thumb|Mapa do Sacro Império Romano 1400 Putzger – Historical World Atlas, 89ª edição, 1965; Grande Atlas da História Mundial de Westermann, 1969; Atlas geográfico de Haack. Instituto Geográfico-Cartográfico VEB Hermann Haack, Gotha/Leipzig, 1ª edição, 1979; dtv Atlas da História Mundial 1. Dos primórdios à Revolução Francesa; 23ª edição 1989, ISBN 3-423-03001-1 A história da Alemanha inclui os acontecimentos ocorridos nos territórios de língua alemã que correspondem aproximadamente ao Estado formado em 1871 em Versalhes, quando o Império Alemão, sob o controle do rei da Prússia, foi constituído.
O Sacro Império Romano-Germânico, que existiu de 800 até 1806, é considerado o primeiro Reich alemão (Reich, "Império", em alemão, termo usado para descrever os sucessivos períodos históricos do povo alemão). No momento de maior extensão territorial, o império incluía o que são hoje a Alemanha, a Áustria, a Eslovênia, a República Checa, o oeste da Polônia, os Países Baixos, o leste da França, a Suíça e partes da Itália central e setentrional. A partir de meados do , passou a ser conhecido como o "Sacro Império Romano da Nação Germânica". O Império Alemão de 1871-1918 é chamado de o Segundo Reich, de modo a indicar a sua descendência do império medieval. Segundo o mesmo raciocínio, Adolf Hitler referia-se à Alemanha Nazi (1933-1945) como o Terceiro Reich.
O termo "germanos" é usado para referir-se ao grupo ou grupos étnicos oriundos da Idade do Bronze Nórdica, que falavam línguas germânicas e ocupavam a chamada Germânia. A partir do período histórico do Sacro Império, pode ser empregado o termo "alemães" para designar os habitantes do império.
Germanos e romanos
thumb|Torre de observação do Limes, restaurada
Entre 800 e , as tribos germânicas no norte migraram para território celta, avançando até os rios Oder e Reno e para o que é hoje a Alemanha meridional.
Por volta de , os romanos, por meio de uma sucessão de campanhas militares, tornaram o Reno a fronteira nordeste do Império Romano, o que levou à romanização da margem esquerda do rio e a incorporação das sociedades celtas centro-europeias ao Império. Construíram-se fortes romanos em Colônia, Tréveris, Coblença, Mogúncia e em outros locais de modo a permitir a defesa da fronteira renana, onde os romanos e os germanos se encontravam frente a frente. Em , um exército romano chefiado por Públio Quintílio Varo foi derrotado pelo chefe germano Armínio, na Batalha da Floresta de Teutoburgo. A Germânia até o Reno e o Danúbio permaneceram fora do Império Romano.
A partir de 90, os romanos construíram o Limes, uma linha defensiva de 550 quilômetros do Reno até o Danúbio, planejada para conter as incursões dos bárbaros germânicos na fronteira, bem como uma série de fortificações (como os de Wiesbaden, Augsburgo, Ratisbona e Passau). O assistiu à aparição de grandes tribos germânicas ocidentais - alamanos, francos, catos, saxões, frísios, turíngios. Em cerca de 260, os germanos finalmente romperam o Limes e a fronteira do Danúbio.
No , o avanço dos hunos Europa adentro deu início a um período chamado de Grandes Migrações, que mudou completamente o mapa do continente europeu. O Império Romano passou a lidar com constantes invasões de tribos germânicas, o que acelerou a queda do império, que estava passando por momentos de crise e decadência. Em 476, a cidade de Roma foi conquistada por Odoacro, rei dos hérulos, marcando o fim do Império Romano do Ocidente.
Ao unificar os francos e conquistar a Gália, o rei merovíngio Clóvis tornou-se o fundador do Reino Franco. Em 496, os francos derrotaram os alamanos, aceitaram a fé católica e passaram a ser apoiados pela Igreja.
As antigas províncias romanas ao norte dos Alpes já eram cristãs desde o , e centros cristãos, como Augsburgo, foram mantidos mesmo após a queda do Império Romano do Ocidente. Entretanto, a partir de 600, houve um novo esforço missionário cristão dirigido às tribos bárbaras. Os mosteiros de Vurzburgo, Ratisbona, Reichenau e outros foram fundados por monges irlandeses. A atividade missionária no Reino Franco continuou pelas mãos do monge anglo-saxão Bonifácio, que estabeleceu o primeiro mosteiro a leste do Reno, em Fritzlar. Dioceses episcopais sob autoridade papal foram criadas para propagar a fé cristã nas terras germânicas.
Sacro Império Romano Idade Média
thumb|Carlos Magno, por Albrecht Dürer
Em 751, Pepino, o Breve, mordomo do palácio sob o rei merovíngio, assumiu o título de rei dos francos e foi ungido pela Igreja; os reis francos passaram então a atuar como protetores do papa. Os sucessores de Pepino lançaram uma longa campanha contra os pagãos saxões, os quais terminaram por ser conquistados e convertidos a força, quando suas terras foram anexadas pelo Reino Franco.
De 772 a 814, o rei Carlos Magno estendeu o império carolíngio até a Itália setentrional e os territórios de todos os povos germânicos, inclusive os saxões e os bávaros. Em 800, a sua autoridade na Europa Ocidental foi confirmada com a sua sagração como imperador, em Roma, estabelecendo-se, assim, o que viria a chamar-se Sacro Império Romano-Germânico. O reino franco foi dividido em condados e suas fronteiras eram protegidas por marcas.
Entre 843 e 880, após disputas entre os netos de Carlos Magno, o império carolíngio foi dividido, conforme o Tratado de Verdun (843). O império germânico desenvolveu-se a partir do reino franco do leste, a Frância Oriental (Francia Orientalis) (a porção ocidental se tornou a atual França e a central foi absorvida pela Alemanha e França, menos a região sul que se tornou o norte da Itália). A linhagem carolíngia oriental extinguiu-se com a morte de Luís, o Menino (911), filho de Arnulfo da Caríntia. De 919 a 936, os povos germânicos (francos, saxões, suábios e bávaros) foram unidos pelo duque Henrique da Saxônia, que assumiu o título de rei. Pela primeira vez, o termo Reino dos Germanos (Regnum Teutonicorum) foi aplicado ao reino franco oriental.
Em 936, Otão I, o Grande foi coroado rei em Aachen. Fortaleceu a autoridade real ao nomear bispos e abades como príncipes do império (Reichsfürsten), estabelecendo uma igreja nacional (Reichskirche). Em 951, casou-se com Adelaide da Borgonha (viúva do rei dos lombardos), recebendo então a coroa lombarda. As principais ameaças externas ao reino foram contidas quando Otão derrotou os húngaros na Batalha de Lechfeld (955) e subjugou os eslavos entre o Elba e o Oder. Em 962, foi coroado imperador, em Roma, a exemplo de Carlos Magno, passando a exercer portanto uma forte influência alemã sobre o papado.
Em 1033, a Borgonha foi incorporada ao império, durante o reinado de Conrado II, primeiro imperador da dinastia sália (ou francônia).
Durante o reinado de seu filho, Henrique III, a Alemanha apoiou a reforma cluniense da Igreja — a "paz de Deus", a proibição da simonia (compra de cargos eclesiásticos) e o celibato dos sacerdotes. A autoridade imperial sobre o papa atingiu o ápice. O império continuava a expandir-se para o oriente — uma fortaleza imperial (Pfalz) foi construída em Goslar.
A Questão das Investiduras começou quando Henrique IV e o papa Gregório VII divergiram a respeito das nomeações para cargos eclesiásticos. O imperador viu-se obrigado a submeter-se ao Papa em Canossa, em 1077, após haver sido excomungado. Em 1122, uma reconciliação temporária foi obtida entre Henrique V e o papa, mediante a Concordata de Worms. Foram consequências da Questão das Investiduras um enfraquecimento da Reichskirche otoniana e o fortalecimento dos príncipes seculares alemães.
O período entre 1096 e 1291 é conhecido como a época das Cruzadas. Estabeleceram-se ordens religiosas de cavalaria, inclusive os Templários, os Cavaleiros de São João e a Ordem Teutônica.
A partir de 1100, fundaram-se novas vilas em torno de fortalezas imperiais, castelos, palácios episcopais e mosteiros. As vilas começaram a estabelecer direitos e liberdades municipais, enquanto a população rural continuava na servidão. Diversas localidades tornaram-se "cidades livres imperiais", que não dependiam de príncipes ou bispos, mas estavam diretamente sujeitas ao imperador. As cidades eram governadas por patrícios (comerciantes). Os artesãos formaram corporações, regidas por normas estritas, que procuravam obter o controle das cidades. O comércio com o oriente e o norte intensificou-se quando as principais cidades comerciais se uniram na Liga Hanseática, sob a liderança de Lubeque.
A expansão germânica em direção ao oriente fez com que camponeses e citadinos alemães, bem como a Ordem Teutônica, colonizassem territórios habitados pelos eslavos a leste do rio Oder (Boêmia, Silésia, Pomerânia, Polônia e Livônia), formando vilas e cidades.
Entre 1152 e 1190, durante o reinado de Frederico I (Barbarossa), da dinastia de Hohenstaufen, chegou-se a um entendimento com o partido guelfo, por meio da cessão do Ducado da Baviera a Henrique, o Leão, Duque da Saxônia. O Ducado da Áustria tornou-se um ducado separado, devido ao Privilegium Minus de 1156. Barbarossa tentou recuperar o controle da Itália. Em 1177, o imperador e o papa finalmente lograram reconciliar-se, em Veneza.
Em 1180, Henrique, o Leão foi considerado fora-da-lei e a Baviera foi outorgada a Otão de Wittelsbach (fundador da dinastia que governaria a Baviera até 1918); a Saxônia foi dividida.
O período de 1184 a 1186 assistiu ao zênite do império de Barbarossa. O poder dos senhores feudais foi reduzido através da nomeação de funcionários imperiais. A sofisticação da vida na corte levou ao desenvolvimento da cultura e da literatura alemãs.
Entre 1212 e 1250, Frederico II estabeleceu uma administração profissional no Reino da Sicília. Continuou a conquista da Itália, causando conflitos com o papa. No Sacro Império, concederam-se grandes poderes soberanos a príncipes seculares e eclesiásticos, o que fez surgir estados territoriais independentes. O conflito com o papa minou o poder do império, pois Frederico II foi três vezes excomungado. Após sua morte, a dinastia dos Hohenstaufen caiu, seguindo-se um interregno durante o qual não houve imperador.
Em 1226, a Ordem Teutônica conquistou e evangelizou partes da Prússia, cuja população foi dizimada por aqueles cavaleiros, que haviam sido convidados a entrar na Polônia por Conrado da Masóvia, um duque polonês. Mas a partir de 1300, o império começou a perder território em todas as suas fronteiras.
O fracasso das negociações entre o imperador Luís IV e o papado fez com que, em 1338, seis dos sete eleitores declarassem em Rhens que doravante a eleição por todos ou pela maioria automaticamente conferiria ao eleito o título real (Rei dos Romanos) e o governo do império, dispensada a confirmação papal. Entre 1346 e 1378, o imperador Carlos IV, rei da Boêmia, procurou restaurar a autoridade imperial.
thumb|Da Dança da Morte, por Hans Holbein, o Jovem, 1491
Em meados do , a Peste Negra dizimou a Alemanha e a Europa. Os judeus foram perseguidos com pretextos religiosos e econômicos; muitos fugiram para a Polônia.
A Bula Dourada de 1356 determinava que, no futuro, o imperador seria escolhido por sete eleitores — os arcebispos de Mogúncia, de Tréveris e de Colônia, o rei da Boêmia, o conde Palatino do Reno, o duque da Saxônia e o marquês de Brandenburgo.
Em seguida aos desastres do século XIV, a sociedade europeia moderna veio à luz gradualmente, resultado de mudanças econômicas, religiosas e políticas. Surgiu uma economia monetária, que provocou descontentamento entre cavaleiros e camponeses. Um sistema proto-capitalista evoluiu aos poucos a partir do feudalismo. A família Fugger, por meio de suas atividades comerciais e financeiras, ganhou notoriedade; seus membros tornaram-se homens de finanças junto a governantes eclesiásticos e seculares.