Guerra de Troia foi um conflito lendário da mitologia grega que ocorreu por volta do século XIII ou início do século XII a.C. A guerra foi travada pelos aqueus (gregos) contra a cidade de Troia depois que Páris de Troia raptou Helena de seu marido Menelau, rei de Esparta. A guerra é um dos eventos mais importantes da mitologia grega e foi narrada em muitas obras da literatura grega, principalmente na Ilíada de Homero.

O núcleo da Ilíada (Livros II a XXIII) descreve um período de quatro dias e duas noites no décimo ano do cerco de Troia, que durou uma década; a Odisseia descreve a jornada de volta para casa de Odisseu, um dos heróis da guerra. Outras partes da guerra são descritas em um ciclo de poemas épicos, que sobreviveram através de fragmentos. Episódios da guerra forneceram material para a tragédia grega e outras obras da literatura grega, bem como para poetas romanos, incluindo Virgílio e Ovídio.

Os antigos gregos acreditavam que Troia estava localizada perto dos Dardanelos e que a Guerra de Troia foi um evento histórico ocorrido nos séculos XII ou XIII a.C. Em meados do século XIX d.C., tanto a guerra quanto a cidade eram amplamente vistas como não históricas. Em 1868, o arqueólogo alemão Heinrich Schliemann conheceu Frank Calvert, que convenceu Schliemann de que Troia estava no que é hoje Hisarlık, na Turquia moderna. Com base nas escavações realizadas por Schliemann e outros, esta afirmação é agora aceita pela maioria dos estudiosos.In the second edition of his In Search of the Trojan War, Michael Wood notes developments that were made in the intervening ten years since his first edition was published. Scholarly skepticism about Schliemann's identification has been dispelled by the more recent archaeological discoveries, linguistic research, and translations of clay-tablet records of contemporaneous diplomacy.

A historicidade da Guerra de Troia permanece uma questão em aberto. Muitos estudiosos acreditam que existe um núcleo histórico na narrativa, embora isso possa simplesmente significar que as histórias homéricas são uma fusão de vários contos de cercos e expedições dos gregos micênicos durante a Idade do Bronze. Aqueles que acreditam que as histórias da Guerra de Troia derivam de um conflito histórico específico geralmente a datam dos séculos XII ou XIII a.C., muitas vezes preferindo as datas dadas por Eratóstenes, 1194–1184 a.C., que correspondem aproximadamente às evidências arqueológicas de uma queima catastrófica de Troia VIIWood (1985: 116–118) e ao colapso da Idade do Bronze Final.

Lenda

miniaturadaimagem|Sarcófago de Aquiles com cenas da Guerra de Troia, no , Turquia Tradicionalmente, a Guerra de Troia surgiu de uma sequência de eventos que começou com uma disputa entre as deusas Hera, Atena e Afrodite. Éris, a deusa da discórdia, não foi convidada para o casamento de Peleu e Tétis, e então chegou trazendo um presente: uma maçã dourada, com uma escritura gravada nela que diz "para a mais bela". Cada uma das deusas reivindicou ser a "mais bela" e a dona legítima da maçã. Elas submeteram o julgamento a um pastor que encontraram cuidando de seu rebanho. Cada deusa prometeu ao jovem uma recompensa em troca de seu favor: poder, sabedoria ou amor. O jovem — na verdade, Páris, um príncipe troiano que havia sido criado no campo — escolheu o amor e deu a maçã a Afrodite. Como recompensa, Afrodite fez com que Helena, a rainha de Esparta e a mais bela de todas as mulheres, se apaixonasse por Páris. O julgamento de Páris lhe rendeu a ira tanto de Hera quanto de Atena.Simpson, Michael. Gods & Heroes of the Greeks: The Library of Apollodorus, a University of Massachusetts Press, (1976). .

Helena, uma das filhas de Zeus, havia sido sequestrada por Teseu na sua juventude. Uma competição entre os pretendentes por sua mão em casamento acabou com ela sendo entregue a Menelau, o rei espartano. Todos os outros pretendentes foram obrigados a fazer um juramento (conhecido como "Juramento de Tíndaro") prometendo fornecer assistência militar ao pretendente vencedor, se Helena fosse roubada dele. Assim, quando Helena partiu (raptada ou por boa vontade) com Páris de Troia (filho do rei Príamo), Menelau convocou todos os reis e príncipes da Grécia para que honrassem seu juramento e declarassem guerra aos troinanos.Apollodorus, Gods & Heroes of the Greeks: The Library of Apollodorus, traduzido em inglês por Michael Simpson, a University of Massachusetts Press, (1976). .

O irmão de Menelau, Agamenão, rei de Micenas, liderou uma expedição de tropas aqueias (os gregos) a Troia e sitiou a cidade por dez anos por causa do insulto de Páris. Após as mortes de muitos heróis, incluindo os aqueus Aquiles e Ajax, e os troianos Heitor e Páris, a cidade caiu na armadilha do Cavalo de Troia. Os aqueus massacraram os troianos, exceto algumas das mulheres e crianças que eles mantiveram ou venderam como escravos e profanaram os templos, ganhando assim a ira dos deuses.Quinto de Esmirna, Posthomerica, in Quintus Smyrnaeus: The Fall of Troy , Arthur Sanders Way (Ed. & Trans.), Loeb Classics #19; Harvard University Press, Cambridge MA. (1913). (edição de 1962: ). Poucos aqueus retornaram em segurança para suas casas e muitos fundaram colônias em praias distantes. Os romanos mais tarde traçaram sua origem até Eneias, filho de Afrodite e um dos troianos, que teria liderado os troianos sobreviventes para a Itália.Grillo, L. "Leaving Troy and Creusa: Reflections on Aeneas' Flight." The Classical Journal, vol. 106, no. 1, 2010, pp. 43–68. . .

Mitologia thumb|esquerda|upright|Helena e Páris, de Jacques-Louis David, Museu do Louvre

A versão mitológica da guerra estava contida nos poemas do Ciclo Épico, formado por oito poemas: os Cantos Cípricos (ou Cípria) de , a Ilíada e a Odisseia de Homero, a Etiópida e O Saque de Troia de Arctino de Mileto, a Pequena Ilíada de Lesques de Pirra, Nostoi (Retornos) de , e Telegonia de . Destas obras só chegaram à atualidade na sua totalidade os poemas de Homero; dos restante só há fragmentos e informações de fontes secundárias da Antiguidade. Segundo essas versões, a guerra se deu quando os aqueus (os gregos da época micênica) atacaram Troia, para recuperar Helena, raptada por Páris.

A lenda conta que a (ninfa) do mar de Tétis era desejada como esposa por Zeus e por Posidão. Porém Prometeu fez uma profecia que o filho da deusa seria maior que seu pai, então os deuses resolveram dá-la em casamento a Peleu, um mortal já idoso, tencionando enfraquecer o filho, que seria apenas um humano. O filho de ambos foi Aquiles, e sua mãe, visando fortalecer sua natureza mortal, o mergulhou quando ainda bebê nas águas do mitológico e sombrio rio Estige. As águas tornaram o herói invulnerável, exceto no calcanhar, por onde a mãe o segurou para mergulhá-lo no rio (daí a expressão "calcanhar de Aquiles", significando ponto vulnerável). Aquiles se torna o mais poderoso dos guerreiros, porém, ainda é mortal. Mais tarde, sua mãe profetiza que ele poderá escolher entre dois destinos: lutar em Troia e alcançar a glória eterna, mas morrer jovem, ou permanecer em sua terra natal e ter uma longa vida, porém ser logo esquecido. Aquiles escolhe a glória.

Para o casamento de Peleu e Tétis todos os deuses foram convidados, menos Éris (ou Discórdia). Ofendida, a deusa compareceu invisível e deixou à mesa um pomo de ouro com a inscrição "À mais bela". As deusas Hera, Atena e Afrodite disputaram o título de mais bela e o pomo. Zeus não quis ser o juiz, para não descontentar duas das deusas, então ordenou que o príncipe troiano Páris, à época sendo criado como um pastor ali perto, resolvesse a disputa. Para ganhar o título de "mais bela", Atena ofereceu a Páris poder na batalha e sabedoria, Hera ofereceu riqueza e poder e Afrodite, o amor da mulher mais bela do mundo. Páris deu o pomo a Afrodite, ganhando sua proteção e o ódio das outras duas deusas contra si e contra Troia.

A mulher mais bela do mundo era Helena, filha de Zeus e de Leda, esposa de Menelau, rei de Esparta, que a conquistara disputando contra vários outros reis pretendentes com a ajuda de Ulisses (Odisseu) rei de Ítaca e Agamenão rei supremo de Micenas e de toda a Grécia, tendo todos jurado lealdade ao marido de Helena e sempre protegê-la, qualquer que fosse o vencedor da disputa.

Quando Páris foi a Esparta em missão diplomática, apaixonou-se por Helena e ambos fugiram para Troia, enfurecendo Menelau. Este foi pedir ajuda a seu irmão que, a conselho de Nestor (rei de Pilos), um de seus conselheiros, apelou aos antigos pretendentes de Helena, lembrando o juramento que haviam feito. Agamenão então assumiu o comando de um exército de mil navios e atravessou o mar Egeu para atacar Troia com o auxílio de Ulisses (que fingiu-se de louco para não ir a guerra sabendo que se partisse passaria 20 anos sem regressar a seu reino), levando consigo grandes guerreiros como Aquiles, Ájax, Ájax, o Menor, Diomedes, Idomeneu entre outros. As naus gregas desembarcaram na praia próxima a Troia e iniciaram um cerco que iria durar dez anos e custaria a vida a muitos heróis de ambos os lados. Dois dos mais notáveis heróis a perderem a vida na guerra de Troia foram Aquiles e Heitor (que foi morto por Aquiles por vingança por ter matado Pátroclo).

thumb|A Procissão do Cavalo de Troia, , Giovanni Domenico Tiepolo; National Gallery (Londres)

Finalmente, a cidade foi tomada graças ao artifício concebido por Odisseu (Ulisses): fingindo terem desistido da guerra, os gregos embarcaram em seus navios, deixando na praia um enorme cavalo de madeira, que os troianos decidiram levar para o interior de sua cidade, como símbolo de sua vitória, apesar das advertências de Cassandra. À noite, quando todos dormiam, os soldados gregos, que se escondiam dentro da estrutura oca de madeira do cavalo, saíram e abriram os portões para que todo o exército (cujos navios haviam retornado, secretamente, à praia) invadisse a cidade.

Apanhados de surpresa, os troianos foram vencidos e a cidade incendiada. As mulheres (inclusive a rainha Hécuba, a princesa Cassandra e Andrômaca, viúva de Heitor) foram escravizadas. O rei Príamo e a maioria dos homens foram mortos (um dos poucos sobreviventes foi Eneias, príncipe de Lirnesso, que fugiu de Troia carregando seu pai Anquises, já idoso, sobre os ombros).

E assim, Menelau recuperou sua esposa, Helena (tendo matado Dêifobo, com quem ela se casara, após a morte de Páris), e levou-a de volta a Esparta. Agamenão foi morto por sua esposa que lhe roubou o trono e Odisseu como profetizado passou com o fim da guerra (que durou dez anos) mais dez anos vagando pelo mar, até chegar a Ítaca vestido de mendigo para provar a fidelidade de Penélope, sua esposa, que estava cheia de pretendentes ao casamento e consequentemente ao trono, porém ela os enganara durante 20 anos até o retorno de seu marido que, ao descobrir tudo o que se passou em sua ausência, matou seus inimigos com a ajuda de seu filho.

Historicidade miniaturadaimagem|Mapa da Grécia Homérica miniaturadaimagem|Mapa da Trôade (Troas) na atual Turquia miniaturadaimagem| Tétis entrega a seu filho Aquiles armas forjadas por Hefesto (detalhe de uma hidria ática de figuras negras, 575–550 a.C.) miniaturadaimagem|239x239px| Schliemann foi o primeiro homem a localizar Troia no monte conhecido como Hisarlık. miniaturadaimagem| As muralhas de Troia no final da Idade do Bronze

A maioria dos gregos antigos dizia que a Guerra de Troia era um evento histórico, embora muitos entendessem que os poemas homéricos continham vários exageros. Por exemplo, o historiador Tucídides, conhecido por seu espírito crítico, considerava-a um evento real, mas duvidava que os gregos houvessem mobilizado a quantidade de navios (mais de mil) mencionada por Homero para atacar os troianos.Strauss, Barry. The Trojan War: A New History. New York: Simon & Schuster, 2006 (ISBN 0-7432-6441-X).