thumb|O macaco Pockets Warhol executando uma pintura Arte animal é um trabalho de características plásticas ou, mais raramente, sonoras, criado por um animal, como macacos, elefantes, ratos, golfinhos, pássaros e outros, e qualificado como arte por seres humanos. Nas décadas recentes trabalhos criados por animais vêm se multiplicando e dando origem a um mercado internacional, mas seu reconhecimento como "arte" é limitado e muito controverso. O fenômeno tem implicações legais, éticas e morais ainda não bem equacionadas, dando margem à exploração e à prática de abusos contra os animais.
História Desde a Antiguidade uma série de pensadores admitiu que a criatividade dos animais antecedia a humana e que eles poderiam possuir um senso de beleza e forma e uma predisposição para a arte. Demócrito chegou a dizer que a humanidade aprendeu habilidades imitando o exemplo de animais, como o canto das aves e a tecelagem das aranhas, e Darwin é creditado como o fundador da estética evolutiva, postulando que os animais têm um senso de beleza e associando-o ao sucesso na competição sexual,Welsch, Wolfgang. "Animal Aesthetics". In: Contemporary Aesthetics (Journal Archive), 2014; 2 (15) mas a manipulação de materiais artísticos convencionais por animais, sempre assistidos por seres humanos, é um fenômeno recente no Ocidente. Na década de 1920 Nadia Kohts investigou a percepção de cores e formas entre os chimpanzés, notando o entusiasmo com que eles desenhavam com lápis e papel. Na década de 1940 Paul Schiller fez experiências com chimpanzés onde eles era induzidos a completar padronagens impressas em papel, e observou que os resultados mostravam simetria e uma habilidade de controle da composição. Foram os estudos de Desmond Morris com Congo, um chimpanzé pintor, que de fato inauguraram o debate. thumb|esquerda|Pintura do chimpanzé Congo thumb|esquerda|Pintura de Congo
Após a publicação do livro The Biology of Art (A biologia da arte, 1962), que sintetizou suas experiências, o tema recebeu larga divulgação e Congo se tornou uma celebridade, produzindo cerca de 400 obras. De acordo com Morris, os trabalhos exibiam um consistente padrão de linhas, simetria e seleção de cores, e concluiu dizendo que tanto como os seres humanos, os macacos também têm uma necessidade de se expressarem esteticamente. Ele alegou ainda que os grandes macacos poderiam, desde que treinados, criar obras que atenderiam importantes critérios da arte convencional, como o desfrute da atividade, senso de equilíbrio compositivo, controle técnico, variação caligráfica, variação temática e heterogeneidade interna ótima.
Na natureza nenhum tipo de macaco foi documentado com um comportamento artístico.Hansell, Mike. "Built by Animals: The natural history of animal architecture". Oxford University Press, 2007, s/pp. Congo foi um caso extraordinário em todos os sentidos e sua excepcionalidade não teve paralelos em nenhum outro caso de animal pintor. Não recebia recompensas pela produção, mantinha um elevado grau de interesse pela atividade, ganhou notável segurança e desenvoltura técnica, manifestava claramente quando a obra estava terminada e recusava-se a continuar mesmo quando estimulado, manifestava grande desaprovação quando o trabalho era retirado antes de pronto, emitindo gritos e gestualizando agressivamente, e sua produção revela uma certa evolução estilística ao longo do tempo.
Na mesma época, Julian Huxley enviou uma comunicação para a revista Nature, onde descreveu a atividade de um gorila no zoológico de Londres que havia traçado no chão o contorno de sua própria sombra por pelo menos três vezes. Na ocasião Huxley especulou que isso poderia dar pistas para a origem da arte humana.Luty, Jerzy. "Do Animals Make Art or the Evolutionary Continuity of Species: A Case for Uniqueness". In: Vaughan, Connell & Vidmar, Iris (eds.). Proceedings of the European Society for Aesthetics, vol. 10, 2018, pp. 381-399 Paralelamente, alguns artistas passaram a incorporar animais em performances, alegando que a participação animal aumentava a qualidade da apresentação, trazendo para o debate o conceito de arte como uma interação social que não necessariamente depende de uma criatividade especial e sim da simples relação entre dois ou mais agentes. Essa abertura contribuiu para um questionamento de alguns dos requisitos tradicionais para a criação artística. Na década de 1970 o ambientalista Jim Nollman fez músicas com a participação de perus e baleias. Na década de 1980 muitos zoológicos e instituições conservacionistas em dificuldades financeiras se engajaram em campanhas de transformação de seus animais em artistas para angariar fundos com a publicidade. thumb|Desenho produzido pelo cão Tillamook Cheddar
Desde então o número de animais artistas aumentou consideravelmente. A despeito da muito fraca evidência científica disponível para sua sustentação conceitual e da ausência de um contexto histórico e cultural, a partir do século XXI a legitimação da arte feita por animais cresceu, e embora permaneça controversa, diversos estudos vêm reivindicando a formulação de uma estética não antropocêntrica, abrindo novas áreas para pesquisa, estreitando os laços entre a estética e a ciência e levantando novas questões sobre as funções da arte e sobre a experiência artística. Autores como Winfried Menninghaus e Wolfgang Welsch deram importantes contribuições para a estética evolutiva, ampliando muito os fundamentos deixados por Darwin. Algumas exposições desses trabalhos em museus e galerias respeitados de vários países igualmente desafiam concepções há muito arraigadas, advogando que pelo menos algumas espécies de animais possuem algum atributo interno passível de ser expresso como arte, e seriam dotadas de uma perspectiva particular do mundo que deveria ser levada em conta.
É um exemplo a exposição organizada em 2012 pelo Grant Museum of Zoology de Londres, com trabalhos de diversos animais de zoológicos dos Estados Unidos e Tailândia. A proposta foi incentivar os visitantes a fazerem a pergunta: "A arte animal é arte? Em outras palavras, os animais podem ser criativos?" Para Jack Ashby, administrador do museu, "se isso é realmente arte é a grande questão. Enquanto elefantes são treinados para pintar sempre a mesma coisa, a arte produzida por macacos é muito mais criativa e quase indistinguível da arte abstrata de humanos que usam técnicas semelhantes. A arte dos macacos é frequentemente comparada à de crianças de dois ou três anos". O curador Mike Tuck disse que "embora seja bastante claro que qualquer noção de arte por animais é uma noção essencialmente antropomórfica, ela começa a levantar questões muito interessantes sobre a natureza da arte humana"."Animal artists given own exhibition". Belfast Telegraph, 26/12/2012 Porém, Stefan St-Laurent, curador de outra exposição, ocorrida em Ottawa em 2009, disse que "para mim é a mesma velha história. Acabamos de encontrar uma nova maneira de explorar os animais disfarçando como uma causa nobre", e acrescentou que o mercado internacional de arte animal girava na década de 2000 em torno dos cem milhões de dólares. Algumas peças chegaram a ser vendidas por cerca de 20 mil dólares cada.
Com as comemorações do 200º aniversário de nascimento de Charles Darwin em 2009 e o 150º aniversário da publicação da sua obra A Origem das Espécies, as exposições e publicações sobre arte animal começaram a se multiplicar rapidamente.Ullrich, Jessica. "Animal Artistic Agency in Performative Interspecies Art in the Twenty-First Century". In: Boletín de Arte-UMA, 2019; (40): 69-83 Hoje obras de animais alimentam um mercado internacional em expansão.
Conceituação
A produção de arte há muitos séculos é considerada um atributo exclusivamente humano, pois alegadamente apenas humanos teriam as capacidades cognitivas e habilidades motoras necessárias para criar um trabalho legitimamente artístico. A arte tem sido vista, entre outras coisas, como uma expressão de criatividade, crenças e ideologias, beleza, inteligência, individualidade, conhecimento, habilidade técnica, imaginação, pensamento abstrato e/ou simbólico, e mesmo de qualidades espirituais, e seu produto como veículo de significados estéticos, políticos, religiosos, sociais ou culturais, criado deliberadamente com o propósito de desfrute, estudo, questionamento, inspiração ou educação.Avital, Tsion. The Confusion between Art and Design: Brain-tools versus Body-tools. Vernon Press, 2020, pp. 196-203 Tradicionalmente a estética coloca os animais na natureza e não na cultura, e ao longo da história da arte esta atividade vem sendo consistentemente vista como uma evidência da excepcionalidade da espécie humana.
Muitos animais exibem inteligência e alguma forma de criatividade, e alguns são capazes de construir estruturas às vezes extremamente elaboradas e decoradas, mas não são reconhecidos como portadores de muitas das capacidades necessárias para a criação artística como ela é tradicionalmente entendida, com uma intenção definida, uma função conscientemente estética e reflexiva, um amparo teórico e uma inserção em um contexto histórico e cultural. Os trabalhos não são produzidos deliberadamente pelos animais e são os humanos que os qualificam como arte. A posse de senso estético foi postulada para alguns animais, como aves canoras e elefantes, mas as pesquisas são poucas e não há nenhum resultado seguro. A consciência animal permanece sendo intensamente estudada mas não há um consenso sobre sua existência para além de níveis básicos como percepção do e resposta ao ambiente, e sobre sua autoconsciência as evidências disponíveis até agora são extremamente pobres e controversas, limitadas a umas poucas espécies candidatas. Ademais, o próprio conceito de consciência é muito disputado, complicando as análises, e são grandes as dificuldades de testá-la objetivamente em animais.Millsm Eugene O. "Giving up on the hard problem of consciousness". In: Shear, Jonathan (ed.). Explaining Consciousness: The Hard Problem. MIT Press, 1999, p. 109Allen, Colin & Trestman, Michael. "Animal Consciousness". In: The Stanford Encyclopedia of Philosophy. Stanford University, 2016Burghardt, Gordon M. "Animal Awareness: Current Perceptions and Historical Perspective". In: American Psychologist, 1985; 40 (8): 905–919Hyatt, C. W. "Responses of gibbons (Hylobates lar) to their mirror images". In: Am J Primatol, 1998; 45 (3): 307–311Asendorpf, J. B.; Warkentin, V.; Baudonniere, P.-M. "Self-Awareness and Other Awareness II: Mirror Self-Recognition, Social Contingency Awareness, and Synchronic Imitation". In: Developmental Psychology, 1996; 32 (2): 313–321