A Guerra Mexicano-Americana, também conhecida nos Estados Unidos de Guerra Mexicana (chamada por historiadores mexicanos como Intervención estadounidense en México ou ainda Guerra de Estados Unidos-México) foi uma invasão realizada por tropas do Exército dos Estados Unidos contra o México, realizada entre 1846 e 1848. Foi antecedida pela anexação do Texas pelos Estados Unidos em dezembro de 1845, que o México ainda considerava seu território porque havia se recusado a reconhecer os Tratados de Velasco, assinados pelo presidente Antonio López de Santa Anna depois que ele foi capturado pelo Exército Texano durante a Revolução do Texas de 1836. A República do Texas foi um de facto país independente, mas a maioria dos seus cidadãos anglo-americanos que se mudaram dos Estados Unidos para o Texas depois de 1822 queriam ser anexados pelos Estados Unidos.

As políticas seccionais sobre escravidão nos Estados Unidos estavam impedindo a anexação porque o Texas, antes um território livre de escravidão sob o domínio mexicano, teria sido admitido como um estado escravista, perturbando o equilíbrio de poder entre os estados livres do Norte e os estados escravistas do Sul. Na eleição presidencial nos Estados Unidos em 1844, o democrata James K. Polk foi eleito em uma plataforma de expansão do território estadunidense para o Oregon, Califórnia (também um território mexicano) e Texas, de qualquer maneira possível, com a anexação do Texas em 1845 promovendo esse objetivo. No entanto, a fronteira entre o Texas e o México foi contestada, com a República Texana e os Estados Unidos afirmando que ela deveria ser delimitada pelo Rio Grande e os mexicanos alegando que deveria ser mais ao norte do Rio Nueces. Polk enviou então uma missão diplomática ao México na tentativa de comprar o território disputado, juntamente com a Califórnia e todo o resto, por um valor de US$ 25 milhões de dólares (aproximadamente US$ 750,7 milhões em valores de 2022), uma oferta que o governo mexicano recusou. Polk então enviou um grupo de 80 soldados através do território disputado até o Rio Grande, ignorando as exigências mexicanas para se retirar. O exército mexicano interpretou isso como o início de uma invasão em larga escala e expulsou os militares americanos do seu território em abril de 1846, um movimento que Polk usou para convencer o Congresso dos Estados Unidos a declarar guerra.

Além da área disputada do Texas, as forças militares dos Estados Unidos ocuparam rapidamente a capital regional de Santa Fé do Novo México ao longo do alto Rio Grande. Tropas estadunidenses também avançaram contra a província da Alta Califórnia e depois viraram para o sul. A Esquadra do Pacífico da Marinha dos Estados Unidos bloqueou a costa do Pacífico no Território da Baixa Califórnia. O exército estadunidense, sob o comando do major-general Winfield Scott, invadiu o coração do México e capturou a capital do país, em setembro de 1847. Embora o México tenha sido derrotado no campo de batalha, negociar a paz foi uma questão politicamente delicada. Algumas facções mexicanas recusaram-se a considerar qualquer reconhecimento da perda de território. Embora Polk tenha formalmente destituído seu enviado de paz, Nicholas Trist, do cargo de negociador, Trist ignorou a ordem e concluiu com sucesso o Tratado de Guadalupe Hidalgo em 1848. O tratado encerrou a guerra e o México reconheceu a cessão do atual Texas, Califórnia, Nevada e Utah, bem como partes do atual Arizona, Colorado, Novo México e Wyoming. Os Estados Unidos concordaram em pagar US$ 15 milhões pelos danos físicos da guerra e assumiram uma dívida de US$ 3,25 milhões já devida pelo governo mexicano a cidadãos dos Estados Unidos. O México renunciou às suas reivindicações sobre o Texas e aceitou o Rio Grande como sua fronteira norte com os Estados Unidos, resultando na perda de 55% de seu território.

A vitória e a expansão territorial que o Presidente Polk imaginava inspiraram o patriotismo em algumas regiões dos Estados Unidos, mas a guerra e o tratado foram alvo de críticas intensas devido às baixas, custo financeiro e excessos. A questão de como tratar as novas aquisições intensificou o debate sobre a escravidão nos Estados Unidos. Embora o Wilmot Proviso, que proibia explicitamente a extensão da escravidão para o território mexicano conquistado, não tenha sido adotado pelo Congresso, os debates sobre isso aumentaram as tensões regionais. Alguns estudiosos veem a Guerra Mexicano-Americana como um precursor da Guerra Civil Americana. Muitos oficiais que foram treinados na Academia Militar dos Estados Unidos adquiriram experiência na guerra no México e desempenharam papéis de liderança proeminentes durante a Guerra Civil.

No México, a guerra agravou a agitação política doméstica. Como a guerra foi travada em solo mexicano, o país sofreu grandes perdas de vida tanto na população militar quanto civil. Os alicerces financeiros da nação foram minados, e mais da metade de seu território foi perdido. O México experimentou uma perda de prestígio nacional, deixando-o em um que um grupo de escritores mexicanos, incluindo Ramón Alcaraz e José María del Castillo Velasco, chamou de "estado de degradação e ruína... [Quanto] à verdadeira origem da guerra, é suficiente dizer que a ambição insaciável dos Estados Unidos, favorecida pela nossa fraqueza, a causou".

Causas

left|thumb|O México em 1824, antes da guerra mexicano-americana

A guerra entre os Estados Unidos e o México teve duas causas básicas. Primeiro, o desejo de expansão territorial dos Estados Unidos pela América do Norte causou conflito com todos os seus vizinhos: dos britânicos no Canadá e Oregon aos mexicanos no sudoeste e, é claro, com os povos ameríndios. Desde a aquisição, feita pelo presidente Thomas Jefferson, do território da Luisiana em 1803, os americanos migraram para o oeste, em números cada vez maiores, muitas vezes em terras que não pertenciam aos Estados Unidos.

Em 1845, com a chegada de James K. Polk à presidência dos Estados Unidos, as ideias do Destino Manifesto haviam criado raízes na cultura do país, e o novo ocupante da Casa Branca tinha uma firme crença na ideia de expansão. Basicamente, os Estados Unidos teriam um direito dado por Deus de ocupar e "civilizar" toda a América. Essa crença ganhou força à medida que os Estados Unidos se estabeleciam em terras ocidentais. Embora a maior parte dessas áreas já tivessem proprietários, os descendentes dos colonizadores britânicos, com seus ideais e ética cristã protestante, acreditavam que fariam um trabalho melhor do que os povos nativos da América ou os mexicanos católicos na colonização das regiões. O "destino manifesto" não significou necessariamente expansão violenta. Nos anos 1835 e 1845, os Estados Unidos ofereceram para comprar a Califórnia ao México, por valores de 5 milhões e 25 milhões de dólares, respectivamente. Na ocasião, o México recusou a oferta, que representaria a venda de cerca de metade de seu território.

miniaturadaimagem|Guerra EUA/México e suas campanhas.|306x306px

A segunda causa básica da guerra foi a Guerra da Independência do Texas e a anexação posterior dessa área pelos Estados Unidos. O México não reconheceu a anexação e reivindicou a região, alegando que o Texas era um Estado mexicano rebelde. Mas apesar da forte pressão da opinião pública do México para guerra, de início não houve resistência armada à anexação.Singletary, p. 9 a 11 A guerra só começaria com a tentativa de os Estados Unidos expandir as fronteiras do território anexado para além dos limites do antigo Departamento de Tejas mexicano.

A disputa política transformou-se num conflito militar aberto quando um destacamento do Exército dos Estados Unidos, sob comando de Zachary Taylor, invadiu o território ao sul do rio Nueces. Embora essa área não fizesse parte do Texas quando ainda era o Departamento de Tejas, parte do estado Mexicano de Coahuila y Tejas, os Estados Unidos reivindicavam essa terra para si. A pretensão baseava-se no tratado de Velasco, assinado por Antonio López de Santa Anna em 1836, em que concordava em recuar as tropas mexicanas para além do Rio Grande,Schultz, p.521 cerca de 240 km ao sul de Nueces. O entendimento dos Estados Unidos era que esse recuo estabelecia a nova fronteira do estado que se tornara de facto independente. O México não partilhava dessa leitura e não reconhecia a validade do tratado que fora firmado por Santa Anna enquanto esteve prisioneiro dos texanos, e que o congresso mexicano se recusara a ratificar, negando que o signatário tivesse poderes para tal acordo. Seguiu-se uma série de escaramuças que finalmente transformaram-se em guerra em plena escala.

Oposição nos Estados Unidos A expedição contava com apoio entusiástico do Partido Democrata e com a veemente oposição dos whigs.McPherson p. 3 e 4 Havia uma grande diferença ideológica entre as duas facções. Os democratas, fiéis ao Destino Manifesto e à Doutrina Monroe, acreditavam ser dever de os Estados Unidos levarem os benefícios do seu sistema de governo a todo o continente americano, ainda que pelo uso de armas. Os whigs acreditavam que o caminho para o mesmo objetivo era aperfeiçoar a democracia local e ganhar os vizinhos pela contundência do seu exemplo, e não com a força.McPherson, p.48.

Os debates no congresso foram extremamente acalorados. O conhecido abolicionista e congressista whig Joshua Reed Giddings chegou a declarar da tribuna do congresso:

A posteriori, um dos críticos proeminentes do papel dos Estados Unidos na guerra foi Ulysses Grant, que nela combateu com distinção quando jovem oficial do exército invasor. Nas suas Memórias, Grant qualificou a guerra como

Mais tarde Grant tornar-se-ia comandante-em-chefe das forças da União durante a Guerra da Secessão e depois presidente dos Estados Unidos.

Parte do imaginário coletivo norte-americano acreditava que era destino dos EUA realizar sua expansão territorial, tinha-se a crença de que a Providência Divina demandava dos norte-americanos uma postura civilizatória, em oposição às forças europeias que supostamente desejavam frear o crescimento da América. Pouco a pouco, essa crença se transmutava num nacionalismo norte-americano, numa visão exaltada de si próprio como povo e Nação. Em Massachusetts, o sentimento para com a guerra se desenvolveu de forma a se afastar desse nacionalismo, parte dessa população não apoiava o embate com os mexicanos. O estado de Massachusetts caracterizou a empreitada americana como uma “guerra de conquista” que dizia interesse para os fazendeiros escravistas. Dentre as pessoas que desaprovavam a guerra México-americana, a oposição mais conhecida é a de Henry David Thoreau, pois “não foi apenas um crítico a guerra como agressão ao México, mas também se negou a pagar impostos como protesto (...)”. Nesse cenário, Thoreau escreveu seu escrito mais popular “A Desobediência Civil”, um ensaio no qual criticava os maus governos e propunha um modelo de combate à tirania.

Há uma longa tradição nos EUA de hostilidade para com o Estado e defesa da autonomia individual; os Estados Unidos é, afinal de contas, a democracia liberal mais antiga do mundo. Existe um profundo enraizamento da defesa dos direitos individuais dentro das visões de mundo norte-americanas. No século XIX Henry David Thoreau se aproximou muito de um individualismo libertário baseado na descoberta da verdadeira natureza humana através de uma cultura ligada à natureza, movimento esse que ficou conhecido como “Naturalismo Transcendentalista” ou “Individualismo Transcendentalista”.