O termo experiência de quase-morte (ou EQM) refere-se a um conjunto de visões e sensações frequentemente associadas a situações de morte iminente, sendo as mais divulgadas a projeção da consciência (também chamada de "projeção astral", "experiência fora do corpo", "desdobramento espiritual", "emancipação da alma", etc.), a "sensação de serenidade" e a "experiência do túnel". Esses fenômenos são normalmente relatados após o indivíduo ter sido pronunciado clinicamente morto ou muito perto da morte, daí a denominação "EQM".Serralta, Fernanda Barcellos, Cony, Fernanda, Cembranel, Zelia, Greyson, Bruce, & Szobot, Cláudia Maciel. (2010). Equivalência semântica da versão em português da Escala de Experiência de Quase-Morte. Psico-USF, 15(1), 35-46. Retrieved November 26, 2014, from http://www.scielo.br/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S1413-82712010000100005&lng=en&tlng=pt. 10.1590/S1413-82712010000100005.Haesler, Natalie Trent-Von; Beauregard, Mario (2013). Experiências de quase morte em parada cardíaca: implicações para o conceito de mente não local. Rev. psiquiatr. clín. vol.40 no.5 São Paulo. O termo "experiência de quase morte" (em francês, "expérience de mort imminente"), foi proposto pelo psicólogo e epistemólogo francês Victor Egger em 1896 em "Le moi des mourants" como resultado das discussões no final século XIX entre filósofos e psicólogos, relativamente às histórias de escaladores sobre a revisão panorâmica da vida durante quedas.Egger Victor, « Le moi des mourants », Revue Philosophique, 1896, XLI : 26-38. O interesse popular pelas EQMs se iniciou devido principalmente ao trabalho do psiquiatra e parapsicólogo norte-americano Raymond Moody em seu best seller Vida Depois da Vida (1975).Duane S. Crowther (2005). Life Everlasting Cedar Fort, p. 19.

Objeto de estudo da psicologia anomalística e da neurociência, não há consenso científico que explique de forma definitiva as alegações deste fenômeno, nem sobre suas causas e significados.Sleutjes, A. ; Moreira-Almeida, Alexander ; Greyson, B. . Almost 40 Years Investigating Near-Death Experiences. An Overview of Mainstream Scientific Journals. The Journal of Nervous and Mental Disease, v. 202, p. 833-836, 2014. Indexado no PubMed.Forcen, Fernando Espi (2013). Between Life and Death: The Phenomenology of Near Death Experiences. Journal of Humanistic Psychiatry, Vol. 1, No. 2.. pp. 13-14.Agrillo, Christian (2011). Near-Death Experience: Out-of-Body and Out-of-Brain?. Review of General Psychology, Vol. 15, No. 1, 1–10.

Parapsicólogos e espiritualistas interpretam estas experiências como supostas provas ou evidências do dualismo mente-cérebro e da vida após a morte.Long, Jeffrey; Perry, Paul (2011). Evidence of the Afterlife: The Science of Near-Death Experiences. HarperCollins.Kelly, Emily Williams; Greyson, Bruce; Stevenson, Ian (1999-2000). Can Experiences Near Death Furnish Evidence of Life After death?. OMEGA, Vol. 40(4) 513-519.Consciência pode permanecer por até três minutos após a morte, diz estudo; 07/10/2014. O Globo. Página visitada em 20/11/2014. Por outro lado, médicos e cientistas apontam as EQMs como tendo características de alucinações que, durante o estado de coma ou perda de consciência profunda, surgem sob determinadas condições de stress físico e neurológico, sendo esta a explicação cientificamente mais aceita até o momento.

Em 1978 foi fundada a International Association for Near-Death Studies (Associação Internacional de Estudos do Quase-Morte) nos EUA.Greyson, Bruce (1985). A Typology of Near-Death Experiences. American Journal of Psychiatry, 142:967-969 A associação e a maior parte da literatura científica sobre o tema utilizam a "near-death experience scale" ("escala de experiência de quase morte"), método criado pelo psiquiatra e parapsicólogo Bruce Greyson para determinar as EQMs legítimas.Greyson, Bruce (1990). Near-death encounters with and without near-death experiences: Comparative NDE Scale profiles. Journal of Near-Death Studies, 8, 151-161.

Em 1982, uma pesquisa do Instituto Gallup apontou que cerca de 8 milhões de norte-americanos já tinham passado pela experiência de quase morte.Mauro, James. Bright lights, big mystery. Psychology Today, July 1992.3 Até 2005, haviam sido documentadas menções a EQM em 95% das culturas do mundo.Holden, Janice Miner; Greyson, Bruce; James, Debbie (2009). The Handbook of Near-Death Experiences: Thirty Years of Investigation. Praeger. Um dos mais antigos registros de EQM está contido na obra "A República" (Livro X) de Platão.Moody, R. (1975). Life After Life: The Investigation of a Phenomenon - Survival of Bodily Death, pp. 105-110. New York: Bantam.Pim van Lommel (2010). Consciousness Beyond Life: The science of the near-death experience. Haper One. pp. 96-99.

Descrição thumb|A tela "Ascensão dos abençoados" (1490) de Bosch é associada por pesquisadores de experiências de quase morte a alguns aspectos recorrentes em EQM.Pim van Lommel (2010). Consciousness Beyond Life: The science of the near-death experience. HarperOne. p. 28Evelyn Elsaesser Valarino (1997). On the Other Side of Life: Exploring the phenomenon of the near-death experience. Perseus Publishing. p. 203.

As pessoas que viveram o fenômeno relatam, geralmente, uma série de experiências comuns, descritas nos estudos de Elizabeth Kubler-Ross (1967) e Raymond Moody (1975), tais como: um sentimento de paz interior; a sensação de flutuar acima do seu corpo físico; a impressão de estar em um segundo corpo, distinto do corpo físico; a percepção da presença de pessoas à sua volta; a visão de seres espirituais; visão de 360º; sensação de que o tempo passa mais rápido ou mais devagar; ampliação de vários sentidos; a sensação de viajar através de um túnel intensamente iluminado no fundo ("experiência do túnel").

Nesse espaço, a pessoa que vive a EQM percebe a presença do que a maioria descreve como um "ser de luz", embora seu significado possa variar conforme os arquétipos culturais, a filosofia ou a religião pessoal. O portal entre essas duas dimensões é também descrito como a fronteira entre a vida e a morte. Por vezes, alguns pacientes que viveram essa experiência relatam que tiveram de decidir se queriam ou não regressar à vida física. Muitas vezes falam de um campo, uma porta, uma sebe ou um lago, como uma espécie de barreira que, se atravessada, implicaria não regressarem ao seu corpo físico.

Algumas EQMs são descritas como angustiantes, como foi analisado profundamente por Bruce Greyson e Nancy Evans Bush.Greyson, Bruce; Bush, Nancy E. (1992). Distressing near-death experiences. Psychiatry, Feb; 55(1):95-110.

Com a multiplicação de referências a acontecimentos comparáveis à experiência de quase morte, iniciou-se uma nova corrente, em que diversos pesquisadores de todo o mundo deram início à discussão e à análise do fenômeno de forma mais aberta. Grupos da comunidade médica passaram a olhar para a morte e a sobrevivência da consciência sob uma nova perspectiva, como ocorre, por exemplo, na Associação Internacional de Estudos de Quase Morte, no Departamento de Psiquiatria e Ciências Neurocomportamentais da Universidade da Virginiahttp://www.medicine.virginia.edu/clinical/departments/psychiatry/sections/cspp/dops e na Associação Brasileira de Medicina Psicossomática. Enquanto existem observadores que atribuem esse fenômeno a experiências espirituais, outros recorrem a teorias como alucinação, memória genética ou a simbolização do nascimento biológico.

Mudanças psicológicas e comportamentais Após a experiência de quase morte, muitas pessoas declaram terem alterado seus pontos de vista em relação ao mundo e às outras pessoas. As mudanças comportamentais geralmente são significativamente positivas, e o principal fator para a mudança é a perda do medo da morte (tanatofobia). Em geral, a pessoa diz enxergar o mundo de maneira mais vívida, ser inundada por sentimentos de bondade e amor ao próximo, ter vontade de ajudar os necessitados, sentir abertura a uma forma de religiosidade, aceitar-se mais e aceitar mais os outros, perder o sentido de importância do ego e se preocupar menos com as opiniões dos outros. Essas pessoas alegam que passaram a valorizar mais as suas vidas e as dos outros, reavaliaram os seus valores, a ética e as prioridades habituais e tornaram-se mais serenas e confiantes.Wells, Amber D. Reincarnation beliefs among near-death experiencers. Journal of Near-Death Studies, Vol 12(1), 1993, 17-34.

Investigação científica Até por volta da década de 60, este fenômeno costumava ser considerado pela ciência estrita como um assunto vulgar, fruto de lendas, crendice popular ou religiosidade. No entanto, na década de 1970, pesquisas como a do médico Raymond Moody e a da médica Elizabeth Kubler-Ross, principalmente após a publicação dos best-sellers Vida Depois da Vida e Sobre a Morte e o Morrer, respectivamente, levaram ao início de uma corrente de pesquisas em todo o mundo sobre o fenômeno. Mesmo com tanto interesse e a presença de numerosos relatos anedóticos, ainda não há qualquer comprovação científica sobre a realidade das experiências de quase-morte. Entre os cientistas que pesquisam o assunto, em geral há os que interpretam as experiências como reações do cérebro (visão monista) e há os que interpretam tais experiências como prova ou evidência de que a consciência não é produzida pelo cérebro (posição dualista); e de que existe vida após a morte.

Muitos pesquisadores, como a psicóloga Susan Blackmore e o anestesiologista Lakhmir Chawla, acreditam na teoria de que as EQMs são alucinações complexas causadas pela falta de oxigênio no cérebro durante a etapa final do processo de morte.Bassham, Gregory (2004). Critical Thinking: A Student's Introduction. McGraw-Hill, p. 485. ISBN 0-07-287959-9http://news.discovery.com/human/health/near-death-brain.htm No entanto, muitos outros pesquisadores, como os psiquiatras Raymond Moody e Bruce Greyson, discordam das teorias materialistas e defendem teorias que interpretam as experiências como evidências de que a consciência do ser humano existe independentemente do cérebro, argumentando principalmente que muitas pessoas demonstram percepções extrassensoriais com precisão em seus relatos de EQM (como por exemplo o famoso caso de EQM da cantora Pam ReynoldsJE Geshwiler (28/05/2010), Pam Reynolds Lowery, noted for near-death episode, The Atlanta Journal-Constitution. Página visitada em 30/06/2014.http://www.near-death.com/experiences/evidence01.html) e que não há sinais de funções mentais prejudicadas nas situações clínicas em que as EQMs ocorrem.http://www.near-death.com/evidence.html

O físico Sir Roger Penrose e o anestesiologista Stuart Hameroff, baseados na teoria desenvolvida e denominada por eles como orchestrated objective reduction, defendem que em EQM a "alma quântica" deixa o sistema nervoso e re-entra no cosmos.Gayle, Damien. Near-death experiences occur when the soul leaves the nervous system and enters the universe, claim two quantum physics experts. Daily Mail (online), 30-10-2012. Segundo Hameroff, "é possível que a informação quântica que constitui a consciência possa mudar para planos mais profundos e continue a existir puramente na geometria do espaço-tempo, fora do cérebro, distribuída não-localmente", como uma "alma quântica" à parte do corpo.Hameroff, S., and Chopra, D. (2012). The "Quantum Soul": A Scientific Hypothesis. In Alexander Moreira-Almeida and Franklin Santana Santos (Eds.), Exploring Frontiers of the Mind-Brain Relationship (Mindfulness in Behavioral Health (ch. 5). New York: Springer.