Ine foi rei de Wessex entre 688 e 726. Ele não conseguiu manter os ganhos territoriais obtidos por seu predecessor, Ceduala, que colocou a maior parte do sul da Inglaterra sob seu comando e expandiu substancialmente os territórios dos saxões ocidentais. No final de seu reinado, os reinos de Kent, Sussex e Essex já não estavam mais sob domínio saxão ocidental; porém, Ine manteve o controle sobre o que hoje é Hampshire e consolidou e expandiu o território da Saxônia Ocidental na península ocidental.
Ine é lembrado por seu código legal ( - "leis de Ine"), outorgadas por volta de 694, as primeiras de um rei anglo-saxão fora de Kent. Elas revelam muito da história da sociedade anglo-saxônica e muito das convicções cristãs de Ine. O comércio se desenvolveu significativamente durante seu reinado, com a cidade de Hamwic (atual Southampton) ganhando importância. Foi provavelmente durante o reinado de Ine que os saxões ocidentais começaram a cunhar suas próprias moedas, embora nenhuma tenha sido encontrada até com seu nome.
Abdicou em 726 para peregrinar a Roma, deixando, nas palavras do cronista contemporâneo Beda, o reino para "homens mais jovens". Foi sucedido por Etelhardo.
Genealogia e ascensão Fontes antigas concordam que Ine era filho de Cenredo e que este era filho de Ceolvaldo (Ceolwald); daí para trás, a concordância diminui.Swanton, Anglo-Saxon Chronicle, pp. 42–43. Entre seus irmãos estava um rapaz, Ingildo (Ingild), e duas irmãs, Cuteburga (Cuthburh) e Cuemburga (Cwenburg). Cuteburga era casada com o rei Aldfrido (Aldfrith)Kirby, Earliest English Kings, p. 143. da Nortúmbria e o próprio Ine era casado com Etelburga (Æthelburg). Beda conta que Ine era "de sangue real", o que significa que era da linhagem real de Gewisse, o mais antigo nome tribal saxão ocidental.Beda, História Eclesiástica do Povo Inglês, citado na tradução de Leo Sherley-Price, p. 276.
A genealogia de Ine e dos reis da Saxônia Ocidental é conhecida através de duas fontes: a "Crônica Anglo-Saxônica" e a "Lista Real Genealógica Saxônica Ocidental". A Crônica foi escrita no final do , provavelmente na corte de Alfredo, o Grande, e alguns de seus anais incorporaram breves genealogias dos reis da Saxônia Ocidental. Estas geralmente divergem das informações mais completas da Lista Real.Para uma discussão da "Crônica" e da "Lista Real" veja Yorke, Kings and Kingdoms, pp. 128–129. Para uma recente tradução de ambas as fontes, veja Swanton, Anglo-Saxon Chronicle, pp. 2, 40–41. As inconsistências parecem resultar dos esforços de cronistas posteriores em demonstrar que cada rei na lista descendia de Cerdico (Cerdic), o fundador, segundo a Crônica, da linhagem saxônica ocidental na Inglaterra.Yorke, Kings and Kingdoms, pp. 142–143.
O predecessor de Ine no trono da Saxônia Ocidental foi Ceduala, mas existe alguma incerteza sobre a transição dele para Ine. Ceduala abdicou em 688 e partiu para Roma para ser batizado. De acordo com a Lista Real, Ine reinou por 37 anos, abdicando em 726. Estas datas implicam que ele só ascendeu ao trono em 689, o que pode indicar um período de incerteza entre a abdicação de Ceduala e a ascensão de Ine. É possível que este tenha reinado junto com o pai, Cenredo, por um período: há evidências fracas para reinados conjuntos e mais fortes para sub-reis, reinando sob um monarca mais poderoso na Saxônia Ocidental não muito antes desta época.Yorke, Kings and Kingdoms, p.145–146 Ine reconhece a ajuda de seu pai em seu código legalKirby, Earliest English Kings, p. 122. e há uma escritura de terras que indica que Cenredo ainda estava reinando na da Saxônia Ocidental depois da ascensão de Ine.Kirby, Earliest English Kings, p. 120.
Reinado thumb|300px|Mapa dos reinos britânicos no
A extensão do território saxão ocidental no início do reinado de Ine é bem conhecido. O vale do alto Tâmisa de ambos os lados do rio era havia muito tempo o território de Gewisse, embora Ceduala tenha perdido todo o território ao norte do rio para o Reino da Mércia antes da ascensão de Ine. Para o oeste, sabe-se que Ceaulino da Saxônia Ocidental alcançou o Canal de Bristol cem anos antes,Stenton, Anglo-Saxon England, p. 29. Os saxões ocidentais desde então se expandiram para o sul através da península sudoeste, empurrando a fronteira com os reinos britânicos da Dumnônia, que provavelmente era, grosso modo, equivalente às regiões modernas de Devon e Cornualha.Stenton, Anglo-Saxon England, pp. 72–73. Na fronteira oriental do território saxão ocidental estava o reino dos saxões orientais, que incluía Londres e o que é hoje Surrey. Para o sudeste estavam os saxões meridionais, na costa a leste da Ilha de Wight. Além de Sussex estava o Reino de Kent.Blair, Roman Britain, p. 209. O predecessor de Ine, Ceduala, se impôs como senhor da maioria destes reinos ao sul,Yorke, Kings and Kingdoms, pp. 137–138. apesar de não ter conseguido evitar incursões mércias ao longo do alto Tâmisa.
Ine manteve o controle da Ilha de Wight e continuou avançando na Dumnônia, mas os ganhos territoriais de Ceduala em Sussex, Surrey e Kent foram todos perdidos até o final de seu reinado.
Kent, Essex, Sussex e Surrey Ine firmou a paz com Kent em 694, quando seu rei, Vitredo pagou a Ine uma grande soma em dinheiro para compensar a morte do irmão de Ceduala, Mul, que havia sido morto durante a revolta de Kent de 687. O valor oferecido é incerto; a maior parte dos manuscritos da "Crônica Anglo-Saxônica" relatam "trinta mil" e outras especificam trinta mil "libras". Se estas libras foram iguais às esceta, então a quantia seria a mesma de um veregildo real, ou seja, o valor legal de uma vida humana de acordo com seu status social.Swanton, Anglo-Saxon Chronicle, 40–41, nota 3. Lapidge, Michael (ed.), "Wergild", in The Blackwell Encyclopedia of Anglo-Saxon England, p. 469.
Ine conseguiu manter sob controle os saxões meridionais, conquistados por Ceduala em 686, por um período.Lapidge, Michael (ed.), "Ine", in The Blackwell Encyclopedia of Anglo-Saxon England, p. 251. Existe uma referência ao rei Notelmo de Sussex (Nothhelm) numa escritura de 692 para um parente de Ine (talvez parente por casamento).Kirby, Earliest English Kings, p. 125–126. Sussex ainda estava sob domínio saxão ocidental em 710, quando aparece um registro de Notelmo tendo participado de uma campanha com Ine no ocidente contra a Dumnônia.
O controle de Surrey, que possivelmente jamais tenha sido um reino independente, havia passado por Kent, Mércia, Essex e Saxônia Ocidental nos anos anteriores a Ine. Essex também incluía Londres e a Diocese de Londres incluía Surrey, o que parece ter sido motivo de fricção entre Ine, os saxões orientais e os reis mércios, até que a província foi finalmente transferida para a Diocese de Winchester em 705.Yorke, Kings and Kingdoms, p. 49. Evidências para o controle Ine sobre Surrey desde o princípio vem da introdução de seu código legal, no qual ele faz referência a Earconvaldo (Earconwald), bispo de Londres, como "meu bispo".Veja Eorcenvaldo, nas seções "Events" e "Law-Making", em As relações subsequentes de Ine com os saxões orientais foram esclarecidas um pouco mais numa carta, escrita em 704 ou 705, pelo bispo Valdero (Waldhere) de Londres para Bertualdo (Berhtwald), o arcebispo de Cantuária. Ela faz referência a "disputas e discórdias" que surgiram "entre o rei dos saxões ocidentais e os monarcas de nosso país". Os monarcas citados por Valdero são Sigeardo (Sigeheard) e Suefredo (Swæfred) dos saxões orientais e a causa da discórdia foi o abrigo de exilados saxões ocidentais em Essex. Ine concordou com a paz desde que os exilados fossem expulsos. Um concílio, em Brentford, foi planejado para resolver a questão definitivamente.Uma tradução da carta de Valdero está em Whitelock, English Historical Documents, p. 729. A esta altura, Surrey já havia claramente passado para o controle saxão ocidental.
Beda relata que Ine manteve Sussex sob controle por "muitos anos",Beda, História Eclesiástica do Povo Inglês, citado na tradução de Leo Sherley-Price, p. 230. mas, em 722, um exilado chamado Ealdberto fugiu de Surrey para Sussex, o que deu motivo para Ine invadir. Três anos depois, invadiu novamente, desta vez matando Ealdberto, o que indica Sussex havia conseguido se livrar do domínio saxão ocidental em algum momento antes disto. Já se sugeriu que Ealdberto seria filho de Ine ou de seu irmão Ingildo.
Dumnônia e Mércia Em 710, Ine e Notelmo lutaram contra Gerainto de Dumnônia segundo a "Crônica Anglo-Saxônica" e, segundo João de Worcester, Geraint foi morto em combate. O avanço de Ine lhe trouxe o controle da região da moderna Devon e estabeleceu a nova fronteira da Dumnônia no rio Tamar. Os Annales Cambriae, uma crônica do ,Higham, King Arthur, p. 170. relata que, em 722, os britânicos derrotaram seus inimigos na Batalha de Hehil. Os "inimigos" só podem ser Ine ou gente sob seu comando, mas a localização da batalha permanece um mistério; historiadores já sugeriram diversos locais, tanto na Cornualha quanto em Devon.Todd & Fleming, The Southwest, p. 273.
Em 715, Ine travou uma batalha em Woden's Barrow contra os mércios liderados por Ceolredo da Mércia (Ceolred) ou junto com eles contra um oponente não identificado; o resultado não foi registrado. Woden's Barrow é um tumulus, chamado atualmente de Adam's Grave, em Alton Prior, Wiltshire.Swanton, Anglo-Saxon Chronicle, p. 14. Ine pode não ter conseguido nenhuma das terras ao norte do Tâmisa que pertenciam aos saxões ocidentais na época de seus predecessores, mas sabe-se que ele controlava a margem sul: uma escritura de 687 revela que ele concedeu terras para uma igreja em Streatley no Tâmisa e na vizinha Basildon.
Outros conflitos Em 722, a "Crônica" relata que Ine assassinou um tal Cinevulfo (Cynewulf), de quem nada mais sabemos, embora seu nome sugira uma ligação com a linhagem real da Saxônia Ocidental. Uma disputa aparentemente irrompeu na família real logo depois: em 722, ainda segundo a "Crônica", a rainha de Ine, Etelburga, destruiu Taunton, construída por seu marido em algum momento anterior de seu reinado.
Assuntos internos A primeira menção da função de ealdormano na Saxônia Ocidental e a primeira referência aos condados que eles comandavam ocorreu durante o reinado de Ine. Pode ter sido Ine que dividiu a Saxônia Ocidental de forma similar aos modernos condados de Hampshire, Wiltshire, Somerset, Devon e Dorset, apesar de fronteiras administrativas mais antigas possam também ter influenciado esta divisão. Já foi sugerido que estes condados começaram como divisões do reino entre membros da família real.
Em cerca de 710, na metade do reinado de Ine, o povoado comercial de Hamuíco foi fundado na margem ocidental do rio Itchen, uma região que hoje é parte da moderna cidade de Southampton. Entre os bens negociados neste porto estavam vasilhas de vidro e, por conta de achados arqueológicos de ossos de animais, peles. Mais evidências de comércio foram reveladas por achados de bens importados como mós, pedras de amolar e cerâmicas diversas, além de escetas da cidade, incluindo moedas frísias. O comércio mais especializado também ocorria ali, inclusive têxteis, peças metalúrgicas e ferrarias em geral. Não se sabe se Ine se interessava por Hamuíco, mas alguns dos bens que ele apreciava, especialmente artigos de luxo, eram importados por ali e os comerciantes provavelmente precisavam de proteção real. A população total do povoado foi estimada em e este alto número por si só indica o envolvimento de Ine, pois ninguém além do rei poderia organizar uma forma de alimentar e abrigar tanta gente num só lugar.Campbell (ed.), The Anglo-Saxons, p. 102. Yorke, Kings and Kingdoms, pp. 139–140.