O estorninho-de-reunião ou estorninho-da-reunião (Fregilupus varius) é uma espécie extinta de ave da família dos estorninhos que, como sugere seu nome, viveu na ilha da Reunião e desapareceu na década de 1850. Seus "primos" mais próximos são os estorninhos de Rodrigues (Necropsar rodericanus) e Maurício (Cryptopsar ischyrhynchus), também endêmicos dessas ilhas vizinhas no Oceano Índico. As três espécies aparentemente evoluiram de um ancestral comum do sudeste Ásiático. O pássaro foi mencionado pela primeira vez no século XVII e acredita-se que seja relacionado com a poupa-eurasiática (Upupa epops), a partir do qual derivou seu nome popular em inglês, hoopoe starling (literalmente "estorninho-poupa"). Embora tenham sido propostas diversas afinidades taxonômicas para a espécie, a análise do DNA confirmou que ela era, de fato, um tipo de estorninho.
A ave tinha 30 cm de comprimento. Sua plumagem era principalmente branca e cinzenta, com o dorso, asas e cauda de uma tonalidade mais escura de marrom e cinza. Possuía uma crista delicada e móvel, curvada para frente. O pássaro poderia ter dimorfismo sexual, com os machos maiores e com bicos mais curvos. Os indivíduos juvenis eram mais marrons que os adultos. Pouco se sabe sobre o comportamento desse estorninho. Relatos de época afirmam que viviam em grandes bandos, e habitavam áreas úmidas e brejos. A ave era onívora, alimentando-se de matéria vegetal e de insetos. Sua pelve era robusta, seus pés e garras grandes e suas mandíbulas fortes, indicando que forrageavam próximo do chão.
Os pássaros foram caçados por colonos da ilha da Reunião, que também os mantinham engaiolados. O estorninho foi relatado como sendo uma espécie em declínio no início do século XIX e provavelmente extinguiu-se antes da década de 1860. Diversos fatores foram apontados como causas de seu desaparecimento, incluindo a concorrência e predação por espécies introduzidas, doenças, desmatamento e caça excessiva por seres humanos. A ave servia como alimento para os colonos e também era exterminada por ser considerada uma suposta praga agrícola. Atualmente, apenas dezenove exemplares existem em museus ao redor do mundo.
Taxonomia A primeira menção à espécie é, provavelmente, a que consta numa lista de aves de Madagascar datada de 1658 e escrita por Étienne de Flacourt, então governador local francês. Embora mencionasse uma poupa preta e cinza, autores posteriores questionaram se a citação se refere ao estorninho-de-reunião ou à subespécie malgaxe de poupa (Upupa epops marginata), apesar desse pássaro se assemelhar à subespécie da Eurásia. O estorninho-de-reunião foi observado pela primeira vez na ilha da Reunião (então chamada de "Bourbon"), uma das ilhas Mascarenhas, pelo padre católico Bénigne Vachet em 1669, mas não foi descrito em detalhes até o relato de 1674 do viajante Sieur Dubois:
Poupas ou Calandres, com um tufo branco na cabeça, o resto da plumagem branca e cinza, o bico e os pés como os de uma ave de rapina; eles são um pouco maiores que pombos jovens. Esta é uma outra boa ave de caça [isto é, para comer] quando gorda.Tradução livre de: "Hoopoes or 'Calandres', having a white tuft on the head, the rest of the plumage white and grey, the bill and the feet like a bird of prey; they are a little larger than the young pigeons. This is another good game [i.e., to eat] when it is fat."
miniaturadaimagem|200px|Ilustração tipo por François-Nicolas Martinet, década de 1770. Os primeiros colonizadores da ilha da Reunião chamavam a ave de huppe, porque sua crista e seu bico curvo pareciam com os da poupa-eurasiática (huppe fasciée em francês). Pouco foi registrado sobre o estorninho nos cem anos seguintes à primeira descrição, mas exemplares começaram a ser levados para a Europa durante o século XVIII. A espécie foi descrita cientificamente pela primeira vez pelo naturalista francês Philippe Guéneau de Montbeillard na edição de 1779 de Histoire Naturelle, do conde de Buffon. Entretanto, ela não recebeu um nome científico até sua designação pelo holandês Pieter Boddaert para a edição de 1783 do livro. Boddaert batizou o pássaro de Upupa varia, classificando-o no mesmo gênero da poupa, e nomeando-o com um epíteto específico que significa "variado", uma referência à cor preta-e-branca. Boddaert se baseou nas ilustrações dos trabalhos de Buffon para dar o nome binomial da espécie. Por isso uma imagem anexa à obra da década de 1770, de autoria de François-Nicolas Martinet, é considerada o holótipo ou ilustração tipo. Acredita-se que essa ilustração foi baseada num exemplar do Museu de História Natural de Paris, mas é impossível ter certeza disso. O museu de Paris tinha inicialmente cinco peles da espécie, algumas delas só chegaram ao museu no século XIX. O espécime MNHN 2000-756, que possivelmente é uma fêmea, é uma das peles mais usadas como modelo para ilustrações. Sua crista foi aparada artificialmente, resultando num formato semicircular artificial, diferente de sua aparência em vida. A ilustração tipo tem uma crista com uma forma parecida.
200px|miniaturadaimagem|Desenho de John Gerrard Keulemans (1907) baseado no exemplar de Paris com a crista aparada. A poupa de De Flacourt levou os especialistas a acreditar que variedades do pássaro existiam em Madagascar e na Península do Cabo; achavam que eram estorninhos do gênero Upupa, e por isso ganharam nomes como Upupa capensis e Upupa madagascariensis. Vários autores também relacionaram o pássaro com grupos como aves-do-paraíso, abelharucos, Molothrus, outros Icteridae e também Pyrrhocorax, resultando na classificação em outros gêneros e na criação de novos nomes, como Coracia cristata e Pastor upupa. Em 1831, René-Primevère Lesson colocou a ave no próprio gênero monotípico, Fregilipus, nome composto pela junção de Fregilus (um gênero obsoleto de gralhas) e Upupa. Auguste Vinson concluiu em 1868 que o território do pássaro estava restrito à ilha da Reunião e propôs um novo binomial, Fregilupus borbonicus, uma referência ao antigo nome da ilha (Bourbon).
miniaturadaimagem|200px|Litografia do único esqueleto conhecido por Philibert Charles Berjeau, 1874. Hermann Schlegel foi o primeiro a propor, em 1857, que a espécie pertencia à família dos estorninhos (Sturnidae), reclassificando-a como parte do gênero Sturnus, S. capensis. Esta reclassificação foi revista por outros autores. Carl Jakob Sundevall propôs um novo nome de gênero, Lophopsarus ("estorninho com crista"), em 1872, porém Fregilupus varius - nome mais antigo - permanece como o aceito nos dias atuais e todos os outros nomes científicos são sinônimos. Em 1874, depois de uma análise detalhada do único esqueleto conhecido (realizada no Museu de Zoologia da Universidade de Cambridge), James Murie concordou que a ave era de fato um estorninho. Richard Bowdler Sharpe disse em 1890 que a espécie era similar aos estorninhos do gênero Basilornis, mas não notou qualquer outra semelhança além da crista. Em 1941, Malcolm R. Miller achou a musculatura da ave semelhante à do estorninho-comum (Sturnus vulgaris), após ter dissecado um espécime preservado em formol no Museu de Cambridge, mas observou que o tecido estava muito degradado e a semelhança não necessariamente confirmava um parentesco com os estorninhos. Em 1957, Andrew John Berger lançou dúvidas sobre a afinidade do pássaro com os estorninhos devido às sutis diferenças anatômicas, depois de dissecar um espécime em formol no Museu Americano de História Natural. Alguns autores propuseram uma relação com pássaros da família Vangidae, mas o ornitólogo japonês Hiroyuki Morioka rejeitou esta ideia em 1996, depois de um estudo comparativo dos crânios.
Em 1875, o ornitólogo britânico Alfred Newton tentou identificar um pássaro preto e branco mencionado num manuscrito do século XVIII que descrevia a estadia de um marinheiro abandonado na ilha Rodrigues entre 1726 e 1727, hipotetizando que ele estava relacionado com o estorninho-de-reunião. Os subfósseis encontrados mais tarde em Rodrigues foram correlacionados com o pássaro dos manuscritos; em 1879, estes ossos se tornaram a base para uma nova espécie, Necropsar rodericanus (o estorninho-de-rodrigues), nomeado pelos ornitólogos Albert Günther e Edward Newton. Apesar de terem achado o pássaro de Rodrigues intimamente relacionado com o estorninho-de-reunião, Günther e Newton mantiveram-no em um gênero separado devido à "prática ornitológica atual". O ornitólogo americano James Greenway sugeriu em 1967 que o estorninho-de-rodrigues pertencia ao mesmo gênero do estorninho-de-reunião, devido à sua grande semelhança. Subfósseis encontrados em 1974 confirmaram que o pássaro de Rodrigues era de um gênero diferente de estorninhos, pois seu bico mais robusto justifica a separação genérica do Fregilupus. Em 2014, o paleontólogo britânico Julian Hume descreveu uma nova espécie extinta, o estorninho Cryptopsar ischyrhynchus, com base em ossos subfósseis encontrados em Maurício, os quais eram mais parecidos com os do estorninho-de-rodrigues do que com os do estorninho-de-reunião em suas características do crânio, esterno e úmero.
Evolução miniaturadaimagem|200px|O estorninho-de-bali é um "primo" próximo do estorninho-de-reunião. miniaturadaimagem|200px|Ossos do estorninho-de-reunião, 1874. Em 1943, Dean Amadon sugeriu que uma espécie parecida com os Sturnus poderia ter chegado à África e a partir daí dado origem ao estorninho-carunculado (Creatophora cinerea) e aos estorninhos das ilhas Mascarenhas. Ainda de acordo com o autor, os estorninhos das ilhas de Rodrigues e da Reunião estavam mais relacionados com seus "primos" asiáticos, como algumas de espécies Sturnus, do que com os Lamprotornis africanos e o Saroglossa aurata de Madagascar, com base em suas cores. Um estudo de 2008, que analisou o DNA de diversos estorninhos, confirmou que o estorninho-de-reunião pertencia a um clado de estorninhos do Sudeste Asiático como uma linhagem isolada, sem parentes próximos. O cladograma seguinte mostra sua relação com outras aves da família Sturnidae:
A extração de DNA viável do estorninho-de-reunião já havia sido tentada por outro grupo de pesquisadores, que não obtiveram êxito. Os autores do estudo bem-sucedido sugeriram que os ancestrais do pássaro chegaram à ilha da Reunião, oriundos do Sudeste Asiático, usando cadeias de ilhas como "degraus" por todo o Oceano Índico, um cenário também sugerido para outras aves das ilhas Mascarenhas. Sua linhagem divergiu da dos outros estorninhos há quatro milhões de anos (cerca de dois milhões de anos antes da ilha da Reunião ter emergido do mar), por isso pode ter evoluído primeiro em massas de terra parcialmente submersas nos dias atuais.
"Primos" ainda vivos, como o estorninho-de-bali (Leucopsar rothschildi) e o estorninho-de-cabeça-branca (Sturnia erythropygia), têm cores e outras características parecidas com as espécies extintas das Mascarenhas. Uma vez que os estorninhos de Rodrigues e de Maurício parecem morfologicamente mais próximos entre si do que com o estorninho-da-reunião — o qual aparenta ser mais relacionado com estorninhos do Sudeste Asiático — pode ter ocorrido duas migrações distintas de estorninhos da Ásia para as Mascarenhas, com o estorninho-de-reunião sendo o de chegada mais recente. À exceção de Madagascar, as Mascarenhas foram as únicas ilhas do sudoeste do Oceano Índico com estorninhos nativos, provavelmente devido a seu isolamento, e topografia e vegetação variadas.
Descrição miniaturadaimagem|200px|Desenho de Eduard de Maes (1910).