A Batalha de Zama, travada em 19 de outubro de 202 a.C., foi uma batalha decisiva da Segunda Guerra Púnica. O exército da República Romana, liderado por Cipião Africano, derrotou as forças de Cartago lideradas por Aníbal. Logo após essa derrota, o senado de Cartago assinou um tratado de paz, terminando assim uma guerra de quase 20 anos.

Antecedentes Os sucessivos desastres na primavera e começo do verão de 203 a.C. haviam alarmado muito toda Cartago. O mesmo Hanão que havia comandado a cavalaria pesada de Aníbal em Canas foi totalmente encarregado da defesa, e emissários cartagineses foram enviados a Roma para tentarem negociar os termos da paz. Como derradeiro golpe na sorte cartaginesa, uma tentativa de livrar Útica falhou. Todos esses desastres sucessivos geraram um clamor em todos os níveis, desde o conselho de Birsa até os lares, oficinas e armazéns da cidade — "Chamem Aníbal de volta!". Infelizmente, como os eventos demonstrariam, eles o haviam feito tarde demais.

A despeito da superioridade naval de Roma, três frotas cartaginesas conseguiram cruzar o Mediterrâneo entre a península Itálica e a África do Norte durante aquele ano. Uma conduzia o moribundo Magão de volta da costa lígure com sua força mista de tropas baleárides, lígures e gaulesas; a segunda foi despachada de Cartago para evacuar Aníbal; e a terceira foi essa mesma frota, aumentada pelos navios que Aníbal possuía em Crotona, trazendo-o de volta para defender Cartago em seu momento de necessidade. O mar é vasto, e nos dias de comunicações primitivas era bastante difícil para os romanos vigiar todas as rotas de navegação. Séculos mais tarde, até mesmo Nelson, que procurava avidamente pela frota de Napoleão, fracassou em avistá-lo enquanto ele navegava triunfantemente em direção ao Egito.

A frota de Aníbal, inadequada para suas necessidades, e o exército que finalmente trouxe consigo de volta para a África provavelmente somava não mais do que quinze mil homens (as estimativas se situam entre doze mil e vinte e quatro mil). O exército de Aníbal na Itália era um estranho composto. Deviam existir poucos dos veteranos que cruzaram os Alpes com ele cerca de quinze anos antes. Os brúcios, gauleses e desertores romanos, que então compunham a maior parte de suas tropas, claramente não eram da mesma qualidade, mas ainda seguiam de bom grado o mesmo homem, seu general cartaginês de um só olho. É evidente que não possuía muitos meios de transporte, pelo fato de que não pôde levar de volta os cavalos que o ajudaram em tantas de suas vitórias e de que ele tanto necessitaria no ano seguinte. Todos tiveram de ser sacrificados para que não ficassem para os romanos.

thumb|350px|Batalhas da Segunda Guerra Púnica.

No outono de 203 a.C., Aníbal viu pela última vez o pequeno porto de Crotona e, além da velha cidade, as escarpadas elevações da cordilheira de Sila, cobertas de árvores, uma paisagem de lobo selvagem. Durante os poucos anos antes de partir, teve que fazer daquela região seu lar, mas antes já havia percorrido toda a península Itálica; do vale do rio Pó, no extremo norte, à Etrúria, até a costa oeste e o golfo de Nápoles, onde as cidades gregas estavam incrustadas, e daí muitas vezes até as mais selvagens praias do Adriático. Ele conhecia a terra e seus povos como poucos italianos jamais conheceriam: cidades e povoados, as carrancudas muralhas de Roma — as quais nunca havia penetrado — planícies quentes, como Canas, vales domesticados, a indolente Cápua, camponeses e carvoeiros, rudes montanheses e disciplinados romanos — todo um mundo que ele quase havia feito seu. Agora, ele estava indo embora, para uma cidade da qual ele mal podia lembrar-se. Ainda assim, era por Cartago que havia lutado por tanto tempo e sofrido tanto — por Cartago e por um juramento feito por um menino diante de um altar enevoado.

No mesmo outono, antes de Aníbal deixar a península Itálica, os termos de um tratado proposto por Cipião Africano aos cartagineses já haviam sido aceitos por eles e enviados a Roma para discussão. Em vista da longa amargura da guerra, e da desolação que causaram a grandes regiões da península, foram moderados. Primeiramente, todas as forças cartaginesas deveriam deixar a Itália, e a Península Ibérica deveria ser abandonada. Todos os desertores, escravos fugitivos e prisioneiros de guerra deveriam ser enviados de volta a Roma. Todos os navios de guerra cartagineses, exceto vinte, deveriam ser entregues. Uma quantidade muito grande de trigo e cevada seria fornecida para alimentar as tropas romanas e, finalmente, uma pesada indenização seria paga. Não é surpresa que Cartago aceitasse tais termos, que eram favoráveis se comparados aos da Primeira Guerra Púnica, e um armistício fosse concluído, restando uma ratificação do tratado por parte de Roma. Cipião também enviou Massinissa para Roma em companhia de Lélio, o primeiro para obter o reconhecimento de seu reinado númida e o outro, que conhecia as ideias de Cipião, para aumentar os termos propostos e agir como porta-voz dos interesses de Cipião no tratado. É significativo que Massinissa fosse a Roma para a confirmação de seu reinado. No passado, Cartago havia sido o centro natural de autoridade para todos os reis locais e suas tribos. A ação de Cipião já havia garantido o domínio de Roma sobre a África do Norte. Mais ainda, ele presenteava seus inimigos fabianos com um fait accompli, e tornava Roma responsável pelos assuntos norte-africanos.

No mesmo ano em que Aníbal deixou a península Itálica, seu velho oponente Quinto Fábio Máximo faleceu, o homem que havia feito mais do que qualquer outro para ensinar aos romanos que o único modo de desgastar — e finalmente derrotar — tamanho gênio militar era à maneira do "Protelador". Os romanos, exceto em umas poucas desastrosas ocasiões, haviam seguido os seus preceitos até manter Aníbal confinado na selvagem terra do sul, e, por fim, em uma estreita área ao redor de Crotona. A notícia de que Aníbal havia finalmente deixado sua terra naturalmente trouxe regozijo a Roma e uma efusão de esperança, mas ainda persistia uma grande ansiedade, como relata Lívio: "Os homens não sabiam se começavam a regozijar-se por Aníbal ter-se retirado da Itália após dezesseis anos, deixando o povo romano livre para apossar-se dela, ou se ficavam ainda apreensivos com o fato de ele ter seguido para a África com seu exército intacto. Sem dúvida, mudara o local, pensavam eles, mas não o perigo. Prenunciando aquele poderoso conflito, Quinto Fábio, recentemente falecido, havia frequentemente predito, não sem razão, que em sua própria terra Aníbal seria um inimigo mais terrível do que em um país estrangeiro. E Cipião teria que lidar (...) com Aníbal, que nascera, pode-se dizer, no quartel-general de seu pai, o mais bravo dos generais, e fora criado e educado em meio às armas; aquele que ainda na infância já era um soldado e na tenra mocidade um general; que, envelhecendo como um vitorioso (Aníbal tinha cerca de quarenta e cinco anos), havia coberto as terras ibéricas e gálicas, e a Itália dos Alpes ao estreito de Messina, com a evidência de suas poderosas façanhas. Ele estava no comando de um exército cujas campanhas se igualavam às suas próprias em quantidade; endurecera-se por esforços tão grandes que dificilmente pode-se acreditar que seres humanos tivessem resistido; havia sido salpicado por sangue romano centenas de vezes e carregado os espólios, não só de soldados, mas de generais. Muitos homens que enfrentariam Cipião em batalha haviam morto com suas próprias mãos pretores, generais comandantes, cônsules romanos; haviam sido condecorados com coroas por bravura ao escalar muralhas de cidades e de acampamentos protegi dos; haviam vagueado por campos e cidades capturadas dos romanos. Todos os magistrados do povo romano juntos não tinham, naqueles tempos, tantas faces (símbolos de autoridade) quanto Aníbal poderia ostentar à sua frente, por tê-los capturado de generais caídos."

Esse relato, ao mesmo tempo que revela o grande pavor que Aníbal ainda infligia aos romanos, engana-se na descrição de seu exército. Lívio, ou suas fontes, fala do exército que marchou pelos Alpes, e que há muito tinha desaparecido. Aníbal agora tinha sob seu comando a esfarrapada e mista força que ocupara Crotona durante os poucos anos passa dos. Todavia, sua chegada à África, trazendo qualquer exército que fosse, teve tanto efeito sobre o moral cartaginês que o partido bárcida começou quase imediatamente a buscar um recomeço da guerra.

Aníbal desembarcou em Léptis, perto de Adrumeto, onde montou acampamento para o inverno e começou a reorganizar suas forças e recrutar mais soldados e cavaleiros. Ali foi reforçado pelos remanescentes do exército de Magão e soube que seu irmão caçula estava morto. Deve haver pouca dúvida de que Aníbal tivesse aceitado os termos de paz de Cipião como a melhor coisa para Cartago, muito embora pouco soubesse das facções políticas e intrigas da cidade. Porém, era astuto demais para não ver que a situação geral cartaginesa era sem esperança, em vista da perda da Península Ibérica, do crescente poder de Roma por mar e terra e do poderio humano nativo que abastecia suas legiões. Havia derrotado os romanos muitas vezes em batalha, é verdade, mas sabia que os romanos eram vigorosos e bravos soldados e que eles já estavam — perigosamente — começando a aprender suas táticas, adotando métodos mais flexíveis no campo de batalha. Em seus primeiros anos na Itália, tirara proveito dos desatualizados sistemas por meio dos quais os cônsules eram automaticamente encarregados das legiões e, uma vez que eles eram mudados a cada ano, nunca tinham tempo para aprender a perícia profissional ou adaptar suas táticas. Ele também tinha sido capaz de fazer uso de conhecidas divisões e diferenças de temperamento entre dois cônsules. Mas viu claramente no surgimento de Cipião a sombra do futuro, onde outros generais;, à sua própria maneira surgiriam — homens totalmente dedicados à guerra, aprendendo pela experiência em campo de batalha e familiarizando-se não somente com a natureza do terreno de batalha, mas com a qualidade e caráter racial de seus adversários. Seja lá o que Aníbal possa ter pensado sobre aceitar as condições de paz, a facção de guerra de Cartago, fazendo uso de seu nome e fama, havia agora assumido o controle.

No inverno de 203 a.C., um comboio de provisões da Sicília destinado às forças de Cipião foi colhido numa tempestade e encalhou na região de Cartago, e navios de guerra cartagineses foram enviados para capturá-lo e trazer as provisões para a cidade. Isso era totalmente contrário à trégua, e Cipião despachou enviados por mar para registrar um protesto. Em sua viagem de volta, os navios transportando os enviados foram traiçoeiramente atacados por trirremes cartagineses, mandados para esperá-los, e por pouco escaparam com vida. Cipião acertadamente viu isso como uma declaração de que a trégua estava acabada e a guerra reiniciada. Aqui, certamente, se evidenciava a fé púnica, embora seja muito duvidoso que Aníbal, setenta milhas distante em Adrumeto, tivesse qualquer conhecimento disso. Foi uma ação tola, algo a que ele não era propenso.