thumb|Guarda de fronteira do Talibã em Torkham, no Afeganistão, em 2001 Talibã (também transliterado Taleban, Taliban ou Talebã, do pachto: طالبان, transl. ṭālibān, "estudantes") é um movimento fundamentalista e nacionalista islâmico que se difundiu no Paquistão e, sobretudo, no Afeganistão, a partir de 1994 e que, efetivamente, governou cerca de três quartos do Afeganistão entre 1996 e 2001, apesar de seu governo ter sido reconhecido por apenas três países: Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita e Paquistão.You Can’t Understand ISIS If You Don’t Know the History of Wahhabism in Saudi ArabiaPeter Tomsen, The Wars of Afghanistan: messianic terrorism, tribal conflicts, and the failures of great powers (New York: Public Affairs, 2011), Tomsen, The Wars of Afghanistan, 179-82, 195-99. Seus membros mais influentes eram ulemás (isto é, teólogos) em suas vilas natais. O movimento desenvolveu-se entre membros da etnia pachtun, porém também incluía muitos voluntários não afegãos do mundo árabe, assim como de países da Eurásia e do Sul e Sudeste da Ásia.
É, oficialmente, considerado como organização terrorista pela Rússia, União Europeia, Estados Unidos, Canadá, Emirados Árabes Unidos e Cazaquistão.
Por quase duas décadas, seu líder foi Mohammed Omar, considerado um dos mais influentes jihadistas do mundo. Ele liderou a luta para estabelecer os Talibã como a principal força política e militar no Afeganistão na década de 1990, e depois liderou a insurgência contra tropas ocidentais no território afegão. Quando morto, em 2013, foi sucedido por Akhtar Mohammad Mansour. Este, contudo, também foi morto em um ataque aéreo por forças lideradas pelos Estados Unidos em maio de 2016."Taliban Leader Mullah Akhtar Mansoor Is Dead". Página acessada em 22 de maio de 2016. Foi sucedido por Mawlawi Hibatullah Akhundzada, que assumiu, em 25 de maio, o controle operacional completo do grupo."Afghan Taliban announce successor to Mullah Mansour". Página acessada em 25 de maio de 2016.
Em 17 de agosto de 2021, após duas décadas afastado do poder, o Talibã retomou o controle do Afeganistão ao conquistar Cabul e derrubar o governo central afegão. Em seguida um novo Emirado Islâmico foi proclamado.
Primórdios do movimento Durante a Invasão Soviética do Afeganistão (1979-1989), o governo dos Estados Unidos, através da chamada Operação Ciclone, nome em código do programa da CIA, armou os mujahidins do Afeganistão. Foi uma das mais longas e dispendiosas operações da CIA já realizadas.The Oily Americans Time,13 de maio de 2003 Entre 1987 e 1989, os serviços secretos do Paquistão (o ISI) e a CIA operavam juntas, armando as milícias que combatiam as tropas soviéticas.Pesadelos no Afeganistão. O Globo, 28 de julho de 2010.
Cerca de 90 000 afegãos, incluindo Mohammed Omar, foram treinados pelo ISI do Paquistão durante a década de 1980.
De 15 de maio de 1988 até 15 de fevereiro de 1989, o exército soviético retirou as suas tropas do Afeganistão, tendo previamente negociado cessar-fogo com os comandantes dos mujahidins, para garantir uma passagem segura.
Após a retirada russa, os vários grupos armados combateram-se entre si e também contra o governo comunista instalado de Mohammad Najibullah, que continuou durante algum tempo a ser apoiado pela Rússia. Quanto aos mujahidins, o Paquistão continuava a fornecer-lhes armamento.
thumb|esquerda|Territórios controlados pelas partes em conflito em 1996: em amarelo território sob controle do Talibã
Depois que os vários grupos de resistência contra a ocupação soviética tomaram Cabul, em 1992, houve um agravamento das lutas internas e guerra civil.
No Outono de 1994, 40 a 50 estudantes muçulmanos, insatisfeitos com o caos do país, reuniram-se em Sansigar, a cerca de 40 quilómetros de Khandahar, com as duas principais figuras, o Mulá Abdul Salam Zaeef e Mohammed Omar, com a ideia de desarmar os bandos, acabar com os crimes e estabelecer a Xaria. Nomearam Mohammed Omar como seu comandante. Assim foi o começo modesto dos Taliban; na noite seguinte, surpreendentemente, já a BBC (em pachtun) anunciava o encontro. O ISI paquistanês estava preocupado com a instabilidade no norte, e vendo a oportunidade de acabar um a instabilidade e instalar um possível fantoche, apoiou o nascente grupo.
Os Talibã surgiram como uma alternativa caracterizada pela predominância pachtun, o grupo étnico maioritário no país e pelo rigor religioso extremo, criando na população expectativas de que acabaria com o constante estado de guerra interno e com os abusos dos senhores da guerra. Ao redor de Khandahar, numerosos bandos armados tinham estabelecido checkpoints nas estradas, só permitindo a passagem após o pagamento de uma taxa e cometendo ocasionalmente outros crimes.
A primeira ação armada dos Taliban foi o estabelecimento do seu próprio checkpoint na estrada perto da vila de Hawz-i-Mudat. O grupo tinha algumas armas apenas, uma velha motocicleta russa e quase nenhum dinheiro, e o movimento poderia ter morrido no berço, não fosse o grande apoio da população local. Dentro de poucos dias já eram em número de mais de 400 combatentes, e começaram a acabar com os checkpoints mais próximos.
Em 12 de Outubro de 1994, um grupo de 200 Talibã assumiu, em cerca de quinze minutos, o controle de Spin Boldak, na fronteira entre o Afeganistão e o Paquistão, um importante posto alfandegário no lucrativo comércio de camiões. Após essa vitória, o Paquistão intensificou a ajuda ao movimento, principalmente por meio de Nasrullah Babar, um integrante da etnia pachtun que era Ministro do Interior. Dentre os motivos deste apoio aos Talibã, estava a crença na sua capacidade de restaurar a ordem nas estradas afegãs e de estabelecer um governo estável, que viabilizaria a construção de um possível gasoduto, podendo ser seu aliado em suas disputas contra a Índia.
Antes de apoiar o Taliban, o Serviço Secreto Paquistanês apoiava Gulbuddin Hekmatyar, o "Carniceiro de Cabul", um líder pachtun e partidário do fundamentalismo islâmico, mas que não conseguiu estabelecer controle do país.
Consolidação
Conquista de Kandahar Já em novembro de 1994, os talibãs atacavam Kandahar, a segunda cidade mais importante do Afeganistão, que conquistaram ao fim de três dias com pouquíssimas baixas. Naqib, um dos comandantes da cidade, passou para o lado do grupo com os seus 20 mil homens. Nisso, os talibãs tomaram posse dum importante arsenal, que incluía dezenas de tanques, veículos blindados, seis caças MiG-21, e seis helicópteros, deixados para trás pelos russos.
Desde logo os primeiros decretos dos talibãs em Kandahar visaram as mulheres: proibidas de trabalhar fora de casa; forçadas a usar burcas; proibidas de frequentar as escolas, e impedidas de ser vistas por médicos masculinos, entre outras proibições.
Em Fevereiro de 1995, os seus efectivos somavam cerca de 25 mil combatentes.
Tomada de Herat Em 5 de Setembro de 1995, o movimento conquista, também com pouca resistência, a cidade de Herat.
A população de Herat, a primeira cidade de língua farsi capturada pelos talibãs, era mais sofisticada e religiosamente liberal do que os talibãs estavam acostumados. A cidade, após a queda do regime pró-soviético, tinha sido governada por Ismail Khan, desde 1992, e tinha-se mantido em relativa paz no meio do conflito. A população escolar era de cerca de 21 mil estudantes femininas para 23 mil estudantes masculinos. A maior parte dos professores eram mulheres, que também ensinavam os rapazes. Culturalmente e linguisticamente, Herat nada tinha a ver com os Taliban — eram, além do mais, maioritariamente xiitas.
Os invasores aplicaram imediatamente a Xaria, confinando as mulheres às suas casas e fechando as escolas femininas. Segundo a AFP, em outubro desse ano os Taliban asseguraram a um funcionário das Nações Unidas que "a educação feminina receberá a devida atenção, dentro da estrutura islâmica, nas áreas sob o seu controle".
Tomada de Cabul Subiram ao poder depois de derrotar o presidente Burhanuddin Rabbani e seu chefe militar, Ahmad Shah Massoud, tendo ocupado a capital, Cabul, em 27 de Setembro de 1996, após meses de bombardeamentos desde o inverno de 1995. Violando a imunidade diplomática do complexo da ONU, onde o ex-presidente comunista Mohammad Najibullah e seu irmão estavam refugiados, os Taliban entraram, espancaram e torturaram os dois, castraram o antigo presidente, arrastaram-no atrás dum jipe pelas ruas e finalmente mataram-no a tiro. O irmão foi estrangulado, e os dois cadáveres deixados pendurados em postes na rua.
Em 2000, o governo Taliban destruiu com machados cerca de 2 750 obras de arte antigas no Museu Nacional de Cabul, porque retratavam seres vivos, o que "ofendia seu conceito de Alá". A equipe de demolição foi liderada pelo ministro da Informação e Cultura e pelo ministro das Finanças, segundo o Los Angeles Times. Um guia turístico de 1974 é tudo o que resta para documentar os objectos destruídos.
Logo após tomar Cabul, os Taliban impuseram a sua versão do sistema islâmico. Todas as mulheres foram proibidas de trabalhar, o que provocou imediatamente o caos, pois um quarto dos serviços civis de Cabul, todo o ensino e grande parte dos serviços de saúde dependiam das mulheres. As escolas femininas foram fechadas, afectando cerca de 70 mil estudantes. As mulheres foram obrigadas a tapar-se da cabeça aos pés.
Viúvas de guerra foram impedidas de ganhar o seu sustento e das famílias. A Rádio Cabul foi renomeada Radio Xaria. Todos os dias traziam novas proibições. Cabul era uma cidade sob ocupação.
Massacres de Mazar-E-Sharif Em Maio de 1997, os Taliban tinham invadido pela primeira vez Mazar-e-Sharif, a única grande cidade controlada pelas forças adversárias, conquistando-a durante 4 dias, tendo sido expulsos. Nesta ocasião, foram executados sumariamente, segundo relatos, cerca de dois mil prisioneiros talibã.
Em 8 de Agosto de 1998 voltaram a tentar, exercendo uma terrível vingança. Após conseguirem tomar a cidade, no que foi descrito como um "frenesim assassino", percorreram as ruas atirando contra tudo o que se movesseː homens, mulheres, crianças e até animais. Durante seis dias, não foi permitido sepultar os mortos; os cadáveres apodreciam nas ruas.
Nos dias que se seguiram, as forças dos Talibã realizaram uma busca sistemática de membros masculinos das etnias hazara, tadjique e uzbeque na cidade. Os hazaras, eram xiitas de língua persa, e foram particularmente visados, considerados kafir. Também foram mortos oito funcionários iranianos no consulado iraniano na cidade e um jornalista iraniano. Milhares de homens de várias comunidades étnicas foram detidos primeiro na cadeia superlotada da cidade e depois transportados em camiões fechados para outras cidades, incluindo Shiberghan, Herat e Kandahar, muitas vezes chegando mortos ao destino. A Human Rights Watch acredita que o número de vítimas ultrapassou dois mil; houve relatos de que mulheres e crianças teriam sido violadas e raptadas durante a conquista.
Destruição de livros A 12 de Agosto de 1998, os Talibãs queimaram toda a colecção de 55 000 livros de uma das mais belas bibliotecas públicas do Afeganistão. Pertencente à Fundação Nasser Khosrow, manuscritos datados de mais de dez séculos, incluindo um exemplar de Alcorão com cerca de 1000 anos, estavam expostos ao lado de muitos autores ocidentais. O movimento usou RPG (lança granadas) para levar a cabo a destruição completa.
Destruição de estátuas de Buda thumb||Talibãs em Herat em Julho de 2001