Ara guadeloupensis é uma espécie hipotética extinta de arara que pode ter sido endêmica da ilha de Guadalupe, no Caribe. Apesar da ausência de espécimes conservados, muitos detalhes sobre a arara são conhecidos a partir de relatos de viajantes europeus que visitaram o Novo Mundo. A ave pode ainda ter sido retratada em algumas ilustrações. Com base nessas antigas descrições, o zoólogo Austin Hobart Clark descreveu cientificamente a espécie em 1905, mas devido à falta de restos físicos, bem como à possibilidade de que as menções se refiram a araras do continente levadas a Guadalupe, foram levantadas dúvidas sobre a existência desta espécie. Um osso da falange achado na ilha Marie-Galante em 2015 confirmou que uma arara de tamanho similar habitou a região antes da chegada dos seres humanos. Tal material foi apontando como pertencente a uma Ara guadeloupensis.

De acordo com descrições da época, o corpo da arara era vermelho e suas asas eram coloridas, com tons de vermelho, azul e amarelo. As penas da cauda mediam entre 38 e 51 cm de comprimento. Exceto pelo tamanho menor e pelas penas da cauda completamente vermelhas, parecia-se bastante com a araracanga. Os especialistas acreditam que possam ser duas espécies aparentadas. Alimentava-se de frutas, incluindo as venenosas maçãs da mancenilheira. Era uma ave monogâmica, construía seus ninhos em árvores e punha dois ovos, duas vezes por ano. Os primeiros viajantes descreveram a espécie como sendo abundante em Guadalupe. Porém, em 1760 já havia se tornado rara, sobrevivendo apenas em áreas desabitadas. Acredita-se que pouco tempo depois a espécie desapareceu. A caça por humanos e uma doença que as acometia são as principais causas de sua extinção.

Taxonomia miniaturadaimagem|esquerda|Ilustração de Du Tertre de 1667 retratando uma Ara guadeloupensis (7) e três Amazona violacea (8). Ara guadeloupensis é uma espécie relativamente bem documentada em comparação com a maioria das outras araras extintas do Caribe, uma vez que foi mencionada e descrita em vida por vários autores. A primeira menção foi, provavelmente, redigida pelo historiador espanhol Gonzalo Fernández de Oviedo em 1553, referindo-se a um relato de 1496 feito por Fernando Colombo, que escreveu sobre papagaios da ilha de Guadalupe que eram tão grandes quanto galinhas e que os nativos chamavam de "Guacamayas". Em 1774, o conde de Buffon também afirmou que Cristovão Colombo havia encontrado araras nessa mesma ilha. Jean-Baptiste Du Tertre forneceu as primeiras descrições detalhadas em 1654 e 1676, e ilustrou a ave e outros animais encontrados em Guadalupe, parte do arquipélago das Pequenas Antilhas. Quase um século mais tarde, em 1742, o francês Jean-Baptiste Labat também descreveu a arara.

Em 1905, com a ave já extinta, o zoólogo norte-americano Austin Hobart Clark cunhou o nome científico Ara guadeloupensis, baseado nos relatos antigos, e também citou uma gravura colorida de 1765 como possivelmente retratando esta espécie. Ele escreveu que a ave encontrada em Guadalupe tinha várias características diferentes de outras araras parecidas, tais como a araracanga (Ara macao), a arara-vermelha (Ara chloropterus) e a arara-vermelha-de-cuba (Ara tricolor). O ornitólogo James Greenway afirmou que as araras vistas em Guadalupe podem ter sido importadas por indígenas para a ilha a partir de outros lugares, mas isso é impossível de se provar. De acordo com o paleontólogo Julian Hume, sua semelhança com a araracanga indica que elas são parentes próximas, e que a espécie de Guadalupe pode ter descendido da arara do continente. Greenway acredita que a araracanga e a arara-vermelha-de-cuba formaram uma superespécie com a Ara guadeloupensis e outras espécies hipotéticas extintas sugeridas para a Jamaica e a ilha Hispaniola.

Uma pequena ulna (um dos ossos da perna) de papagaio foi encontrada no sítio arqueológico Folle Anse em Marie-Galante, uma ilha na região de Guadalupe. O material foi apontado como pertencente à Ara guadeloupensis pelos ornitólogos Matthew Williams e David Steadman em 2001. Os ornitólogos Storrs Olson e Edgar Maíz López lançaram dúvidas sobre essa identificação e propuseram que o osso era na verdade de um papagaio-imperial (Amazona imperialis), espécie que ainda está viva. O tamanho e robustez do osso é semelhante ao da ulna do papagaio-imperial, e ainda que esteja gasto, os autores identificaram o que parecia ser um entalhe, que também está presente nas ulnas do gênero Amazona, mas não nas do gênero Ara. No mesmo artigo, eles também argumentaram que outro papagaio simpátrico hipotético extinto, Amazona violacea, era idêntico ao papagaio-imperial. Restos subfósseis achados na ilha de Montserrat também foram apontados como sendo da Ara guadeloupensis. A espécie foi reconhecida pela BirdLife International e pela Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza e dos Recursos Naturais até 2013, mas atualmente não é considerada válida.

Em 2015, um osso da falange terminal ou ungueal (osso da garra) atribuível ao gênero Ara, encontrado na ilha Marie-Galante, foi descrito por Monica Gala e Arnaud Lenoble. Ele foi descoberto na caverna Blanchard, durante escavações em 2013 e 2014, num depósito contendo fósseis que datam do Pleistoceno tardio. O depósito foi datado por radiocarbono em cerca de anos; a mais antiga evidência da ocupação humana na área foi estimada em anos. Este achado confirmou que a região de Guadalupe já teve uma arara endêmica, que não foi levada para lá como resultado da colonização humana. Todos os outros ossos de araras oriundos das Pequenas Antilhas estão no contexto arqueológico (ou seja, quando já havia humanos) e poderiam, portanto, ter sido restos de aves trazidas até lá pelos ameríndios. O tamanho do osso da falange combinou com os relatos antigos daqueles que avistaram a Ara guadeloupensis ainda viva e, portanto, os autores correlacionaram os dois, embora admitindo que essa conclusão pode ser apenas provisória, pois não há outros restos da ave para comparar com o que encontraram.

No final de 2015, Lenoble revisou fontes históricas espanholas e francesas até então negligenciadas, e encontrou referências a araras vermelhas consistentes com a Ara guadeloupensis. Os escritos do missionário francês Raymond Breton (que esteve em Guadalupe entre 1635 e 1654) foram especialmente esclarecedores, pois mostraram que tanto ele como os nativos caribenhos distinguiam claramente as araras vermelhas de Guadalupe e as araras vermelhas do continente, o que apóia a validade da Ara guadeloupensis. Como o idioma caribenho tinha diferentes palavras reservadas para homens e mulheres, Breton nomeou a ave como Kínoulou (macho) e Caarou (fêmea). Lenoble concluiu ainda que a Anodorhynchus purpurascens, que foi nomeada graças a menções de papagaios azuis também supostamente nativos de Guadalupe, foi incorretamente baseada em referências da também extinta Amazona violacea.

Parentes extintos do Caribe miniaturadaimagem|200px|Edwards' Dodo (Savery, 1626) possivelmente mostrando uma Ara martinicus à direita, e uma Ara guadeloupensis à esquerda do dodô. miniaturadaimagem|200px|Nesta pintura de Savery (1626) há araras parecidas com a cauda toda vermelha Sabe-se hoje que araras eram transportadas entre as ilhas do Caribe e o continente sul-americano, tanto em tempos históricos por europeus e nativos, como em tempos pré-históricos por paleoamericanos. Os papagaios foram importantes na cultura dos indígenas caribenhos: eram comercializados entre as ilhas e estavam entre os presentes oferecidos a Cristóvão Colombo quando ele chegou às Bahamas em 1492. Por conta disso, é difícil determinar se os numerosos registros históricos mencionam espécies distintas de araras endêmicas, uma vez que podem ter sido indivíduos ou populações selvagens de araras exóticas transportadas de seu local de origem para diversas outras ilhas. Acredita-se que cerca de treze espécies de araras extintas viveram nas ilhas caribenhas até recentemente. Além da Ara guadeloupensis, apenas outras duas espécies de araras endêmicas do Caribe são conhecidas a partir de restos físicos; a existência da arara-vermelha-de-cuba foi confirmada através de subfósseis e dezenove peles que hoje estão em museus, e a arara-de-santa-cruz graças a subfósseis. Nenhuma arara endêmica do Caribe sobreviveu até os dias atuais; elas provavelmente foram levados à extinção por seres humanos em tempos históricos e pré-históricos.

Muitas araras extintas hipotéticas foram descritas cientificamente apenas com base em relatos da época em que eram vivas, mas tais espécies são hoje consideradas duvidosas. Várias delas foram batizadas no início do século XX por Walter Rothschild, que tinha uma tendência a nomear espécies novas com base em pouca evidência tangível. Ara erythrocephala e Ara gossei foram nomeadas graças a relatos de araras na Jamaica, enquanto a Ara martinicus foi vista na ilha Martinica e a Ara atwoodi era supostamente endêmica de Dominica. A Anodorhynchus purpurascens, que recebeu este nome devido a relatos de papagaios azuis também supostamente de Guadalupe, é considerada atualmente como sendo na verdade a Amazona violacea.

Outras espécies de araras também foram mencionadas, mas muitas nunca receberam nomes binomiais, ou são consideradas sinônimos juniores de outras espécies. Williams e Steadman defenderam a validade de muitas das espécies de araras caribenhas e escreveram que cada ilha das Grandes e Pequenas Antilhas provavelmente tinha sua própria espécie endêmica. Olson e Maíz duvidaram da validade das araras hipotéticas e da ideia de que todas as ilhas das Antilhas já tiveram uma espécie nativa, acrescentando que a ilha de Hispaniola seria o lugar mais provável para abrigar uma espécie endêmica desse tipo de ave, devido a sua grande extensão territorial, embora não se conheça nenhum fóssil ou descrição de uma arara por lá. Eles propuseram que tal espécie pode ter sido levada à extinção antes da chegada dos europeus. A distribuição pré-histórica de araras nativas do Caribe só pode ser determinada através de novas descobertas paleontológicas.

Descrição miniaturadaimagem|200px|Uma das variantes da gravura original de Martinet (1765) Ara guadeloupensis foi descrita como tendo coloração semelhante à araracanga, mas com as penas da cauda mais curtas, medindo entre 38 e 51 cm de comprimento. As penas da cauda da araracanga podem chegar a 61 cm de extensão e suas extremidades são azuis, e as penas que recobrem a cauda são quase inteiramente dessa cor. Apesar da cauda menor, não se sabe exatamente se Ara guadeloupensis era menor que a araracanga no tamanho total, pois as proporções relativas das partes do corpo variam entre as espécies de araras. As penas da cauda eram mais longas que as da arara-vermelha-de-cuba, que mediam apenas 30 cm de comprimento. A morfologia da falange fóssil encontrada na ilha Marie-Galante era mais parecida com o segundo ou terceiro ungueal da araracanga, embora ligeiramente menor, com 15,3 mm contra 15 a 17 mm.

Jean-Baptiste Du Tertre descreveu a Ara guadeloupensis em 1654 da seguinte maneira:

A arara é o maior de todos os papagaios da tribo; pois embora os papagaios de Guadalupe sejam maiores que todos os outros papagaios, tanto os das ilhas como os do continente, as araras são um terço maiores do que eles... A cabeça, pescoço, traseira, e dorso são da cor do fogo. As asas são uma mistura de amarelo, azul e escarlate. A cauda é totalmente vermelha, com um pé e meio de comprimento.Tradução livre de: "The Macaw is the largest of all the parrot tribe; for although the parrots of Guadeloupe are larger than all other parrots, both of the islands and of the main land, the Macaws are a third larger than they ... The head, neck, underparts, and back are flame color. The wings are a mixture of yellow, azure, and scarlet. The tail is wholly red, and a foot and a half long."