a futura Constantinopla) e Cízico. Eles foram derrotados pela marinha romana, mas conseguiram escapar para o Mar Egeu, onde atacaram as ilhas de Lemnos e Esquiro e saquearam diversas cidades da província da Acaia, no sul da Grécia, inclusive Atenas, Corinto, Argos e Esparta. Em seguida, uma milícia ateniense, liderada pelo historiador Déxipo, expulsou os invasores para o norte, onde eles foram finalmente interceptados pelo exército romano liderado por GalianoScriptores Historiae Augustae, Vita Gallienii, 13.8. Ele conseguiu uma importante vitória perto de "Nessos" (rio Nestos), na fronteira entre a província da Macedônia e a Trácia, com a ajuda de sua poderosa cavalaria dálmata. Os relatos informam que as baixas entre os bárbaros chegaram a homens. Posteriormente, o líder hérulo Naulobato fez um acordo com os romanosJ. Sincelo, p.717.

No passado, a batalha de Nessos era identificada como sendo a Batalha de Naísso, mas os estudiosos modernos rejeitam esta posição. Para contrapô-la, há uma teoria que a vitória de Nessos teria sido tão acachapante que os esforços de Cláudio II contra os godos (incluindo a batalha de Naísso) não teriam passado de operações menores de pacificaçãoT. Forgiarini, A propos de Claude II: Les invasion gothiques de 269–270 et le role de l' empereur, in Les empereurs illyriens, Frezouls et Jouffroy, p.81–86. (citado em D. Potter, p.642). Este ponto de vista é similar ao de A. Alfoldi. Depois da vitória, Galiano deixou Lúcio Aurélio Marciano em seu lugar e voltou rapidamente para a Itália para esmagar a revolta de seu oficial de cavalaria AuréoloZósimo, 1.40. Depois que Galiano foi assassinado próximo de Mediolano (moderna Milão) no verão de 268 num complô arquitetado pelo alto escalão de seu exército, Cláudio foi proclamado imperador e seguiu para Roma para consolidar-se no poder. A preocupação mais imediata do novo imperador era com os alamanos, que haviam invadido a Récia e a Itália. Depois de derrotá-los na batalha do lago Benaco, ele finalmente pôde cuidar da invasão das províncias balcânicasJohn Bray, p.290.

Neste ínterim, uma segunda invasão naval, muito maior, começou. Uma enorme coalização de "citas" - na verdade eram godos (grutungos e tervíngios), gépidas e peucinos, liderada novamente pelos hérulos - se reuniu na foz do rio TirasA Historia Augusta menciona citas, grutungos, tervíngios, gépidas, peucinos, celtas e hérulos. Zósimo cita citas, hérulos, peucinos e godos.. A História Augusta e Zósimo relatam entre e navios e mais de homensScriptores Historiae Augustae, Vita Divi Claudii, 6.4. Estes números são provavelmente um grande exagero, mas são bons indicativos de que se tratou de uma grande invasão. Depois de não conseguirem tomar algumas cidades nas costas ocidentais do Mar Negro e do Danúbio (Tomi e Marcianópolis), os invasores atacaram Bizâncio e CrisópolisQue ainda era uma cidade separada, mas que se tornaria depois o distrito de Uskudar de Constantinopla. Parte da frota acabou naufragando, seja pela inexperiência dos marinheiros godos nas violentas correntes do Propôntida (o Mar de Mármara)Zósimo, 1.42 ou por que ela foi derrotada pela marinha romana. Os invasores então partiram para o Mar Egeu e um destacamento arrasou as ilhas chegando até Creta e Rodes. A força principal construiu armas de cerco e estava perto de conquistar Tessalônica e Cassandreia, quando foi forçada a recuar para o interior dos Bálcãs quando chegaram notícias que o imperador avançava à frente de um grande exército. No caminho, eles saquearam Dobero (Peônia?) e Pelagônia.

A batalha miniaturadaimagem|Ilustração. Os godos finalmente foram alcançados perto de Naísso por um exército romano que vinha do norte. A batalha provavelmente deu-se em 269 e foi bastante disputada. Pesadas baixas acometeram os dois lados mas, na hora mais crítica, os romanos finalmente conseguiram atrair os godos para uma emboscada ao fingirem que estavam fugindo em debandada. Alega-se que mais de teriam sido mortos ou aprisionadosZósimo, 1.43. É provável que Aureliano, encarregado de toda a cavalaria romana durante o reinado de Cláudio, tenha liderado o ataque decisivo.

Consequências Um grande número de godos conseguiu escapar para a província da Macedônia, defendendo-se num primeiro momento atrás de seu forte de carros. Logo, muitos deles mais os animais de carga, não suportamento mais os intensos ataques da cavalaria romana e a falta de provisão, morreram de fome. O exército romano metodicamente perseguiu e acabou cercando os sobreviventes nos montes Hemo (a cordilheira dos Balcãs) quando uma epidemia enfraqueceu os godosZósimo, 1.45. Depois de uma sangrenta e inconclusiva batalha, eles escaparam novamente, mas foram novamente perseguidos até que finalmente se renderam. Os prisioneiros foram alistados no exército ou receberam terras para cultivar, tornando-se colonos. Os membros da frota pirata, depois de atacarem sem sucesso Creta e Rodes, recuaram e muitos deles tiveram o mesmo fimJohn Bray, p.282. Veja Zósimo, 1.46. Porém, a epidemia também atacou os romanos e levou o imperador Cláudio em 270J. Sincelo, p.720.

O impacto psicológico desta vitória foi tão forte que Cláudio entrou para a história como "Cláudio II Gótico" ("conquistador dos godos"). Porém, por mais devastadora que tenha sido a derrota, a batalha não eliminou completamente o poderio militar das tribos góticasAlaric Watson, p.216. Além disso, os problemas com a rainha Zenóbia no oriente e o dissidente Império das Gálias no ocidente eram tão urgentes que a vitória em Naísso só serviu como um alívio temporário. Em 271, depois que Aureliano repeliu ainda outra invasão gótica, ele finalmente abandonou a província da Dácia ao norte do Danúbio para diminuir o tamanho e racionalizar a fronteira romana na regiãoDavid S. Potter, p.270. A Dácia jamais seria conquistada novamente pelos romanos (inclusive os seus sucessores bizantinos).

Bibliografia Fontes primárias

Zósimo, História Nova (), livro 1, em Corpus Scriptorum Historiae Byzantinae, ed. Bekker, Weber, Bonn, 1837 Jorge Sincelo, Cronografia (), em Corpus Scriptorum Historiae Byzantinae, ed. Dindorf, Bonn, 1829 Scriptores Historiae Augustae, Vita Gallieni Duo & Vita Divi Claudii, Loeb Classical Library, 1921–1932 (tradução para o inglês), online em Lacus Curtius Zonaras, Epítome Histórica (), livro 12, na Patrologia Graeca, ed. J.P. Migne, Paris, 1864, vol 134

Fontes secundárias

Bray, John. Gallienus: A Study in Reformist and Sexual Politics, Wakefield Press, 1997. ISBN 1-86254-337-2 Potter, David S. The Roman Empire at Bay AD 180–395, Routledge, 2004. ISBN 0-415-10058-5 Southern, Pat. The Roman Empire from Severus to Constantine, Routledge, 2001. ISBN 0-415-23943-5 Watson, Alaric. Aurelian and the Third Century, Routledge, 2003. ISBN 0-415-30187-4 Wolfram, Herwig. History of the Goths'' (transl. by Thomas J. Dunlap), University of California Press, 1988. ISBN 0-520-06983-8

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