A criação do personagem Superman é atribuída ao roteirista Jerry Siegel e ao desenhista Joe Shuster. Embora o personagem tenha sido publicado oficialmente em 1938, na primeira edição da revista americana Action Comics, pela então "National Publications", editora que viria a ser conhecida posteriormente como "DC Comics", ele havia sido concebido pela dupla cerca de cinco anos antes. Em 1931, os dois se conheceram quando estudantes no Glenville High School em Cleveland, e trabalharam juntos no jornal escolar, o "Glenville Torch", e em outros projetos pessoais, como Science Fiction, uma revista produzida e disponibilizada de forma independente, e considerada um dos primeiros fanzines a serem criados nos Estados Unidos. Em 1933, na terceira edição desse fanzine, seria publicada a história The Reign of the Superman, um conto de ficção científica protagonizado pelo primeira versão do personagem, então concebido como um vilão, e caracterizado como um ser humano que havia adquirido superpoderes após entrar em contato com uma rocha extraterrestre.

Em 1933, após a produção de Science Fiction ser descontinuada na quinta edição, Siegel e Shuster produziriam The Superman, uma história no então recente formato de revista em quadrinhos, mas esta acabaria sendo rejeitada por editoras e destruída quase que integralmente por um frustrado Shuster. Essa segunda versão do personagem era igualmente um ser humano, mas, ao contrário da criação anterior, possuía características de um herói. O personagem de The Superman não tinha superpoderes, e foi concebido como um possível aventureiro típico do gênero pulp, que se sobrepunha à ficção científica nessa rejeitada proposta: a segunda versão era um ser humano sem superpoderes. O conceito seria aproveitado em Slam Bradley, um personagem similar que surgiria na primeira edição da revista Detective Comics, em 1937.

Entre 1934 e 1937, paralelamente aos outros contos, tiras e histórias em quadrinhos que produziam, a dupla trabalharia na ideia de uma versão definitiva de "Superman": um ser alienígena, dotado de superpoderes, e que atuaria como herói. O personagem reuniu elementos presentes em histórias de outros personagens da época, como uma identidade secreta ou o uso de uma capa, mas a soma de suas características peculiares o tornaria suficientemente distinto de tudo o que havia sido produzido até então, e estabeleceria um novo gênero, as histórias em quadrinhos de super-herói, a partir da sua publicação oficial e imediato sucesso em 1938. Alguns dos elementos comumente associados à história de origem do personagem já se faziam presentes nessa versão, embora Siegel e Shuster viessem a revisá-la em 1939, conforme davam continuidade à produção de novas tramas com o personagem. A publicação do personagem se deu após a dupla ter concordado em vender os direitos sobre Superman para a editora, e a disputa judicial acerca da propriedade do personagem se estendeu por anos, com a dupla buscando provar que criara o personagem antes de ter sido contratada pela editora para produzir a história publicada em 1938.

A juventude de Jerry Siegel e Joe Shuster thumb|left|A revista americana Amazing Stories teve um papel crucial na popularização da ficção científica e ajudou a formar a literatura pulp, bem como o conceito de fandom. Os leitores trocavam correspondências, e isso contribuiria para a criação dos fanzines, incluindo Science Fiction, criado por Jerry Siegel e Joe Shuster em 1931.

Numa extensa entrevista concedida em 1983 à editora Fantagraphics Books para o segundo número da revista Nemo, Siegel e Shuster detalharam os eventos que os levaram a se tornarem amigos, mas foram incapazes de precisar o ano em que isso teria ocorrido, embora acreditassem que tinham cerca de 16 anos à época. Shuster estudara no Alexander Hamilton Junior High School, e integrou a equipe do jornal escolar, onde trabalhou ao lado de um primo de Siegel. Pouco depois, numa conversa sobre histórias em quadrinhos, o primo de Siegel mencionaria a ele que conhecia um rapaz que desenhava muito bem, e que ele iria se mudar para outro bairro. Siegel aceitaria a sugestão de conhecer Shuster, e aí começou a amizade dos dois, que estudariam juntos no Glenville High School e trabalhariam no jornal escola dali, o Glenville Torch. Em 1998, em seu livro Superman: The Complete History, o historiador Les Daniels colocaria esses eventos ocorrendo em 1931. Tanto Siegel quanto Shuster eram fãs de ficção científica e Daniels descreveria o relacionamento dos dois como "uma amizade forjada pelo interesse comum nas primeiras revistas a publicar regularmente histórias do gênero, incluindo a 'Amazing Stories' e a 'Weird Tales' "

Quando Hugo Gernsback publicou a primeira revista de ficção científica, Amazing Stories em 1926, permitiu que a seção de cartas divulgasse endereços de leitores, que passaram a trocar correspondências.Gerard Jones. Homens do Amanhã - geeks, gângsteres e o nascimento dos gibis. [S.l.]: Conrad Editora, 2006. 85-7616-160-5 Siegel trocava correspondências com outros fãs de ficção científica, como Julius Schwartz e Mort WeisingerDaniels (1998), p. 12. e criaria em 1929, aos 14 anos, um dos candidatos a primeiro fanzine de ficção científica dos Estados Unidos, Cosmic Stories, um publicação produzida de forma amadora pelo próprio Siegel usando uma máquina de escrever e um hectográfo. Como os demais fanzines, a revista era distribuída através dos correios, para outros fãs de ficção científica, numa época em que essas histórias ainda eram considerados um gênero inferior e marginalizado da literatura.

Não havia muita profissionalização ou estudo do que estava acontecendo à época - o termo fanzine, cunhado para designar essas publicações amadoras, só surgiria em outubro de 1940, assim denominado por Russ Chauvene. Em 1930, a Science Correspondence Club, produziria The Comet em Chicago. O fanzine era editado por Raymond A. Palmer e Walter Dennis e era um dos vários fanzines que surgiriam nos anos seguintes. Siegel era assinante de várias dessas publicações, e em 1932, surgiria a Science Fiction Digest, editada por Weisinger e Schwartz. Os fãs, ora atuando como compradores, ora como criadores de fanzines, estabeleciam uma ampla rede de contatos entre si através da troca de correspondências. Siegel escrevia à Schwartz falando sobre o quanto gostava dos contos publicados em Digest. O material facilmente disponibilizado para aqueles por dentro do meio da ficção científica, mas escondidos do público em geral. Siegel, em 1932, já estava produzindo diferentes contos de ficção científica, mas estes eram rejeitados pelas publicações profissionais, por isso, ele resolveria seguir o exemplo dos colegas e criar um fanzine e assim surgiria Science Fiction, produzida pelo próprio Siegel e por Joe Shuster. miniaturadaimagem|Capa da primeira edição de Gladiator (1930)

Com o subtítulo The Advance Guard of Future Civilization, a revista amadora Science Fiction trazia em seu interior várias histórias produzidas por Siegel, sempre acompanhadas por ilustrações de Shuster.Daniels (1998), p. 13. Além das histórias, Siegel incluía também resenhas de outros fanzines e de livros de ficção científica. O roteirista era fã do material de H.G. Wells e já produzia ao lado de Shuster algumas propostas para tiras de jornal que se enquadrassem no gênero de "ficção científica", como Interplanetary Police, sobre o departamento de polícia do futuro e Queeriosities, com quadros que ocupavam uma página inteira mostrando vislumbres do futuro. Essa última foi incluída em Science Fiction. Schwartz se tornaria um dos assinantes do fanzine e, eventualmente, também um dos colaboradores. Weisinger e Forrest J. Ackerman também produziriam material para o fanzine de Siegel. O historiador Sam Moskowitz, em Explorers of the Infinite, conduziria uma entrevista com o escritor de ficção científica Philip Wylie, e segundo este, o seu trabalho no livro Gladiator teria sido uma influência determinante para Siegel e Shuster. O livro de Wylie, à época do seu lançamento, foi disponibilizado numa tiragem limitada de dois mil exemplares, e a suposta "inspiração" é considerada controversa. Siegel negava ter lido o trabalho de Moskowitz, mas na segunda edição do fanzine, teria incluído uma resenha de sua própria autoria acerca do livro.

Segundo Gerard Jones, Wylie teria ameaçado processar os autores por plágio em 1940. Não, há entretanto, registros de nenhuma disputa judicial. A afirmação feita por Jones de que Siegel teria produzido uma resenha acerca de Gladiator, entretanto, carece de provas substanciais. Não há exemplares dessa revista em específico, e o próprio Jones admitiria, ao ser consultado pelo jornalista Erik German da revista Esquire, que não conferira a fonte primária, mas sim teria se baseado em relatos de pessoas que teriam lido o fanzine e afirmavam que ali haveria essa suposta resenha. Independente da existência dessa resenha, impossível de ser verificada pelo desaparecimento do material original, Jones afirmou à reportagem que acredita haver um "consenso" entre estudiosos de que Siegel deve ter lido o trabalho de Wylie e se inspirado ainda que os personagens tenham características bastante diferentes e as histórias apresentem temáticas opostas. As evidências para a tese sustentada por Wylie são consideradas "incertas", mas a influência da história é considerada "admissível". Os dois trabalhos possuem significativas diferenças: Wylie propõe um "super-homem" que assume integralmente sua superioridade e, apesar de acumular conquistas sexuais, é rejeitado pela população, enquanto Siegel e Shuster estabeleceriam um herói que mantém uma identidade secreta, é aceito pela população e se apaixona por uma colega de trabalho.

Quando garoto, Shuster estava obcecado com a cultura fitnessBest, Daniel (3 de agosto de 2012). "'Jerry and I did a comic book together...' Jerry Siegel & Joe Shuster Interviewed" e um fã de homens fortes como Siegmund BreitbartQuem é o homem que inspirou a criação do Superman? e Joseph Greenstein. Ele colecionava revistas e manuais de fitness e usou suas fotografias como referências visuais para sua arte.Ricca, Brad (2014). Super Boys: The Amazing Adventures of Jerry Siegel and Joe Shuster – the Creators of Superman. St. Martin's Griffin. ISBN 978-1250049681.

1932-1933: The Reign of the Superman

No início de 1933 seria publicada a terceira edição de Science Fiction, e fazendo parte do conteúdo dessa edição, um conto ilustrado, intitulado The Reign of the Superman.Daniels (1998), p. 13. Escrita por Siegel, a trama tinha como cenário os Estados Unidos durante a Grande Depressão, e apresentava um indigente chamado "Bill Dunn", que enquanto aguardava na fila de uma ação social era abordado por um cientista, o professor "Ernest Smalley", que o convence a participar como cobaia de um experimento em troca de comida e roupas. Smalley havia encontrado um meteoro, extraído da rocha substâncias químicas que não correspondiam à nada encontrado na tabela periódica, e pretendia aplicar essas substâncias estranhas em Dunn. O teste químico acaba por conceder poderes telepáticos à cobaia, que escapa e o que inicialmente se revela como telepatia começa a progredir cada vez mais, ao ponto de Dunn se tornar capaz e dominar mentalmente outras pessoas. Decidido a enriquecer, Dunn usa seus poderes inicialmente para "assaltar" outras pessoas, fazendo com que elas entreguem suas bolsas e carteiras para ele. Com o tempo, começa a fazer apostas, sempre garantindo a própria vitória, e a manipular o mercado de ações, obtendo grandes lucros. Quando Smalley observa o sucesso de sua cobaia, tenta aplicar o mesmo teste químico em si, mas é assassinado por Dunn, que não quer rivais.Daniels (1998), p. 14-15.