Francisco Xavier da Cunha Aragão ComC • ComA (Pangim, Nova Goa, — Lisboa, ),Fernando de Castro Brandão, Da Monarquia Constitucional à República 1834-1910. Uma cronologia. Europress, Póvoa de Santo Adrião, 2003, p. 221. o herói de Naulila, foi um oficial de Cavalaria do Exército Português que se distinguiu nos eventos de Naulila, em Angola, e como resistente contra o regime saído do Golpe de 28 de Maio de 1926.Francisco Aragão - herói de Naulila.Tenente Francisco de Aragão: O heroe de Naulilla. Após a Primeira Guerra Mundial transitou para a Aeronáutica Militar, tendo sido um dos pioneiros da aviação militar em Portugal.Momentos da História. Foi chefe de gabinete de Ribeiro de Carvalho em 1923-1924. Conspirou contra o Estado Novo a partir de 1931, sendo demitido das Forças Armadas e forçado ao exílio em França, de onde regressou em 1940, sendo-lhe fixada residência nos Açores. Foi irmão do comodoro António da Cunha Aragão, da Marinha de Guerra Portuguesa, que se notabilizou na Índia.

Biografia Francisco Xavier da Cunha Aragão nasceu em Pangim, Nova Goa (Estado da Índia), onde a família residia por estar o pai em comissão de serviço, filho do oficial da Marinha de Guerra Portuguesa Militão Constantino Aragão e de sua esposa Ana Henriqueta da Cunha Aragão. O pai, natural da vila da Povoação, Açores, terminou a sua carreira naval no posto de vice-almirante. Era ao tempo ajudante de campo do governador-geral do Estado da Índia, o general de divisão Francisco Maria da Cunha, natural de Angra do Heroísmo, com cuja filha casara. Com ascendência açoriana em ambos os ramos da família, o próprio Francisco Xavier da Cunha Aragão casaria em 19 de maio de 1919 com Georgina Pereira de Vasconcelos, natural de Angra do Heroísmo.António de Ornelas Mendes & Jorge Forjaz, Genealogias da Ilha Terceira, vol. I, pp. 306-307. Dislivro Histórica, Lisboa, 2007 (ISBN 978-972-8876-98-2).

Após concluir os estudos no Real Colégio Militar em 1907, ingressou na Escola do Exército, onde completou o curso de Cavalaria em 1911. Ainda aspirante colocado no Regimento de Cavalaria N.º 4, onde prestava serviço com João Sarmento Pimentel, participou na Revolução de 5 de Outubro de 1910, sendo um dos jovens militares republicanos que se distinguiram na implantação da República Portuguesa.

Terminado o curso, foi promovido a alferes da arma de Cavalaria em 11 de Novembro de 1911 e colocado no Regimento de Cavalaria N.º 11. Com tropas daquele regimento, foi requisitado para a realização de um comissão de serviço no Ministério das Colónias, iniciando a sua preparação para integrar os dragões, forças de cavalaria treinadas para actuar desmontadas em ambientes que requeiram grande mobilidade.

Foi promovido a tenente em 13 de Novembro de 1913 e transferido para Angola, sendo colocado no sul daquele território. Estava em Angola quando na Europa deflagrou a Primeira Guerra Mundial e aumentaram as tensões ao longo da fronteira com a Damaralândia, ao tempo parte da colónia do Sudoeste Africano Alemão (alemão: Deutsch-Südwestafrika, DSWA), a actual Namíbia. Face à deterioração das condições de segurança ao longo da fronteira, foi deslocado para a região do Humbe como comandante do 1.º esquadrão dos Dragões do Planalto, com a incumbência de fiscalização da fronteira luso-alemã ao longo do rio Cunene. O herói de Naulila Foi durante a comissão de serviço de Francisco Aragão, na fronteira sul de Angola, que ocorreram os incidentes que ficariam conhecidos na historiografia portuguesa como o desastre de Naulila e na alemã como o assassinato de Naulila (): a 18 de Outubro de 1914, um pelotão comandado pelo alferes Manuel Álvares Sereno, em patrulha junto à fronteira com a Damaralândia, encontrou a uma dúzia de quilómetros do posto de Naulila uma pequena força alemã, capitaneada pelo Dr. Hans Schultze-Jena, juiz e administrador do distrito de Outjo,Namibiana: Hans Schultze-Jena. que tinha entrado em Angola sem prévio aviso às autoridades portuguesas e sem contacto com qualquer posto fronteiriço. Com ordens para desarmar forças alemãs, na manhã seguinte o alferes Sereno conduziu o Dr. Hans Schultze-Jena e parte da delegação alemã ao posto de Naulila, onde um súbito confronto levou a que fossem abatidos a tiro, para além de dois ordenanças nativos, o Dr. Schultze-Jena e os dois oficiais alemães que o acompanhavam.

A indignação entre os colonos alemães atingiu o sentimento de ultraje e rapidamente foram organizadas expedições punitivas contra os postos portugueses ao longo da fronteira. O posto de Cuangar, na margem do rio Cubango, foi atacado, o mesmo acontecendo com diversos outros postos fronteiriços na região. Em consequência, o destacamento de dragões comandado por Francisco Aragão, ao tempo com 47 homens, foi integrado nas forças comandadas por Alves Roçadas, as quais eram compostas por tropas metropolitanas da força expedicionária portuguesa, que no mês anterior havia desembarcado em Moçâmedes, e por forças da colónia de Angola enquadradas por militares metropolitanos, entre as quais o referido destacamento de dragões, e por um corpo de tropas de landins, como eram chamados aos combatentes africanos originários de Moçambique que estavam integrados nas tropas portuguesas.Almanaque Republicano: Francisco Xavier da Cunha Aragão (parte II).

Coube ao destacamento de Francisco Aragão suster os primeiros recontros com a expedição punitiva que foi enviada a Naulila pelo governo do Sudoeste Africano Alemão. Depois de alguns recontros e de um intenso trabalho de vigilância e seguimento, participou no combate de Naulila, travado junto àquele forte a 19 de dezembro de 1914, distinguiu-se ao defender a sua posição enquanto lhe foi possível, combatendo até à exaustão à frente dos seus dragões. Feito prisioneiro pelos alemães, e dado como morto durante vário meses pelas forças portuguesas, foi libertado em 1915 quando as tropas sul-africanas tomaram o Sudoeste Africano Alemão.Prisioneiros de guerra.

Libertado, foi encaminhado para a Cidade do Cabo, de onde embarcou com destino a Portugal, com escala em diversos portos de Angola, Cabo Verde e Madeira.

Na sua escala no Funchal prestou declarações à imprensa, nas quais repudia a ditadura de Pimenta de Castro e exorta à entrada de Portugal na guerra para vingar a afronta alemã. As expressivas declarações feitas na Madeira tiveram eco na imprensa de Lisboa, provocando a reacção dos meios pacifistas e dos alinhados com a Alemanha. Entre as reacções mais violentas está a de Fernando Pessoa, que elabora um conjunto de textos, que não foram ao tempo publicados, nos quais criticava a posição assumida por Francisco Xavier de Cunha Aragão. Entre esses textos avulta o intitulado Carta a um herói estúpido, sendo que o «herói estúpido» era Francisco Aragão, a quem ironicamente Fernando Pessoa se dirige intitulando-o Vossa Heroicidade.Fernando Pessoa: Carta a um herói estúpido.

Foi recebido apoteoticamente em Lisboa, sendo designado pela imprensa do tempo como o herói de Naulila. Alvo de múltiplas homenagens, foi um dos mais eficazes defensores da participação de Portugal na Primeira Guerra Mundial. Francisco Aragão transformara-se num símbolo para os republicanos e democráticos que defendiam que Portugal devia assumir uma posição beligerante.Fernando Cabral Martins (coordenador), Dicionário de Fernando Pessoa e do Modernismo Português, pp. 140-141. Editorial Caminho, Lisboa, 2008. Em sessão pública realizada no Coliseu dos Recreios recebeu uma espada com lâmina com a seguinte legenda: «Ao Tenente de Cavalaria Francisco Xavier da Cunha Aragão, Comandante do 1.º Esquadrão de Dragões — Planalto da Huíla. Homenagem de admiração pelos brilhantes serviços na zona de defesa do Eval e no combate de Naulila a 18.12.1914»Boletim do Arquivo Histórico Militar, vol. 18, p. 139. Lisboa, 1948. O ingresso na Aeronáutica Militar Não existindo em Portugal aviação militar, e aconselhando a experiência das potências beligerantes do tempo que essa arma fosse criada, a Ordem do Exército de 14 de Agosto de 1915 publicou um concurso destinado a recrutar 10 oficiais do Exército e da Armada para receberem instrução para pilotos de aviação, devendo ser enviados para escolas estrangeiras dado que Portugal nessa altura não dispunha de qualquer escola de pilotagem. Francisco Xavier da Cunha Aragão foi um dos seleccionados, sendo enviado, com Cifka Duarte, João Barata Salgueiro Valente e Carlos Esteves Beja, para a Califórnia, onde o grupo frequentou o curso básico de pilotagem da Signal Corps Aviation School, de San Diego, aprendendo a pilotar hidroaviões e, depois, em aviões com trem. O grupo foi o núcleo inicial de pilotos militares portugueses, embrião da futura Força Aérea Portuguesa.

Com a entrada de Portugal na Grande Guerra, os alunos pilotos foram transferidos para França, continuando o curso na Escola de Aviação Militar de Juvisy ()Écoles de Juvisy: port aviation. e depois na Escola de Pilotagem de Chartres (, na actual Base aérienne 122 Chartres-Champhol). A 6 de Novembro de 1916, Francisco Xavier da Cunha Aragão obteve o brevet de piloto na Centre d'Avition Militaire de Chartres.École de Chartres.Edgar P. C. Cardoso, História da Força Aérea Portuguesa, 3.º vol, pp. 196-199. Comocolor, Lisboa, 1984.

Depois de uma passagem por Portugal, entre Novembro de 1917 e Janeiro de 1918, esteve estacionado na base de Mocímboa da Praia, em Moçambique. O objectivo era criar uma esquadrilha de observação que auxiliasse as forças portuguesas na luta contra as incursões alemãs a partir da África Oriental Alemã, a actual Tanzânia, mas dificuldades na operacionalização dos aviões, com destaque para a crónica falta de pilotos e mecânicos, impediram a utilizações dos meios ali colocados. No entretanto foi ajudante de campo do governador-geral de Moçambique e prestou serviço nas operações de cavalaria. Em Fevereiro de 1918 deixou Moçambique com destino aos Açores, para aí organizar um aeródromo a pedido da Grã-Bretanha e Irlanda.Francisco Xavier da Cunha Aragão (parte III).

Foi colocado em Ponta Delgada, onde recebeu as instalações destinadas a albergar hidroaviões que ali haviam sido construídas pelos norte-americanos como parte da Base Naval de Ponta Delgada. As intenções de construir um aeródromo goraram-se.Sobre o estabelecimento da Base Naval de Ponta Delgada e o papel da aviação na sua estrutura, cf. António José Telo, "A base dos Açores na fase final da guerra – aspectos operacionais" in Os Açores e o Controlo do Atlântico, Lisboa, ASA, 1993.

A fundação da Liga dos Combatentes Foi um dos fundadores da Liga dos Combatentes da Grande Guerra.Almanaque Republicano: Francisco Xavier da Cunha Aragão (II). A reunião constitutiva teve lugar a 16 de Outubro de 1921, no escritório do advogado João Jaime Faria Afonso, na cidade de Lisboa. A comissão instaladora, que se auto-designava por «comissão de veteranos», foi composta pelos tenentes-coronéis de Cavalaria João Maria Ferreira do Amaral e Francisco Xavier da Cunha Aragão, pelo primeiro-tenente Horácio Faria Pereira e pelo tenente Joaquim de Figueiredo Ministro. Na acta da primeira reunião oficial, a criação da Liga foi justificada «em razão das injustiças feitas aos que na Grande Guerra combateram, especialmente aos mutilados e estropiados, e ainda devido ao desprezo a que eram votados pelos poderes constituídos, os quais não só tomavam na devida conta, mas até propositadamente esqueciam as justas reclamações de muitos, que após haverem cumprido o seu dever, conjuntamente com o juramento que antes haviam feito de darem o seu sangue pela Pátria, se viam abandonados e na miséria, com grave prejuízo para o patriotismo, disciplina e moral do povo português».Liga dos Combatentes da Grande Guerra.