thumb|upright=1.5|Imigrantes posando para fotografia no pátio central da Hospedaria dos Imigrantes, ca. 1890 thumb|upright=1.5|O atual Museu da Imigração do Estado de São Paulo, onde funcionava a Hospedaria dos Imigrantes de São Paulo. A imigração italiana em São Paulo dá-se, em um primeiro momento, sem uma política definida, mediante iniciativas de fazendeiros de café do Oeste Paulista, que buscavam alternativas diante da escassez de mão de obra ligada à desagregação do escravagismo no Brasil. Surgem tentativas de apoiar a produção cafeeira na mão de obra livre, sem que todavia houvesse uma política imigratória definida. Entre 1885 e 1902, essas iniciativas ganham força e define-se afinal uma política de imigração, visando, em especial, os italianos, que, nessa época, sofriam os efeitos de uma crise econômica em seu país.FORNER, Larissa A.; TOSI, Pedro G.. Imigrante italiano - De mão de obra para a lavoura ao acesso à propriedade: Um estudo dos núcleos coloniais(1880-1920). XVIII Encontro Regional (ANPUH-MG). Mariana, 2012. Por fim, entre 1902 e 1920, consolida-se a política imigratória promovida por São Paulo.COLLAÇO, Janine Helfst Leicht Imigração e cozinha italiana na cidade de São Paulo: concepções de fartura e distinção. Anuário Antropológico. UnB, 2012 ;

Até 1920, o estado de São Paulo havia recebido aproximadamente 70% dos imigrantes italianos no Brasil, totalizando 1.078.437 italianos entrados no estado. O censo de 1920 registrou 398.797 italianos residentes em São Paulo,TRENTO, Angelo. Do outro lado do Atlântico: um século de imigração italiana no Brasil. São Paulo: Studio Nobel, 1989. representando 9% da população estadual. A maior parte desse contingente, cuja viagem havia sido subsidiada por fazendeiros e pelo governo brasileiro, destinava-se ao trabalho nas fazendas de café.

São Paulo recebeu imigrantes de diversas regiões da Itália. Nos registros paroquiais de São Carlos, cidade produtora de café no interior de São Paulo, para o período compreendido entre 1880 e 1914, foi registrado que, dentre os italianos que ali se casaram, 29% dos homens e 31% das mulheres eram oriundos do Norte da Itália, sendo o Vêneto a região mais bem representada, com 20% dos homens e 22% das mulheres, seguida pela Lombardia, com 5% dos homens e 6% das mulheres. Os italianos do Sul também eram bastante numerosos, correspondendo a 20% dos homens e 15% das mulheres de nacionalidade italiana. Calábria, com 7% dos homens e 5% das mulheres e Campânia, com 6% dos homens e 5% das mulheres eram as regiões sulistas que mais contribuíram com imigrantes em São Carlos, que ficou conhecida no século XIX como Piccola Italia

Em São Paulo, assim como no resto do Brasil, havia a tendência de os imigrantes do Norte da Itália rumarem para a zona rural, enquanto os do Sul preferiam se dedicar às ocupações urbanas. Isso explica o fato de, na cidade de São Paulo, os meridionais terem dominado bairros inteiros, como foi o caso do Bixiga, do Brás e da Mooca, habitados especialmente por imigrantes oriundos da Calábria e da Campânia.

Estatísticas thumb|right|260px|Navio com italianos no Porto de Santos (1907).

Em 1886, viviam no estado de São Paulo 13.490 italianos, número que saltou para 398.797, em 1920, e decresceu para 15.388, em 2010.Italianos em São Paulo Entre 1885 e 1934, entraram no estado de São Paulo 929.802 imigrantes italianos, dos quais 46,27% entraram na década de 1890. No mesmo período, entraram em São Paulo 397.657 portugueses, 384.377 espanhóis e 453.439 de outras nacionalidades. Nem todos esses imigrantes permaneceram em São Paulo, pois as taxas de retorno para a Itália e de reemigração para países como a Argentina eram relativamente altas.Rocha, I. P. (2007). Imigração internacional em São Paulo: Retorno e reemigração, 1890-1920. Em relação à entrada de italianos no estado, os dados estão na tabela abaixo:

+ Entrada de imigrantes italianos no estado de São Paulo (1885–1934) Período Número de imigrantes italianos 1885–1889 137.367 1890–1894 210.910 1895–1899 219.333 1900–1904 111.039 1905–1909 63.595 1910–1914 88.692 1915–1919 17.142 1920–1924 45.306 1925–1929 29.472 1930–1934 6.946 Total 929.802

O censo brasileiro de 1920 contabilizou 558.405 italianos residentes no Brasil, dos quais 71% residiam no estado de São Paulo. Em 1920, os onze municípios paulistas com mais pessoas nascidas na Itália eram:

+Cidades paulistas com mais pessoas nascidas na Itália, em 1920Open-access Percursos migratórios intergeracionais e dinâmicas de implantação de imigrantes estrangeiros no oeste paulista (1880-1950)Imigração internacional dinâmica demográfica no tempo do café Cidade Italianos São Paulo 91.544 Campinas 15.429 Ribeirão Preto 10.907 São José do Rio Preto 8.278 São Carlos 8.235 Piracicaba 7.387 Taquaritinga 6.831 Jundiaí 6.310 Jaboticabal 6.237 Monte Alto 6.192 Araraquara 5.775

No início do século XX, em decorrência da crise cafeeira e da proibição da emigração subsidiada para o Brasil por parte do governo italiano, em virtude das péssimas condições de trabalho encontradas pelos italianos no Brasil, ocorreu uma drástica diminuição da entrada dos imigrantes italianos no país.CAMARGO, J. F. Crescimento da população no Estado de São Paulo e seus aspectos econômicos. Ensaios Econômicos IPE-USP, São Paulo, 14, 1981. Com a diminuição da chegada de novos imigrantes, a comunidade italiana em São Paulo foi encolhendo: em 1920, moravam no estado 398.797 italianos, número que caiu para 234.550, em 1940, para 173.652, em 1950, e para 108.633, em 1970. Em 2010, os nascidos na Itália somavam apenas 15.388 no estado.

Em 2024, estavam inscritos no consulado italiano de São Paulo 380.000 cidadãos italianos, a grande maioria dos quais são brasileiros descendentes de italianos que reconheceram a sua nacionalidade italiana com base no princípio do ius sanguinis, haja vista que, como explicado, o número de imigrantes nascidos na Itália está em declínio há várias décadas.Consolato e Patronato: sinergie per gli italiani in Brasile.

História Fatores de expulsão thumb|left|200px|"À Província de S. Paulo, no Brasil. Imigrantes: leiam estas dicas antes de partir. S. Paulo, 1886"

A emigração italiana, especialmente entre 1875 e a Primeira Guerra Mundial, foi impulsionada por uma combinação de fatores econômicos, sociais e demográficos, decorrentes da transição para o capitalismo e da unificação italiana em 1870. No campo, predominavam formas feudais de produção, agravadas por secas, inundações e epidemias, resultando em miséria generalizada. A unificação não melhorou a situação: terras foram confiscadas, impostos elevados (como a taxa sobre a farinha) endividaram pequenos proprietários, e a penetração capitalista concentrou a propriedade nas mãos de grandes latifundiários. Estes, ao oferecerem produtos mais baratos, eliminaram a concorrência dos pequenos produtores, que perderam suas terras — entre 1875 e 1901, 277.759 propriedades foram confiscadas — e se tornaram mão de obra excedente.GUIMARÃES, Fernando Mattos Pereira. Fatores determinantes da diferenciação socio-economica entre os imigrantes italianos, de 1880 a 1920, no Estado de São Paulo. Coautoria de Pedro Ramos. Campinas, SP: [s.n.], 1996. 73f. Disponível em: https://hdl.handle.net/20.500.12733/1595491. Acesso em: 18 mar. 2025. A situação dos agricultores também piorou devido ao aumento da entrada de produtos agrícolas importados das Américas no mercado europeu, especialmente trigo e milho, que causou uma queda de 28% nos preços dos grãos, entre 1873 e 1888.Cambridge University Press: From Slash and Burn to Winemaking: The Historical Trajectory of Italian Colonos in the Uplands of Rio Grande do Sul, Brazil. Muitos agricultores não conseguiam mais competir com os preços baixos dos produtos importados, resultando em endividamento e perda de terras. No Vêneto, por exemplo, onde a polenta era o alimento básico dos camponeses, a dificuldade de competir com os produtos importados gerou uma crise sem igual, levando milhares de famílias a emigrarem.

A lenta industrialização italiana não absorveu essa massa de ex-camponeses, criando uma reserva de trabalhadores desocupados dispostos a emigrar. A crise agrícola dos anos 1880, a queda na mortalidade e a estagnação da natalidade após 1870 aumentaram a pressão demográfica, enquanto a necessidade de "dinheiro vivo", inacessível aos camponeses, os empurrou para a emigração transoceânica. O governo italiano via a emigração como uma "válvula de escape" para aliviar tensões sociais, estimando a necessidade de 200 a 300 mil partidas anuais, embora grandes proprietários temessem a perda de mão de obra barata. Assim, a miséria, a falta de perspectivas e a busca por sobrevivência levaram milhões de italianos a cruzar o oceano.

O café e a imigração italiana thumb|right|190px|Imigrantes italianos trabalhando numa fazenda de café.

Na década de 1880, o café representava mais de 60% da pauta de exportações brasileiras.Foi a política que derrotou o escravismo Escravos constituíam a maioria da mão de obra nos cafezais. Contudo, em 1888, ocorreu a abolição da escravatura no Brasil, fato que ampliou a necessidade de mão de obra para trabalhar nas fazendas de café, necessidade essa que foi agravada em decorrência da rápida expansão das fazendas de café em direção ao Oeste Paulista. No final da década de 1880, os fazendeiros de café de São Paulo, especialmente no Oeste Paulista, começaram a buscar mão de obra livre apenas às vésperas da abolição da escravatura, quando se tornou evidente que o sistema escravista não se sustentaria. Essa mudança foi impulsionada pelas pressões abolicionistas e pela resistência dos escravos, que dificultavam a manutenção do modelo escravista.Revista da USP. "A transição do trabalho escravo ao livre no Oeste Paulista", 1972. Disponível em: www.revistas.usp.br. Alguns fazendeiros tentaram atrair trabalhadores brasileiros livres, incluindo ex-escravos e outros brasileiros, para suprir a demanda por mão de obra. No entanto, a falta de interesse dos brasileiros, devido às condições precárias de trabalho, como baixos salários, longas jornadas e moradias inadequadas, tornou essa alternativa pouco viável. Dean, Warren. "Café e Imigração: a crise da mão de obra em São Paulo". Editora Contexto, 2001. O cultivo do café, por ser delicado e exigir cuidados minuciosos em todas as etapas, desde o plantio até o beneficiamento, demandava uma grande quantidade de mão de obra.Marquese, Rafael de Bivar. "Escravidão e Café no Brasil". SciELO Brasil, 2008. Como resultado, os cafeicultores passaram a priorizar a imigração europeia, especialmente de italianos, incentivada por políticas governamentais que ofereciam passagens de navio pagas.Revista Brasileira de Estudos de População. "Migrações negras no pós-abolição", 2014. Disponível em: www.scielo.br

A chegada massiva de imigrantes criou um excedente de trabalhadores, que competiam entre si, permitindo aos cafeicultores manter salários baixos, mesmo em períodos de alta lucratividade do café (1880-1896). Esse cenário, segundo Lúcio Kowarick, reforçou a dominação da elite cafeicultora sobre os imigrantes, enquanto Michael M. Hall destaca que a renda real dos imigrantes declinou entre 1884 e 1914, dificultando sua organização política no sistema de colonato:Kowarick, Lúcio. Trabalho e vadiagem: a origem do trabalho livre no Brasil. São Paulo: Brasiliense, 1987.Hall, Michael M.; Stolcke, Verena. A introdução do trabalho livre nas fazendas de café de São Paulo. Estudos Econômicos, USP, v. 13, n. 2, 1983.