S. Miguel de Czernicóvia ou Miguel Vsevolodovich (c.1179 – Saray, 20 de setembro de 1246) foi um Príncipe de Rus', membro da Dinastia Ruríquida. Ele era Grão-Príncipe de Quieve (1236–1239, 1241–1243); e também príncipe de Premíslia (1206), Novogárdia Sevéria (1219–1226), Czernicóvia (1223–1235, 1242–1246), Novogárdia (1225–1226, 1229–1230), e Galícia (1235–1236).

Evidências arqueológicas revelam que as cidades de Czernicóvia gozavam de uma grande prosperidade durante o reinado de Miguel, que favorecia o comércio. Foram interesses deste âmbito que o levaram a tomar o controlo de novas cidades como Aliche e Quieve, pois faziam parte das rotas que passavam também pelo vale do Reno e pelo Reino da Hungria. Estas rotas, graças a ele, começaram a passar também por Czernicóvia. Negociou também tratados comerciais e alianças políticas com a Polónia e a Hungria.

Aliviou taxas económicas a Novogárdia Magna e garantiu aos seus boiardos uma grande liberdade política dele próprio. Ele foi último governante autónomo de Quieve, visto que ap´s a sua deposição o Principado foi invadido pelos Mongóis, que destruíram a cidade. À época desta invasão, Miguel era o príncipe mais poderoso em toda a Rus’. Foi porém acusado de liderança ineficaz devido ao seu falhanço na tentativa de união de todos os principados contra o invasor. Na realidade, esta tarefa seria impossível de levar a cabo.

Miguel foi o primeiro príncipe de Czernicóvia a tornar-se um mártir, de acordo com o sentido da palavra: foi condenado à morte pela sua persistência na sua segundo a fé cristã. Ele e o seu boiardo mais fiel, Teodoro, foram torturados e decapitados pelos Tártaros. Os dois acabaram conhecidos como "Os Sofredores de Czernicóvia" e "Os Miraculosos de Czernicóvia".

Primeiros anos

Miguel era o único filho conhecido de Usevolodo IV de Quieve, filho de Esviatoslau III de Quieve e Maria de Polócia, e da sua esposa Anastácia da Polónia, filha de Casimiro II da Polónia e Helena de Znojmo . Sofreu na infância uma paralisia que o avô, Esviatoslau III, procurou curar, sem sucesso. Recorreu então a Nicetas Estilites, um conhecido milagreiro, que morava no Mosteiro de São Nicetas. O enfermo dirigiu-se então, na companhia de boiardos, a Pereslávia, em Susdália. Dirigindo-se junto do pilar do monge, este deu a um boiardo um objeto seu, e este deu-o ao príncipe. Quando tocou no objeto, Miguel ficou milagrosamente curado, sendo chamado por Nicetas para lhe dar a sua bênção. Miguel ficou tão agradecido que beneficiou o mosteiro e mandou erigir uma cruz em pedra no local onde fora curado.

No verão de 1206, o seu pai cercou Quieve, enviou o seu posadnik a todas as cidades quievanas e forçou o príncipe a refugiar-se em Vruchiy (atual Ovruch, na Ucrânia). Usevolodo também expulsou Jaroslau II (filho de Usevolodo III de Vladimir) de Premíslia, dando esta cidade a Miguel. Contudo Rurique estava determinado em obter novamente o controlo de Quieve e desta forma expulsou Usevolodo IV com certa facilidade. Rurique ordenou então a Miguel, que tinha na altura somente uma pequena comitiva em Premíslia, que se retirasse da cidade, pelo que este obedeceu e voltou para junto do pai em Czernicóvia. No verão de 1207, o pai uma vez mais ocupou Quieve e uma vez mais foi expulso por Rurique II, em outubro desse ano. Miguel desta vez acompanhara o pai desde Quieve.

Não há fontes que recordem o casamento de Miguel, mas há evidências que sugerem que desposou, em 1210 ou 1211, Helena (ou Maria) da Galícia, filha de Romano de Galícia e Predslava Rurikovna de Quieve, filha de Rurique II.

Em junho de 1212, os príncipes Mistislau de Esmolensco, da Novogárdia Magna e Inguar de Luceória empreenderam uma ofensiva contra Usevolodo IV, que confrontou os atacantes em Vyshgorod Contudo a linhagem Rostislavichi da Dinastia ocupou Quieve, e Usevolodo teve de fugir com a família (possivelmente acompanhado de Miguel) uma vez mais e encontrou a segurança na sua cidade, Czernicóvia, onde faleceu em agosto de 1212. Miguel terá herdado as cidades de Bryn, Serensk e Mosalsk do seu pai.

Quando o seu tio faleceu entre 1215 e 1220 e se transferiu para a cidade, Miguel, devido ao seu estatuto de segundo na linha sénior, terá ocupado Novogárdia Sevéria.

thumb|250px|Os movimentos de Gengis Cã e dos seus generais

Na primavera de 1223, Gengis Cã, líder mongol, enviou uma forte cavalaria sob comando de Jebe e Subutai, para fazerem reconhecimento das "terras a ocidente", entrando na terra dos Cumanos. Incapazes de conter a invasão, os cumanos fugiram para Rus', ameaçando os príncipes que se recusassem ajudá-los teriam o mesmo destino deles próprios. No concílio dos príncipes de Rus' foi decidido não esperar pela chegada dos Tártaros, atacando-os nas estepes cumanas. Miguel esteve presente nessa reunião. As forças unidas dos príncipes atravessaram o rio Dniepre, e o primeiro conflito ocorreu nas suas margens. Na vanguarda Mistislau Mstislavich o Temerário destacou-se por ter derrotado um destacamento das tropas mongóis.

Atravessando o Dniepre, os exércitos de Rus' marcharam nas estepes cumanas por 8 dias, antes do encontro com a força principal mongol, que culminou na Batalha do Rio Kalka, que como o nome indica se travou nas margens do Rio Kalka. Desta vez não havia unidade nas tropas dos príncipes, pelo que o resultado foi desastroso para o lado russo: alguns príncipes (como Mistislau II de Czernicóvia) pereceram na batalha.

O governo

Príncipe de Czernicóvia e Novogárdia thumb|250x250px|right|A Catedral do Santo Salvador de Czernicóvia (1030)

Miguel estava provavelmente entre os sobreviventes que retornaram a Czernicóvia. Apesar de nas crónicas não ser mencionada a deposição de Mistislau II de Czernicóvia, evidências comprovam que após a abdicação do tio, Miguel se sentara no trono do pai e do avô. A cerimónia terá tido lugar a 16 de junho. Devido ao facto de vários príncipes da sua geração terem falecido jovens e sem herdeiros, Miguel, na qualidade de príncipe sénior, assumiu o controlo sobre os domínios dos seus malogrados vassalos. Esta acumulação fez dele o proprietário de uma das maiores terras na região.

Nesse tempo, os novogárdios reconheceram Jorge II de Vladimir, mas muitas vezes não concordavam com as suas nomeações de príncipes. Em 1224, o seu filho Usevolodo teve de fugir de Novogárdia. Miguel estava já em Vladimir quando Jorge soube da fuga do filho. Jorge ordenou o ataque, e os novogárdios confirmaram a sua lealdade mas fizeram um pacto de morte em defesa da Catedral de Santa Sofia. Jorge propôs então que aceitassem Miguel como príncipe. Novogárdia aceitou e em março de 1225 Miguel ocupou o Principado. Jorge exigiu porém novuyu como multa aos cidadãos e confiscou-lhes os bens.

Miguel governou em Novogárdia subordinado a Jorge, tendo porém a intenção de retornar a Czernicóvia. Uma das suas tarefas importante será recuperar de Jorge os bens confiscados em Torzhok. Antes de deixar Novogárdia, Miguel pediu aos cidadãos que enviassem mercadores para Czernicóvia e declarou que as suas terras e as deles seriam uma só.

Passado um ano, Miguel estava envolvido num problema sucessório: Olegue de Cursco preparava-se para o combater. O motivo seria a possessão de Novogárdia Sevéria. No inverno de 1227, Jorge Vsevolodovich e os seus sobrinhos ajudaram Miguel contra Olegue. O Metropolitano Cirilo I de Quieve também ajudou na resolução de caso, que terminou com a cedência da Novogárdia Sevéria a Olegue.

Em 1228, convocou Miguel e ambos atacaram Daniel da Galícia, cunhado daquele, que havia cercado as cidades de Luceória e Chertoryysk, em Camenécia. Porém falharam em tomar Camenécia. Em dezembro desse ano, Novogárdia rebelou-se contra o tysyatskiy Viacheslau ande nomeou Bóris Negocheviche no seu lugar, e convidou Jaroslau III a regressar segundo um novo acordo. Miguel e os cidadãos novogárdios introduziram medidas para ajudar na afirmação do poder de Jaroslau: apontou-se Vnezd Vodovik como o novoposadnik removeram-se os seus outros administradores.

Na legislação de Miguel deu também aos oficiais algum do poder de Jaroslau, permitindo aos boiardos a nomeação dos seus próprios juízes, entre outras medidas. Após deixar Novogárdia, nomeou o seu filho como seu substituto na cidade. Em maio de 1230, retornou a Novogárdia onde instalou o seu filho no trono de facto. Antes de partir, prometeu aos novogárdios que voltava com tropas por volta de 14 de setembro. A 8 de dezembro, os cidadãos expulsaram Rostislau com o pretexto de o seu pai haver prometido tropas a 14 de setembro mas ser já dezembro e estas ainda não terem chegado. Convidaram novamente Jaroslau que chegou a 30 de dezembro. Para assegurar a hegemonia sobre Novogárdia, no entanto, Jaroslau precisava de impedir Miguel de lhes dar apoio.

Príncipe de Czernicóvia e Grão-Príncipe de Quieve thumb|200px|esquerda|Rússia de Quieve em 1237

Em 1231, Miguel travou uma guerra contra Vladimir IV de Quieve, que pediu ajuda a Daniel da Galícia, cunhado de Miguel. Daniel conseguiu pacificar os dois príncipes. No outono desse ano, Jaroslau III atacou o noroeste de Vyatichi, pegando fogo a Serensk (que seria o centro adminitrativo do património de Miguel), mas quando cercou Mosalsco, falhou em tomá-la. Jaroslau por sua vez recusou a paz, argumentando que só a aceitaria se Miguel expulsasse os fugitivos novogárdios das suas terras.

Em 1232, as tropas enviadas por Vladimir IV de Quieve capturaram os príncipes dos Bolocovenos que haviam invadido as terras de Daniel, e que tiveram de lhas devolver. Miguel e o príncipe Iziaslau Vladimirovich de Putyvl ameaçaram então atacar Daniel se este não libertasse os cativos. Em janeiro de 1235, Vladimir III e Daniel atacaram Czernicóvia, saquearam as imediações e pegaram fogo ao exterior da cidade, esperando que Miguel desta forma se submetesse. Porém, Miguel acabou por prometer várias recompensas a Daniel se estese livrasse de Vladimir. Daniel anuiu e tentou persuadir Vladimir a abandonar o cerco; porém foram ambos surpreendidos pelo ataque surpresa que Miguel empreendeu nessa mesma noite, matando vário soldados e obrigando Daniel a fugir e a retirar-se para Quieve.

Miguel aliou-se a Iziaslau Vladimirovich e aos Cumanos contra o cunhado e o príncipe de Quieve. Os dois lados enfrentaram-se em Torchesk, onde Daniel e Vladimir foram derrotados, e vários boiardos foram também feitos cativos. Entretanto, os aliados de Miguel tomaram Quieve e fizeram com que os mercadores alemães, vindos desde Novogárdia, pagassem pelos seus bens, e então nomeou o seu "príncipe-marioneta" de Quieve, Iziaslau Vladimirovich, que se tornou Iziaslau IV. Não era um método nada novo, visto que o antecessor de Iziaslau, Vladimir, era também marioneta de Daniel.

Na Hungria, o rei Bela IV renovou o pacto do seu pai com Miguel, aceitando dar-lhe ajuda militar. No verão de 1236, Daniel e o irmão Vasilko uniram tropas e marcharam contra Miguel. Contudo, encontrou-se contra as suas próprias tropas galicianas, a milícia local e um exército húngaro. Tentaram aplacar a sua frustração ocupando Zuenigoroda, mas os cidadãos repeliram o ataque. Após a saída das tropas húngaras, Daniel tentou uma vez mais; Miguel tentou apaziguar o seu cunhado dando-lhe Premíslia, cujos habitantes sempre o haviam apoiado.

Daniel, no entanto, ordenou a Vladimir (que entretanto depusera Iziaslau e retomara o controlo de Quieve) que abandonasse novamente o posto. Havia feito um pacto com Jorge II de Vladimir e pretendia colocar em Quieve o irmão deste, , o que acabou por conseguir. Este chegou a Quieve em março de 1236, mas falhou em consolidar o seu governo e voltou para Susdália. Assim, aproveitando anova vacância, Miguel rapidamente nomeou o filho Rostislau e entrou em Quieve como príncipe, sem qualquer contestação. Após tomar Quieve, Miguel e o filho atacaram e retiraram Premíslia do controlo de Daniel. No entanto, a Galícia nomeou Daniel como príncipe em 1237; Miguel escapou para a Hungria e os boiardos tiveram de submeter-se a Daniel.