thumb|Trote nos bixos da Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio Grande do Sul aplicado em 2009|249x249px

O consiste num conjunto de atividades estudantes em instituições de ensino, ou de pessoas em algumas organizações. Em Portugal, particularmente, o termo Praxe refere-se não apenas às atividades de ingresso, mas também ao conjunto de regras e regulamentos que regem as relações hierárquicas e sociais da comunidade estudantil. A praxe é, pois, o conjunto de determinações respeitantes ao protocolo e etiqueta que orientam o modus procedendi e o modus operandi do estudante, no exercício da sua cidadania académica e vivência das várias manifestações da Tradição.

No Brasil, costuma ocorrer nos dias da denominada calourada, que acontecem no início de um semestre ou ano letivo, em escolas e faculdades. É aplicado pelos estudantes mais antigos, chamados de veteranos, nos recém-chegados, conhecidos como calouros ou "bixos". O trote também costuma acontecer na escola depois da calourada, principalmente nos calouros que não compareceram a ela. Algumas instituições, visando a acabar com a tradição do trote estudantil, promovem uma variação mais saudável desse, o chamado trote solidário, um modo mais útil e menos agressivo de recepção a novos alunos.

São frequentes também, mesmo depois da época de calourada, trotes fora da instituição de ensino, principalmente em casas de república, lugar onde dormem juntos os alunos que vieram de outras cidades, uma vez que, nestes locais, a instituição não tem controle sobre os estudantes e não pode emitir ocorrências ou realizar punições.

Etimologia A palavra "trote" possui correspondentes em vários idiomas, como trote (espanhol), trotto (italiano), trot (francês), trot (inglês) e trotten (alemão). Em todos estes idiomas, e também em português, o termo se refere a uma certa forma de se movimentar dos cavalos, uma andadura que se situa entre o passo (mais lento) e o galope (mais rápido). Todavia, deve ser lembrado que o trote não é uma andadura normal e habitual do cavalo, mas algo que deve ser ensinado a ele (muitas vezes à base de chicotadas e esporadas). Da mesma forma, o calouro é encarado pelo veterano como algo (mais que um animal, mas menos que um ser humano) que deve ser domesticado pelo emprego de práticas humilhantes e vexatórias; em suma, o calouro deve "aprender a trotar".

Da mesma forma, denominar o calouro de bixo (ou bixete, se for mulher), parece querer indicar "que o calouro deve ser humilhado a ponto de nem mesmo merecer que a palavra bicho seja escrita corretamente."ZUIN, Antônio Álvaro Soares. O trote na universidade-Passagens de um rito de iniciação. São Paulo. Cortez. 2002. p.44.

A palavra "praxe", por sua vez, advém do sentido de costume, rotina, etiqueta ou pragmática que a palavra expressa tradicionalmente, derivando do grego πρᾱξις.

Origens As origens do trote estudantil podem ser encontradas nas primeiras universidades, na Europa da Idade Média.VASCONCELOS, Paulo Denisar. A violência no escárnio do trote tradicional. Santa Maria. UFSM. 1993. p.13. Nestas instituições, surgiu o hábito de separar veteranos e calouros, aos quais não era permitido assistirem as aulas no interior das respectivas salas, mas apenas em seus vestíbulos (de onde veio o termo "vestibulando" para designar estes novatos). Por razões profiláticas, os calouros tinham as cabeças raspadas e suas roupas, muitas vezes, eram queimadas.

Todavia, já no século XIV, as preocupações com a higiene haviam se transformado em rituais aviltantes, com nítida conotação sadomasoquista. Isto é observado nas universidades de Bolonha, Paris e, principalmente, Heidelberg, onde os calouros, reclassificados como "feras" pelos veteranos, tinham pelos e cabelos arrancados, e eram obrigados a beber urina e a comer excrementos antes de serem declarados "domesticados".

Em Portugal, os trotes violentos (como o notório "Canelão") podem ser rastreados a partir do século XVIII na Universidade de Coimbra. Não por coincidência, estudantes da elite brasileira que, por lá, realizaram parte de seu processo educativo trouxeram a "novidade" para o território nacional.ZUIN, Antônio Álvaro Soares. O trote na universidade-Passagens de um rito de iniciação. São Paulo. Cortez. 2002. p.31. Em decorrência disso, surgiram desavenças entre veteranos e calouros que culminaram com a morte, em 1831, de um estudante da faculdade de Direito de Olinda, em Pernambuco – seria a primeira, mas, lamentavelmente, não a última vítima de um trote violento no Brasil.

Como rito de passagem Segundo Arnold Van Gennep, criador do conceito, os ritos de passagem podem ser classificados em três grupos principais:

Separação (funerais etc.) Agregação (casamento etc.) Margem (iniciação etc.)

Conforme indica, "as fronteiras entre tais ritos não são estanques, e sim dinâmicas; um comumente implica um outro".VAN GENNEP, A. Os ritos de passagem. Petrópolis. Vozes. 1978. p.31. Portanto, do ponto de vista da antropologia cultural, o trote se classifica como um "rito de passagem de margem", permitindo que, dele, sejam extraídas quatro conclusões preliminaresːVASCONCELOS, Paulo Denisar. A violência no escárnio do trote tradicional. Santa Maria. UFSM. 1993. p.14-15.

O trote é um cerimonial que está entranhado no seio da cultura acadêmica; O caráter iniciático do trote é confirmado por todos os seus participantes; O trote representa um ritual de violência e agressão contra o calouro; O trote é um rito de passagem às avessas, representando uma prática oposta aos valores humanistas da universidade.

Abuso É considerado abuso quando o trote ou praxe se torna um processo psicossocial de integração sadomasoquista caracterizado frequentemente por assédio ritualístico, abuso ou humilhação com a exigência da realização de tarefas sem sentido; algumas vezes, é visto como uma forma de iniciação num grupo social. O termo pode se referir tanto a práticas físicas quanto mentais e é amplamente disseminado por todo o mundo, sob os nomes de hazing (Estados Unidos), ragging ou fagging (Commonwealth), bizutage em francês, fala em polonês, dedovshchina em russo e ontgroening em holandês.

Com frequência, a maioria ou toda a provação (ou, pelo menos a parte mais séria), se concentra numa sessão orgiástica ou pode se prolongar por um período que varia de uma semana a vários meses, dependendo das tradições mantidas por uma determinada instituição quanto ao tratamento dos "calouros" ou "novatos".

Extensão O trote tem sido relatado numa variedade de contextos sociais, incluindo:

Fraternidades e irmandades académicas; Faculdades e Universidades em geral; Grupos de associados, como fã-clubes e bandas escolares; Sociedades secretas e mesmo alguns clubes de serviços; Equipes ou clubes de outros desportos competitivos (e mesmo em áreas "leves" ou não-competitivas, como artes plásticas); As forças armadas: nos Estados Unidos, práticas de trote utilizadas em campos de prisioneiros da I Guerra Mundial foram introduzidas nas faculdades. O mesmo ocorreu com o exército polonês, que incorporou práticas pré-I Guerra Mundial de exércitos estrangeiros, os abusos praticados contra recrutas são frequentes; Forças policiais (frequentemente com tradição paramilitar); Serviços de resgate, tais como salva-vidas (militares de carreira ou adestrados em estilo militar); Em locais de trabalho; Abuso de prisioneiros é também bastante comum em locais de detenção ao redor do mundo, incluindo relatos frequentes de espancamentos e estupros por parte de colegas de cela; Várias formas de "diplomar" um novato no seu "batismo de fogo" em algum esporte ou outra disciplina, como, por exemplo, o primeiro voo solo de um piloto.

É uma questão subjetiva onde colocar a linha entre o trote "normal" (algo abusivo) e um mero rito de passagem (que cria um vínculo; proponentes podem argumentar que eles são coincidentes), e há uma área cinzenta sobre onde exatamente o outro lado passa a ser completamente degradante, mesmo se abusos perigosos tenham não só sido tolerados como aceitos voluntariamente (acidentes sérios, mas evitáveis, ainda acontecem; mesmo abusos deliberados com graves consequências médicas ainda ocorrem com frequência em algumas tradições). Ademais, como este é um ritual de iniciação, um contexto social diferente pode significar que o tratamento aplicado a um grupo de pessoas pode ser distinto do de outro (por exemplo, a cerimônia de cruzamento da linha do Equador num navio é encarada como uma brincadeira pelos passageiros, mas é humilhante quando imposta aos marinheiros).

No Brasil Em 1980, Carlos Alberto de Souza, de 20 anos, calouro do curso de jornalismo da Universidade de Mogi das Cruzes (SP), morreu de traumatismo cranioencefálico resultante das agressões praticadas por estudantes veteranos.Revista Época, Séculos de violência no campus, reportagem de 10 de maio de 1999 Em 1990, George Mattos, de 23 anos, calouro do curso de direito da Fundação de Ensino Superior de Rio Verde, em Goiás, morreu de uma parada cardíaca quando tentava fugir de veteranos que iam lhe aplicar um trote.Marília News, Conferência em Marília discute o ‘trote’ como ato solidário (2009) Em 22 de fevereiro de 1999, o estudante Edison Tsung Chi Hsueh tornou-se conhecido quando foi vítima de um trote com consequências fatais. Esse calouro de família taiwanesa, aprovado na Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, faleceu nesta data, afogado em uma piscina. Em 10 de fevereiro de 2009, o calouro Bruno César Ferreira, de 21 anos, ia começar o curso de veterinária da Faculdade Anhanguera, em Leme, no interior de São Paulo. Além de ser obrigado a ingerir bebidas e ter entrado em coma alcoólico, o calouro também teve de rolar em uma lona com animais mortos e fezes em decomposição. "Eles esfregaram na gente. Fizeram a gente rolar numa lona com aquilo e ingerir pinga", conta ele. Em 2009, o aluno Vitor Vicente de Macedo Silva, 22 anos, do Departamento de Física da Universidade Federal Rural do Rio de Janeiro, morreu afogado numa piscina de saltos ornamentais (9 metros de profundidade). Segundo se suspeita, ele teria sido forçado a entrar na piscina mesmo sem saber nadar, isso porque Vítor tinha sido admitido no alojamento estudantil há pouco tempo. Em 2010, estudantes da Unicastelo, em Fernandópolis, foram obrigados a fumar, tirar as roupas íntimas, pedir dinheiro em semáforos e até beber álcool combustível. No mesmo período, na Escola Superior de Propaganda e Marketing, também em São Paulo, um estudante foi agredido, e teve ossos do nariz e do rosto quebrados. Em 2014, Luiz Fernando, aprovado na Faculdade de Medicina de São José do Rio Preto, foi brutalmente humilhado e agredido em um trote violento, durante uma festa de calourada. Ele, junto com outros novatos, foram agredidos fisicamente, molhados com cerveja e obrigados a ficarem completamente nus em público, os veteranos também urinaram nele. Luiz Fernando passou mal e foi ameaçado de morte por se recusar a participar de novos trotes, ele denunciou o ocorrido na polícia, o caso teve cobertura da mídia. Em 2022, um estudante da Universidade Federal de Ouro Preto, ficou em coma após ter sido obrigado a ingerir óleo, cachaça, molho de pimenta e molho shoyu e ter seu rosto atingido por pó de café. Além disso, havia suspeitas de que ele teria sofrido estupro após ser encontrado indícios de lubrificante em seu ânus. O então calouro na época havia se instalado na República Sinagoga e o trote era um dos ritos de entrada no local.

Em Portugal Em 2012 voltaram a surgir testemunhos acerca da violência física e psicológica associada à «praxe». O jornal O Público relata o que viu numa praxe no Instituto Politécnico de Beja em 2012: