O Museu do Caramulo que está localizado na vila portuguesa do Caramulo, município de Tondela, distrito de Viseu, expõe uma invulgar colecção de objectos de arte constituída por 500 peças de pintura, escultura, mobiliário, cerâmica e tapeçarias, que vão do antigo Egipto até Picasso.Portal oficial do Museu do Caramulo.Localização no OpenStreetMap
O Museu do Caramulo que foi inaugurado oficialmente em 1959 pelo Presidente da República Américo Thomaz é um museu criado e gerido por privados sendo a Fundação Abel e João de Lacerda a sua actual detentora. O Museu do Caramulo foi um dos primeiros museus em Portugal a ser concebido e instalado num edifício especificamente construído para o efeito com todos os requisitos modernos da museologia, projecto do arquiteto Alberto da Cruz.
Mais tarde foi construído um outro edifício anexo ao primeiro, vocacionado para expor cerca 100 automóveis e motos antigos, segundo o princípio de que todos os veículos pudessem sair facilmente do museu para exibição e conservação.
Caramulo: A Vila e o Museu A localidade do Caramulo nasce em 1921, na vertente sul da Serra do mesmo nome, fruto da iniciativa de um médico, Jerónimo de Lacerda que, do nada, criou a maior estância sanatorial do País e da Península Ibérica. Magnífica obra urbanística dotada de infra-estruturas únicas em Portugal, naquela data. Em 1938 já possui água canalizada ao domicílio, uma exemplar rede de esgotos urbanos e respectiva estação de tratamento, sistema de recolha de lixos com forno crematório, energia eléctrica produzida a partir de central hídrica própria, bem como um planeamento urbanístico invulgar, com estradas largas com passeios, espaços verdes e jardins públicos de beleza incomparável e numa proporção nunca vista.
É neste cenário que, em 1921 e 1923, nascem dois filhos do Dr. Jerónimo de Lacerda, Abel e João. Cientes de que o progresso da medicina ditaria o fim do Caramulo enquanto centro de tratamento, Abel, que enveredara pela carreira de economista, e o seu irmão João, médico, iniciam a procura de ideias que assegurem a sobrevivência da sua terra e a continuação da obra herdada. Decidem programar a transformação das estruturas existentes em turismo de altitude e retirar ao nome Caramulo o epíteto de doença, convertendo o cenário serrano em polo de atracção cultural e artística.
É com esta ideia em mente que Abel e João de Lacerda, fundam nos anos cinquenta, um invulgar museu, situado numa montanha no centro de Portugal, com luxuriante vegetação, virada a Sul, sobre um vale extenso de 80 km: o mais vasto panorama do país.
Abel de Lacerda, apaixonado pela arte, constrói um edifício, com os mais modernos conceitos de museologia, para expor uma invulgar colecção de objectos de arte constituída por 500 peças de pintura, escultura, mobiliário, cerâmica e tapeçarias, que vão da era Romana até Picasso.
João de Lacerda, apaixonado por automóveis, constrói outro edifício anexo ao primeiro, vocacionado para expor 100 automóveis e motos, dentro do princípio de que todos os veículos pudessem sair facilmente, para exibição e conservação.
Com a morte prematura de Abel de Lacerda em 1957, criou-se a Fundação Abel de Lacerda - hoje Fundação Abel e João de Lacerda - proprietária dos dois museus de Arte e Automóveis, abertos ao público todo o ano. Mais de 1 milhão de visitantes entraram neste meio século (1957-2007), no Museu do Caramulo.
O edifício planeado por Abel Lacerda, para albergar as preciosas antiguidades doadas, foi inaugurado pelo Presidente da República Américo Thomaz em 1959, tendo sido um dos primeiros museus concebidos e realizados em Portugal, com todos os requisitos modernos da museologia.
Os Fundadores: Abel de Lacerda (1921-1957) Abel de Lacerda nasceu em 1921, descendente de uma família de médicos que incluía o seu bisavô, avô e pai. Optou, no entanto, por não seguir a tradição familiar, escolhendo antes estudar Ciências Económicas e Financeiras. O seu pai, Jerónimo de Lacerda, foi o responsável pela criação de uma das maiores estâncias sanatoriais da Península Ibérica, no Caramulo. Contudo, o falecimento súbito de Jerónimo de Lacerda, em 1945, obrigou Abel de Lacerda a interromper os seus estudos para assumir a gestão do projecto do pai. Posteriormente, continuou os estudos em regime livre.
Desde jovem, Abel de Lacerda mostrou grande interesse pelas artes, começando a coleccionar obras com os recursos disponíveis e a estabelecer contactos com artistas e outros coleccionadores. Em 1953, idealizou a criação de um museu dedicado às artes plásticas, com um foco particular no papel de coleccionadores privados. Este projecto visava reunir uma colecção criteriosa e harmoniosa, composta por obras de arte significativas.
Com o apoio de amigos e outros entusiastas da arte, Abel de Lacerda conseguiu reunir um conjunto de cerca de 150 peças e cem personalidades associadas ao projecto. Este esforço culminou numa exposição realizada no Palácio Foz, em Lisboa, inaugurada pelo então Chefe de Estado, General Craveiro Lopes, e outros membros do Governo. A exposição foi bem recebida e serviu como ponto de partida para o que se viria a tornar o Museu do Caramulo.
Abel de Lacerda decidiu localizar o museu no Caramulo, onde começou a planear e construir as instalações de forma a albergar a colecção crescente. Contudo, faleceu em 1957, num acidente, antes de ver o edifício concluído. Nessa altura, apenas as fundações do primeiro edifício estavam lançadas, e o museu não possuía ainda um suporte jurídico formalizado.
Após a sua morte, em 1958, foi criada a Fundação Abel de Lacerda, que deu continuidade ao projecto e atribuiu personalidade jurídica à iniciativa. Em 1959, o Museu do Caramulo foi inaugurado oficialmente, com o estatuto de utilidade pública. A fundação deu seguimento à visão de Abel de Lacerda, acrescentando ao património nacional um acervo de elevado valor.
O museu destacou-se por reunir peças de arte significativas, incluindo as célebres tapeçarias manuelinas de Tournai, que, de outra forma, dificilmente regressariam a Portugal. Desde a sua fundação, o museu manteve-se fiel aos critérios de qualidade e selecção estabelecidos inicialmente, preservando uma harmonia e coerência raras entre instituições similares.
Até à actualidade, o Museu do Caramulo recebeu mais de 1,5 milhões de visitantes e continua a enriquecer o seu acervo com o apoio de doadores, mantendo-se uma entidade independente e fiel à sua missão inicial.
Os Fundadores: João de Lacerda (1923-2003) João de Lacerda nasceu em 1923, no Caramulo. Após completar o liceu decide seguir a tradição dos seus antepassados e forma-se na Faculdade de Medicina de Lisboa.
Desde logo, inicia a sua especialização em Pneumologia, trabalhando com tisiologistas de renome. Terminados os estágios, assume a função de Director Clínico da Estância Sanatorial do Caramulo.
Com a morte de seu irmão Abel, em 1957, num trágico acidente, no qual ele próprio fica gravemente ferido, vê-se na contingência de assumir a Direcção da Estância e abandona a Medicina.
Como desde pequeno sempre teve a paixão pela construção civil, fruto de um acompanhamento permanente de seu pai, assume também a direcção da Junta de Turismo do Caramulo e dinamiza de uma forma imparável o crescimento e embelezamento da sua terra, o Caramulo. Dava assim continuidade à grande obra de seu pai, o Dr. Jerónimo de Lacerda, que foi pioneiro na criação de uma povoação modelo para a altura, com água canalizada ao domicílio, electricidade a partir de uma barragem própria, rede de esgotos com ETAR, sistema de recolha de lixos com forno crematório, e jardins e verde numa proporção nunca vista. Com justiça pode-se dizer que, se Jerónimo de Lacerda criou o Caramulo, João de Lacerda deu-lhe a projecção que o tornou conhecido no país e fora dele.
Deu continuidade à construção do edifício que viria a albergar o Museu do Caramulo, uma ideia iniciada pelo seu irmão. Criou a Fundação Abel de Lacerda em sua memória, que se tornou responsável pelo desenvolvimento e preservação do museu. Ao contrário do seu irmão, a sua grande paixão eram os automóveis, e, certo dia, encontra um Ford T em estado de quase sucata. Pára e compra-o. Estava assim iniciada a colecção automóvel do Museu do Caramulo. Perfeccionista e criterioso, reconstrói meticulosamente os automóveis que vai adquirindo, dando-lhes a grandeza e autenticidade dos tempos em que circulavam pelas estradas do nosso País.
Na sequência de uma sugestão do Presidente Américo Thomaz, aquando de uma visita ao Museu do Caramulo, decide expor a sua colecção e cria aquilo que fica conhecido como o Museu Automóvel do Caramulo. Inicialmente instalado no piso térreo do edifício da Fundação Abel de Lacerda e mais tarde em edifício próprio, construído a expensas próprias e com a ajuda de algumas empresas de petróleo, é inaugurado com pompa e circunstância, em 1970, pelo governo.
João de Lacerda participou em várias competições e exposições internacionais de automóveis, como o London-Brighton, Mille Miglia e Rallye Monte Carlo, promovendo a colecção e o museu a nível global. O estado de conservação dos veículos e a sua participação em eventos de prestígio contribuíram para o reconhecimento internacional do Museu do Caramulo.
As Colecções do Museu do Caramulo O Museu do Caramulo conserva, nos seus vários edifícios, diferentes colecções, que estão, na sua grande maioria, totalmente disponíveis ao público e que apresentamos abaixo.
A colecção de arte está na origem da criação do Museu do Caramulo, e está dividida em quatro grandes núcleos, sendo eles Arte Antiga, Arte Moderna, Arte Contemporânea e Artes Gráficas.
Arte Antiga O núcleo de Arte Antiga é o maior da colecção, contabilizando cerca de 500 peças e abrangendo uma ampla variedade de disciplinas tais como mobiliário, ourivesaria, têxteis, tapeçarias, arte luso-oriental, arte japonesa, cerâmica chinesa, cerâmica europeia, pintura, desenho e gravura, arqueologia e egiptologia e escultura.
Alguns dos ex-libris da colecção incluem as tapeçarias Tournai. de grande porte, encomendadas por D. Manuel, para celebrar a descoberta do caminho marítimo para a Índia, um par de pinturas de Grão Vasco, o “Jovem japonês”, uma pintura sobre papel colado em madeira, datada de 1640, ou a garrafa de Jorge Álvares, datada de 1552, decorada em tons de azul cobalto sob o vidrado, apresentando uma das primeiras inscrições em língua portuguesa, na porcelana chinesa.
Arte Moderna Reunindo um qualificado conjunto de obras, entre pintura, escultura, cerâmica e tapeçaria, o acervo de Arte Moderna do Museu do Caramulo permite, apesar da natureza da colecção, exclusivamente constituída por doações, um olhar detalhado sobre as vias da contemporaneidade plástica portuguesa, pontuada por algumas excelentes marcações internacionais.
Este maravilhoso núcleo guarda obras de artistas tão conceituados como Salvador Dali, Vieira da Silva, Eduardo Viana, Amadeo de Souza-Cardoso, Joan Miró, António Soares, Raoul Dufy, Francisco Smith, Eduardo Malta, Jorge Vieira, Marc Chagall, Leopoldo de Almeida, Barata Feyo, Canto da Maya ou Jean Lurçat, entre muitos outros.
Do próprio Picasso o Museu do Caramulo guarda cinco obras, incluindo uma excelente natureza-morta, testemunho doloroso do período da Segunda Guerra Mundial e, durante quase cinco décadas, a única obra do grande criador publicamente apresentada em Portugal.
Iniciada em 1953, por iniciativa de Abel de Lacerda, sob o lema da generosidade, a colecção de arte do Museu do Caramulo é hoje constituída por ofertas de coleccionadores e artistas contemporâneos de renome como Salvador Dali, Pablo Picasso, Chagall, Fernand Léger ou Jean Lurçat, e de consagrados pintores nacionais, como Vieira da Silva, Grão Vasco, Silva Porto, Columbano e Amadeo de Sousa Cardoso, passando ainda por artistas flamengos como Frei Carlos, Quinten Metsijs, Isembrant, Jacob Jordaens ou franceses como Hyacinthe Rigaud, Frans Pourbus, Raoul Dufy.