A Revolta da Armada foi um movimento de rebelião promovido por unidades da Marinha do Brasil (frequentemente chamada de armada na época) contra os dois primeiros governos republicanos do país, que estavam tomando feições de uma ditadura militar.Martinho, Francisco C. Palomanes "Democracia e ditadura no Brasil" EdUERJ, 2006 ISBN 8575110926 Página 33.Lima, Laura. "Worlding Brazil", Londres, 2014 ISBN 9780415716895 página 58Serbin, Kenneth P. "Secret Dialogues", University of Pitsburgh Press, 2000, ISBN 0822957264, página 24. A revolta desenvolveu-se em dois momentos; uma no governo de Deodoro da Fonseca e outra no governo que se seguiu, de Floriano Peixoto.
Primeira Revolta da Armada thumb|esquerda|180px|O presidente Deodoro da Fonseca Em 3 de novembro de 1891, registrou-se como reação à atitude do presidente da República, marechal Deodoro da Fonseca que, em meio a uma crise institucional, agravada por uma grave crise econômica, e com dificuldades em negociar com a oposição, em flagrante violação da Constituição recém-promulgada em 24 de fevereiro de 1891, ordenou o fechamento do Congresso. Por conta disso, os ferroviários da central do Brasil começaram uma greve e unidades da Armada, sob a liderança de Custódio de Melo, sublevaram-se e ameaçaram bombardear a cidade do Rio de Janeiro, então capital da República. Para evitar uma guerra civil, o marechal Deodoro renunciou à Presidência da República (23 de novembro de 1891).
Com a renúncia de Deodoro, que ocorreu apenas nove meses depois do início de seu governo, o vice-presidente Floriano Peixoto assumiu o cargo. A Constituição de 1891, no entanto, garantia que, se a presidência ou a vice-presidência ficassem vagas antes de se completarem dois anos de mandato, deveria ocorrer uma nova eleição, o que fez com que a oposição começasse a acusar Floriano por manter-se ilegalmente à frente da nação.
Segunda Revolta da Armada Começou a delinear-se em março de 1892, quando treze oficiais-generais (quatro almirantes e nove generais) enviaram uma Carta-Manifesto ao Presidente da República, Floriano Peixoto. Este documento exigia a convocação de novas eleições presidenciais para que, cumprindo-se o dispositivo constitucional, se estabelecesse a tranquilidade interna na nação. Floriano reprimiu o movimento, reformando (demitindo) 11 deles e passando 2 para a segunda classe; Eduardo Wandenkolk foi preso e mandado para a Tabatinga, posteriormente sendo anistiado pelo congresso.
thumb|200x200px|Aspecto da Baía de Guanabara no dia 13 de setembro de 1893, durante o bombardeio entre as fortalezas e os navios revoltosos.
thumb|200x200px|O Combate da Armação, em Niterói (9 de fevereiro de 1894).
Em 6 de setembro de 1893 um grupo de altos oficiais da Marinha exigiu a imediata convocação dos eleitores para a escolha dos governantes. Entre os revoltosos estavam os almirantes Saldanha da Gama, favorável ao retorno da monarquia, Eduardo Wandenkolk, ministro da marinha no governo de Deodoro e candidato a vice-presidente pela chapa do ex-presidente, e Custódio de Melo, ex-ministro da Marinha e candidato declarado à sucessão de Floriano. Suas adesões refletiam o descontentamento da Armada com o pequeno prestígio político da Marinha em comparação ao do Exército. No movimento encontravam-se também diversos soldados da marinha, monarquistas e republicanos, sendo esta discordância um dos motivos para o fracasso da revolta, já que houve intrigas internas.
thumb|esquerda|Fortificação de campanha (1894). Vê-se um canhão de 280 mm (único no Brasil), posicionado à barbeta, e soldados do 4º Batalhão de Artilharia da Guarda Nacional. |200x200px
A revolta teve pouco apoio político e popular na cidade do Rio de Janeiro, onde a partir de 13 de setembro diversas unidades encouraçadas trocaram tiros com a artilharia dos fortes em poder do Exército. Houve sangrenta batalha na Ponta da Armação, em Niterói, área guarnecida por aproximadamente 3 mil governistas, os quais eram compostos entre outros por batalhões da Força Pública e da Guarda Nacional.DONATO, Hernâni. Dicionário das batalhas brasileiras. 2ª edição. IBRASA, 1996"(...) os batalhões da Guarda Nacional: 1.° da reserva, 2.° da Capital Federal; 9.° também da Capital; 34.° de Niterói; (...)" (Donato 1996) Por conta dos acontecimentos da revolta, durante o governo de José Tomás da Porciúncula a capital do estado do Rio de Janeiro, então a cidade de Niterói, foi transferida para a cidade de Petrópolis em 1894, de onde só retornou em 1903.FERREIRA, Marieta de Moraes.A República na Velha Província Rio de Janeiro: Oligarquias e crise no estado do Rio de Janeiro (1889 1930). Rio de Janeiro: Editora Rio Fundo, 1989. ISBN 85-85297-04-2 Sem chance de vitória na baía da Guanabara, os revoltosos dirigiram-se para sul do país. Alguns efetivos desembarcam na cidade de Desterro (atual Florianópolis) e tentaram, inutilmente, articular-se com os federalistas gaúchos.
thumb|A rendição dos insurrectos.|200x200px
O presidente da República, apoiado pelo Exército brasileiro, pelo Partido Republicano Paulista e também pelos Estados Unidos, conteve o movimento em março de 1894, para o que fez adquirir, às pressas, no exterior, por meio do empresário e banqueiro estadunidense Charles Ranlett Flint, alguns navios de guerra, a chamada "frota de papel". Essa frota, adquirida nos Estados Unidos, foi também denominada pelos governistas como "Esquadra Flint" e viajou do porto de Nova Iorque até a baía de Guanabara tripulada por mercenários Americanos incluindo o Almirante Benham, de acordo com Joaquim Nabuco, as tropas contratadas para auxiliar o governo federal eram "a pior escória de filibusteiros americanos".CORRÊA DA COSTA, Sérgio. Brasil, Segredo de Estado - Incursão Descontraída pela História do País (5ª ed.). Rio de Janeiro: Record, 2001. Quando pareceu iminente a concessão coletiva do reconhecimento, em virtude de acordo entre vários governos, a esquadra americana recebeu ordem de romper à bala o bloqueio do Rio de Janeiro. E os cruzadores de Benham, na manhã de 29 de janeiro de 1894, selaram o fim irremediável da revolta. Em março de 1894 a rebelião estava vencida.
O rigor de Floriano Peixoto ante os dois movimentos revolucionários lhe valeu o cognome Marechal de Ferro.
Intervenção americana
thumb|O cruzador estadunidense Detroit, na Baía de Guanabara.|200x200px
Os Estados Unidos marcaram presença nos conflitos em dois momentos. Na primeira ocasião, pressionando o marechal Deodoro para renunciar e, assim, Floriano Peixoto assumir a presidência brasileira. A segunda foi em 1894, após três navios americanos serem supostamente atacados pelos rebeldes. Tal episódio ficou conhecido como Caso do Rio de Janeiro. Com isto, os norte-americanos enviaram uma frota para ajudar o governo brasileiro, combatendo os revoltosos e destruindo um bloqueio que ocorria no Rio de Janeiro.. A intervenção estrangeira também é mencionada em um livro de Sergio Corrêa da Costa, lançado em 1945 que contou com prefácio de João Filipe Pereira, ministro do exterior no governo Floriano Peixoto.Costa, Sérgio Corrêa da. A Diplomacia do Marechal - Intervenção Estrangeira na Revolta da Armada. Rio de Janeiro: Livraria Editora Zelio Valverde, 1945
O caso português
thumb|200px|O capitão de fragata Augusto de Castilho, comandante da corveta portuguesa Mindello, e o episódio do asilo concedido aos insurgentes brasileiros da Revolta da Armada, que assim ficaram salvos da morte
No dia 13 de março de 1894 o capitão de fragata português Augusto de Castilho concedeu asilo ao almirante Saldanha da Gama e rebeldes sobreviventes. O governo brasileiro reconheceu o ato do português, afirmando:
O governo brasileiro afirmava que o crime cometido pelos rebeldes era de pirataria, sendo assim não tinham o direito de asilo por não estarem sendo reprimidos por motivos políticos. O governo português entendeu que eram criminosos políticos, mas se comprometeu a não desembarcá-los em território estrangeiro, mantendo-os a bordo até a solução diplomática.
Porém, o capitão Augusto de Castilho afirmava que os seus navios (Mindello e Affonso de Albuquerque) não tinham condições de atravessar o Atlântico para desembarcar os brasileiros em território português, navegando com os rebeldes para a Bacia do rio da Prata, onde se pretendia fretar um navio para levar os rebeldes para Angola, contudo, com os navios fundeados no Prata, ocorre uma fuga de 254 rebeldes, incluindo do almirante Saldanha da Gama, que posteriormente viria a se unir na luta dos revolucionários na Revolução Federalista. Este ocorrido fez com que o ministro de relações exteriores do Brasil, Alexandre Cassiano do Nascimento rompesse relações com Portugal, que seriam reatadas durante o governo de Prudente de Moraes.
Embarcações rebeldes Embarcações da Marinha do Brasil
thumb|200x200px|A esquadra insurrecta. thumb|direita|200x200px|Encouraçado de Esquadra Aquidabã bombardeando os Fortes do Rio de Janeiro. miniatura|direita|200x200px| Cruzador Auxiliar Pereira da Cunha. miniatura|direita|200x200px| Encouraçado Sete de Setembro.
Encouraçado de Esquadra Aquidabã Encouraçado Sete de Setembro Encouraçado Fluvial Javari Cruzador República Cruzador Tamandaré Cruzador Trajano Canhoneira Marajó Torpedeira Araguari Torpedeira Iguatemi Torpedeira Marcílio Dias
Embarcações civis incorporadas pelos rebeldes Estas embarcações foram confiscadas pelas forças rebeldes, a fim de suprir as suas necessidades de combustível, munições e víveres:
Navios mercantes adaptados: Júpiter Marte Esperança Paraíba Pereira da Cunha (ex Vênus) Urano Rebocadores adaptados: Gil Blás Standard Luci Guanabara Vulcano Glória Bittencourt
Ver também Lutas e revoluções no Brasil
Bibliografia CAMPOS, Pedro Dias de. A Revolta de Seis de Setembro (A ação de São Paulo). Lisboa: Aillaud, Alves & Cia, 1913.
MENDONÇA Salvador de NABUCO, Joaquim. A Intervenção estrangeira durante a revolta de 1893. Brasília: Senado Federal, Conselho Editorial, 2010. RIBEIRO. Atanagildo Barata. Sonho no cárcere: dramas da revolução de 1893 no Brazil. Rio de Janeiro: Casa Mont'Alverne, 1895. TOPIK, Steven C. Comércio e Canhoneiras. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 2009. ISBN 9788535915228.
Ligações externas
A intervenção estrangeira durante a revolta de 1893, autor Joaquim Nabuco Efemérides brasileiras, de autoria do Barão do Rio Branco
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