miniatura|350px|Baleia-azul (Balaenoptera musculus) nas águas dos Açores, ao fundo a ilha do Pico com destaque para a Montanha do Pico.
Baleação (também conhecida como pesca ou caça às baleias) é o nome genérico dado à caça à baleia e ao cachalote, incluindo as tecnologias, tradições e formas sociais de organização dos baleeiros. A baleação é por vezes incorrectamente referida como pesca da baleia, o que implicaria que a baleia seria um peixe e não um mamífero. A baleação teve grande expressão em diversas regiões costeiras e insulares do mundo, com grande relevo para Nantucket e New Bedford, na Nova Inglaterra, os Açores, o Arquipélago da Madeira, ilhas Faroé, a Islândia e as ilhas Svalbard.
A história da baleação miniatura|Baleação no século XVIII (das viagens de James Cook). miniatura|Um moderno canhão para arpões explosivos.
As baleias têm sido caçadas desde tempos remotos. Os registos mais antigos conhecidos de baleação são pinturas rupestres entalhadas em rochas do sul da Coreia com cerca de 8000 anos de idade. Desde esses tempos, a caça foi-se tornando progressivamente mais sofisticada, expandindo-se das águas costeiras para as áreas oceânicas à medida que as embarcações foram melhorando e melhores métodos de navegação e processamento das carcaças foram sendo desenvolvidos.
Embora recorrendo a uma talvez excessiva simplificação, e pecando por algum eurocentrismo, a história da baleação pode ser dividida em seis grandes etapas, muitas das quais coexistindo durante muito tempo:
Baleação pré-histórica e caça costeira (~8000 – presente) — Caça de cetáceos, geralmente de pequena dimensão, em baías, estuários e zonas muito próximas da costa utilizando lanças, flechas e dispositivos semelhantes a partir da costa ou de pequenas embarcações. A caça é muitas vezes oportunista, misturando-se com a atividade recoletora, aproveitando os animais que eram arrojados pelo mar à costa ou que encalhavam ou ficavam aprisionados em águas pouco profundas ou zonas rodeadas por gelo. Continua a ser praticada em escala muito reduzidas pelos povos da bacia do Ártico. A baleação basca (1400 – 1700) — Os bascos iniciam no golfo da Biscaia a baleação em águas distantes da costa. A área de caça vai sendo progressivamente alargada a todo o Atlântico nordeste e depois ao Atlântico noroeste. A principal presa são as baleias francas do Atlântico Norte. Aos bascos juntaram-se progressivamente os neerlandeses, os ingleses, os franceses e os povos escandinavos. A baleação do Grande Norte (1600 –1900) — Conhecidas dos europeus as terras e mares circumpolares da bacia do Atlântico e reconhecida a sua riqueza em cetáceos, aproveitando os progressos conseguidos na construção de navios, o centro da baleação europeia move-se para Spitsbergen, Gronelândia e águas das altas latitudes do Atlântico Norte e do Oceano Ártico. Os principais povos baleeiros nesta fase são os neerlandeses e os escandinavos, com razoável participação inglesa, francesa e alemã. A partir de meados do século XVIII os baleeiros norte-americanos foram progressivamente ganhando importância ao ponto de no final deste período já serem dominantes. A baleação no oceano Antártico e no oceano Pacífico (1800-1930) — Face ao esgotamento das populações de cetáceos no Atlântico Norte e águas adjacentes, a atividade vai-se progressivamente deslocando para as águas do Oceano Antártico e depois para as do Pacífico Norte. Para além da baleia-franca, são caçadas a baleia-cinzenta, a baleia azul e outros rorquais. A baleação é já claramente dominada pelos baleeiros americanos, deslocando-se a centro de gravidade do comércio dos óleos de Londres para a Nova Inglaterra. A caça ao cachalote (~1780 – 1940) — Com a melhoria das técnicas de navegação e de processamento no mar das carcaças, os baleeiros da Nova Inglaterra desenvolveram uma forma específica de baleação, baseada na utilização de uma embarcação rápida e suficientemente grande para permitir a permanência no mar por alguns meses e o transporte do óleo e pequenos botes baleeiros, muito móveis dotados de vela e remos, que eram lançados ao mar e partir dos quais de desenvolvia o cerco e arpoamento das baleias. Esta tecnologia era particularmente eficaz na caça ao cachalote, animal particularmente valioso, pois além do normal óleo, produz o espermacete e o âmbar de baleia, substâncias que atingiam elevados preços no mercado internacional. Dada a dispersão das populações de cachalote, esta forma de baleação estendeu-se por todos os oceanos temperados da Terra, gerando frequentemente viagens de circum-navegação do Globo. A moderna baleação aos rorquais (~1880 – 1986) — Beneficiando da introdução dos navios a propulsão mecânica, foi possível a construção de grandes navios baleeiros que poderiam permanecer no mar durante muitos meses e processar e armazenar um vasto número de carcaças de cetáceo. Para tornar a caça mais eficaz foram desenvolvidos canhões capazes de arremessar um arpão explosivo com precisão a longa distância. A utilização destes arpões tornou a caça muito eficaz, já que mesmo os grandes cetáceos tinham morte quase imediata, o que tornava a captura rápida e segura. A caça aos grandes cetáceos estendeu-se a todos os oceanos onde eles existissem em número significativo, sendo acompanhada da construção de navios-fábrica capazes de processar rapidamente as carcaças otimizando o aproveitamento dos subprodutos e permitindo a permanência no mar durante meses. Nesta fase predominaram os baleeiros norte-americanos, britânicos, japoneses, islandeses e noruegueses. Devido à sua actividade, nas primeiras décadas do século XX a população da maioria das espécies de rorquais já tinha decrescido 80% a 90% em relação ao período anterior ao início da baleação comercial.
A baleação no mundo miniatura|Baleação a partir de um navio baleeiro da Nova Inglaterra. O fumo é das caldeiras que derretiam as carcaças para obter o óleo.
Em Portugal Açores A primeira referência documental à captura de baleias nas águas dos Açores remonta ao século XVI, ao largo da ilha de Santa Maria. De acordo com Frutuoso:
"No ano de mil e quinhentos e setenta e quatro acharam os pescadores uma baleia morta onde se chama o Mar de Ambrósio, e, por ser longe e estar um só batel, a não levaram a terra, inteira, senão muitas postas dela, de que fizeram muito azeite.
No ano seguinte de 1575, a derradeira oitava de Páscoa, apareceu outra, junto da Vila, e três ou quatro batéis, que foram a ela, a levaram à costa, junto de Nossa Senhora da Conceição, da qual se fez muito proveito e tiraram ambre (sic), que lá foi buscar desta ilha o feitor de el-Rei, Jorge Dias. Dizem que aproveitou, mas os pobres nada dele gozaram.
No mesmo ano, em meio de Junho, apareceu outra da banda de Sant'Ana, a qual tiraram em terra no porto de Nossa Senhora dos Anjos, de que se fizeram dez ou doze pipas de azeite.
Daí a poucos dias, acharam outra da mesma banda de Sant'Ana, mas porque já andavam os homens enfadados, e ser tempo de aceifa, não curaram dela, até que desapareceu de todo.
Os anos passados, foi achado em Sant'Ana um grande pedaço, que parecia tábua de uma coisa como cevo e da mesma sua cor, que ardia mui bem, e diziam que também aproveitava para frialdade, sem se acabar de determinar o que seria.Certamente âmbar cinza. E muitos há que em São Lourenço saiu um baleato pequeno, afora outros que não lembram."FRUTUOSO, Gaspar. Saudades da Terra, Livro III, capítulo XI.
Embora se registe a presença de baleeiros ingleses no século XVIII, a caça sistemática ("baleação") nas águas do arquipélago só se iniciou na segunda metade do século XVIII e do século XIX, com a chegada dos navios baleeiros dos Estados Unidos, nomeadamente aqueles oriundos de New BedfordPUIM, Arsênio Chaves. A Pesca à Baleia na Ilha de Santa Maria. Vila do Porto: Museu de Santa Maria; Junta de Freguesia do Santo Espírito, 2001. 112p. fotos. p. 13. e de Nantucket. Ao arregimentavam homens para completar as suas tripulações nas ilhas, foi com eles que os açorianos aprenderam as técnicas e o domínio dos instrumentos, patente no uso do próprio vocabulário baleeiro, quase que totalmente de origem anglo-saxónica.Op. cit., p. 21.
É com a experiência desses homens que, na década de 1850 se constituíram as primeiras armações baleeiras nos Açores, nas ilhas do Oeste. Para isto foram fundamentais as embarcações baleeiras (adaptações dos primeiros modelos importados de New Bedford pela família Dabney, do Faial), de palamenta apropriada e com tripulação de, pelo menos, 7 homens (mestre, arpoador/trancador, remador e marinheiros). O Topo, na ilha de São Jorge, foi a primeira localidade onde se armaram canoas. Nas Velas, foi arpoada a primeira baleia em janeiro de 1886.
Na década de 1880, constituíram-se armações no Grupo Oriental, a partir da ilha de São Miguel.Op. cit., p. 22. Nesta ilha existiram quatro companhias baleeiras:PUIM, Arsénio. A baleação nas ilhas do Grupo Oriental. O Baluarte de Santa Maria, ano XXXVII (2ª Série), nº 401, 12 Nov 2010, p. 28.
No Calhau Miúdo das Capelas, junto ao Morro, fundada a 29 de outubro de 1884; No porto de Santa Iria, na freguesia da Ribeirinha, fundada no mesmo ano (1884); Na Grota, junto à Praia Grande dos Mosteiros, a "Companhia Pescadora", fundada em 23 de Outubro de 1885 da qual era gerente o conhecido industrial João de Melo Abreu; No Castelo do Porto Formoso, a "Companhia Baleeira Esperança", fundada por alvará de 20 de abril de 1886.
Além destas, o Governo Civil de Ponta Delgada passou ainda, com data de 5 de Agosto de 1885, alvará provisório a Amâncio Júlio Cabral e José Maria Pimentel, para criação de uma empresa dedicada à pesca de cetáceos no Areal Grande de S. Roque, na costa sul da ilha.
Todas estas empresas tiveram existência mais ou menos efémera, à exceção da Companhia Baleeira das Capelas/São Vicente que, ao longo dos anos cresceu em meios e equipamentos, tendo aumentado as suas capacidades operacional e técnica, a ponto de ter se constituído uma das empresas de maior dimensão e com mais longa existência no arquipélago (1884-1983).Op. cit., p. 28.
As campanhas baleeiras no arquipélago tinham lugar anualmente, de 15 de maio a 15 de setembro. Eram utilizados os chamados "botes de boca aberta", típicos dos Açores, e arpões. Após a captura, as carcaças dos cetáceos eram objeto de desmanche para a extração do óleo ("azeite"), do âmbar-gris, das barbatanas e da carne. Os ossos eram reduzidos a farinha. Até à década de 1930, a extração do chamado "azeite de baleia" ainda era processada pelos próprios baleeiros, por um processo artesanal conhecido como "a fogo direto", em instalações denominadas "traiois", constituídas por duas caldeiras adossadas, assentes sobre uma fornalha. Na ilha de São Jorge, em 1936, registavam-se quatro armações: três nas Velas e uma no Topo.
Em meados do século XX, esse trabalho foi pouco a pouco sendo substituído pela industrialização do processo, em fábricas de derretimento, que utilizavam autoclaves a vapor de grande capacidade.
Desde 1987 que deixou-se de praticar a "caça" à baleia em Portugal, tendo o último cachalote sido caçado naquele ano, ao largo da vila das Lajes do Pico.CASTELA, Alexandra; GOUVEIA, Elsa Melo. Um lugar chamado Açores: Terra de Baleeiros. Ponta Delgada: Publiçor, 2011. 82p. il. ISBN 978-972-8633-49-3 O comércio dos produtos extraídos da baleia (inclusive o marfim, não assinalado) foi proibido.
Madeira A história da atividade baleeira no Arquipélago da Madeira ocorre praticamente no século XX apesar de nos séculos anteriores se caçar nas águas do arquipélago, recorrendo a mão de obra madeirense.