Fuga do Mundo Bizarro (no original ) é um arco de história publicado entre agosto e outubro de 2007 pela DC Comics, uma empresa ligada ao grupo Time-Warner. Escrita por Geoff Johns e Richard Donner e desenhada por Eric Powell, a história foi publicada nas edições 855, 856 e 857 da revista Action Comics. A trama, a segunda colaboração entre os autores, sucedendo a O Último Filho, retrata Superman indo até o "Mundo Bizarro" — um planetoide quadrado habitado pelo incompreendido Bizarro e diversas versões deformadas de pessoas do planeta Terra — para resgatar seu pai, Jonathan Kent.

Embora tenha sido recebida com menos entusiasmo que a história anterior, Fuga do Mundo Bizarro foi avaliada de forma positiva, muito em parte por causa da arte de Powell, que conseguiu incorporar as diversas influências da "Era de Prata" presentes na história — de forma até mais bem-sucedida que os roteiristas, segundo a visão de parte da crítica — e as três edições que compõem a história venderam, somadas, cerca de 160 mil exemplares.

A história faz parte de uma série que Johns produziria entre 2006 e 2009 na qual, ao mesmo tempo que dava continuidade à história de Superman, caracterizando-o como alguém que já atuava como super-herói há mais de uma década, incluía referências inéditas aos primeiros anos de sua vida e também reincorporava ao cânone elementos da mitologia do personagem que haviam sido eliminados por outros escritores anteriormente. O escritor Kurt Busiek foi um dos colaboradores de Johns, mas as histórias produzidas no período foram prejudicadas pelo atraso na publicação da conclusão de O Último Filho, levando a questionamentos sobre a ordem cronológica dos diferentes eventos narrados pelos autores. A história se situa após a maior parte das histórias de Busiek, notadamente aquelas publicadas na revista Superman, incluindo O Terceiro Kryptoniano, publicada no mesmo ano; e também após O Último Filho, concluída em 2008, mas antes das histórias 3-2-1 Action, de Busiek, e Superman e a Legião de Super-Heróis, de Johns, publicadas entre 2007 e 2008.

Antecedentes e contexto

As primeiras histórias de Superman e Bizarro Superman surgiu na década de 1930, mas foi a partir da metade final da década de 1950 que muitos dos elementos mais fantásticos comumente associados ao personagem foram introduzidos em sua mitologia. Naquela época, o editor responsável pelas histórias era Mort Weisinger, e ele tinha como hábito conversar com as crianças que liam as revistas do personagem para perguntá-las o que gostariam de ver nas próximas edições — é desse relacionamento que teriam surgido personagens como a Supergirl e Krypto, o Super-Cão e locais como a cidade engarrafada de Kandor e a Fortaleza da Solidão. Embora populares dentre as crianças, muitos desses conceitos eram vistos como excessivamente infantis por alguns dos leitores mais velhos.DANIELS, p. 99-108 O surgimento de Superman, com a publicação de Action Comics #1, marca o início da "Era de Ouro" das histórias em quadrinhos americanas.

A "Era de Ouro" compreende o material produzido entre o final da década de 1930 e o final da década seguinte, aproximadamente. O término é motivo de debate, mas considera-se geralmente como marco inicial da "Era de Prata" a publicação da revista Showcase Comics #4, lançada pela DC em 1956. Naquela edição apresentou-se uma nova versão, modernizada, do personagem The Flash — o primeiro de muitos personagens a serem repaginados pela editora nos anos seguintes sob o comando do editor Julius Schwartz. É comumente aceito que a Era de Prata foi sucedida pela Era de Bronze. O marco de transição entre um período e o outro, entretanto, não é claro, e existem diversas possibilidades tanto para o término de uma quanto para o início da outra. O pesquisador Arnold T. Blumberg acredita que a transição entre os dois períodos foi gradual, se estendendo desde o final da década de 1960 até 1973, quando foi publicada pela Marvel Comics a história The Night Gwen Stacy Died — o ápice de um ideal que vários profissionais vinham defendendo naquele período de transição: abordar temas mais maduros, ainda que estes estivessem sendo "filtrados" pela "lente simplista dos super-heróis". Uma das diversas possibilidades para o término é a aposentadoria de Mort Weisinger, editor responsável pelas revistas de Superman durante o período. Sua saída, sendo posteriormente substituído por Julius Schwartz, seria um ponto de transição para a "Era de Bronze".

thumb|left|180px|O escritor Martin Pasko removeu o apelo cômico de Bizarro na "Era de Bronze" e o estabeleceu como um monstro violento e irracional. Dentro desse contexto, Bizarro surge dentro da continuidade "pré-Crise" da DC Comics, qual seja, entre 1938 e 1986, mais especificamente durante o período histórico entendido como "Era de Prata". Dentro do universo ficcional, Bizarro fora uma criação de Lex Luthor, que tentava usar um "raio duplicador" para produzir uma cópia de Superman. O resultado fora uma criatura que apresentava características "invertidas" em comparação com o herói, possuindo "visão congelante" ao invés de "visão de calor", como o Superman. Seu uniforme tinha um "S" invertido e ele usava uma placa com os dizeres "Bizarro #1", para se diferenciar dos demais "Bizarros" que habitavam o Mundo Bizarro, planeta onde ele passou a morar com sua esposa, "Lois Lane Bizarro" e que foi povoado por clones dos dois.

Se no período em que Weisinger esteve à frente das revistas Bizarro se tornara um dos elementos mais comumente presentes nas história, o oposto se daria na década de 1970, quando o editor Julius Schwartz e sua equipe tentariam abordar histórias de maior dramaticidade. A única aparição do personagem nesse período fora numa história escrita por Martin Pasko para as edições 305 e 306 da revista Superman, onde o personagem perdeu todo o apelo cômico/infantil, sendo caracterizado como um monstro feroz e irracional."Introduction", por Jon Bogdanove, em Superman: Bizarro's World, 1994

Seguido a uma expressiva queda nas vendas durante a década de 1970 e a primeira metade da década de 1980, o editor Andrew Helfer recebeu da DC Comics a incumbência de escolher os escritores que trabalhariam nas revistas de Superman após a conclusão do evento Crise nas Infinitas Terras. Para as revistas de Superman, o crossover representaria o término de toda a continuidade estabelecida desde 1938. (trechos arquivados no site "Superman Through the Ages!") Essa reformulação, promovida a partir de 1986, realizou profundas modificações em toda a mitologia do personagem a partir de 1986. O vilão Lex Luthor, por exemplo, deixou de ser caracterizado como um "cientista louco" e passou a ser apresentado nas histórias como um empresário corrupto dono de diversas empresas na cidade de Metrópolis.EURY, p. 185 No processo, uma nova origem e caracterização para o Superman foi elaborada a partir da minissérie The Man of Steel e das histórias publicadas entre 1986 e 1988.

Revisionismo "pós-Crise" (após 1986) thumb|A primeira aparição de Bizarro na continuidade estabelecida após 1986 se deu em The Man of Steel #5. Na continuidade "pós-Crise", Bizarro surge em The Man of Steel #5 (1986), onde Superman é inadvertidamente escaneado por uma equipe médica da LexCorp quando confronta Lex Luthor sobre seus esquemas corruptos. O Dr. Teng usa uma máquina de clonagem para tentar duplicar Superman, mas em virtude do seu DNA alienígena, a máquina não consegue copiá-lo completamente: a criatura que surge assemelha-se a Superman num primeiro momento, mas ao entrar em contato com o ar sua pele se cristaliza. Frustrado, Luthor ordena que a criatura seja descartada, mas ela ressurge, pensando ser o verdadeiro Superman, e consegue impedir que a irmã cega de Lois Lane, Lucy, cometa suicídio. As pessoas fogem amedrontadas ao avistarem Bizarro, e seus atos em Metrópolis o levar a lutar contra Superman. A batalha entre os dois termina com a criatura se desfazendo, e virando uma poeira que, ao entrar em contato com Lucy Lane, lhe devolve a visão.BYRNE, John. GIORDANO, Dick. The Man of Steel #5. Publicado originalmente pela DC Comics nos Estados Unidos em agosto de 1986.

Uma segunda versão do personagem é apresentada durante as histórias da década de 1990, quando Lex Luthor II — identidade adotada pelo próprio Luthor, que num corpo clonado e rejuvenescido, se passava por seu próprio filho — descobre que seu corpo está passando por um processo de degeneração, e tenta utilizar o mesmo processo de clonagem de Superman para conseguir uma cura para si. Ao final da história, a criatura é igualmente destruída, mas durante as edições em que ela apareceu, a equipe então responsável pelas histórias buscou retratá-la de forma que conciliasse todas as versões do personagem, mas se mantivesse fiel à versão criada por Binder originalmente — "o monstro irracional rejeitado que é forçado a reconhecer que não é o verdadeiro Superman", nas palavras de Jon Bogdanove, desenhista de Superman: The Man of Steel #37, uma das cinco partes de Bizarro's World.

Embora alguns historiadores e jornalistas defendam que desde a reformulação promovida em 1986 Superman não era mais costumeiramente caracterizado como um herói inspirador, são as histórias publicadas na década de 1990, particularmente após a morte do personagem, aquelas apontadas como as que o herói era mostrado mais como alguém cheio de dúvidas do que como o ícone que deveria ser. Uma série de eventos publicados entre 2003 e 2005 culminaria na publicação de Crise Infinita, um crossover planejado não apenas como uma homenagem à história Crise nas Infinitas Terras, que naquele ano completaria vinte anos, mas como uma análise do valor, não apenas dos três principais heróis da DC Comics — Superman, Batman e Mulher-Maravilha — mas de todo o Universo DC, que havia se tornado algo excessivamente sombrio e dramático em comparação ao que era antes de 1986. Superman foi alvo de algumas das maiores "críticas" do evento. Em texto publicado em seu blog, Alan Kistler aponta que, no início de Crise Infinita, Batman é usado como veículo para questionar o que Superman havia se tornado nos últimos anos, alguém que "tentava demais se identificar com a humanidade, esquecendo do seu poder e do seu papel". Eventualmente Superman perceberia que o colega estava certo, e durante o evento, voltou a se apresentar novamente como um líder, alguém que inspira confiança naqueles que o seguem e renova as esperanças daqueles que dele precisam.

Histórico

thumb|left|180px|O cineasta Richard Donner. Em 2006 Geoff Johns, o responsável por Crise Infinita, foi anunciado como o escritor que assumiria o cargo de roteirista da revista Action Comics. Ao seu lado, inicialmente, estaria Kurt Busiek, que havia assinado um contrato de exclusividade com a editora no final de 2005, e fazer parte da nova equipe criativa responsável pelas histórias de Superman foi uma das razões que o fez aceitar a proposta.

Up, Up and Away! foi a primeira de uma série de histórias que a dupla produziria nos anos seguintes para, ao mesmo tempo que davam continuidade à história de Superman, incluir referências inéditas aos primeiros anos de sua vida. Inicialmente Up, Up and Away! terminaria em junho de 2006 e seria sucedida por duas histórias diferentes: em Superman seria publicada uma história escrita por Busiek e desenhada por Carlos Pacheco e Jesus Merino, e em Action Comics seria publicada outra história, esta escrita por Johns em parceria com o cineasta Richard Donner e desenhada por Adam Kubert. Em julho daquele ano, entretanto, apenas a história de Busiek, A Queda de Camelot, seria publicada conforme o cronograma original. A partir de Action Comics #841 foi publicada a história Back in Action, elaborada por Busiek como uma continuação imediata à Up, Up and Away!.