Wicca é uma religião neopagã (ou pagã moderna) influenciada por crenças pagãs antigas (ou crenças pré-cristãs europeias),Lewis, James R. The Oxford Handbook of New Religious Movements (Oxford University Press, 2004). p. 13. ISBN 0-19-514986-6.Hanegraaff, Wouter J. New Age Religion and Western Culture: Esotericism in the Mirror of Secular Thought (Brill Academic Publishers, 1996). p. 84. ISBN 90-04-10696-0. ou seja, crenças e práticas ritualísticas da Europa ocidental anteriores ao aparecimento do cristianismo, que afirmam a existência do sobrenatural (como a magia) e os princípios físicos e espirituais femininos e masculinos que interagem com a natureza, e que celebra os ciclos da vida e as festividades sazonais conhecidos como sabás (ou calendário Roda do Ano), os quais ocorrem, normalmente, oito vezes por ano.João Ribeiro Júnior, O Que é Magia, p.38, Abril Cultural/Brasiliense. Esta prática quase desapareceu por completo durante o período da Idade Média.Autoridades no tema como Alex Sanders referem-se a ela como a religião natural, "a mais antiga do mundo".João Ribeiro Júnior, O Que é Magia, p.37, Abril Cultural/Brasiliense. É muitas vezes referida como Witchcraft ou the Craft por seus seguidores: os wiccanos e/ou bruxos. Suas origens contestadas residem na Inglaterra no início do , mas foi popularizada na década de 1950 pelo escritor e antropólogo amador Gerald Gardner, que na época chamava a religião de "culto às bruxas" e "bruxaria" e seus seguidores "a Wicca", apesar de a palavra "bruxaria" abranger um círculo bem mais amplo e universal de práticas mágicas do que o englobado pela religião wiccana. A partir da década de 1960 o nome foi normalizado para "Wicca".
A Wicca é uma religião politeísta, de culto basicamente dualista, que crê tradicionalmente na Deusa Tríplice e no Deus cornífero, ou religião matriarcal de adoração à deusa mãe. Estas duas deidades são muitas vezes vistas como faces de uma divindade panteísta maior, ou que se manifestam como várias divindades politeístas. A Wicca também envolve a prática ritual da magia, em grande parte influenciada pela magia cerimonial do passado, muitas vezes em conjunto com um código de moralidade liberal conhecida como a Rede Wiccana, embora não seja uma regra. Embora algumas tradições adorem o celta Cernuno, símbolo da virilidade, e por vezes seja confundida com satanismo, os wiccanos não creem em Lúcifer, Jesus ou Satanás, pois as consideram entidades exclusivamente cristãs, afirmação que os Satanistas rejeitam, dado que a vertente mais expressiva do Satanismo é ateísta e utiliza Lúcifer ou Satanás apenas como figuras artísticas arquetípicas e representativas de um alter ego, não como uma entidade ou divindade sobrenatural.
Existem diversas tradições wiccanas. Algumas, como a Wicca gardneriana e a alexandrina, seguem a linhagem iniciática de Gardner; ambas são frequentemente denominadas de Wicca Tradicional Britânica, e muitos dos seus praticantes consideram que o termo "Wicca" possa ser aplicado unicamente a elas. Outras, como o cochranianismo, a Tradição Feri e a Tradição diânica, tomam como principal influência outras figuras e não insistem em qualquer tipo de linhagem iniciática. Seax-Wica ou Wicca Saxônica é a tradição com base anglo-saxã da Wicca. Alguns destes não usam o termo "Wicca", preferindo "Bruxaria", enquanto outros creem que todas estas tradições podem ser consideradas wiccanas.
História Origem e crescimento, 1921-1959
thumb|esquerda|upright|Bruxas Sabá de Francisco de Goya (1789). O Culto Bruxo afirma que essas histórias são baseadas em um antigo culto pagão que reverenciava um deus cornífero, mas não o Satã
Desde meados do , a Bruxaria tornou-se a autodesignação de uma sucursal do neopaganismo, especialmente na tradição Wicca, cujo pioneiro foi Gerald Gardner, que alegava ter resgatado uma antiga tradição religiosa da bruxaria com raízes pré-cristãs (alguns wiccanos dizem que é a mais antiga religião do mundo).Adler, Margot (1979) Drawing Down the Moon: Witches, Druids, Goddess-Worshippers, and Other Pagans in America Today. Boston: Beacon Press. pp. 45–47, 84–5, 105. Na década de 1920 e na década de 1930, a egiptóloga Dr. Margaret Murray publicou diversos livros influentes detalhando suas teorias de que as bruxas e bruxos caçados durante a Idade Média não eram, como alegavam seus perseguidores cristãos, adeptas do Satanismo, mas simpatizantes de uma religião pagã pré-cristã que adorava um deus cornífero — o Culto Bruxo. Antes de Murray, nomes como Girolamo Tartarotti, Matilda Joslyn Gage, Jacob Grimm, Karl Pearson, Jules Michelet e Charles Leland já escreviam linhas ou livros inteiros sobre o contraste entre as duas religiões na Idade Média e Renascimento.The Triumph of the Moon - The Rise of Modern Pagan Witchcraft, Ronald Hutton, Oxford University Press, 1999, página 137A New History of Witchcraft, Russell & Alexander, Thames & Hudson, página 147.The Triumph of the Moon - The Rise of Modern Pagan Witchcraft, Ronald Hutton, Oxford University Press, 1999, pags. 149-150 Embora nos dias de hoje a pesquisa histórica aprofundada tenha desacreditado de Murray, suas teorias foram amplamente aceitas e apoiadas na época.
Nos anos 30, apareceu a primeira evidência de uma prática pagã de religião de bruxariaNevill Drury. "Why Does Aleister Crowley Still Matter?" Richard Metzger, ed. Book of Lies: The Disinformation Guide to Magick and the Occult. Disinformation Books, 2003. (o que hoje é reconhecida como Wicca) na Inglaterra. Diversos grupos em todo o país, em lugares como Norfolk,Bourne, Lois (1998). Dancing With Witches. Hale. Página 51. e CheshireHeselton, Philip (2003). Gerald Gardner and the Cauldron of Inspiration. Capall Bann. Página 254. se autoproclamaram continuadores da tradição do Culto Bruxo de Murray, embora estivessem abertos a influências de diversas outras fontes, tais como a Magia cerimonial, a Maçonaria, a Teosofia, o Romantismo, o Druidismo, a mitologia clássica e as religiões asiáticas.
A Bruxaria tornou-se mais proeminente, contudo, na década de 1950 com a revogação da Lei de Feitiçaria de 1735, da qual diversas figuras, como Charles Cardell, Cecil Williamson e notavelmente Gerald Gardner, começaram a propagar suas próprias versões do ofício. Gardner foi iniciado no New Forest coven em 1939, antes de formar sua própria tradição, mais tarde chamada Gardnerianismo. Sua tradição, auxiliada por sua Alta Sacerdotisa Doreen Valiente e com a publicação de seus livros A Bruxaria Hoje (1954) e O Sentido da Bruxaria (1959), logo se tornou a tradição dominante no país, e se espalhou para outras regiões das Ilhas Britânicas.
São comuns os boatos de que o verdadeiro autor por detrás dos escritos de Gerald Gardner, tenha sido o mago inglês Aleister Crowley. Contudo, não existem evidências que deem sustentação a esta teoria. Por outro lado, Gardner não apenas foi um membro iniciado de VIIº da Ordo Templi Orientis (ordem liderada e reformada por Crowley de uma academia maçônica para uma organização indepentende seguidora da filosofia conhecida como Thelema) como recebeu autorização para liderar os trabalhos da Ordem na Inglaterra.Gardner e a O.T.O., verificar texto "Sucessão Após Crowley". Com isto, é clara a herança thelemica dentro da Wicca. O postulado "faze o que tu queres desde que não faças mal a ninguém" é facilmente percebido como uma adaptação do primeiro postulado da Lei de Thelema: "Faze o que tu queres será o todo da Lei". Fora isso, trechos de rituais da Wicca Gardneriana.Wicca Gardneriana - Iniciação IIIº Grau são cópias literais de trechos de ritos thelemicos.LIber XV - A Missa Gnóstica
Adaptação e propagação (1960-atual) thumb|Adeptos seguram vassouras representando o pentagrama em evento wiccano nos Estados Unidos, 2009 Com a morte de Gardner em 1964, o Ofício continuou a crescer inabalável apesar do sensacionalismo e das opiniões negativas publicadas pelos tabloides britânicos, com novas tradições propagadas por figuras como Robert Cochrane, Sybil Leek e Alex Sanders, criador da Tradição Alexandrina, que, baseada no Garderianismo, embora com uma ênfase na magia cerimonial, espalhou-se rapidamente e ganhou muita atenção da mídia. Nesta época, o termo "Wicca" começou a ser adotado ao lado de "Bruxaria" e suas crenças e tradições exportadas para países como Austrália e os Estados Unidos.Alexander, Brooks; Russell, Jeffrey (2007). A New History of Witchcraft. Thames & Hudson. p. 178–185.
Foi nos Estados Unidos e na Austrália que novas tradições da Wicca surgiram, muitas vezes baseada em folk regionais e às vezes misturadas com a estrutura básica da Wicca de Gardner, gerando diversas formas de Wicca como o Dianismo de Zsuzsanna Budapest, cada uma delas enfatizando diferentes aspectos do ofício. thumb|upright|esquerda|Marido e esposa se beijam em cerimônia de casamento Wicca
Na década de 1970, a literatura Wicca também cresceu, e muitos livros ensinando pessoas a se tornarem bruxos sem iniciações formais começaram a ser publicados em grandes quantidades pelo mundo, como o Mastering Witchcraft (1970) de Paul Huson, um manual "faça você mesmo" que se tornou muito famoso e influenciou novos bruxos.Luhrmann, T.M. Persuasions of the Witch's Craft, Cambridge: Harvard University Press, 1989, p.261 "Core Texts in Magical Practice"Kelly, Aidan A. Crafting the Art of Magic: A History of Modern Witchcraft, Minnesota: Llewellyn, 1991, p.61, on "the First Degree Initiation"Clifton, Chas S. The Paganism Reader, New York: Routledge, 2004 p.4 "Revival and diversification texts", pp. 170 - 185, "Paul Huson: Preliminary Preparations" Livros da mesma ordem continuaram a serem publicados através dos anos 80 e anos 90, com a autoria de nomes como Doreen Valiente, Janet Farrar, Stewart Farrar e Scott Cunningham, que popularizou a ideia de auto-iniciação ao Ofício com seu Wicca: Um Guia Para o Praticante Solitário (1988).
Nos anos 90, as poucas, mas pioneiras comunidades wiccanas no Brasil procuravam se solidificar em grandes centros como São Paulo e Rio de Janeiro, e fazer conexões com associações europeias a fim de regulamentar a religião Wicca no país.Revista Planeta, setembro de 1997. Repórter: Romeo Graziano Filho. A partir de então, a Wicca e a Bruxaria em geral têm crescido expressivamente no Brasil, especialmente em Brasília, São Paulo e Rio de Janeiro, nos dias de hoje.Heloísa Noronha. "Atualizada, bruxaria está na moda " (1/08/2010). UOL. Acesso: 13 de novembro, 2010.
O primeiro livro traduzido do inglês para o português trazendo o termo wiccaniano(a) foi Wicca: A Feitiçaria Moderna, de Gerina Dunwich. Posteriormente, outros livros traduzidos passaram a apresentar o termo "wiccano" como uma alternativa para a palavra inglesa "wiccan", termo usual para designar um adepto da religião em questão naquele idioma. Na década de 90, quando cada vez mais a Bruxaria ganhava novos adeptos, surgiram filmes como Jovens Bruxas (1996), dirigido por Andrew Fleming, e seriados como Charmed (1998-2006), introduzindo aos jovens uma ideia de religião bruxa. Mas, criticando a forma como a Wicca veio sendo encarada desde então, como moda, como ecletismo, e sendo engajada em movimentos como a Nova Era, muitos bruxos, notavelmente Andrew Chumbley, voltaram-se para a antiga tradição de Gardner, como uma forma de "levar a sério" o Ofício.
Etimologia