A Pirâmide de Unas (em egípcio antigo: Nefer asut Unas, significando "Belos são os locais de Unas") é uma pirâmide egípcia de laterais lisas construída no para o faraó Unas, o nono e último governante da Quinta Dinastia. É a menor das pirâmides do Império Antigo, porém mesmo assim importante devido à descoberta dos Textos das Pirâmides, feitiços para o pós-vida do faraó inscritos nas paredes das câmaras subterrâneas. Eles foram inscritos pela primeira vez na Pirâmide de Unas e isto tornou-se uma tradição repetida nas pirâmides de governantes posteriores até o final do Império Antigo e meados do Império Médio, quando derivaram-se nos Textos dos Sarcófagos e depois formaram a base para o Livro dos Mortos.
Unas construiu sua pirâmide entre os complexos de Tireis e Djoser em Sacará. Um longo passeio foi construído entre o templo do vale em um lago próximo a fim de criar uma conexão com o complexo. Esse passeio tinha paredes elaboradas cobertas com um teto que tinha uma fenda em uma seção para que a luz pudesse entrar, assim iluminando as imagens. Um uádi longo foi usado como caminho. O terreno era difícil de transacionar e continha edifícios antigos e superestruturas de tumbas. Estes foram derrubados e reaproveitados como base do passeio. Uma grande parte do passeio de Djoser foi reutilizada para aterro. Tumbas que estavam no caminho tiveram suas superestruturas demolidas e foram pavimentadas, preservando suas decorações. Duas tumbas da Segunda Dinastia, que acredita-se pertencerem a Boco, Queco e Binótris, estavam entre aquelas que ficaram sob o passeio. O local foi depois usado para vários enterros de oficiais da Quinta Dinastia, indivíduos da Décima Oitava à Vigésima Dinastias e uma coleção de monumentos da Época Baixa conhecidos como "tumbas persas".
O passeio conectava o templo no lago com o templo mortuário no lado leste da pirâmide. Este templo era acessado por meio de uma grande porta de granito no lado leste, aparentemente construída pelo sucessor de Unas, Teti, que era conectada ao final do passeio. Ao sul do passeio superior estão dois atracadouros que possivelmente continham dois barcos de madeira: as barcas solares de Rá, o deus sol. O templo tinha uma disposição similar ao templo do faraó Tanquerés. Um corredor transversal separa o templo interior do exterior. A capela do templo interior foi completamente destruída, porém costumava conter cinco estátuas em nichos. Uma característica do templo interior era uma única coluna de quartzito que ficava na antecâmara. A sala hoje está toda em ruínas. Quartzito é um material atípico em projetos arquitetônicos, porém existem exemplos esparsos de seu uso no Império Antigo. O material era associado ao culto solar por causa de sua coloração semelhante ao sol.
As câmaras subterrâneas permaneceram inexploradas até 1881, quando Gaston Maspero, que recentemente tinha descoberto textos inscritos nas pirâmides de Pepi I e Merenré I, conseguiu entrar. Maspero descobriu os mesmos textos inscritos nas paredes da Pirâmide de Unas, sua primeira aparição conhecida. Os 283 feitiços constituem o corpo de escritas religiosas mais antigo, menor e melhor preservado do Império Novo. Sua função era guiar o faraó até a vida eterna e garantir sua sobrevivência contínua mesmo que o culto funerário parasse de ocorrer. No caso de Unas, este culto funerário pode ter sobrevivido ao turbulento Primeiro Período Intermediário e durado até a Décima Segunda ou Décima Terceira Dinastias no Império Médio. Entretanto, acredita-se também que possivelmente o culto tenha ressurgido no Império Médio em vez de ter sobrevivido até esse ponto.
Localização e escavação A Pirâmide de Unas está localizada no planalto de Sacará e fica em uma linha que corre entre a Pirâmide de Tireis e a Pirâmide de Menquerés, estando entre a Pirâmide de Tireis e a Pirâmide de Djoser. Ela foi construída em meados do para o faraó Unas, o nono e último governante da Quinta Dinastia. O local requereu a construção de um passeio excepcionalmente longo para que se pudesse alcançar o lago próximo, sugerindo que o local pudesse ter algum significado especial para Unas. Seu nome na língua egípcia antiga era Nefer asut Unas, que significa "Belos são os locais de Unas".
A pirâmide foi brevemente examinada no por John Shae Perring e logo depois por Karl Richard Lepsius, que a listou como a número XXXV em sua lista de pirâmides. O primeiro a entrar foi Gaston Maspero, que examinou a subestrutura em 1881. Ele tinha descoberto recentemente textos nas pirâmides de Pepi I e Merenré I. Esses mesmos textos foram descobertos na tumba de Unas, sua aparição mais antiga já encontrada. O arquiteto e egiptólogo Alessandro Barsanti realizou a primeira investigação sistemática do local entre 1899 e 1901, conseguindo escavar parte do templo mortuário, além de várias tumbas da Segunda Dinastia e da Época Baixa.
Mais escavações foram realizadas por Cecil Mallaby Firth de 1929 até 1931, sucedido por Jean-Philippe Lauer entre 1936 e 1939. Os arqueólogos Selim Hassan, Zakaria Goneim e A. H. Hussein focaram-se principalmente no passeio em investigações conduzidas de 1937 a 1949. Hussein descobriu dois poços de calcário para barcos na extremidade superior do passeio. Ahmed Moussa escavou a metade inferior do passeio e o templo do vale na década de 1970. Moussa e o arqueólogo Audran Labrousse realizaram uma pesquisa arquitetônica do templo do vale entre 1971 e 1981. As pirâmides de Unas, Teti, Pepi I e Merenré I estavam no centro de um grande projeto arquitetônico e epigráfico liderado por Jean Leclant. O Conselho Supremo de Antiguidades conduziu entre 1999 e 2001 um grande processo de reconstrução e restauração no templo do vale. As três entradas e rampas foram restauradas e uma pequena muralha de calcário foi construída a fim de demarcar a planta do templo.
Complexo mortuário Traçado thumb|esquerda|upright=1.15|Traçado do complexo de Unas O complexo de Unas está situado entre a Pirâmide de Tireis e o canto sudoeste do complexo da Pirâmide de Djoser. Está em simetria com a Pirâmide de Userquerés, que fica situada no canto nordeste do planalto de Sacará. Complexos mortuários do Império Antigo eram formados por cinco componentes essenciais: um templo do vale, um templo mortuário, um passeio conectando os dois, uma pirâmide satélite ou de culto e a pirâmide principal. O complexo de Unas possui todos esses elementos: a pirâmide principal com um núcleo de seis degraus de calcário, um templo do vale situado em uma enseada natural na boca de um uádi, um passeio construído através do mesmo uádi, um templo mortuário similar ao de Tanquerés e uma pirâmide de culto ao sul do templo mortuário. A pirâmide, templo mortuário e pirâmide de culto eram cercados por uma muralha perimetral de sete metros de altura. Esta muralha de leste a oeste tinha 86 metros de comprimento e de norte a sul 76 metros.
Pirâmide thumb|upright=1.1|Pequenos restos da cobertura externa na base da Pirâmide de Unas Unas reinou por aproximadamente trinta anos, porém sua pirâmide é a menor do Império Antigo. Restrições de tempo não podem ser consideradas um fator para explicar seu tamanho, com isto provavelmente sendo o resultado de restrições de acessibilidade a materiais de construção. O tamanho da pirâmide também foi inibido devido à extensa pedreira necessária para aumentar o tamanho do monumento. Unas escolheu evitar esse fardo a mais e em vez disso escolheu manter sua pirâmide pequena.
O núcleo da pirâmide continha seis degraus de altura, construídos com blocos de calcário grosseiramente acabados, que diminuíam de tamanho em cada degrau. O material de construção para o núcleo, idealmente, viria de uma pedreira local. Este núcleo foi coberto com blocos de calcário branco vindos de Tora. Partes da cobertura inferior permanecem intactas até hoje. A pirâmide tinha uma base de 57,75 metros de comprimento e seu ângulo de inclinação era de 56 graus, o que lhe dava uma altura de 43 metros. Seu volume total era de 47 390 metros cúbicos. Suas laterais eram lisas. A pirâmide hoje está em ruínas, assim como todas as outras da Quinta Dinastia, resultado de má construção e materiais. As pirâmides da Quinta Dinastia foram também sistematicamente desmontadas durante o Império Novo para serem reutilizadas na construção de novas tumbas.
Unas abandonou a prática de construir pirâmides para as consortes; em vez disso, suas duas rainhas Quenute e Nebete foram enterradas em uma mastaba dupla localizada ao nordeste da pirâmide principal. Cada uma tinha sua própria sala e entradas separadas, porém o traçado das tumbas era idêntico. Quenute ficou com o lado ocidental e Nebete o oriental. Suas câmaras eram muito decoradas. A capela para a mastaba de Nebete contém quatro nichos nas paredes. Um possui um cartucho com o nome de Unas, indicando que talvez contivesse uma estátua do faraó, enquanto os outros continham estatuetas da rainha. Diretamente ao norte da mastaba estavam as tumbas de Unasanque e Ipute, respectivamente filho e filha de Unas. Hemetre, outra filha, foi enterrada em uma tumba ao leste do complexo de Djoser.
Subestrutura esquerda|thumb|Traçado da subestrutura da Pirâmide de Unas Uma pequena capela, chamada de "capela norte" ou "capela de entrada", ficava situada adjacente ao lado norte da pirâmide. Ela consistia em uma única sala, com um altar e uma estela com o hieroglifo de "mesa de oferenda". Restam apenas vestígios da capela. Capelas desse tipo tinham uma porta falsa e uma esquema de decoração similar a um salão de oferendas, algo que o arqueólogo David Arnold sugere que indicava que a capela era uma "capela de oferendas em miniatura".
A entrada para a subestrutura ficava sob o chão da capela. A subestrutura de Unas é similar àquela de Tanquerés. A entrada leva a um corredor de 14,35 metros de comprimento com um declive de 22 graus, terminando em um vestíbulo. Este aposento tem 2,47 metros de comprimento por 2,08 metros de largura. Do vestíbulo há uma passagem horizontal de 14,1 metros que leva a uma antecâmara guardada por três lajes de granito em sucessão. A passagem termina na antecâmara de 3,75 por 3,08 metros, localizada sob o eixo vertical da pirâmide. Uma porta ao leste leva a uma sala chamada serdab, com três nichos. Esta mede 6,75 metros de comprimento por dois de profundidade. A oeste está a câmara mortuária, uma sala de 7,3 por 3,08 metros, contendo o sarcófago do faraó. O teto da antecâmara e da câmara mortuária eram em gabletes, similar às pirâmides anteriores da época.
Perto da parede oeste da câmara mortuária está o sarcófago de Unas, feito de grauvaque. O sarcófago não foi danificado, porém seus conteúdos foram roubados. Um baú de canopo tinha sido enterrado sob a extremidade sudoeste do sarcófago. Tudo o que restou de Unas foram restos de sua múmia, incluindo seu braço direito, crânio e tíbia, além dos cabos de madeira de duas facas usadas durante a cerimônia da abertura da boca. Os restos da múmia estão no Museu Egípcio do Cairo.
As paredes das câmaras da subestrutura eram forradas com calcário tirado de Tora, enquanto aquelas ao redor do sarcófago eram revestidas de alabastro branco entalhado e pintado para representar as portas da fachada do palácio real, complementando a passagem oriental. Simbolicamente, elas permitiriam que o faraó partisse da tumba em qualquer direção. O teto da câmara mortuária foi pintado de azul com estrelas douradas a fim de representar o céu noturno. O teto da antecâmara e do corredor tinham pinturas similares. As estrelas da antecâmara e da câmara mortuária apontam para o norte, enquanto aquelas no corredor apontam para o zênite. As paredes restantes da câmara mortuária, antecâmara e partes do corredor eram inscritas com uma série de textos verticais, cinzelados em baixo-relevo e pintados de azul.
Textos
thumb|upright=1.15|A câmara mortuária com feitiços de proteção preenchendo o frontão ocidental a fim de proteger o sarcófago abaixo