Alípio Dutra (Jaú, 1892 — São Paulo, 1964) foi um pintor paisagista e professor brasileiro.

Neto, filho e irmão de pintores renomados, estudou e frequentou escolas de arte do Brasil e do exterior nas primeiras décadas do século XX, como a Escola Complementar de Piracicaba, a Academia Julian de Paris, a Real Academia de Belas Artes de Bruxelas e a Escola Nacional de Belas Artes de Paris.

Além de ter lecionado na Escola Complementar de Piracicaba um ano depois de se formar, conquistou o prêmio Pensionato Artístico, em 1912, realizou exposições de sucesso no Salão de Belas Artes de São Paulo e no Rio de Janeiro e trabalhou no Comissariado do Estado de São Paulo e na embaixada da capital da França, realizando funções diplomáticas.

Alípio obteve sucesso com suas exposições também em cenário internacional, no Salão dos Artistas Franceses, além de dirigir o programa de propaganda do Instituto Brasileiro do Café em terras europeias. O intelectual teve papel importante como agente de ligação entre os meio políticos da Europa e os brasileiros, o que lhe rendeu a Medalha Constitucionalista de 1932. Alípio também foi membro do Conselho de Orientação Artística do Estado de São Paulo.

Seu estilo artístico teve grande influência de seu avô, Miguel Dutra, de seu pai, Joaquim Dutra, e de Almeida Júnior. Suas obras mais notáveis retratam paisagens bucólicas e pessoas simples realizando afazeres típicos de regiões interioranas.

Biografia

Antecedentes: A família artista

A vocação de Alípio Dutra para o ramo das artes não ocorre por acaso. Além dele, seus quatro irmãos - José Benedicto, Antonio Pádua, João e Archimedes - também tinham aptidão artística e seguiram carreira na área. Os quatro se formaram pela Escola Complementar de Piracicaba, e nela, lecionaram a disciplina de desenho e caligrafia, durante períodos distintos. José Benedicto, apesar de professor, constituiu uma exceção se comparado a seus outros irmãos: se dedicou à área da educação durante toda a vida, tendo atuado como docente e diretor escolar em inúmeras cidades paulistas, exceto no local onde despontou para o ramo das artes, o município de Piracicaba.

A veia artística da família Dutra, no entanto, não se restringiu apenas à geração de Alípio, da qual eram representantes seus primos e irmãos. Antes sequer do nascimento deles, seu bisavô, Miguel Dutra, mais conhecido pelo diminutivo de seu primeiro nome - Miguelzinho -, já tinha consolidado carreira como músico, primoroso organista, mestre de obras e escultor. Miguel era apto a produzir instrumentos e tocá-los. Aprendeu latim e teologia durante sua formação com padres carmelitas. Realizou diversos trabalhos de arquitetura em igrejas, onde pôde aliar sua aptidão artística ao ambiente no qual era acostumado a estar. Também esculpiu várias imagens. Contribuiu de maneira significativa para a cultura musical de Piracicaba, tendo trazido de Itu um importante acervo de músicas sacras, que passaram a ser reproduzidas em Piracicaba nas Semanas Santas. Dessa maneira, considera-se que Miguel Arcanjo Dutra foi, ainda na época do Império, um dos precursores do movimento musical piracicabano. Miguelzinho nasceu em Itu, em 15 de agosto de 1810, e faleceu em Piracicaba, no dia 22 de abril de 1875. Filho de Miguel e pai de Alípio, Joaquim Dutra também era pintor.Tarasantchi, Ruth Sprung. Obras desconhecidas de Miguelzinho Dutra. Anais do Museu Paulista, 2003. n. 11, p. 149-166.

Os primeiros passos Possuindo contato desde cedo com o ramo artístico, Alípio Dutra iniciou suas atividades de pintura com o pai, Joaquim Miguel Dutra, por volta de 1908. Embora não tivesse nascido em terras piracicabanas, foi na Escola Complementar de Piracicaba que o jovem artista se formou como professor, no ano de 1909. Sua carreira como docente foi iniciada justamente na escola na qual estudou, um ano após a sua formação. Alípio ministrou aulas no local até 1913. Desde cedo, o piracicabano mostrou interesse em movimentos culturais. A primeira manifestação disso foi sua participação na fundação do Grêmio Normalista De Piracicaba. Atuando ao lado de diversos colegas, como por exemplo Elias de Mello Ayres, Alípio ajudou a fundar o Grêmio e ocupou a função de Vice-Presidente da organização. Elias foi o primeiro-secretário.

Os primeiros indícios de que Piracicaba havia formado um grande artista ocorreram quando Alípio, na função de professor, ainda no ano de 1912, fez sua primeira exposição de pintura. Mesmo com relativo tempo de experiência na área das artes, o então jovem pintor conquistou o prêmio Pensionato ArtísticoDe Mello, Francisco de Assis Ferraz. A família Dutra. Instituto histórico e geográfico de Piracicaba. Ano VI 1999. 6. p. 19-29. do Estado de São Paulo, que lhe garantiu a oportunidade de aperfeiçoar suas técnicas na Academia Julien de Paris, local que abrigava a maior parte dos alunos que conquistavam os prêmios em Roma. Em 1913, após deixar sua vaga de professor em Piracicaba, que foi ocupada posteriormente pelo professor e artista plástico Joaquim Raimundo Bueno de Mattos, o irmão mais velho da família Dutra viajou à capital francesa, na condição de pensionista do Governo do Estado de São Paulo, para se aperfeiçoar na Academia. No local, estudou com expoentes e mestres do ramo das artes, como Marcel Baschet, Henry Royer, Willian Laparra, Lucien Simon e outros conhecidos nomes da pintura europeia.

Alípio não pôde concluir o curso devido à eclosão da Primeira Guerra Mundial, em 1914, e teve que voltar ao Brasil no mesmo ano. Depois de seu retorno, passou a lecionar para adultos, em uma escola do Cambuci, localizada no estado de São Paulo. Àquela altura, o pintor se dedicava, simultaneamente, a ministrar aulas e ao trabalho artístico, totalizando 15 horas de afazeres diários. O fato de Alípio não finalizar os estudos não o impediu de aprender valorosas técnicas de pintura, que foram usadas por ele em inúmeras exposições nos Salões de Belas Artes em São Paulo. Suas exposições em território paulista obtiveram sucesso. No Rio de Janeiro, onde elas também aconteceram, foram premiadas.

Desenvolvimento e consolidação da carreira artística O pintor piracicabano retornou ao continente europeu no ano de 1919, incumbido de trabalhar no Comissariado do Estado de São Paulo. Também naquele ano, realizou a ilustração do livro intitulado "A Filha da Floresta", cujo autor era seu amigo, o professor Thales Castanho de Andrade. No velho continente, participou de um concurso para estudar em outra renomada instituição de ensino no setor artístico: a Academia Royale de Bruxelas. Alípio conquistou o primeiro lugar. Em outro concurso concorrido do qual participou (no qual havia 20 vagas para 600 candidatos), o pintor conquistou o direito, após atingir a décima sexta posição, de estudar na Escola Nacional de Belas Artes de Paris. Na mesma época, trabalhou como adido comercial adjunto na embaixada da capital francesa. Alípio era presença frequente em rodas de discussão que ocorriam à tarde, no Café La Rotonde, e tinham a participação de renomados pintores também residentes no continente europeu, tais quais Túlio Mugnaini, José Wasth Rodrigues, Monteiro França, Campão, entre outros.Tarasantchi, Ruth Sprung. O paisagismo: contribuições italianas à visão brasileira. Revista de italianistica, 1995. v. 3. n. 3. p. 93-101.

Nos anos de 1921 e 1922, o pintor obteve sucesso em sua exposição de paisagens e figuras, realizada no Salão dos Artistas Franceses. O ano de 1926 reservou a Alípio a tarefa de dirigir o programa de propaganda do Instituto Brasileiro do Café. Para desenvolver tal atribuição, ele esteve, além da França, na Bélgica, Alemanha, Holanda, Itália, Espanha, Polônia e na então Checoslováquia. O artista deixou a função em 1934, ano em que o escritório brasileiro em Paris foi extinto. Alípio também escreveu L'industrie du froid au Brésil, trabalho apresentado em Congresso Internacional. O pintor recebeu a Medalha Constitucionalista de 1932 por ter atuado como agente de ligação entre os meio políticos da Europa e os brasileiros, atitude digna de sua personalidade patriota.

O Governo francês reconheceu os serviços prestados pelo artista brasileiro enquanto ele trabalhou como funcionário da Embaixada do Brasil, concedendo-lhe a Cruz de Cavaleiro da Ordem Nacional da Legião da Honra. Um dos grandes feitos conquistados por Alípio foi conseguir que o governo da França aprovasse uma lei de proteção ao café torrado.

Apesar de ter seguido também a carreira diplomática, Alípio Dutra não esquecia Piracicaba. Embora não tivesse retornado a dar aulas na Escola Normal, onde se formou, costumava visitar a cidade do interior paulista para ver sua família e exercitar seu ofício, retratando as paisagens do município piracicabano em seus quadros, no período em que esteve na Europa.

O retorno ao Brasil Alípio Dutra retornou ao Brasil no ano de 1934, quando passou a dirigir a Agência do IBC, no Rio de Janeiro. Entretanto, foi para o governo do Estado de São Paulo que o pintor realizou o maior número de trabalhos depois de sua volta às terras brasileiras. As funções que desempenhou possuíam caráter internacional, destacando-se a participação em comissão de organização, premiação e seleção no Salão Paulista de Belas Artes, e a atuação como membro do Conselho de Orientação Artística do Estado de São Paulo. Foi nesta posição que organizou um movimento que teve como objetivo fazer reverência à memória de Almeida Júnior, por meio da construção de um monumento e de um mausoléu. Alípio pintou um retrato de Almeida Júnior que foi colocado em uma das salas da Faculdade de Direito do Largo São Francisco, em São Paulo.De Mello Neto, José Joaquim Cardoso. Almeida Nogueira. Revista da Faculdade de Direito, Universidade de São Paulo, 1942. v. 38. p. 159-160.

Alípio foi laureado em diversos Salões ao redor do mundo: o Salão dos Artistas Franceses, o Nacional de Belas Artes e o Paulista de Belas Artes, sendo que, neste último, assegurou as principais conquistas. Foram elas: As Grandes Medalhas - de prata, em 1941, e de Ouro, em 1943 -, o Prêmio Fernando Costa, no ano de 1943, e a Medalha de Honra, em 1959. Deve-se pontuar que Alípio também conquistou a medalha de prata com a realização da obra “Velha pitando”, feita em homenagem ao artista Almeida Junior, pessoa muito admirada pelo pintor piracicabano. Foi também a Almeida Junior a quem Alípio dedicou um livro que não foi publicado. Atuando como co-autor, o piracicabano também contribuiu para a literatura com “História da pintura no Brasil". Ressalta-se ainda que, só no ano de 1953, ele conquistou o prêmio "em casa", o primeiro no Salão de Belas Artes de Piracicaba. O artista faleceu em São Paulo, no dia 24 de Janeiro de 1964, e foi sepultado em Piracicaba.

Obra e Legado

Contexto artístico da época  Até o final do século XIX, época na qual Alípio Dutra nasceu, grande número das pinturas eram produzidas de acordo com normas técnicas acadêmicas e convenções pressupostas. Os artistas eram obrigados a possuir um desenho caprichoso, de perspectiva justa, detalhista e precisa no uso e na composição das cores em suas obras. Essas convenções, em certa medida, constituíam uma espécie de impedimento à revelação de técnicas estilísticas próprias e individuais. O conceito de ver a imagem e o conceito de interpretá-la ainda se encontravam excessivamente associados. Pode-se dizer que arte e ciência eram vistas como uma coisa só, algo único.Rossi, Mirian Silva. A gênese do campo artístico paulistano: entre a vanguarda e tradição.  Sæculum–Revista de História, 2013. n. 28.

Com o passar do tempo, embora continuava-se exigindo que a pintura ainda estivesse muito preocupada em retratar o meio exterior, os cânones que regiam os métodos do fazer artístico foram ficando mais flexíveis. A exigência já não era absoluta em relação à maneira de tratar a forma, o tema e a cor.