Declínio do politeísmo greco-romano é um termo utilizado para designar o processo de ascensão do cristianismo no contexto do Império Romano e seus estados sucessores em detrimento das antigas religiões. A religião, no mundo greco-romano na época da chamada "reviravolta de Constantino", consistia basicamente de três correntes principais. Em primeiro lugar, as religiões tradicionais da Grécia e Roma, em seguida, o culto imperial típico da era imperial romana e, finalmente, as várias religiões de mistério greco-romanas, como os mistérios eleusinos, o culto de Cibele, o mitraísmo e o culto sincrético a Ísis, originalmente uma deusa do Egito Antigo.
O cristianismo primitivo cresceu gradualmente em Roma e no Império Romano entre os séculos I e IV, quando foi legalizado e, em sua forma nicena, tornou-se a religião estatal do Império Romano através do Édito de Tessalônica de 380. Tradições helenísticas politeístas sobreviveram em alguns bolsões da Grécia até o . A "Academia" neoplatônica foi obrigada a fechar suas portas em 529 por ordem do imperador bizantino Justiniano I, data que alguns autores consideram como o fim da Antiguidade Clássica.
Antes do Édito de Milão constantiniano
Os romanos tendiam para o sincretismo, enxergando os mesmos deuses com nomes diferentes nas diversas regiões do Império, acomodando outros povos, como os helenos, germânicos e celtas da Europa e diversos grupos semitas do Oriente Médio. Sob a autoridade romana, os vários mitos nacionais que tinham alguma similaridade com os de Roma foram adaptados por analogia à mitologia romana, o que ajudava a consolidar o controle imperial. Consequentemente, os romanos eram geralmente tolerantes e acolhedores em relação a novas divindades e algumas experiências religiosas de outros povos."A History of the Church", Philip Hughes, Sheed & Ward, rev ed 1949, vol I chapter 6.
Ascensão da filosofia esotérica thumb|esquerda|Hermes Trimegisto numa gravura da Wellcome Rare Books Collection (1609) A perspectiva mais filosófica da religião nas regiões helenizadas do Império Romano levou a um renascimento do pensamento religioso intelectual por volta do início do . Escritos pseudepígrafos atribuídos a Hermes Trimegisto — discutindo filosofia esotérica, magia e alquimia — começaram a se espalhar do Egito romano para todo o império. Apesar de difíceis de datar com precisão, estes textos foram provavelmente redigidos entre os séculos I e III. Embora este tipo de hermetismo tenha sido geralmente escrito com o objetivo teológico de melhoramento espiritual, cada um tinha uma origem anônima, eclética e espontânea e o conjunto não era parte de nenhum movimento organizado.
Uma forma mais organizada de panenteísmo henoteísta alatrista emergiu em paralelo ao hermetismo. No , o amigo de Cícero, Nigídio Fígulo, tentou reviver as doutrinas pitagóricas, uma empreitada particularmente vitoriosa no caso de Apolônio de Tiana no . No espaço de um século, poderes sobrenaturais foram atribuídos a ele e relatos de sua vida tinham muitas similaridades com os da vida de Jesus. Pelo menos um grande ponto de congregação para os seguidores deste neopitagorismo foi construído em Roma, perto da Porta Maggiore, com um design similar ao das futuras igrejas cristãs, mas subterrâneo.
No , Numênio de Apameia tentou fundir elementos adicionais do platonismo no neopitagorismo, uma direção que que Plotino continuou, dando origem ao neoplatonismo, uma religião monista teísta. O neoplatonismo começou a ser adotado por proeminentes estudiosos e acadêmicos, como o teólogo cristão Orígenes e o adversário do cristianismo Porfírio. Na época de Galiano, a própria família imperial passou a patrocinar Plotino e encorajou suas atividades filosóficas. Depois dele, a doutrina foi novamente ampliada por Jâmblico, que acreditava que invocações físicas seriam capazes de produzir resultados soteriológicos e, por isso, acrescentou o ritual religioso à filosofia. O imperador Juliano tentou unificar a religião tradicional romana misturando-a com a forma jâmblica de neoplatonismo. Vivendo na mesma época, o pensador cristão Agostinho de Hipona revela fortes influências neoplatônicas em suas obras subsequentes.
Adoração do Sol oriental thumb|Disco de prata com o Sol Invicto, a principal divindade solar sincrética do período final do Império Romano.Séc. III. Encontrado em Pessinus, na Ásia Menor, atualmente no Museu Britânico, em Londres. thumb|"Mitras sacrificando um touro". O mitraísmo era uma religião de mistério muito popular em Roma, principalmente no exército.Escultura do no Museu Arqueológico e Etnológico de Córdoba, na Espanha
Em algum momento do , os membros do exército romano começaram a adotar uma religião de mistério chamada mitraísmo, um culto relacionado a um deus sol que surgiu de obscuras origens estranhas à Roma. A primeira referência ainda existente é de Plutarco, que menciona uma observação, em , de certos piratas do Mediterrâneo praticando-o. As legiões romanas se movimentavam por todo o império, espalhando o mitraísmo por onde passavam. No começo, seus fieis eram principalmente soldados, mas ela também foi adotada depois por libertos, escravos e comerciantes em todos os locais onde permanecia uma legião, especialmente nas fronteiras.
O mitraísmo não exigia exclusividade — era possível e comum segui-lo juntamente com outros cultos simultaneamente. Finalmente, ele tornou-se popular na capital imperial, arrebanhando de forma gradativa membros entre as classes mais aristocráticas até contar em suas fileiras com senadores. De acordo com a "História Augusta", até mesmo o imperador Cômodo teria sido membro. Apesar de, por razões desconhecidas, o mitraísmo excluir completamente as mulheres, já havia um grande contingente de seguidores no — há mais de 100 ruínas de mitreus conhecidas, oito somente em Roma (além de mais de 300 monumentos mitraicos) e dezoito em Óstia Antiga, o principal porto marítimo da capital.
A partir de Sétimo Severo, outras formas de adoração ao sol, menos excludentes, também ganharam popularidade por todo o Império Romano.
Heliogábalo fez uso de sua autoridade para instalar Heliogábalo como a principal divindade do panteão romano, fundindo-o com as demais formas romanas do deus sol para formar o Sol Invicto ( – "Deus Sol Invencível"), acima de Júpiter,Dião Cássio, História Romana LXXX.11 e transformando Astarte, Minerva, Urânia ou uma combinação das três em sua esposa.Herodiano, História Romana V.6 O imperador passou por cima de diversos outros elementos tradicionais da religião romana, casando uma virgem vestalDião Cássio, História Romana LXXX.9 (que deveriam, por força de lei e sob pena de morte, permanecer virgens solteiras durante seu período em serviço)Plutarco, Vidas Paralelas, Vida de Numa Pompílio, 10 e mudou de lugar algumas das mais sagradas relíquias da religião romana (incluindo o fogo de Vesta, os ancis dos sálios e o Paládio) para um novo templo dedicado exclusivamente a Heliogábalo.História Augusta, Life of Elagabalus 3 Apesar da reprovação de alguns senadores religiosos mais conservadores, os luxuosos festivais anuais públicos realizados em homenagem a Heliogábalo tornaram a divindade muito popular entre as massas, principalmente por que estes festivais incluíam uma abundante distribuição de comida.
Cerca de meio século depois de Heliogábalo, Aureliano assumiu o império. Ele era um reformador e reforçou a posição do deus sol como a principal divindade do panteão, chegando até mesmo a construir um novo templo dedicado a ele em Roma. Acredita-se que ele provavelmente também tenha sido o responsável por criar um festival do "dia do nascimento do Sol Invencível" ("dies natalis Solis Invicti"), que era celebrado em 25 de dezembro, o dia no qual o sol inicia sua aparente ascensão novamente — quatro dias depois de ter alcançado o seu ponto mais baixo, embora as primeiras referências sobreviventes ao festival estejam apenas na "Cronografia de 354". Ele seguia o princípio de "um deus, um império" e sua intenção era prover a todos os povos sob seu domínio, civis ou soldados, ocidentais ou orientais, um único deus que pudessem acreditar sem trair seus próprios deuses. Lactâncio argumentou que Aureliano teria proibido todos os demais deuses se tivesse tido mais tempo, pois ele conseguiu permanecer no cargo por meros cinco anos.
Judaísmo e cristianismo
A tolerância imperial se estendia apenas às religiões que não resistiam à autoridade romana e respeitavam seus deuses. As que eram hostis ao estado ou que reivindicassem exclusividade das crenças e práticas religiosas não estavam entre elas e alguns cultos orientais foram perseguidos. Os judeus conseguiram alguns privilégios especiais por sua predominância no setor econômico, pelo baixo número de seguidores e sua dispersão, mas esta tolerância estava precariamente equilibrada sob fino verniz de submissão e ela finalmente transformou-se em perseguição quando a disposição à colaboração entre os judeus começou a diminuir. Seitas intolerantes também perseguiam-se umas às outras, como era o caso do primeiros cristãos, denunciados pelos judeus tradicionais como provocadores perigosos segundo algumas interpretações do Concílio de Jâmnia e do "Birkat haMinim". Resultaram diversos massacres de comunidades cristãs e de grupos nacionalistas judaicos.
A comunidade cristã primitiva era percebida, por vezes, como sendo uma influência intrinsecamente desestabilizadora"Julian the Apostate and His Plan to Rebuild the Jerusalem Temple", Jeffrey Brodd, Biblical Archaeology Society, Bible Review, Oct 1995. e uma ameaça à Pax Romana, uma religio illicita. Os pagãos, que atribuíam as desgraças de Roma e seu império à ascensão do cristianismo e só enxergavam uma restauração através do retorno às antigas crenças,"The Memorial of Symmachus" se viram desafiados pela igreja cristã, que se separara da religião romana e não estava disposta a diluir o que acreditava ser a religião do "Verdadeiro Deus Único"."Letter of Ambrose to the Emperor Valentinian", The Letters of Ambrose Bishop of Milan, 384AD, retrieved 5 May 2007.
Os mesmos deuses que os romanos acreditavam ter protegido e abençoado sua cidade e seu império pelos muitos séculos nos quais foram adorados estavam agora sendo demonizados pelos primeiros cristãos.
Tolerância e Constantino thumb|esquerda|O mítico "Batismo de Constantino, o Grande" numa tapeçaria (1622-5). Constantino foi o primeiro imperador cristão e seu governo iniciou uma reviravolta nas relações entre o cristianismo e o império
Depois que os conflitos iniciais entre o Estado e a nova religião emergente, Galiano foi o primeiro imperador a emitir um édito de tolerância a todos os credos religiosos, incluindo o cristianismo. Segundo polemistas cristãos escrevendo depois de sua morte, Constantino I teria sido batizado em seu leito de morte, o que faria dele o primeiro imperador romano cristão.Códice Teodosiano XVI.v.1, 4 CE] Eusébio, um historiador cristão contemporâneo, elogia-o além disso pela demolição de alguns templos pagãos. Seja como for, seus efeitos sobre a política oficial durante os imperadores cristãos até Valentiniano I e Valente foram suficientes para aumentar significativamente as conversões para o cristianismo, mas não para extinguir o paganismo. As perseguições de fato eram esporádicas e geralmente resultado de iniciativas locais, como foi o caso da destruição dos lugares santos da Gália por São Martinho de Tours no final do Life of St. Martin.