Maria Martins, nascida Maria de Lourdes Alves (Campanha (Minas Gerais) - 7 de agosto de 1894 - 27 de março de 1973), foi uma escultora, gravurista e escritora brasileira que trabalhou primeiro em madeira e depois sobretudo em bronze. Suas esculturas combinam corpos humanos com cipós, folhas e formas animais. Obras de 1943 recorreram a narrativas indígenas amazônicas e a religiões afro-brasileiras. Em 1946, ela já criava seres híbridos próprios.

Martins fez exposições individuais na Corcoran Gallery of Art em 1941 e na Valentine Gallery em 1942 e 1943. Passou a conviver com o círculo surrealista de Nova Iorque durante a Segunda Guerra Mundial e participou de Le Surréalisme en 1947, em Paris. Assinou os estatutos do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1948. Depois de voltar ao Brasil em 1949, participou da primeira Bienal Internacional de Arte de São Paulo e trabalhou na organização da participação internacional nas primeiras edições. Entrou para o conselho deliberativo do museu carioca em 1952. Suas esculturas receberam prêmios na bienal em 1953 e 1955.

Primeiros anos e formação

Maria de Lourdes Alves nasceu em 7 de agosto de 1894 em Campanha, Minas Gerais. Seu pai era advogado e foi senador e ministro da Justiça. Sua mãe era pianista. Martins estudou no Colégio Sion, em Petrópolis, onde as aulas eram dadas em francês.

Em 1915, casou-se com o historiador Octávio Tarquínio de Sousa, de quem se separou em 1925. Martins casou-se com o diplomata Carlos Martins Pereira e Souza em 1926. O casal viveu na França, Dinamarca, Japão, Equador e Bélgica antes de se mudar para os Estados Unidos em 1939. Martins teve duas filhas com Tarquínio de Sousa e três com Carlos Martins. Uma filha de cada casamento morreu ainda jovem.

miniaturadaimagem|Maria Martins e seu segundo marido, o Embaixador Carlos Martins

Sua primeira formação foi em música, com planos de seguir carreira profissional. Mais tarde, estudou escultura com Catherine Barjansky em Paris e aprendeu talha em madeira no Equador. No Japão, estudou cerâmica e filosofia zen com D. T. Suzuki. Depois de se mudar para Bruxelas em 1936, entrou no ateliê de Oscar Jespers, onde trabalhou com terracota e fez retratos escultóricos.

Carreira

Estados Unidos e França

Seu esposo, Carlos Martins, foi embaixador do Brasil nos Estados Unidos entre 1939 e 1948. O casal viveu em Washington, D.C., onde Maria passou a esculpir figuras de grandes dimensões em jacarandá e outras madeiras brasileiras.

Em 1941, ela apresentou Maria, sua primeira exposição individual na Corcoran Gallery of Art. Uma das peças, Christ, talhada em jacarandá, foi comprada por Nelson Rockefeller e depois doada por ele ao Museu de Arte Moderna de Nova Iorque. Nesses anos, Jacques Lipchitz lhe ensinou a trabalhar com a fundição em bronze, enquanto Stanley William Hayter a orientou na gravura. Martins também adaptou o processo de cera perdida, misturando gordura à cera de abelha para torná-la mais flexível e conseguir modelar cipós finos, ramificações e formas alongadas.

miniaturadaimagem|O implacável (The Implacable), 1944, bronze, 238 cm, Paço Imperial, Rio de Janeiro

No ano seguinte, alugou um ateliê na Park Avenue, em Nova Iorque, e expôs na Valentine Gallery. Duas esculturas daquele momento entraram cedo em museus norte-americanos: o Museu Metropolitano de Arte adquiriu Saint Francis, e o Museu de Arte da Filadélfia, Yara.

Em 22 de março de 1943, a Valentine Gallery abriu lado a lado Maria: New Sculptures e Mondrian: New Paintings. Para sua exposição, Martins escreveu em inglês pequenos textos sobre oito personagens, entre eles Yara, Iemanjá, Boto e Cobra Grande. As figuras humanas de suas esculturas começavam a se misturar a folhas e galhos, que rompiam seus contornos e se espalhavam pelo bronze. Na mesma ocasião, Martins comprou por 800 dólares Broadway Boogie Woogie, de Piet Mondrian, e ainda naquele ano doou a pintura ao Museu de Arte Moderna de Nova Iorque.

Foi também em 1943 que Martins conheceu André Breton e outros artistas do círculo surrealista de Nova Iorque. Por volta daquele ano começou seu relacionamento com Marcel Duchamp, que se estendeu até cerca de 1950. Ela o orientou em questões de fundição e posou para a figura feminina de Étant donnés. Sua escultura Macumba chegou também às páginas da revista surrealista VVV: uma fotografia da obra acompanhou o poema Batouque, de Aimé Césaire, no quarto número da publicação. A cena reúne um músico com tambor e duas figuras femininas tomadas pelo transe de uma cerimônia afro-brasileira.

Em 1946, a Valentine Gallery publicou Maria 1946, portfólio de apenas 60 exemplares. A edição reunia nove águas-fortes, uma gravura e reproduções em colotipia de dezenove esculturas.

A aproximação com os surrealistas prosseguiu nos anos seguintes. Breton escreveu o ensaio do catálogo da exposição de Martins na Julien Levy Gallery, em 1947. Pouco depois, duas esculturas suas entraram em Le Surréalisme en 1947, na Galerie Maeght, em Paris, e o catálogo da exposição reproduziu uma de suas águas-fortes.

Quando Carlos Martins foi nomeado embaixador na França, em 1948, o casal se mudou para Paris. Maria instalou seu ateliê na Villa d'Alésia, diante do estúdio de Constantin Brâncuși. Na Galerie René Drouin, apresentou sua primeira individual parisiense, Les Statues Magiques de Maria. André Breton e Michel Tapié escreveram para o catálogo da exposição.

Brasil

Martins voltou ao Brasil com o marido em 1949. No ano seguinte, o Museu de Arte Moderna de São Paulo reuniu 36 de suas esculturas em uma exposição.

Sua aproximação com o Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro havia começado antes da volta ao país. Em 3 de maio de 1948, Martins assinou os estatutos de criação do museu. Passou a integrar seu conselho deliberativo em 1952 e participou da organização do acervo. Em 1956, o MAM Rio dedicou a ela uma retrospectiva de escultura.

miniaturadaimagem|alt=Martins ao lado de suas esculturas em uma exposição|Martins em uma exposição de 1956

A Bienal Internacional de Arte de São Paulo também passou a fazer parte de sua trajetória desde a primeira edição, em 1951, quando Martins recebeu uma sala própria. Na segunda bienal, em 1953, ganhou um prêmio de aquisição. Dois anos depois, A soma de nossos dias recebeu o prêmio nacional de escultura da terceira edição. Martins trabalhou com Yolanda Penteado na organização da participação estrangeira nas primeiras bienais.

Em Brasília, seu bronze O rito do ritmo foi instalado diante do Palácio da Alvorada em 1959. Oscar Niemeyer voltou a procurá-la em 1970, quando lhe encomendou uma escultura para a Catedral Metropolitana de Brasília. Martins chegou a preparar esboços, mas a obra não foi executada.

Obra

miniaturadaimagem|À procura da luz, de Maria Martins, no Jardim da Luz, em São Paulo

Muito antes de conviver com os surrealistas de Nova Iorque, Martins já levava mitos brasileiros para suas esculturas. Grande parte das obras que fez antes de 1939 não tem paradeiro conhecido. No começo da década de 1940, ela reuniu fotografias dessas peças em um álbum, deixando um registro de seus primeiros trabalhos.

Nas esculturas iniciais em madeira, os corpos ainda conservam formas firmes e contornos nítidos. Isso começa a mudar nas peças expostas na Valentine Gallery em 1943. Folhas e galhos avançam sobre as figuras e rompem suas linhas. Nos bronzes dos anos seguintes, cabeças e membros se alongam até assumir a aparência de cipós, tentáculos e partes de animais.

Yara, feita por volta de 1940, nasceu da figura indígena da encantada dos rios que atrai homens com seu canto e os leva para a morte nas águas. O Museu de Arte da Filadélfia adquiriu a escultura pouco depois de ela ser concluída. Outras personagens vieram para o catálogo Amazonia, publicado em 1943, que reuniu narrativas indígenas da região amazônica e também Iemanjá, divindade de origem iorubá cultuada em religiões afro-brasileiras.

Por volta de 1946, Martins começou a abandonar personagens com nomes definidos. Em seu lugar surgiram criaturas em que torsos humanos se misturam a formas vegetais e membros de animais. Em O Impossível, feita em versões entre 1944 e 1949, duas figuras se inclinam uma na direção da outra, mas formas pontiagudas saem de suas cabeças e ocupam justamente o espaço que as separa.

Michael Taylor relaciona o modo como Martins trabalhou temas amazônicos e afro-brasileiros à antropofagia proposta por Oswald de Andrade no Manifesto Antropófago, de 1928. A ideia era absorver referências vindas de fora e transformá-las a partir de uma experiência brasileira.

Escrita e morte

Em 18 de junho de 1947, o deputado norte-americano Jacob Javits, de Nova Iorque, leu no Congressional Record o ensaio Art, Liberation and Peace, escrito por Martins. Ela defendia a liberdade de conversa entre pessoas de diferentes raças, nacionalidades, religiões, posições sociais e convicções políticas. Ao falar da perseguição à arte sob Hitler, associou a repressão política ao caminho que leva à conquista e à guerra.

Martins viajou à República Popular da China em 1956 e transformou parte dessa experiência em livros. Ásia Maior: o planeta China saiu em 1958, seguido por Ásia Maior: Brama, Gandhi e Nehru, em 1961. Em 1965, publicou Deuses malditos I: Nietzsche. Na mesma década, escreveu a coluna Poeiras da vida para o Correio da Manhã.

Martins morreu em sua casa, no Rio de Janeiro, em 27 de março de 1973, aos 78 anos.

Recepção, exposições e acervos

Em 1959, Michel Seuphor chamou Martins de "a grande escultora do surrealismo". "Escultora dos trópicos" foi outro nome usado para se referir a ela e à sua obra.

Sua escultura recebeu atenção de nomes próximos ao surrealismo europeu. André Breton e Michel Tapié escreveram para catálogos de suas exposições, e Benjamin Péret, Christian Zervos e Amédée Ozenfant publicaram textos sobre seu trabalho na França. No Brasil, a recepção depois de 1949 foi menos favorável. Marina Mazze Cerchiaro observa que parte dos críticos se afastava das esculturas para julgar a própria artista a partir de expectativas dirigidas às mulheres. A retrospectiva realizada pelo Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro em 1956 recebeu uma cobertura mais ampla que suas exposições brasileiras anteriores.

Apesar de sua convivência com os grupos surrealistas de Nova Iorque e Paris na década de 1940, Martins ficou fora de muitos livros dedicados ao surrealismo por décadas depois de sua morte.

Sua presença em exposições surrealistas prosseguiu depois da volta ao Brasil. Em 1959 e 1960, obras suas estiveram em E.R.O.S., na Galerie Daniel Cordier, em Paris. Em 1960 e 1961, participou de Surrealist Intrusion in the Enchanter's Domain, na D'Arcy Galleries, em Nova Iorque.

Décadas depois, novas exposições voltaram a reunir sua obra. A André Emmerich Gallery, em Nova Iorque, apresentou The Surrealist Sculptures of Maria Martins em 1998. Em 2012, trabalhos seus entraram na dOCUMENTA (13), em Kassel. No ano seguinte, o Museu de Arte Moderna de São Paulo abriu Maria Martins: metamorfoses.

Em 2019, o nome de Martins chegou também a Mercúrio. A União Astronômica Internacional batizou de Martins uma cratera de 12,4 quilômetros no planeta.

O Museu de Arte de São Paulo reuniu 45 obras em Maria Martins: Tropical Fictions, aberta em 2021, a maior exposição dedicada à artista até então. A mostra seguiu para a Casa Roberto Marinho, no Rio de Janeiro, onde ficou aberta de março a junho de 2022.

Acervos públicos

Obras de Martins pertencem aos acervos de instituições públicas, entre elas:

Museu de Arte Moderna Museu Metropolitano de Arte Museu do Brooklyn Museu de Belas-Artes de Houston Baltimore Museum of Art

Bibliografia complementar

Ligações externas

Maria Martins no Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro Obras de Maria Martins no Museu de Arte Moderna de Nova Iorque

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