Salvatore Sartori, conhecido no Brasil como Salvador Sartori (Vicenza, 20 de outubro de 1827 — Caxias do Sul, 8 de julho de 1899) foi um político e comerciante italiano naturalizado brasileiro.

Depois de uma bem-sucedida carreira como empreiteiro de estradas na Itália, acabou tendo dificuldades e decidiu emigrar para o Brasil. Foi um dos fundadores de Caxias do Sul, fez fortuna no comércio, foi líder católico e se tornou político influente. Um dos fundadores do diretório do Partido Republicano Riograndense, foi indicado pelo governo do estado para integrar a primeira Junta Governativa por ocasião da emancipação do município, e depois foi eleito para o primeiro Conselho Municipal, participando da elaboração de leis fundamentais para a organização da comunidade. Ganhou projeção na sociedade local e deu origem a uma prolífica descendência, com vários membros notórios.

Família e passado na Itália

Salvador Sartori nasceu em Vicenza, filho de Angelo Sartori e Giacomina Bianchin Toffolon. Os Sartori de Vicenza eram uma família de antiga nobreza,Frigo, Rita. Il Passaggio da una Regione a Statuto Ordinario ad una Regione a Stastuto Speciale. Gli art. 5 d 132 della Costituizione: Il caso dell’Altopiano di Asiago. Tesi di Laurea. Universitá degli Studi di Verona, 2013Bonato, Modesto. Storia dei Sette Comuni e Contrade Annesse dalla loro Origine alla Caduta della Veneta Repubblica. Tip. del Seminario, 1857Peck, Fanny Morton. "A Roman Consul of the Nineteenth Century". In: Historical Records and Studies, 1919 (13) mas perderam o estatuto no século XVII, aparentemente por se dedicarem ao comércio, que havia passado a ser considerado ofício degradante,Frantz, Ricardo André. Crônica das famílias Paternoster e Frantz de Caxias do Sul e sua parentela: estórias, história e genealogia, Volume IV - O passado na Europa. Academia.edu, 2025, pp. 224-297 mas que era sua principal fonte de renda.Occhi, Katia. “Affari di famiglie: rapporti mercantili lungo il confine veneto-tirolese (secoli XVI-XVII)”. In: Mélanges de l'École française de Rome - Italie et Méditerranée modernes et contemporaines, 2013; 125 (1)Occhi, Katia. Boschi e mercanti: traffici di legname tra la contea di Tirolo e la Repubblica di Venezia (secoli XVI-XVII). Il Mulino, 2006

Pouco se sabe sobre a vida de Salvador Sartori antes de ele chegar ao Brasil, e mesmo ali sua história é pobremente documentada. A imprensa mal esboçava um nascimento na cidade, e a documentação do Conselho Municipal, do qual fez parte, justamente aquela referente ao período em que atuou, foi em sua maioria perdida num incêndio.Frantz, Ricardo André Longhi. Crônica das famílias Paternoster e Frantz de Caxias do Sul e sua parentela: estórias, história e genealogia, Volume I. Academia.edu, 2025, pp. 35-94

Sua família deixou Vicenza quando Sartori ainda era pequeno, possivelmente em virtude da agitação política, social e militar daquela época. A partir da invasão napoleônica em 1797 a comuna passou um longo período aflita pela guerra, revoltas populares e governos tirânicos.Preto, Paolo. Storia di Vicenza, III/2 — L'Età della Repubblica Veneta. Pozza, 1989 Em torno de 1832 a família já estava estabelecida no antigo distrito de Nogarè, na comuna de Cornuda, província de Treviso.

Sartori casou em 1854 com Angela Zancaner, que lhe daria onze filhos: Ludovico, Lino, Amalia, Carolina, Maria, Luigi, Alberto, Massimo, Guerino, Settimo e Attilio. Attilio já nasceu no Brasil. Segundo lembranças preservadas por seu bisneto Ludovico Beretta Sartori, ele era sócio em uma empreiteira especializada em construção de estradas, mas por alguma razão seu companheiro no negócio entrou em conflito com as autoridades de Cornuda, prejudicando os seus interesses. Diante de uma situação adversa, e seduzido por uma propaganda enganosa dos agentes da colonização italiana no Brasil, que lhe prometeram grandes facilidades no Novo Mundo, vendeu todos os seus bens e investimentos e decidiu buscar vida nova na América.

A vida no Brasil

thumb|Angela Zancaner, esposa de Sartori.

Chegou a Caxias do Sul em 20 de fevereiro de 1879, na grande onda imigratória do fim do século XIX, participando dos trabalhos de fundação da cidade. Ao chegar não havia mais lotes disponíveis na sede urbana, então fixou-se primeiramente no Travessão Umberto I da Sexta Légua, junto com outros familiares. Porém, com os recursos que trouxe, em poucos anos montou um grande comércio na praça Dante Alighieri, o centro do nascente povoado, onde passou a residir.Gardelin, Mário & Balen, João Maria. “Primeiras Famílias Chegadas a Caxias do Sul”. Folha de Caxias, 10/06/1989Costamilan, Ângelo Ricardo. Homens e Mitos na História de Caxias. Posenato Arte & Cultura, 1989, pp. 97-132 Com efeito, em 1883 já é citado como dono de um "negócio" e uma padaria.Diretoria de Terras da Colônia Caxias. Sede da Colônia Caxias: numeração das quadras e lotes, jun/1883

Na época de fundação, em que tudo era improvisado, os comerciantes, antes chamados "negociantes", desempenhavam atividades mais variadas do que simplesmente comprar e vender, incluindo operações de transporte, poupança e crédito, funcionando como casas bancárias embrionárias, além de muitas vezes manterem manufaturas e indústrias associadas, e mesmo podiam em seus estabelecimentos ter quartos para hóspedes e instalar bodegas e restaurantes.Giron, Loraine Slomp & Bergamaschi, Heloísa Eberle. Casas de Negócio: 125 anos de imigração italiana e o comércio regional. EDUCS, 2001 A partir de 1892 foi listado nos Livros de Registro de Imposto sobre Indústrias e Profissões como dono também de uma bodega e um açougue, e pouco depois aparece possuindo um curtume.Município de Caxias. Livro de Registro de Imposto sobre Indústrias e Profissões, 1892-1899 Há ainda notícia de que fabricava sapatos, manteve uma tropa de mulas para fazer o transporte de mercadorias para si e para outros entre Caxias e o entreposto comercial de São Sebastião do Caí - de onde elas seguiam por barco até a capital Porto Alegre -, e ao que parece foi produtor de vinho. O relato de sua neta Graciema Paternoster publicado no jornal Pioneiro dá uma ideia do perfil deste negócio no início do século XX, quando ele já havia sido herdado pelos filhos de Sartori: “A casa dos meus tios Sartori era tudo. Porque lá era café, tinha um salão de café com o bilhar, salão para jogar cartas, bebida, tinha fazendas, com toda a qualidade de fazenda. Depois tinha uma vitrine muito grande, parece de ver agora, uma vitrine que se empurrava para cá e para lá, cheia de lenços de seda que usava de botar na cabeça, aqueles colares...“Pieruccini, Graciema Paternoster & Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami (AHM). “Memória: De cor”. Pioneiro, 11/05/1985

Segundo Costamilan, “forjado no crisol da luta diária, bem cedo viu seu nome acatado no seio da comunidade”, tornando-se um líder na religiãoGiron, Loraine Slomp. “Maçonaria: uma nova ordem”. In: História Daqui, 28/03/2012 [A historiadora cometeu um lapso, pois quando referiu-se a Sartori como "líder católico" citou “Nicolau Sartori” como membro da Junta Governativa, mas era Salvador quem fazia parte dela] e na política.[Nota sem título]. A Federação, 11/07/1899 Foi cofundador da primeira Capela de São Pelegrino, que nos anos 1940 deu lugar a uma monumental igreja, membro da comissão de obras da primeira Matriz, um dos fundadores e primeiros dirigentes do diretório do Partido Republicano Riograndense,“Caxias”. A Federação, 09/06/1890 e após a antiga Colônia Caxias ser emancipada à condição de município autônomo, em 28 de junho de 1890 foi indicado pelo Governo do Estado como integrante da Junta Governativa, assumindo em 2 de julho junto com Angelo Chittolina e Ernesto Marsiaj.

thumb|600px|centro|Comitiva oficial chegando de Porto Alegre, a capital do estado, para a instalação da Junta Governativa de Caxias do Sul em 1890. Arquivo Histórico Municipal João Spadari Adami.

Algumas transcrições feitas por AdamiAdami, João Spadari. História de Caxias do Sul 1864-1970. Tomo I. 2ª edição. Caxias do Sul, 1971 de documentação posteriormente perdida permitem-nos conhecer pelo lado de dentro um pouco da participação de Sartori na administração pública naqueles tempos em que tudo estava por fazer, mostrando os governantes interessados em uma variedade de assuntos. A título de exemplo segue um dos primeiros ofícios emitidos pela Junta, de nº 8: Cidadão.

Na presente época todos os impostos anuais facilmente cobráveis já o foram pela Intendência Municipal de São Sebastião do Caí, em todo este novo município; entretanto, carece esta Intendência de pronta importância precisa para reparo do Paço Municipal e atender a consertos urgentíssimos que reclamam diversas ruas e a Estrada Geral, quase intransitáveis. Podia recorrer ao crédito ou à cobrança dos impostos e multas devidos, mas repugna-lhe iniciar as suas funções vexando os seus comunícipes, embora o faça no cumprimento de um dever. Assim resolve pedir-vos aprovação para a resolução que toma de relevar daquela multa a todos que dentro de 30 dias, contados de hoje, satisfizerem voluntariamente seus débitos. E como este prazo não possa ser aproveitado pelos moradores dos confins do município, a mesma Intendência deseja ter a faculdade de prorrogá-lo até mais 30 dias, e vo-la pede.

Saúde e Fraternidade.

Intendência Municipal de Caxias, 3 de julho de 1890.

Ao cidadão general-de-divisão Cândido Costa, d.[igníssimo] Governador do Estado.

[Assinam] Ernesto Marsiaj, Angelo Chittolina, Salvador Sartori.

thumb|300px|Primeira página da ata de instalação do Conselho Municipal de Caxias do Sul em 26 de setembro de 1892. Arquivo da Cãmara Municipal. O nome de Sartori está em realce. O texto da página diz: Acta de installação do Conselho Municipal de Caxias. Presidencia provisória do conselheiro Ernesto Marsiay. Aos vinte e seis dias do mes de Setembro de mil oitocentos e noventa e dois, na sala do edifício onde funciona a Intendência municipal presentes, as seis horas da tarde, os cidadãos Ernesto Marsiay, Hugo Ronca, Benjamin Cortes Rodrigues, Angelo Chittolina, Salvador Sartori e Romano Lunardi, conselheiros eleitos para decretarem a Lei organica do município, estando ausente por motivo de moléstia, o conselheiro Agapito Conz, pelo cidadão Ernesto Marsiay, anteriormente escolhido presidente provisorio, foram os outros conselheiros convidados a tomarem assento. Depois das formalidades prescriptas no Regimento provisorio, apresentado pelo Intendente, cada um dos presentes prestou o compromisso de desempenhar com toda lealdade e dedicação o mandato que lhes fôra confiado pelos seus comunicipes, e o Conselho foi dado por instalado. [...]. thumb|300px|Assinatura de Sartori no manuscrito do Código de Posturas, 12 de outubro de 1892.