O hunsriqueano rio-grandense (também conhecido como hunsrik, Hunsrickisch ou Hunsrückisch) é uma língua germânica, derivada do dialeto Hunsrückisch. É considerada, desde 2012, como parte integrante do patrimônio histórico e cultural do estado do Rio Grande do Sul e, desde 2016, como patrimônio cultural imaterial do estado de Santa Catarina. Também é considerada língua cooficial nos municípios de Antônio Carlos (SC),IPOL realizará formação de recenseadores para o censo linguístico do município de Antônio Carlos, com exemplos tabelados de municípios (2015) Barão (RS),Harmonia (RS),Lei n. 1.634/2025 - Do Município de Harmonia / RS, dispõe sobre a cooficialização da Língua Hunsrick no Município de Harmonia/RS e dá outras providências. Repositório Brasileiro de Legislações Linguísticas Horizontina (RS),LEI Nº 4.217, DE 27 DE NOVEMBRO DE 2023, dispõe sobre a cooficialização dos idiomas polonês, hunsrückisch e talian no município de Horizontina Ijuí (RS),Lei n. 7.421/2023 - Do Município de Ijuí / RS, Repositório Brasileiro de Legislações Linguísticas Ipumirim (SC),Lei Nº 1.868, de 17 de dezembro de 2020 Itá (SC)Lei n. 2.882/2026 - Do Município de Itá / SC, Reconhece o Talian e o Hunsrück como línguas cooficiais do Município de Itá/SC e dá outras providências. Repositório Brasileiro de Legislações Linguísticas (RBLL) e Santa Maria do Herval (RS)
No Brasil, o hunsrik é falado em algumas regiões dos estados de Espírito Santo, Rio Grande do Sul e Santa Catarina. A lingua é falada também em algumas regiões do Nordeste da Argentina e do Sudeste do Paraguai.https://odiario.net/editorias/geral/projeto-hunsrik-completa-15-anos-no-mes-de-fevereiro/
História Na Alemanha miniatura|direita|150px|O hunsriqueano faz parte dos dialetos francônios falados no sudoeste da Alemanha O dialeto Hunsrückisch, do qual o hunsrik derivou, tem origem nos dialetos francônio-renano e francônio-moselano falados na região do Hunsrück, às margens dos rios Reno e Mosela, no oeste da Alemanha. A Alemanha, enquanto Estado-nacional, apenas se unificou em 1871, portanto o alemão-padrão hoje existente era, até o século XIX, uma língua literária, criada por Martinho Lutero na sua famosa tradução da Bíblia. O povo alemão, no seu dia a dia, não usava o alemão-padrão para se comunicar, mas diversos dialetos regionais.How Martin Luther’s translation of the Bible influenced the German language
Até por volta de 1800, o alemão-padrão foi principalmente uma língua escrita na Alemanha. O alemão-padrão era, muitas vezes, aprendido como língua estrangeira e tinha pronúncia incerta. Com o processo de unificação do país e com a alfabetização em massa da população, o alemão-padrão passou a ser a língua usada para os falantes de diferentes dialetos se entenderem, embora os dialetos regionais tenham-se mantido como língua do lar.Jacob Grimm, (Leipzig 1848)
No Brasil
Com a imigração alemã no Brasil, no decorrer dos últimos dois séculos, os dialetos alemães também vieram a se estabelecer como uma língua regional. Porém, algo curioso aconteceu: enquanto na Alemanha o alemão-padrão serviu para os falantes de diferentes dialetos poderem se comunicar, no Brasil, devido à ainda incipiente consolidação do alemão-padrão quando do início da imigração, esse papel foi desempenhado por um dialeto, o hunsriqueano. Existem duas hipóteses para esse fenômeno. A primeira porque a maioria dos imigrantes teriam vindo do Hunsrück, portanto seu dialeto predominou. A segunda porque o hunsriqueano apresenta traços intermediários entre os diferentes dialetos alemães, portanto serviu como um coiné entre falantes de vários dialetos. O que se sabe é que os imigrantes alemães no Brasil eram provenientes de diversas partes da Alemanha, portanto, os brasileiros falantes de hunsriqueano não necessariamente descendem de pessoas oriundas do Hunsrück. thumb|235x235px|Mapa mostrando a dispersão das colônias alemãs no Sul do Brasil, em 1905.|alt=Mapa mostrando as colonias alemãs do Sul do Brasil. Nessas comunidades alemãs, o dialeto hunsriqueano manteve-se, durante várias décadas, como a língua principal de comunicação. As colônias alemãs no Sul formaram-se, normalmente, em regiões de floresta despovoadas ou habitadas por índios, que foram expulsos para a chegada dos imigrantes. Devido a esse isolamento, os alemães conseguiram criar uma "ilha linguística", na qual o alemão era a língua principal, e não o português. No início do século XX, havia centenas de milhares de teuto-brasileiros de segunda e de terceira geração que mal conseguiam falar o português. Essa diferenciação favorecia o sentimento de grupo minoritário, que se aliava à formação de instituições étnicas sólidas, como escolas, igrejas, associações sociais e uma imprensa em língua alemã. Todos esses elementos combinados promoviam um sentimento geral de "grupo cultural".
Em 1930, havia 2.500 escolas étnicas no Brasil. Dessas, 1.579 eram de imigrantes alemães.http://www.portaldeperiodicos.unisul.br/index.php/Poiesis/article/viewFile/527/527 Nessas escolas, as crianças aprendiam o alemão-padrão difundido na Alemanha. Esse isolamento linguístico e cultural foi combatido de forma agressiva pelo governo nacionalista de Getúlio Vargas, por meio da campanha de nacionalização. Todas as escolas alemãs no país foram fechadas, aniquilando o meio-escolar teuto-brasileiro. O alemão-padrão aprendido na escola foi, assim, eliminado, enfraquecendo muito o uso do alemão nos centros urbanos, o qual passou a ficar limitado à zona rural. Pessoas eram hostilizadas e agredidas caso falassem alemão na rua. A polícia fiscalizava a vida privada das pessoas, invadindo as casas para queimar livros escritos em alemão, ou outras línguas que não fossem o português. Muitas pessoas foram presas pelo simples fato de falarem alemão. Em 1942, 1,5% dos habitantes de Blumenau foram encarcerados por falar alemão. O fechamento das escolas fez com que as pessoas se apegassem cada vez mais ao dialeto alemão usado no dia a dia, distante do alemão-padrão.
Oficialização e Reconhecimento A língua possui nível cooficial em algumas cidades do Brasil, com ênfase para a oficialização e o reconhecimento dado à lingua na região Sul. No estado no Rio Grande do Sul, o Hunsrik é considerado como língua cooficial no município de Santa Maria do Herval desde 2009, sendo a cidade chamada por quase toda a população local de Teewald, nome da cidade em Hunsrik.Você fala hunsrik ou alemão? (Xprëche sii Hunsrik Xprooch oder deutsch?) , Jornal Dois Irmãos Em 2021, devido a influência na formação histórica e cultural, o município de Barão também reconheceu o Hunsrik com língua cooficial em seu território através da Lei nº 2451.
No estado de Santa Catarina, a língua é considerada cooficial no município de Antônio Carlos, desde 2010, por meio da Lei Legislativa 132/2010 e no município São João do Oeste desde 2016 com a publicação da Lei Nº 1685. Em 2020, o município de Ipumirim também reconheceu a cooficilidade através da Lei n° 1868.https://leismunicipais.com.br/a/sc/i/ipumirim/lei-ordinaria/2020/187/1868/lei-ordinaria-n-1868-2020-dispoe-sobre-a-cooficializacao-das-linguas-talian-e-hunsruckisch-no-municipio-de-ipumirim-sc
Apesar de não oficializada em alguns estados e municípios, a língua também possui reconhecimento de alguns desses entes federativos no Brasil. Desde 2012, o estado do Rio Grande do Sul reconhece oficialmente a língua como parte integrante do patrimônio histórico e cultural do estado com a publicação da Lei N.º 14.061/2012. Desde 2016, o estado de Santa Catarina declara a língua como patrimônio cultural imaterial do estado com a publicação da Lei Nº 16.987/2016. O município de São Pedro de Alcântara também declara a língua, desde 2016, como integrante do patrimônio histórico e cultural por meio da Lei Nº 1.001/2015.
A língua também é ensinada como parte do currículo obrigatório desde 2016 no município de Estância Velha, por meio de ação da Secretaria de Educação e Cultura (SEMEC) e em parceria com o município de Santa Maria do Herval. Os municípios de Treze Tílias e Nova Haartz também possuem ensino do hunsriqueano brasileiro como parte do currículo escolar obrigatório e estão em processo de aprovação da cooficialização da língua nos municípios.
Nomenclatura e Codificação Por não possuir inicialmente uma gramática oficial e por não ser regida por um ente centralizado, há uma pluralidadade quanto à nomenclatura utilizada para a língua. Adriano Steffler desenvolveu uma “Gramática do Hunsriqueano”, um “Dicionário do Hunsriqueano” e uma forma própria do alfabeto latino com 45 letras das quais 25 são tradicionais do alfabeto (porém, sem Q) e as demais 20 são outras letras não tradicionais do mesmo alfabeto e também do Cirílico, Armênio, Copta, e do Grego.[http://www.omniglot.com/writing/hunsrik.htm Escrita Husriqueana A gramática desenvolvida por esse projeto não é aplicada atualmente em nenhum método de ensino ou iniciativa governamental, porém é tida como um dos primeiros esforços de padronização da língua.
Atualmente, a língua possui três propostas de codificação. A primeira, da Sociedade Internacional de Linguística, é liderada pela professora e doutora Ursula Wiesemann e possui uma aproximação mais voltada à escrita utilizada naturalmente por seus falantes nativos em ações cotidianas, como a interação interpessoal e a utilização de redes sociais. Com forte influência do alfabeto latim utilizado no português, possui o nome nativo de Hunsrik, com o objetivo de distinguí-la como língua germânica única e não apenas como um dialeto da lingua alemã. Esta codificação é aplicada no ensino das escolas municipais de Santa Maria do Herval, Estância Velha e Nova Hartz, bem como em outros municípios do Rio Grande do Sul. O nome hunsrik também pode ser utilizado de forma oficial para se referir à língua no português, sendo chamada oficialmente de "Lingua Hunsrik" pela maioria dos entes federativos que a reconhecem no Brasil. Exemplo da escrita com a ortografía da Linguísta Alemã Úrsula Wiesemann. A grafia traduzida para o português como "hunsrisqueano brasileiro" também é aceita pelo projeto, porém a preferência é pelo uso da anterior por gerar uma diferenciação mais clara da língua. Esta forma de escrita e a nomenclatura Hunsrik para o idioma tem sido amplamente utilizada por entidades civís, educacionais e religiosas no Brasil. Além disso, é a forma padrão de escrita e nomenclatura adotada no ensino do idioma em várias cidades onde o Hunsrik se tornou uma das línguas oficiais.
O segundo projeto de codificação, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, é liderado pelo doutor e professor Cléo Vilson Altenhofen e possui uma aproximação mais unionista com a língua alemã, caracterizando-se pela preservação da escrita do dialeto alemão hunsrückisch com poucas variações. Altenhoffen, também diz que 'o ensino de Hunsrückisch na escola é um tema complexo e depende da mobilização da comunidade (local e escolar) ... Mais preciso é, ao meu ver, defender que a “língua do aluno” merece e necessita de um espaço na escola'. Este projeto preconiza a grafia Hunsrückisch para se referir ao dialeto em sua forma nativa, sendo Hunsrickisch uma alternativa como forma de ressaltar a pronúncia da palavra. Ao mesmo tempo, o projeto declara que se refere à mesma língua denotada por Hunsrik em outros projetos e também a aceita como grafia. O termo Hunsrückisch também é utilizado oficialmente em declarações de alguns entes federativos. Para diferenciar o dialeto usado no Brasil daquele usado na Alemanha, Altenhofen denominou o dialeto brasileiro de Riograndenser Hunsrückisch (com referência ao estado do Rio Grande do Sul), ou hunsriqueano rio-grandense em português. Essa nomenclatura, porém, sofre críticas de outros estudiosos, uma vez que também há quantidades consideráveis de falantes nativos em outros estados brasileiros, bem como em outros países.