thumb|260px|Percurso seguido na viagem à América do Sul

thumb|260px|Fragaria chiloensis, o morango-branco-chileno (ilustração da obra Relation du Vvoyage de la Mer du Sud aux Côtes du Chili, du Pérou et de Brésil, Fait Pendant les Années 1712, 1713 & 1714), obra da autoria de Frézier Amédée-François Frézier (Chambéry, — Brest, ) foi um engenheiro militar, explorador, botânico e cartógrafo que se notabilizou pela sua obra geográfica sobre a América do Sul,Prosper Levot, Essais de biographie maritime: ou Notices sur des hommes distingués de la Marine française, pp. 309-329, C. Le Blois, 1847. especialmente a descrição das costas sul-americanas do Oceano Pacífico e das povoações e fortalezas das cidades costeiras do Chile, do Peru e do Brasil, incluindo, entre outras, a ilha de Santa Catarina, Valdivia, Lima, Concepción e São Salvador da Baía.«El Perú visto por viajeros» recopilación de Estuardo Núñez, Peisa (1973), Lima Também ficou conhecido por introduzir na Europa a espécie Fragaria chiloensis, o morango-branco-chileno, um dos progenitores dos modernos cultivares de morangueiro híbrido.

Biografia Anos formativos Amédée-François Frézier nasceu em Chambéry, capital do Ducado da Sabóia, no ano de 1682, filho de Pierre-Louis Frézier, um distinto advogado, jurisconsulto e professor de Direito, conselheiro do Duque de Sabóia.Henri Baud, Jean-Yves Mariotte, Histoire des communes savoyardes : Le Chablais, Roanne. Éditions Horvath, 1980 (ISBN 978-2-7171-0099-0). A família, originária de Chablais, tinha ascendência escocesa, embora remota.George M. Darrow, The Strawberry: History, Breeding and Physiology, pg.27-28. National Agricultural Library, 1966.Léon Quiblier, président de l' Académie chablaisienne, Le Chevalier A. F. Frézier, in « Mémoires de l'Académie chablaisienne », tomo 44, année 1938, pp. 19–27.

O pai, querendo manter a tradição familiar, pretendia que o filho o seguisse nos estudos jurídicos, razão pela qual, terminados os estudos preparatórios em Chambéry, o matriculou nos estudos de jurisprudência da Universidade de Paris. No entanto, Amédée-François resistiu a esse plano de carreira e transferiu-se para o estudo das ciências naturais, da matemática e da teologia, permanecendo na Universidade de Paris, onde teve como professores, entre outro grandes intelectuais da época, o matemático-astrónomo Philippe de la Hire e o geómetra Pierre Varignon.Charles Frostin, Les Pontchartrain, ministres de Louis XIV: Alliances et réseau d'influence sous l'Ancien Régime, p. 336. Presses universitaires de Rennes, 2015]. Terminou o curso apresentando uma dissertação intitulada Traité sur la Navigation et les éléments de l’Astronomie (Tratado sobre Navegação e os elementos da Astronomia).Notice biographique d’Amédée-François Frézier. Aluno distinto que tinha, dizem os seus contemporâneos, uma memória excecional, adquiriu uma cultura extensa, que, com o somatório da experiência que adquiriu ao longo da sua vida de aventuras, lhe permitiria mais tarde colaborar na Encyclopédie e ajudar o abade Prévost a escrever sua grande colectânea de relatos de viagens, a monumental Histoire générale des voyages (num total 20 vol. : 15 vol. de 1746 a 1759, seguidos de 5 volumes póstumos, saídos até 1789.

Depois de completar seus estudos científicos, Frézier viajou pela Itália, onde estudou belas-artes e arquitetura, desenvolvendo um conjunto de interesses e conhecimentos que mais tarde aplicou ao seu estudo da arquitetura militar e à descrição das fortalezas e outras estruturas de defesa. No processo adquiriu uma sólida formação arquitetónica, bem patente nas suas descrições geográficas e depois nos seus trabalhos de natureza poliorcética.

Retornou à França por volta de 1700, fixou-se em Paris onde obteve um lugar de tenente no regimento de infantaria designado por Regimento de Humières (Régiment d’Humières, redesignado em 1702 como Régiment de Charost) que se encontrava sob as ordens de Louis Joseph de Béthune-Chârost, o duque de Chârost, iniciando assim uma carreira militar que manteria até ao fim da sua vida.

O posto militar ocupado por Frézier permitiu-lhe tempo livre suficiente para se dedicar ao estudo e para investigar e escrever uma obra intitulada Traité des feux d'artifice pour le spectacle (Tratado sobre fogos de artifício para o espectáculo), publicada em 1706.

Neste tratado, com base numa cuidada pesquisa de trabalhos publicados por múltiplos autores, Frézier descreveu os usos recreativos e cerimoniais dos fogos de artifício e da pirotecnia em geral, não se focando nos usos militares. Como também incluiu instruções para a fabricação dos fogos de artifício decorativos, o livro tornou-se num texto padrão para os fabricantes de dispositivos pirotécnicos. O sucesso da obra foi tal que mereceu nova edição, revista e aumentada pelo autor, em 1747, ou seja, 41 anos após a edição original.Traité des feux d'artifice, Paris, 1747.

O sucesso do Traité des feux d'artifice pour le spectacle afirmou o seu autor como cientista, o que lhe valeu a transferência para o Corpo de Engenharia do Exército, como engenheiro militar (ingénieur ordinaire du roi), sendo colocado em Saint-Malo. Neste posto trabalho sob a direção de Siméon Garangeau, que repetidamente louvou a sua habilidade e a qualidade do seu trabalho técnico. Por este tempo estabeleceu uma relação estreita com o meio naval, aprendendo as técnicas e as expressões dos marítimos, o que lhe foi de grande utilidade nas viagens que depois empreendeu e na elaboração da sua narrativa.A.-F. Frézier, ingénieur ordinaire du roi à Landau, por Pierre du Colombier, in «Sonderbrück aus Festschrift für Karl Lohmeyer», West-Ost Verlag, Sarrebruck.

O jovem oficial de engenharia voltou a destacar-se ao sugerir, de forma pioneira, substituir as pontas lisas em forma de vara usadas na cauda dos foguetes por uma empenagem, ideia que teria no século XX uma aplicação primordial em aeronáutica e na construção de foguetões e mísseis.

Durante sua estada em Saint-Malo, Frézier escreveu e enviou para o Journal de TrévouxLe Journal de Trévoux foi um órgão da Companhia de Jesus, que aquela ordem religiosa tinha começado a publicar em 1701 como parte do Journal des Savants de obediência «filosófica».Formalmente intitulado Mémoires pour l'Histoire des Sciences & des beaux-Arts. algumas observações sobre a obra Nouveau traité de toute l'architecture (Novo tratado da toda a arquitetura)Nouveau traité de toute l’architecture, utile aux entrepreneurs, aux ouvriers, et à ceux qui font bâtir, Paris, 1706. da autoria do cónego Jean-Louis de Cordemoy (1655–1714), texto mal-aceite por aquele autor e que deu origem a uma acesa e arrastada controvérsia.Hélène Rousteau, A. F. Frézier, ou le regard d’un ingénieur du XVIIIe siècle sur le gothique. Essa disputa talvez esteja na origem da animosidade de Frézier (claramente patente na Relation du voyage de la mer du Sud) em relação ao obscurantismo e ao dogmatismo em geral, e à Companhia de Jesus em particular.

Durante a Guerra da Sucessão Espanhola, quando a França foi colocada em risco pelas tropas do Sacro Império Romano-Germânico comandadas por Eugène de Savoie-Carignan, o príncipe Eugène, que ameaçava marchar sobre Paris, o jovem oficial de engenharia Frézier foi um dos que sugeriu a Claude Louis Hector de Villars, o marechal de Villars, atacar os redutos que defendem a estrada para Denain, ao tempo eixo tão essencial para o abastecimento dos Imperiais (les Impériaux) que estes a designavam por «a estrada para Paris». Mais tarde, em 27 de julho de 1712, o marechal de Villars pôs essa estratégia em prática. Para tal, fingiu atacar Landrecies e, em seguida, lançou as suas tropas sobre aquelas fortificações, que foram conquistadas a golpe de baioneta, no recontro que ficou conhecido pela batalha de Denain. Nessa ação, as forças do príncipe Eugène perderam 8 000 homens e 60 bandeiras, sendo de seguida obrigadas a evacuar a Flandres, o que precipitou o fim da Guerra da Sucessão Espanhola. A viagem à América do Sul Quando em 1711 se procurava um oficial capaz de ser enviado numa discreta missão de exploração aos portos da América do Sul espanhola, os superiores de Frézier, impressionados com a sua competência em astronomia e matemática e os seus conhecimentos de poliorcética, recomendaram-no para a tarefa.

Perante essa recomendação, e os seus comprovados conhecimentos em poliorcética e astronomia, Frézier foi selecionado por Michel Le Peletier de Souzy, o ministro encarregado das fortificações, para realizar aquela «viagem de exploração» nos Mares do Sul. A viagem na realidade era uma missão de espionagem, destinada a estudar as fortificações do Chile e do Peru, possessões da Coroa Espanhola na costa oeste da América do Sul de que os franceses pretendiam conhecer o estado de defesa. Frézier deveria reconhecer os portos espanhóis, e especialmente as suas fortificações, e estudar as relações comerciais e os recursos mineiros desses territórios, pois a França estava então numa crise económica que levava a Coroa a não ter escrúpulos em cobiçar as ricas colónias espanholas. O objetivo da missão de reconhecimento de Frezier para além de indagar sobre as condições gerais socioeconómicas do Chile e do Peru, dos seus meios de defesa e de estimar as forças que seriam necessárias para mantê-los protegidos de incursões estrangeiras, parece ter incluído fazer observações hidrográficas, corrigir cartas existentes e fazer planos exatos dos portos e fortalezas mais importantes existentes ao longo da costa.

A viagem destinava-se a complementar outra missão similar, também suportada pela coroa francesa, que fora iniciada no ano anterior pelo padre minorista e astrónomo Louis Feuillée, especialista em história natural, e em particular em botânica, devendo agora a nova expedição focar-se sobretudo no estudo das fortificações e do estado de defesa das colónias espanholas e das forças de defesa de que os seus governadores poderiam dispor. A decisão final sobre a sua realização ocorreu pouco tempo após o regresso de Louis Feuillée da América do Sul espanhola, já que este chegara a Brest a 27 de agosto de 1711, vindo do Peru.

Frézier, então com 37 anos e tenente-coronel de engenharia, foi colocado em licença e desligado do serviço ativo (de acordo com o princípio dos serviços secretos que querem estar prontos para não reconhecer um dos seus em caso de complicações). Embarcou em Saint-Malo, em 23 de novembro de 1711, no Saint-Joseph, um navio mercante de 350 toneladas de arqueação, armado com 36 peças e embarcando 135 homens, sob as ordens do capitão Duchêne Battas.Edward Heywood, A history of geographical discovery in the seventeenth and eigtheenth centuries, p. 206.Voyages français à destination de la Mer du Sud avant Bougainville (1695-1749).Relation du voyage de la mer du Sud aux côtes du Chili, du Pérou et de Brésil, fait pendant les années 1712, 1713 & 1714. Ouvrage enrichi de quantité de planches en taille-douce, p. 2. A escolha de um navio mercante, e não de um navio de guerra, demonstra a discrição com que se pretendia realizar a missão. As tempestades de inverno impediram a continuação da viagem e forçaram a embarcação, um mês depois, a voltar ao porto de partida. O St. Joseph partiu novamente a 7 de janeiro de 1712, numa viagem que duraria cerca de cinco meses, pois chegou a Concepción, Chile, em 16 de junho de 1712, após dobrar o Cabo Horn. O navio foi inicialmente acompanhado por uma embarcação menor, o Marie, que transportava vitualhas destinadas a reabastecer o Saint-Joseph.