Brenda Ann Spencer (San Diego, 3 de abril de 1962) é uma assassina em massa estadunidense, responsável quando ainda era adolescente pelo ataque a uma escola primária que ficava em frente à sua casa, matando duas pessoas e ferindo outras nove (oito crianças e um policial) — crimes pelos quais recebeu uma pena indeterminada que vai do mínimo de 25 anos à prisão perpétua.

O crime, ocorrido em 1979, foi o primeiro contra uma escola dos Estados Unidos desde o massacre de Bath School em 1927, e inspirou o cantor Bob Geldof a compor uma música manifestando o choque pelo ataque, baseada na declaração de Brenda Spencer a um repórter, de que praticara o ato porque "eu odeio segundas-feiras" (I don't like Mondays, no original). Brenda também foi a primeira mulher a se tornar uma atiradora que ataca escolas.

Por seu tipo de ataque ela se tornou protagonista do que os americanos chamam de berserk crimes — referência à ferocidade com que os berserkers (tipo de guerreiro associado aos povos nórdicos) agiam — expressão que define os assassinos que praticam seus crimes possessos pela fúria.

Também é considerada como autora do primeiro ataque a escolas por um atirador, numa série que inclui os massacres de Columbine e o de Newtown — crimes para os quais ela uma vez admitiu possivelmente ter inspirado.

Contexto familiar

Brenda era filha do casal Dorothy Nadine Hobel e Wallace Edward Spencer, que se casou no dia 12 de dezembro de 1954, em Chula Vista (subúrbio de San Diego, na Califórnia, que se desenvolvera após o retorno de ex-combatentes da II Guerra Mundial); ela tinha 19 anos, e ele 25.

Ainda nos primeiros dias do casamento Dorothy concluiu o bacharelado em negócios numa faculdade local, e nos três primeiros anos estudou em outros cursos; logo abriu um escritório de consultoria, granjeando uma boa clientela e ótima reputação na sociedade; durante seis meses ao ano era escriturária do Andy Williams Open Golf Tournament of Torre Pines, que integrava o PGA Grand Tour. Já o marido era técnico de manutenção na San Diego State University, trabalho que manteve até os eventos criminosos protagonizados por sua filha.

O primeiro filho do casal, Scott Matthew Spencer, nasceu em 1956; a segunda, Theresa Lynn, nasceu em 1958, ao passo que Brenda é de 1962.

Em janeiro de 1972, 18 anos após o casamento, Dorothy pediu o divórcio; segundo os registros, ela alegou que o marido tinha outra mulher, havendo ficado por um ano afastado da família; durante a decisão da guarda dos filhos, estes foram ouvidos separadamente pelo juiz e a maioria deles optou por ficar com o pai, o que fez o juiz decidir deixar a guarda com Wallace, a fim de mantê-los juntos; Dorothy teve regulado seu direito de visitas, mas não se sabe ao certo se, ou por quanto tempo, manteve contato com os filhos.

Vida e comportamento antes do ataque Nascida numa típica família americana, sempre foi uma garota solitária e complexada com sua aparência física — odiando desde a cor de sua pele, o cabelo ruivo, as sardas até os largos óculos para miopia. Contudo, até a separação de seus pais ela era considerada uma garota normal e feliz, praticando vários esportes, que gostava dos animais e uma talentosa fotógrafa.

Com o divórcio de seus pais Brenda ficou sob a guarda do genitor, Wallace Spencer, que era alcoólatra e, segundo ela afirmou mais tarde, teria lhe aplicado maltratos e lhe abusado sexualmente; tudo isto lhe reforçou o comportamento antissocial. Passaram a residir num subúrbio operário de San Diego, justo na rua da escola primária Cleveland, onde Brenda estudou até 1974 — uma proximidade tão grande que a entrada do colégio era visível das pequenas janelas da porta de entrada da nova residência. Começou a andar com outro garoto problemático, e tinha obsessão pelo roqueiro Alice Cooper.

Assim como outros notórios criminosos em série, Brenda praticava a crueldade contra os animais — ateando fogo aos rabos de cães e gatos; esse tipo de conduta não foi levado a sério pelos agentes de aplicação da lei — apesar de as evidências serem crescentes da ligação entre essas práticas maldosas ao comportamento violento e antissocial, segundo o psicólogo Randall Lockwood.

Dorothy declarou que por muitas vezes visitou sua filha nesta época, mas Brenda se recorda de ter ido até a casa da mãe após as aulas, sem ser convidada, e ficar por horas esperando-a na frente, e nunca ficou claro se a mãe ficava contente com essas visitas. Michael McGlinn, advogado de Brenda, definiu sua mãe como "uma pedra" e que ela nunca estabeleceu um relacionamento com a filha; o pai, por sua vez, foi por ele definido como "um homem amargo, que odiava o mundo" e que começara a beber muito: quando a polícia entrou na casa, após o tiroteio, encontrou garrafas de bebida pela metade em todos os lugares.

Em junho de 1973 Wallace começou a atrasar o pagamento da pensão à ex-mulher e em maio de 1974 solicitou judicialmente a interrupção desta obrigação; sua vida era de quase-pobreza, naquela época — dormia com Brenda num colchão de solteiro na sala de estar; finalmente, pediu que a ex-mulher lhe pagasse uma pensão de 150 dólares ao mês, pelos três filhos.

Nalgumas noites em que o pai chegava bêbado, batia em Brenda e a molestava; mas noutras ocasiões ele a tratava bem: comprava-lhe bichos de estimação e ensinou-a a manejar um rifle — atividade que ele gostava — e comprou-lhe uma espingarda de ar comprimido.

Juntos, pai e filha, iam para as colinas praticar tiro ao alvo, de modo que Brenda tornou-se excelente atiradora. Uma ex-colega, que pediu anonimato, declarou em 1979 que foi com ela ao deserto praticar a pontaria e que "ela matou um monte de lagartos e esquilos. Ela quase nunca errava"; já outro amigo declarou que o sonho de Brenda era tornar-se uma atiradora profissional.

Apesar de sua mãe ter declarado que Brenda "era sempre feliz, uma boa criança, bem comportada, nunca teve problemas na escola (...) Esta era a minha garotinha", ela havia por conta própria aos dez anos começado a usar heroína (vício que manteve até os 27 anos) e várias outras drogas; as bebidas alcoólicas também faziam parte de seus hábitos, já que estas estavam fartamente disponíveis na própria casa.

Foi repreendida por um vizinho, aos 11 anos, por atirar em aves com chumbinho; faltava às aulas e tinha outros problemas comportamentais que levaram à sua internação numa escola para crianças "especiais"; seus pais, chamados para uma reunião de pais e mestres, ficaram indiferentes quando lhes foi dito que a filha era uma suicida.

Ela então passou a construir um novo status criminal: gabava-se na sala de aula de fazer uso de LSD, maconha e pílulas; quando na televisão um policial recebia um tiro, ela gritava "Muito bem!" e por várias vezes disse que queria matar agentes da polícia, chamando-os de "porcos"; numa idade mais madura ela declarou que seria homossexual desde o nascimento.

Após o período no centro para jovens com problemas seu comportamento tornou-se mais violento; nas férias de verão de 1978 foi detida por disparar contra o prédio da escola primária, que ficava do outro lado da rua de sua casa, com sua espingarda de ar comprimido, com a qual também abatia aves que caíam mortas na vizinhança.

Brenda tinha alguns amigos, mas muitos tinham medo dela e mantinham distância; uma colega declarou que "ela era legal, mas era muito doida. Éramos legais com ela porque a gente tinha medo dela (...) Eu não gostava dela porque sempre falava sobre matar coisas", enquanto um colega de sua classe de história se recordava de que Brenda muitas vezes perguntava em voz alta como seria a sensação de atirar em pessoas.

miniaturadaimagem|300px|Ruger calibre 22 — em vez de um rádio, Brenda ganhou um rifle desses. Apenas seu pai não percebeu a conduta crescentemente perigosa da filha e recusou-se a permitir sua internação quando esta foi sugerido por seu oficial de condicional, após uma avaliação médica por depressão que deliberou que ela deveria ser tratada num hospital psiquiátrico por representar um perigo a si mesma e aos outros; em vez disso, naquele ano, quando a filha pedira-lhe um rádio pelo natal, deu-lhe de presente um rifle Ruger calibre 22, com mira telescópica e 500 cartuchos de munição.

Brenda tratou então de aperfeiçoar sua pontaria nas semanas seguintes, treinando para o ato que viria a ocorrer no dia 29 de janeiro de 1979, aparentemente porque era uma segunda-feira.

O ataque à escola Grover Cleveland Elementary Brenda saiu à janela de sua casa e, através da rua, com o rifle que ganhara no natal, passou a alvejar aqueles que se dirigiam à Grover Cleveland Elementary School, atingindo mortalmente duas pessoas, ferindo ainda oito crianças e um policial, Robert Robb, que foi o primeiro agente a chegar ao local, e foi ferido no pescoço.

O ataque teve início às 8h30min, assim que os alunos começaram a chegar para as aulas; no início as pessoas pensaram que se tratavam de fogos de artifício, até que viram os corpos caindo ao chão.

miniaturadaimagem|O diretor Burton Wragg (esquerda) e o zelador Mike Suchar (direita), as duas vítimas fatais. O diretor da escola, Burton Wragg, então aos 53 anos, foi atingido e morto quando corria para ajudar uma das crianças; o zelador Michael Suchar (56 anos) que correu em direção ao diretor, foi morto em seguida.

Durante o tiroteio Brenda foi contatada por acaso por dois jornalistas do San Diego Evening Tribune que, tentando telefonar para os vizinhos, acabaram ligando para sua casa; ela então deu uma entrevista na qual justificou estar fazendo aquilo porque "Eu não gosto de segundas-feiras. Isto vai animar o dia."

Ela interrompeu o tiroteio apenas porque um outro policial, auxiliado pelo segurança de uma outra escola próxima, estacionou um caminhão de lixo diante da escola, o que lhe bloqueou a linha de tiro.

A entrevista em meio ao ataque

Após o primeiro contato o repórter do hoje já extinto jornal de San Diego lhe perguntou se era realmente ela quem estava fazendo aquilo, ao que Brenda respondeu: "E quem você acha que fez isso?", desligando em seguida.

Stevens, o jornalista, ligou novamente e pediu-lhe uma entrevista; a garota então contou que havia dito ao pai que estava doente e, assim, ficara em casa faltando à escola; ela disse que só estava fazendo aquilo porque achava divertido e, como ele insistia em saber o motivo dos tiros, ela continuou: "Eu apenas não gosto de segundas-feiras. Você gosta de segundas-feiras? Fiz isso como uma forma de alegrar o dia. Ninguém gosta de segundas-feiras".

Questionada se estava sozinha em casa, Brenda foi irônica: "Você acha que eu faria isso se tivesse mais alguém na casa?", o que fez o jornalista relatar que ela aparentava calma e controle da situação; Brenda continuou dizendo que não via nada de mais em atirar nas pessoas que ela sequer conhecia, mas revelou preocupação com o que seu pai diria sobre o que estava a fazer: "Meu pai vai me matar quando chegar em casa e descobrir tudo" e, quando o jornalista disse que ela poderia ter matado três ou quatro pessoas, ela pareceu achar pouco: "Isso foi tudo?", e completou: "Eu vi um monte de penas voar".

Após admitir suas prisões anteriores, a entrevista terminou com Brenda declarando: "Tenho que ir agora. Eu atirei num porco (o policial), acho, e quero atirar um pouco mais." Enquanto a entrevista ocorria uma outra equipe do San Diego Evening Tribune, avisada sobre a estranha entrevista, avisou à polícia que, até aquele momento, não havia identificado de onde partiam os tiros; as informações passadas por Brenda acabaram permitindo que ela fosse presa, sem mais feridos.

Negociando a rendição

Sabendo finalmente de onde partiram os tiros, os policiais então evacuaram as crianças que estavam no interior da escola pelo lado oposto ao da casa de Brenda; elas foram então embarcadas num ônibus e levadas ao auditório da Pershing High School, que ficava a três quadras dali, onde finalmente puderam se juntar aos seus aflitos pais.