O jacaré-açu (Melanosuchus niger) é uma espécie de jacaré exclusiva da América do Sul. Também conhecido como jacaré-negro ou jacaré-preto, é um predador de topo de cadeia alimentar. Exemplares adultos de grandes dimensões podem predar qualquer animal de seu habitat, inclusive outros predadores de topo, como jiboias e sucuris. Mesmo que ainda não tenha sido documentado predação de pumas e onças, em tese, o grande porte de adultos permitiria fazer isto se surgir a oportunidade. Normalmente, se alimenta de pequenos animais, como tartarugas, peixes, capivaras e veados. É uma espécie que esteve à beira da extinção, devido ao valor comercial do seu couro de cor negra e da sua carne. Atualmente, encontra-se protegido e sua população encontra-se estável no Brasil. É a maior espécie de jacaré, podendo atingir até 4,5 metros de comprimento e mais de trezentos quilogramas. Porém já foram encontrados exemplares com mais de 5 metros de comprimento e possivelmente meia tonelada de peso.
Etimologia Melanosuchus niger possui este nome científico provindo do grego: “melanos” que significa “negro”, “souchus” que significa “crocodilo” e “niger” com significado “negro”. No Brasil, é popularmente conhecido como jacaré-açu, nome derivado do tupi îakaregûasu que significa “jacarezão” — apesar deste, na língua de origem, referir-se ao jacaré-do-pantanal. Estes significados são devido ao seu grande tamanho e sua cor predominante.RANGEL, S.M.H. Dinâmica e estrutura populacional do jacaré-açu (Melanosuchus niger) na Amazônia. Manaus, [s.n.], 2015. xiv, 59 f.. Dissertação (Genética, Conservação e Biologia Evolutiva (GCBEv)) - Instituto Nacional de Pesquisas da Amazônia. Disponível em:https://bdtd.inpa.gov.br/handle/tede/1919. Acesso em: abril, 2021.MARIONI, B.; FARIAS, I.; VERDADE, L.M.; BASSETTI, L.; COUTINHO, M.E.; MENDONÇA, S.H.S.T.; VIEIRA, T.Q.; MAGNUSSON, W.E.; CAMPOS, Z. Avaliação do risco de extinção do jacaré-açu Melanosuchus niger (Spix, 1825) no Brasil. Biodiversidade Brasileira, v. 3(1), p.31-39, 2013. Disponível em:https://www.alice.cnptia.embrapa.br/bitstream/doc/974093/1/40616451PBMn.pdf. Acesso em: abril, 2021. miniaturadaimagem|Alcino, exemplar com mais de 4 metros que viveu no Museu Goeldi durante décadas e morreu em 2021.
Taxonomia e sistemática O jacaré-açu (Melanosuchus niger, Spix, 1825) é um representante do grupo parafilético dos répteis que possuem um ancestral em comum com mamíferos e aves, além disso é umas das 23 espécies pertencentes à ordem Crocodylia, sendo classificado como um aligator da família Alligatoridae. A família se divide em três gêneros: Caiman, Melanosuchus e Paleosuchus, sendo o jacaré-açu representante do segundo.VASCONCELOS, W. R. Diversidade genética e estrutura populacional dos crocodilianos jacaré-açú (Melanosuchus niger) e jacaré-tinga (Caiman crocodilus) da Amazônia. Biota Neotropica, Campinas, v. 5, n. 2, 2005. Disponível em:<https://bdtd.inpa.gov.br/handle/tede/1920>. Acesso em: abril, 2021.
Distribuição geográfica Esta espécie se encontra amplamente distribuída por diversos países da América do Sul além do Brasil: Colômbia, Equador, Bolívia, Guiana Francesa, Guiana e Peru. Porém, é no território brasileiro, na Bacia Amazônica, que sua maior parte da população habita, cerca de 70% de todos os indivíduos registrados. No Brasil, sua distribuição abrange todos os estados da região norte e dois estados da região centro-oeste, Goiás e Mato Grosso. Porém, Vasquez (1991)VASQUEZ, P.G. 1991. Melanosuchus, M. niger. Reptilia: Crocodylia: Alligatoridae. Catalogue of American Amphibians and Reptiles, 530: 1-4. Disponível em:<https://repositories.lib.utexas.edu/bitstream/handle/2152/45407/0530_Melanosuchus_M_niger.pdf?sequence=1>. Acesso em: abril, 2021. detalha que no Brasil a sua ocorrência está nas bacias dos rios Juruá, Purus, Madeira, Tapajós, Xingu, Araguaia, Tocantins, Negro, Mapuera, Pará e Amazonas, englobando algumas ilhas próximas à foz do rio Amazonas. A área de ocorrência da espécie, contabilizada pela extensão das bacias hidrográficas, chega a, aproximadamente, 4.265.277,2 Km2 e sua área de ocupação maior que 20.000 km2.
Biologia e história natural Os crocodilianos contam com ossos fortes e porosos, apresentam uma musculatura forte na mandíbula que os permite uma grande abertura da boca e um fechamento rápido. Eles apresentam uma válvula palatal, que é responsável para que a respiração ocorra até mesmo quando a boca contém água ou alimento.PEREIRA, A.C.; & MALVASIO, A. Síntese das características da ordem Crocodylia, fatores de influências em estudos populacionais e aspectos de seleção e uso de habitat para Caiman crocodilus e Melanosuchus niger no Estado do Tocantins, Brasil. Biota Amazônia, v.4, n.1, p.111-118, 2012. Disponível em: https://periodicos.unifap.br. Acesso em: abril, 2021. Algumas espécies são capazes de suportar diversos níveis de salinidade devido às glândulas dessalinizadoras, que os permite habitar em águas salgadas e salobras, presentes em mangues e estuários.RUEDA-ALMONACID, J.V.; JOSÉ, V.; CARR, J.L.; MITTERMEIR, R.A.; RODRÍGUEZ-MAHECHA, J.V.; MAST, R.B.; VOGT, R.C.; RHODIN, A.G.J.; OSSA-VELÁSQUEZ, J.; RUEDA, J.N.; MITTERMEIER, C.G. Las Tortugas y los Cocodrilianos de los Países Andinos del Trópico. In: Conservación Internacional Serie Guías Tropicales de Campo. Bogotá, Colombia, 2007. Disponível em: https://iucn-tftsg.org/wp-content/uploads/file/Articles/Rueda-Almonacid_etal_2007.pdf. Acesso em: abril, 2021.
Como são animais ectotérmicos e aquáticos, esses seres apresentam adaptações e comportamentos diferenciados para condições climáticas variadas. Por exemplo, seu controle de temperatura corporal ocorre através de trocas de energia com o ambiente, e sua termorregulação é relacionada com as atividades de alimentação, digestão, reprodução e crescimento.POUGH, F. H.; JANIS, C. M.; HEISER, J. B. A Vida dos Vertebrados. São Paulo: Atheneu Editora. 2003. 699p. Disponível em:http://www.avesmarinhas.com.br/A%20Vida%20dos%20Vertebrados.pdf. Acesso em: abril, 2021.
Com relação às famílias da ordem Crocodylia, essas se diferenciam através da morfologia da cabeça, que está relacionada com suas estratégias e preferências alimentares. No caso dos indivíduos da família Alligatoridae, onde o M. niger se encontra, o rosto costuma ser mais largo e a cabeça mais curta.MAGNUSSON, W. E.; SILVA, E. V.; LIMA, A. P. Diets of amazonian crocodilians. Journal of Herpetology, v. 21, n. 2, p. 85-95, 1987. Disponível em:https://www.jstor.org/stable/1564468?seq=1. Acesso em: abril, 2021. miniaturadaimagem|310x310px miniaturadaimagem A espécie Melanosuchus niger é caracterizada pelo seu focinho largo, liso e com uma crista pré-ocular. Sua coloração no dorso é negra com a presença de listras verticais na coloração branca ou amarelada. A mandíbula apresenta manchas acinzentadas nos indivíduos jovens e marrom nos indivíduos adultos. Já os olhos apresentam íris de cor esverdeada.AZEVEDO, J.C.N. Crocodilianos: Biologia, Manejo e Conservação. João Pessoa: Arpoador, 122p., 2003.
Essa espécie ocupa uma variedade de habitats, sendo eles grandes rios, riachos, lagos marginais e algumas áreas de inundação sazonal. Na Amazônia, encontra-se sua maioria nos lagos de planície de inundação. No passado, as reações de habitat dos jacarés amazônicos sofreram severas mudanças devido a redução dos indivíduos de M. niger.THORBJARNARSON, J. B. Black Caiman Melanosuchus niger. In: Crocodiles. Status Survey and Conservation Action Plan, Third Edition, ed. by S.C. Manolis and C. Stevenson, p. 29-39, 2010. Crocodile Specialist Group: Darwin. Disponível em: < http://citeseerx.ist.psu.edu/viewdoc/download?doi=10.1.1.695.802&rep=rep1&type=pdf. Acesso em: abril, 2021. Tende a preferir águas mais calmas, vivendo em lagos com conexão à grandes rios, em rios de águas escuras, em igarapés, igapós e áreas alagadas. Possuem menor propensão a habitarem águas salobras ou salinas.
Da família Alligatoridae, o jacaré-açu é o maior membro, com machos adultos chegando a ultrapassar 5 metros de comprimento. O tamanho médio da fêmea adulta é de 2,8 metros.
Reprodução e ciclo de vida M. niger, como todos os crocodilos, é uma espécie conhecida por formar seus ninhos em montículos (montes). As fêmeas alcançam a maturidade sexual quando possuem em torno de 2 metros de comprimento, e o tamanho médio de ninhada é de 39 ovos. Esses ovos tendem a ser grandes, pesando em média 143,6 g cada.
Em estudos realizados na APA (Área de Proteção Ambiental) Meandros do Rio Araguaia, estima-se que o período de postura desses animais se inicie no final de setembro, tendo seu pico em outubro e eclosão dos ovos a partir do final do mês de novembro, com base no tamanho dos embriões avaliados.ANDRADE, T. & COUTINHO, M. Ecologia populacional dos jacarés (Melanosuchus niger e Caiman crocodilus) na área de proteção ambiental Meandros do Araguaia/GO-MT. In: III Congresso Brasileiro de Herpetologia. Anais do Belém, 2007. Já em um estudo da RESEX (Reserva Extrativista) Lago do Cuniã, em 2008, as primeiras posturas só começaram a ocorrer quando o nível da água do rio Madeira alcançou cotas inferiores a cinco metros.MENDONÇA, S. & COUTINHO, M. Bases biológicas para o manejo do jacaré-açu (Melanosuchus niger) na Reserva Extrativista do Lago do Cuniã, Rondônia. In: IV Congresso Brasileiro de Herpetologia. Anais do Pirenópolis, 2009.
Com relação ao habitat para nidificação (construção do ninho), as fêmeas de M. niger costumam ser mais exigentes do que as de Caiman crocodilus. As fêmeas de jacaré-açu preferem corpos d’água mais isolados.VILLAMARIN, F.; MARIONI B.; THORBJARNARSON J.; NELSON B.; BOTERO-ARIAS R. & MAGNUSSON W. E. Conservation and management implications of nest-site selection of the sympatric crocodilians Melanosuchus niger and Caiman crocodilus in Central Amazonia, Brazil. Biological Conservation, 144: 913– 919, 2011. Disponível em: https://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0006320710005215. Acesso em: abril, 2021. Já no caso dos indivíduos da APA Meandros do Rio Araguaia, a preferência foi dada para lagos pequenos e marginais.
O sexo da espécie, como dos demais crocodilianos, costuma ser determinado pela temperatura em que ocorre a incubação, o que também tende a afetar o tamanho desses indivíduos, sendo que os ninhos com temperaturas mais altas geram jovens maiores do que os ninhos encontrados em baixas temperaturas.CAMPOS, Z. Observações sobre a biologia reprodutiva de 3 espécies de jacarés na Amazônia Central. Boletim de Pesquisa e Desenvolvimento 43, Embrapa, Corumbá – MS, 2003. Disponível em: https://www.infoteca.cnptia.embrapa.br/infoteca/bitstream/doc/809829/1/BP43.pdf. Acesso em: abril, 2021. Os ninhos costumam ser construídos com folhas, gravetos e cipós.
Alimentação O Jacaré-açu é um animal carnívoro que, quando jovem, tende a se alimentar principalmente de insetos, caranguejos, caramujos e aranhas. Conforme esses indivíduos se desenvolvem e aumentam em peso e tamanho, sua alimentação evolui para incluir vertebrados maiores, como peixes e mamíferos.
Comportamento Possuem um comportamento complexo de locomoção, termorregulação, forrageamento, hierarquia, interações interespecíficas, territorialidade e comportamento social. As fêmeas apresentam cuidado parental meticuloso desde a construção do ninho (nidificação), na proteção destes contra possíveis predadores até o nascimento da prole, permanecendo junto aos filhotes até um ano de vida.MUNIZ, F.L. Determinação de paternidade em filhotes do jacaré-açu (Melanosuchus niger) da região de Anavilhanas. 2009. Disponível em:http://riu.ufam.edu.br/bitstream/prefix/1240/1/Rel_Final_B_55_208_F%c3%a1bio_Muniz.pdf. Acesso em: abril, 2021. miniaturadaimagem|265x265px