Filipe II (Gonesse, – Mantes-la-Jolie, ), também chamado de Dádiva de Deus ou Filipe Augusto, foi o Rei da França de 1180 até sua morte. Era o filho de Luís VII e de sua terceira esposa Adélia de Champanhe.

Ele é um dos reis mais admirados e estudados da França medieval, não só pela extensão do seu reinado, como também pelas importantes vitórias militares, pelo aumento dos domínios directos da coroa, principalmente à custa dos reis da Inglaterra, e pelo fortalecimento da monarquia contra o poder dos senhores feudais.

O cognome Augusto, que lhe foi atribuído em vida, é uma referência directa ao título da antiguidade, apesar de haver outras interpretações que o possam justificar: pode referir-se ao mês do seu nascimento, ou ainda o verbo latino augere, que significa "aumentar". Com efeito, este cognome pode ter-lhe sido atribuído depois de, pelo tratado de Boves, em Julho de 1185, ter adicionado os senhorios de Artésia, Valois, Amiens e uma grande parte de Vermandois (actual comuna francesa de Saint-Quentin) aos domínios reais.Philippe Auguste, Jean Flori, Editions Taillandier/Historia (ISBN 2-235-02318-5)

Primeiros anos (1179-1189) Subida ao trono O nascimento de Filipe em 1165 foi visto como um milagre pela família real. Luís VII esperou mais de trinta anos por um herdeiro que só a terceira esposa, Adélia de Champagne, lhe daria. Por esse motivo, o infante seria cognominado Dieudonné (Dádiva de Deus).

left|thumb|250px|Sagração de Filipe Augusto, Grandes Chroniques de France, século XIV, Biblioteca Nacional de França

Foi associado ao trono aos catorze anos de idade, o último monarca francês a ser coroado durante a vida do predecessor pela tradição capetiana. A cerimónia de sagração foi inicialmente atrasada por ter sofrido um acidente de caça que lhe ameaçou a vida. O estado de saúde do príncipe foi suficientemente grave para que Luís VII se deslocasse a Inglaterra, apesar do seu próprio estado debilitado, para se recolher no túmulo de Thomas Becket, o arcebispo da Cantuária que auxiliara mas fora morto em 1170.

Filipe acabou por ser coroado a 1 de Novembro de 1179 na Catedral de Reims pelo seu tio, o arcebispo Guilherme das Mãos Brancas. Com a morte do seu pai a 18 de Setembro de 1180, tornou-se no único rei, aos quinze anos de idade.

Confrontado com o enfraquecimento do poder real, Filipe começou desde logo a lidar com esse problema. O seu casamento, celebrado em Bapaume, Pas-de-Calais, a 28 de Abril de 1180 com Isabel de Hainaut, trouxe-lhe o Artésia em dote. Em Junho do mesmo ano, três meses antes da morte do pai, assinou o tratado de Gisors com Henrique II da Inglaterra. Estes dois eventos reforçaram a posição do jovem rei face às casas de Flandres e de Champagne.

Nos domínios da coroa, uma das primeiras decisões de Filipe foi a expulsão dos judeus e a confiscação dos seus bens em Abril de 1182, uma decisão que contrariava a protecção que o seu pai acordara com a comunidade judaica. Os motivos oficiais designam os judeus como responsáveis por diversas calamidades, mas o objectivo real era sobretudo encher os cofres reais, mal providos no início deste reinado. Estas medidas foram populares mas não duraram: a interdição do território (desde o início difícil de fazer respeitar) cessou em 1198, e a atitude conciliadora de Luís VII voltou a ser a norma.

Conflitos com a nobreza thumb|right|250px|Filipe Augusto recebendo os mensageiros do papa Gregório VIII proclamando a Terceira Cruzada, Grandes Chroniques de France

Desde 1181, acerbou-se o conflito com os barões, liderados por Filipe da Alsácia, conde da Flandres. Filipe II conseguiu opor-se às ambições deste ao quebrar as suas alianças com Godofredo III de Lovaina, duque de Brabante e Filipe de Heinsberga, arcebispo de Colónia. Em Julho de 1185, o tratado de Boves confirmou a posse do rei das terras de Vermandois, Artésia e Amiens.

Os Plantagenetas foram a outra principal preocupação de Filipe. Os domínios do rei Henrique II da Inglaterra, conde de Anjou e, pelo seu casamento, influente na Aquitânia, compreendiam também a Normandia, a Vexin e a Bretanha.

Depois de dois anos de combates (1186-1188), a situação permanecia indecisa. Filipe tentou aproveitar-se das rivalidades entre os filhos do rei da Inglaterra, Ricardo Coração de Leão, de quem era amigo, e do mais jovem João Sem Terra. Uma paz de statu quo fora finalmente negociada, quando o papa Gregório VIII proclamou a Terceira Cruzada, após a tomada de Jerusalém por Saladino em 1187.

Em 1189 conseguiu que a Inglaterra renunciasse à soberania de Auvérnia pelo tratado de Azay-le-Rideau. Mas a morte de Henrique II em Julho do mesmo ano selou o destino. Agora havia urgência em partir para a Terra Santa.

Rivalidade com Ricardo Coração de Leão (1190-1199) Terceira cruzada

thumb|left|Filipe II Augusto retratado por Louis-Félix Amiel (Palácio de Versailles)

Filipe Augusto e Ricardo Coração de Leão partiram juntos para a Terceira Cruzada, que mobilizou também a maior parte dos grandes barões da França. Embarcaram no final do Verão de 1190, Filipe de Génova e Ricardo de Marselha. Mas foram surpreendidos por tempestades no mar Mediterrâneo e tiveram de aguardar vários meses em Messina, na Sicília.

Foi neste período que a rivalidade entre os dois reis se reafirmou quanto aos projectos de casamento de Ricardo, que rompeu o noivado com Adela, meia-irmã do francês, para se tornar noivo de Berengária de Navarra. Filipe Augusto saiu de Messina assim que pôde, a 30 de Março de 1191.

Chegou a São João de Acre a 20 de Abril de 1191 e participou do cerco da cidade, controlada pelos muçulmanos. Ricardo só chegou em Junho, após um desvio para a conquista de Chipre: os reforços ingleses foram úteis, mas os desentendimentos reiniciaram imediatamente entre os dois reis.

Para agravar a situação, adoeceram ambos com uma febre, da qual resultou alopécia e perda de unhas, e Filipe perdeu também uma vista. No entanto as operações militares continuaram: os franceses penetraram pela primeira vez os muros de Acre a 3 de Julho, mas sem mais sucesso; depois foram os ingleses que falharam. Mas, enfraquecidos, os sitiados acabariam por capitular a 12 de Julho.

A cruzada mal tinha começado quando Filipe decidiu voltar à França. A morte a 1 de Junho do conde da Flandres, durante o cerco a Acre, terá sido um factor importante, fazendo renascer o sensível assunto da sucessão flamenga. No percurso de volta, Filipe passou por Roma, onde o papa Celestino III o autorizou a abandonar a cruzada. O rei voltou a Paris a 27 de Dezembro de 1191.

thumb|250px|right|Filipe Augusto e Ricardo Coração de Leão em conflito, Les Chroniques de France ou de St-Denis, século XIV

Sucessão flamenga A morte de Filipe da Alsácia, sem descendência, foi a primeira preocupação de Filipe ao voltar da cruzada. Três pretendentes suscitavam a instabilidade da região: Balduíno V de Hainaut, conde de Hainaut, Leonor de Vermandois, condessa de Beaumont, e o próprio Filipe Augusto.

Balduíno acabou por ser designado herdeiro do condado da Flandres após o pagamento de 5 000 marcos de prata. O rei francês também confirmou a Leonor, por uma carta de 1192, os domínios de Valois e Vermandois, que deveriam voltar para a coroa depois da sua morte. Por fim, a França obteve Péronne e Artésia, em nome do seu filho Luís, como herança da rainha Isabel de Hainaut, morta em 1190. Assim os domínios reais a norte foram consideravelmente aumentados.

Casamento com Ingeborg da Dinamarca Após a morte da rainha, o rei da França sabia que devia voltar a casar-se o mais rapidamente possível, uma vez que a sucessão dinástica ainda não estava assegurada: só tinha um filho com quatro anos, que acabara de sobreviver a uma grave doença. A escolha de Ingeborg da Dinamarca continua um mistério. Irmã do rei Canuto VI da Dinamarca, com dezoito anos de idade, era apenas uma de muitas possíveis esposas para o francês.

thumb|left|200px|Página do saltério de Ingeborg da Dinamarca, rainha de França

Com o dote acordado em 10 000 marcos de prata, Filipe foi encontrar a princesa em Amiens a 14 de Agosto de 1193, no dia do seu casamento. No dia seguinte abreviou a cerimónia de coroação da rainha e enviou-a para o mosteiro de Saint-Maur-des-Fossés, anunciando que pretendia anular o matrimónio.

Os motivos desta separação precipitada, seguida de sete anos de cativeiro para Ingeborg e da recusa absoluta de Filipe reconhecê-la como rainha, são desconhecidos e deram lugar a todo o tipo de especulações, tanto por parte dos seus contemporâneos como dos historiadores. Para defender a anulação, o rei quis alegar uma ligação de parentesco proibida pela Igreja. Seja como for, uma assembleia de bispos e de barões deu razão ao rei, que se casou rapidamente com Inês de Merânia, jovem nobre da Baviera, em Junho de 1196.

No entanto, o novo papa Inocêncio III, eleito em 1198, não concordou. Procurando afirmar a sua autoridade, ordenou que Filipe se separasse de Inês e respeitasse o casamento com Ingeborg. Como não obtivesse uma reacção do rei, pronunciou um interdicto (o equivalente à excomunhão para um território) sobre o Reino da França a 13 de Janeiro de 1200. Filipe ainda assim arrastou o caso por alguns meses, mantendo Ingeborg presa na torre de Guinette em Étampes, até acabar por organizar uma cerimónia de reconciliação, pelo que o interdicto foi levantado em Setembro. No entanto não voltou a juntar-se com a antiga esposa e continuou o processo de anulação do casamento, vivendo entretanto em bigamia.

Em Março de 1201, o Concílio de Soissons concluiu não dar razão a Filipe, que acabou por encerrar o debate e renunciar à dissolução do matrimónio. Por fim, depois de ter dado à luz uma filha, Maria de França, em 1198, Inês de Merânia morreu em Julho em Poissy, ao dar um segundo herdeiro varão ao rei, Filipe Hurepel, reconhecido como tal pelo papa em Novembro. A crise foi encerrada de momento e a sucessão dinástica assegurada.

Filipe Augusto retomou o procedimento de anulação do casamento em 1205, desta vez por motivo de não consumação, pretendendo inclusivamente forçar o resultado casando-se novamente. Ao constatar que estes projectos tinham caído num impasse, acabou definitivamente com as negociações de anulação em 1212 e, tal como em 1201, devolveu resignado a infeliz Ingeborg ao seu papel de esposa e rainha.

Lutas contra Ricardo Coração de Leão thumb|250px|right|Ricardo Coração de Leão aprisionado por Henrique VI da Germânia, manuscrito de Peter von Eboli, 1195

Ricardo Coração de Leão continuou a Terceira Cruzada mesmo depois da partida de Filipe: tomou os principais portos palestinianos até Jafa e restabeleceu o Reino Latino de Jerusalém, com a capital em São João de Acre uma vez que a cidade de Jerusalém continuava em poder dos muçulmanos. Mas acabou por negociar uma trégua de cinco anos com Saladino e embarcou para a Europa em Outubro de 1192.

Novamente surpreendido por tempestades, naufragou em Corfu, sendo capturado por Leopoldo V, duque da Estíria e da Áustria, que o enviou para o seu inimigo, Henrique VI da Germânia do Sacro Império Romano-Germânico. Para a sua libertação, o imperador exigiu um resgate de marcos de prata, e mais marcos para ajudar a conquistar o reino da Sicília.

Filipe aproveitou a situação para negociar com João Sem Terra, o irmão mais novo de Ricardo, pouco interessado no regresso do rei da Inglaterra e que, pretendendo obter a coroa inglesa com o suporte do rei francês, prestou-lhe homenagem em 1193. Depois, quando Filipe Augusto atacou os territórios dos Plantagenetas, João cedeu-lhe o leste da Normandia (com a excepção de Ruão), Le Vaudreuil, Verneuil e Évreux, por um acordo escrito de Janeiro de 1194. Pelo seu aprumo diplomático e militar, Filipe tinha grande respeito pelos seus rivais.