thumb|300px| Vênus de Milo, uma das mais célebres estátuas de todos os tempos, obra de Alexandre de Antioquia, atualmente no Louvre
Escultura da Grécia Antiga é uma expressão que usualmente se refere às obras escultóricas criadas na Grécia entre o período Dedálico , quando a arte grega começou a formar um estilo próprio original, e a época do seu último florescimento importante, na chamada era Helenística, que durou até cerca de , quando o país já estava sob domínio romano.
A escultura é uma das mais importantes expressões da cultura grega.Além de possuir grandes méritos artísticos intrínsecos, tanto no terreno do conceito como da técnica e da forma, foi instrumento utilíssimo, sendo veículo e ilustração de uma série de valores daquela sociedade, estando ligada a inúmeras esferas da vida e do saber, como a religião, a política, a ciência, a decoração de espaços e edifícios públicos, o esporte, a educação, e outras. Mais do que isso, inseminou uma grande variedade de outras culturas da bacia do Mediterrâneo, penetrou até a Índia durante a época de Alexandre, o Grande, exerceu decisiva influência sobre a escultura romana, como antes havia feito com a escultura etrusca, definiu muitos dos principais parâmetros da arte da Renascença e do Neoclassicismo, e é uma referência das mais relevantes mesmo nos dias de hoje para toda a cultura do Ocidente.
Centrada na representação do homem e de deuses antropomórficos, embora se manifeste também em uma grande diversidade de outros sujeitos, alguns dos cânones formais para o corpo humano que introduziu foram uma criação inédita na história da arte mundial, estabelecendo uma bem sucedida aliança entre a imitação realista e quase científica das formas naturais e sua idealização, e ainda hoje são largamente prestigiados como modelos de beleza. Também foi importante na inauguração de um novo ramo filosófico, a estética. Algumas de suas obras mais destacadas se tornaram ícones populares, como a Vênus de Milo, o Apolo Belvedere e a Vitória de Samotrácia, e os nomes dos seus artistas mais importantes, entre eles Fídias, Policleto e Praxíteles, são aureolados de grande fama.
Os períodos estilísticos Antecedentes: Período Geométrico
thumb|Estatueta de guerreiro do , Coleções Estatais de Antiguidades, Munique.
As raízes da cultura grega clássica podem ser estabelecidas no Período Geométrico (c. 900 - A cronologia dos períodos varia conforme a fonte consultada), quando diversas transformações sociais importantes levaram à formação da cidade-estado, o núcleo social urbano onde nasceu a maior parte da arte subsequente. Desenvolve-se o alfabeto grego, o comércio se intensifica com a Ásia Menor e o sul da Itália e se fundam diversos templos. Desta fase sobrevive uma variedade de artefatos, entre cerâmicas, adornos, armas e estatuetas votivas de bronze e barro, mostrando formas altamente estilizadas, evidenciando um artesanato de considerável habilidade, mas não há traços de estatuária de grande porte.Department of Greek and Roman Art. Geometric Art in Ancient Greece. In Heilbrunn Timeline of Art History. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000
Período Dedálico
A hipótese de que a estatuária de grandes dimensões evoluiu diretamente das estatuetas votivas tem poucos defensores, já que as peças mais antigas diferem radicalmente da produção do período Dedálico e sua sequência. É possível que alguma inspiração tenha vindo da Síria, que mantinha na época algum contato com a Grécia e havia desenvolvido uma arte estatuária significativa, e permaneceu por algum tempo como um referencial para as regiões asiáticas da Grécia. O Egito é apontado como outra influência, mais importante para a Grécia europeia.Ancient Greek Sculpture. Encyclopedia of Irish and World Art Registros informam que escultores de Samos aprenderam seu ofício em oficinas egípcias.The Louvre. Thematic Trails: Greek Sculpture and the Human Body O estilo hierático, impessoal e frontal dos egípcios tem similitude com as primeiras estátuas de grande porte produzidas na Grécia durante este período, já com um estilo caracteristicamente grego, do tipo dos kouroi e das korai, o que reforça a suposição. Mesmo com estas influências prováveis, a escultura grega é em boa parte uma criação original. Greek Sculpture: Daedalic Style (c.650-600). Visual Art Guide
O Período Dedálico (c.) foi assim denominado em homenagem a Dédalo, o herói mítico que é tido como inventor da arte da escultura. As características marcantes nesta fase, que mostrou grande homogeneidade, são a rígida frontalidade, o modelado achatado do corpo e o desenho simplificado da anatomia, que é antes uma idealização do que uma observação da natureza. O rosto é esquemático em forma triangular, com testa baixa, olhos e nariz grandes, e boca inexpressiva. As orelhas podiam ser omitidas ou tinham implantação perpendicular ao crânio, e o cabelo cai em grossas madeixas. As pernas são usualmente longas e a cintura é alta e estreita.Greek Sculpture: Daedalic Style (c.650-600). Encyclopedia of Irish and World Art. esquerda|thumb|110px|Kore dedálica chamada de Dama de Auxerre, c. , Louvre
No caso das estátuas femininas (kore, plural korai), elas aparecem com longas túnicas, mas nas masculinas (kouros, plural kouroi) a nudez é a regra. Estes dois tipos permaneceriam dominantes também ao longo de toda a fase Arcaica, junto com o da mulher vestida e sentada. Nos relevos, porém, aparecem maior variedade de posições, figuras em grupos, seres mitológicos e animais. Para a representação do movimento nos relevos é adotada uma fórmula similar à usada nas pinturas de vasos do Período Geométrico, com o peito e cabeça frontalizados, mas com a parte do corpo abaixo da cintura em perfil.
Ainda que aqueles três tipos principais tenha sido todos muito comuns, o kouros, com sua anatomia completamente exposta, assumiu uma importância superlativa para o desenvolvimento da escultura, já que a sociedade grega só viria a permitir a exposição do corpo feminino desnudo em torno do . O tipo do kouros se define por uma figura masculina nua, jovem e imberbe, com a perna esquerda à frente e os braços caídos rigidamente junto ao corpo, com raras variações neste padrão. A koré está sempre vestida, também é uma jovem e tem os pés juntos, e sua postura tem um pouco mais de variedade do que a sua contraparte masculina, e seus braços podem pender ou se dobrar, cruzando sobre o peito, ou se apenas um deles se move, pode estar voltado para a frente. Os kouroi não eram produzidos meramente com fins estéticos, mas eram oferendas religiosas colocadas em santuários, marcavam a tumba de alguma personalidade ou eram monumentos públicos, e não representavam pessoas individualizadas, sendo antes a corporificação de algum ideal de beleza, honra, virtude, piedade ou sacrifício.
Período Arcaico
thumb|Kouros Kroisos, c. , Museu Arqueológico Nacional de Atenas
O Período Arcaico (c. ) foi definido por uma progressiva urbanização da Grécia, com o crescimento do comércio e o estabelecimento das primeiras grandes cidades com sua aristocracia enriquecida. Com isso se desenvolve também a arquitetura, e com ela a decoração escultórica monumental, e o mármore desloca a cerâmica como o material de eleição, especialmente para as obras importantes. A cultura florescia nas cortes dos tiranos, e ali se cristalizou um corpo de conceitos éticos e educativos que teriam reflexo na arte: a paideia (παιδεία), significando um processo de educação completa e integral que almejava a formação de um cidadão exemplar apto para assumir qualquer função na sociedade, inclusive o governo supremo. A paideia envolvia conceitos correlatos como a aretê (ἀρετή), um conjunto de concepções a respeito da nobreza de caráter e aptidão física e militar; a kalokagathia (καλοκαγαθία), um ideal de equilíbrio perfeito entre as virtudes físicas e morais associando beleza com bondade, e a sophrosyne (σωφροσύνη), um ideal de autocontrole, disciplina e moderação.HAUSER, Arnold. História Social da Literatura e da Arte. São Paulo: Mestre Jou, 1972-82. Vol. I, pp. 105 ss.
Tais conceitos são expressos na escultura através da desenvoltura técnica recentemente conquistada pelos artífices, e se torna aparente no porte majestoso e na atitude de inabalável confiança e altivez mostrada pelos kouroi deste período. Seu desenho ainda era resumido às feições essenciais, mas sinais de uma observação mais atenta da anatomia se mostravam no progressivo detalhamento da musculatura e da estrutura subjacente do esqueleto, com um modelado com maior profundidade e uma sugestão de movimento real. No caso das jovens, as korai, observa-se uma variedade maior de atitudes e nos padrões do drapeado das vestes. A frontalidade permanece como o cânone oficial, e desvios desta regra são raros e podem ser atribuídos a necessidades específicas da peça, como a cabeça em 3/4, no caso famoso do Cavaleiro Rampin, já que a cabeça do cavalo poderia impedir a visualização adequada do rosto do cavaleiro, ou quando a figura carrega algum objeto, como no Moscóforo do mesmo museu, ou quando se trata de uma esfinge a ser vista lateralmente, quando a posição da cabeça pode ser encontrada em ângulo reto em relação ao corpo.
Neste período percebe-se uma divisão em duas tendências estilísticas, uma ainda sob influência síria, com um centro produtor principal em Samos, e outra mais apegada ao estilo egípcio, com seu centro na Ática. Começam a ser registrados alguns nomes de escultores importantes, como Arístocles de Sidônia, Cânaco e Hegias de Atenas, aparece o chamado sorriso arcaico nas estátuas, e o corpo humano firma-se então definitivamente como objeto e assunto principal da arte grega. Um dos tipos principais de escultura, o kouros, era sempre nu, e no período Arcaico ele era ainda mais nu do que durante a fase Dedálica, quando muitas vezes o jovem portava um cinturão. Assim, os problemas de representação anatômica não mais poderiam ser ignorados, e nota-se maior atenção à observação do natural, embora as formas ainda devessem se encaixar no esquema geral idealizado. Archaic Period. In The Art of the Greeks. History of Arts
Por volta do fim do o detalhamento nas formas corporais havia chegado a um grau avançado, o esquema da frontalidade já não se adequava ao naturalismo anatômico conquistado, e as figuras adquirem movimento, embora ainda com certa rigidez. Nos relevos o progresso é evidenciado pelo surgimento da lateralização do tronco e da cabeça, na criação de grupos de figuras em sobreposição parcial, e no modelado que adquire maior profundidade. As figuras de monstros mitológicos se tornam mais raras e nos animais é privilegiado o cavalo, e em menor grau o leão e a esfinge. Também surgem os primeiros exemplos de escultura ornamental nos edifícios, tipificada pelos grupos instalados nos frontões dos templos, sendo os mais antigos os do templo de Ártemis em Corfu. Outro exemplo monumental, já com significativo avanço na flexibilização das figuras é a Gigantomaquia criada por Endoios para o frontão do templo Arcaico dedicado a Atena erguido na Acrópole de Atenas por volta de
No Período Arcaico começa a difusão da estatuária grega pelas colônias na Magna Grécia e nas áreas orientais do Mediterrâneo, influenciando as culturas estrangeiras em contato com elas, como a etrusca, a cipriota, a fenícia e mesmo a síria, que antes havia inseminado a própria Grécia. Elementos do estilo Arcaico conheceram momentos de ressurgência até mesmo durante as fases Clássica e Helenística, e na arte romana algumas escolas demonstraram um apreciável interesse pelo arcaísmo em sínteses ecléticas.Greek Art in the Archaic Period. In Timeline of Art History. Department of Greek and Roman Art. New York: The Metropolitan Museum of Art, 2000
Período Severo