Apolo (, ou Ἀπέλλων, transl. Apellōn) é um dos deuses principais da mitologia greco-romana, um dos 12 deuses do Olimpo. Filho de Zeus e Leto, e irmão gêmeo de Ártemis, possuía muitos atributos e funções, e possivelmente depois de Zeus foi o deus mais influente e venerado dentre todos os deuses gregos. As origens de seu mito são obscuras, mas no tempo de Homero já era de grande importância, sendo um dos deuses mais citados na Ilíada.
Era descrito como o deus da divina distância, que ameaçava ou protegia desde o alto dos céus, sendo identificado como o sol e a luz da verdade. Fazia os homens conscientes de seus pecados e era o agente de sua purificação ritual; presidia sobre as leis da Religião e sobre as constituições das cidades, era o símbolo da inspiração profética e artística, sendo o patrono do mais famoso oráculo da Antiguidade, o Oráculo de Delfos, e líder das musas. Era temido pelos outros deuses e somente seu pai e sua mãe podiam contê-lo. Era o deus da morte súbita, das pragas e doenças, mas também o deus da cura e da proteção contra as forças malignas. Além disso era o deus da Beleza, da Perfeição, da Harmonia, do Equilíbrio e da Razão, o iniciador dos jovens no mundo dos adultos, estava ligado à Natureza, às ervas e aos rebanhos, e era protetor dos pastores, marinheiros e arqueiros.
Embora tenha tido inúmeros amores, foi infeliz nesse terreno, mas teve vários filhos. Foi representado numerosas vezes desde a Antiguidade até o presente, geralmente como um homem jovem, nu e imberbe, no auge de seu vigor, às vezes com um manto, um arco e uma aljava de flechas, ou uma lira, e com algum de seus animais simbólicos, como a serpente, o corvo ou o grifo."Apollo". In: Encyclopædia Britannica Online, 12 de dezembro de 2009 No século V a.C., o culto a Apolo foi importado por Roma, inicialmente associado à cura e à profecia.Grant, Michael. "Roman religion: The divinities of the Republic". In: Encyclopædia Britannica online Paralelamente, a partir desse mesmo século, ele passou a ser frequentemente identificado na Grécia com Hélio, a personificação do Sol, um sincretismo que mais tarde os próprios romanos consolidariam."Helios". In: Encyclopædia Britannica online
Apolo foi identificado sincreticamente com grande número de divindades maiores e menores em muitos locais de culto, e sobreviveu veladamente ao longo do florescimento do cristianismo primitivo, que se apropriou de vários de seus atributos para adornar seus próprios personagens sagrados, como Cristo e o arcanjo São Miguel. Entretanto, na Idade Média Apolo foi identificado pelos cristãos muitas vezes com o Demônio. Mas desde a associação de Apolo com o poder profano pelo imperador romano Augusto, originou-se um poderoso imaginário simbólico de sustentação ideológica do imperialismo das monarquias e da glória pessoal dos reis e príncipes. Seu mito tem sido trabalhado ao longo dos séculos por filósofos, artistas e outros intelectuais para a interpretação e ilustração de uma variedade de aspectos da vida e psicologia humanas, da sociedade e de fenômenos da Natureza, e sua imagem continua presente na cultura popular em uma grande variedade de formas.Vignoli, Tito. Myth and Science: An Essay. Echo Library, 2007. p. 147Mandon, Christian. Apollon L'Européen. Racines et Traditions en Pays d'Europe. OnlineCosgrove, Denis E. Apollo's Eye: A Cartographic Genealogy of the Earth in the Western Imagination. The Johns Hopkins University Press, 2001. pp. x-xiBenchimol, Márcio. Apolo e Dionísio: arte, filosofia e crítica da cultura no primeiro Nietzsche. Volume 214 de Selo universidade. Annablume, 2003. pp. 65-70 Até mesmo seu culto, depois de um olvido de séculos, foi recentemente ressuscitado por correntes do neopaganismo.Makrides, Vasilios. Hellenic Temples and Christian Churches: A Concise History of the Religious Cultures of Greece from Antiquity to the Present. New York University Press, 2009. pp. 149-151
Origens thumb|230px|Moeda de Siracusa de 25 litras, em eletro, com efígie de Apolo e uma trípode, símbolo do seu oráculo Era chamado pelos gregos de Apollon ou Apellon, pelos romanos de Apollo e pelos etruscos de Apulu ou Aplu. A origem do nome Apolo é incerta, bem como a de seu mito. Apolo é um nome que não tem paralelos claros em outras línguas indo-europeias, e é o único deus olímpico que não figura nas cerca de mil tabuletas conhecidas escritas em Linear B, uma fonte de dados sobre a Grécia na Idade do Bronze. Embora essa omissão possa ser apenas casual e achados arqueológicos futuros possam trazer outras conclusões, em termos estatísticos permanece uma evidência significativa, o que aponta para uma origem possivelmente oriental e uma chegada à Grécia em período relativamente tardio. Graf sugere as seguintes hipóteses para sua origem: ele pode ter sido uma divindade indo-europeia, presente mas não documentada na Idade do Bronze grega, ou foi introduzido após a Idade das Trevas grega, ou proveio do Oriente Próximo, possivelmente da Anatólia ou da região semita.Graf, Fritz. Apollo. Gods and heroes of the ancient world. Taylor & Francis, 2009. p. 107
Para Plotino seu nome significava a negação da pluralidade: "não-muitos" (a-poli), acrescentando que para os pitagóricos significava o Uno. Plutarco seguia nessa linha dizendo que os pitagóricos associavam nomes divinos aos números, e que a Mônada era identificada com Apolo. Platão também pensava de forma semelhante, ligando Apolo com "o simples", e "o verdadeiro".Stamatellos, Giannis. Plotinus and the presocratics: a philosophical study of presocratic influences in Plotinus' Enneads. SUNY series in ancient Greek philosophy. New York: State University of New York Press, 2007. pp. 36-38 Burkert sugeriu que deriva de "manter uma assembleia sagrada", o que Nagy considerou plausível, baseado no que Hesíquio de Alexandria também referira, mas essa etimologia foi rejeitada por Frisk, Chantraine e Dietrich, que consideram a origem do nome simplesmente desconhecida. Bernal apresentou a hipótese de que derivou de Hórus, deus solar egípcio, através de adaptações fonéticas intermédias na Fenícia. Heródoto dizia que Apolo e Hórus eram o mesmo deus.Bernal, Martin. Black Athena: the Afroasiatic roots of classical civilization. Rutgers University Press, 1987. pp. 455-462Nagy, Gregory. Homer's text and language. University of Illinois Press, 2004. pp. 140-142
Seu mito
thumb|esquerda|190px|Cálamis: Apolo do Ônfalo ou Apolo Alexícaco (o que afasta o mal), cópia romana de original do , Museus Capitolinos
thumb|esquerda|190px|Apolo e Hércules disputando a trípode, pintura em vaso do Pintor de Taleides, c. Museu do Louvre thumb|esquerda|190px|esquerda|Ruínas do Templo de Apolo em Delfos
As primeiras referências literárias a Apolo se encontram em Homero, na própria fundação da literatura grega. E neste momento o deus já aparecia tão carregado de atributos que o poeta considerava difícil escolher por onde começar seu elogio. Como fica evidente, apesar das incertezas sobre a origem do mito e da ausência de documentação anterior, no ele já estava consolidado. Apolo é citado na Odisseia, é o foco de um dos Hinos Homéricos, e é um dos deuses protagonistas na Ilíada, e dessas fontes provêm as primeiras descrições de sua história.
Na Ilíada Apolo se coloca contra os gregos, e luta pelos troianos. Ele surge para vingar o ultraje a seu sacerdote Crises, cuja filha Criseida havia sido capturada por Agamemnon, e já aparece mostrando algumas das facetas de seu caráter, a belicosidade e violência de que era capaz, e seus atributos de causador e curador de doenças, semeando a peste entre os soldados gregos, e derramando sobre eles seus raios de fogo como uma chuva de flechas certeiras. Para aplacá-lo, não apenas Criseida foi devolvida a seu pai, mas os gregos tiveram de oferecer ao deus "uma perfeita hecatombe de touros e cordeiros", além de cantos e danças, e após tudo executado, Apolo deu-se por satisfeito e retirou a praga. Também foi o responsável pelo antagonismo entre Agamemnon e Aquiles; protegeu os heróis troianos Pandaros, Páris e Eneias, e também Heitor enquanto pôde; frustrou as investidas de Pátroclo, Diomedes e Aquiles, e foi quem conduziu a flecha de Páris que matou Aquiles. Quando Glauco foi ferido por uma flecha de Teucros, orou para Apolo, que imediatamente fechou a ferida e devolveu-lhe as forças. Macaon e Podalírio, dois netos de Apolo por seu filho Esculápio, também estavam presentes na batalha.Graf, pp. 9-16 Foi quem curou as feridas de Sarpedon, foi o instrumento de Zeus para evitar a profanação do corpo do guerreiro quando este foi morto, e velou pelo corpo de Heitor.Shapiro, Harvey Alan. Myth into art: poet and painter in classical Greece. Taylor & Francis, 1994. pp. 22; 29 Na Ilíada, Apolo também aparece como o deus da música, tocando sua lira para o deleite dos imortais,Homero. Íliada. Livro I, 609. Rivingtons, 1861. p. 24 e como o guardião dos cavalos de Eumelo, e do gado de Laomedonte.Smith, Sir William. Dictionary of Greek and Roman biography and mythology. C.C. Little and J. Brown, 1867. pp. 230-232
No Hino a Apolo, Homero abre o texto mostrando Apolo já adulto, como o arqueiro sublime, entrando no palácio dos deuses para assumir seu lugar entre os imortais e inspirando o temor em todos. Leto, sua mãe, o recebe e conduz ao seu assento, enquanto que seu pai Zeus lhe dá as boas-vindas, junto com os outros deuses. Depois o poeta passa a recapitular as circunstâncias de seu nascimento na ilha de Delos. Leto, uma ninfa filha do titã Céos, foi amada por Zeus e engravidou dos gêmeos Apolo e Ártemis. Hera, esposa legítima de Zeus, descobriu o romance e voltou sua ira para Leto, lançando contra ela a monstruosa serpente Píton, fazendo com que Leto partisse em fuga do monstro, sem encontrar um lugar a salvo para poder parir, pois Hera também ordenara a Gaia, a terra, que não oferecesse nenhum lugar de repouso para Leto. Parando momentaneamente na ilha de Ortígia, deu à luz Ártemis, mas só encontrou sossego enfim em Delos, que era uma ilha flutuante, sem ligação com Gaia. Ao pisar na ilha, Leto falou-lhe implorando que a recebesse, e fazendo o grande juramento em nome do Estige, prometeu-lhe erguer um templo e consagrá-la a seu filho, com o que a ilha aquiesceu à sua súplica. Entretanto, mesmo assistida pelas deusas Dione, Reia, Icneia, Têmis e Anfitrite, por nove dias e nove noites Leto sofreu as dores do parto sem que Apolo nascesse, uma vez que Hera havia impedido Ilícia, a deusa dos partos, de socorrê-la. Mas as deusas finalmente enviaram Íris, a mensageira dos deuses, para que seduzisse Ilícia com a oferta de um magnífico colar de ouro e âmbar de nove cúbitos de comprimento, e assim, antes que Hera protestasse, carregada pela veloz Íris ela desceu do Olimpo para ajudar Leto, e logo Apolo nasceu. O infante foi então banhado pelas deusas, envolto em faixas e ornado com uma coroa de ouro. Antes que mamasse em sua mãe, Têmis deu-lhe de beber o néctar dos deuses, e fê-lo comer a ambrosia divina, conferindo-lhe a imortalidade. Imediatamente tornou-se adulto, soltou-se das faixas, bradou reivindicando a lira e o arco, e declarou-se o porta-voz da vontade de Zeus. Sua luz refulgiu, e Delos floresceu em ouro.Lang, Andrew. The Homeric Hymns. BiblioBazaar, LLC, 2007. pp. 55-59