Mão Morta é uma banda portuguesa de rock avant-garde, formada na cidade de Braga.
Biografia 1984-1988 - de Berlim ao primeiro disco Em Outubro de 1984, Joaquim Pinto assiste em Berlim a uma actuação dos Swans. No final do concerto encontra Harry Crosby, baixista da banda nova-iorquina, que lhe diz que ele tem cara de baixista. Pinto regressa a Braga, compra um baixo e, em Novembro desse ano, forma os Mão Morta, com Miguel Pedro na guitarra e Adolfo Luxúria Canibal na voz.
Os Mão Morta estreiam-se ao vivo, em Janeiro de 1985, no Porto, no Orfeão da Foz. Zé dos Eclipses entra para guitarrista passando Miguel Pedro para a bateria.
Em Novembro de 1985, Zé dos Eclipses estreia-se ao vivo no concerto realizado na Fábrica, em Braga. Participam no 1.º Concurso de Nova Música Rock, no Pavilhão Infante de Sagres, onde ficam em 4.º lugar.
São apurados para o III Concurso de Música Moderna do Rock Rendez-Vous onde acabariam por obter o Prémio de Originalidade, que era o mais apetecível e prestigiante galardão em disputa depois da sua entrega no ano anterior aos Pop Dell’Arte.
Em Setembro, Carlos Fortes entra para o grupo, na 2.ª guitarra, e em Outubro de 1986 os Mão Morta têm a sua estreia internacional com um concerto em Vigo (Espanha), no El Kremlin, integrados na mostra Rock Vigo-Oporto 86. No decurso desta participação viria a frutificar uma amizade entre os Mão Morta e os Pop Dell’Arte, que também faziam parte do cartaz. thumb|190px|A primeira edição da banda, a cassete Mão Morta (1987).Mão Morta.org O ano de 1987 ficou marcado pela devastação do Cinema Império, em Lisboa, quando os Mão Morta, integrados no cartaz das Jornadas do Império, aí actuaram em Outubro juntamente com os americanos Gun Club.
A RUT – Rádio Universidade Tejo elegeu, em Fevereiro d 1987, os Mão Morta como “a melhor banda nacional sem registo em vinil”, com a oferta de tempo de estúdio profissional para a gravação de dois temas, que viriam a ser editados em Agosto, juntamente com outros 4 temas entretanto gravados, em formato K7, pela Malucos da Pátria. Em Novembro estreiam-se ao vivo na televisão, no programa juvenil Fisga, transmitido pelo Canal 1 da RTP – Radiotelevisão Portuguesa.
Quando o jornal de música Blitz publica em Janeiro de 1988 as escolhas dos seus leitores sobre os melhores do ano anterior, os Mão Morta são surpreendentemente contemplados com diversas nomeações, surpresa ainda maior tendo em conta que são o único nome a aparecer sem qualquer disco gravado: surgem em 9º lugar na categoria de “melhor grupo nacional”, em 7.º na de “melhor grupo ao vivo nacional” e em 8º na de “melhor cantor nacional”, com Adolfo Luxúria Canibal. álbum homónimo é editado em Julho desse ano através da editora Ama Romanta. Em Outubro de 1988 fizeram a primeira parte dos britânicos Wire, no Pavilhão Infante de Sagres, no Porto, aquando do lançamento do LP, um novo jornal de música que se posicionava mais atento à cena independente do que o Blitz. Em Dezembro fazem as duas primeiras partes, no Pavilhão Carlos Lopes em Lisboa e no Teatro Rivoli no Porto, do australiano Nick Cave com os seus Bad Seeds.
O ano de 1988 termina com a publicação das escolhas dos leitores do LP onde recebem vários prémios.
1989-1992 - do RRV ao Mutantes S.21 Participam na compilação À Sombra de Deus, com o subtítulo de Braga 88 que teve um grande impacto mediático, não só por ser a primeira vez que, em Portugal, uma Câmara Municipal apoiava a cultura juvenil e editava um disco de bandas locais, mas sobretudo por finalmente estar disponível um registo do que era a afamada movida bracarense, de que muito se falava mas que poucos, fora de Braga, conheciam, tirando os seus representantes mais notórios Mão Morta, Rongwrong e Bateau Lavoir.
Apesar de ter sido um ano de grande actividade musical, 1989 acabaria por ficar para a história dos Mão Morta como aquele em que Adolfo Luxúria Canibal infligiu a si próprio vários golpes numa perna num concerto realizado num Rock Rendez-Vous completamente lotado. Meses depois, em entrevista à televisão, justificava-se dizendo que o Rock Rendez-Vous estava demasiado cheio, com um ambiente muito pesado, “de cortar à faca”, e antes que pudesse acontecer alguma desgraça decidiu mostrar sangue, “porque o sangue acalma os ânimos”, mas com o calor da prestação não se tinha dado conta da gravidade das lesões…
Começavam a preparar um novo disco mas Joaquim Pinto abandona a banda após o concerto que os Mão Morta deram em Janeiro de 1990 no Rock Rendez-Vous. Seria substituído por José Pedro Moura, até aí nos Pop Dell’Arte, e que se viria a estrear como baixista da banda num concerto em Aveiro. Mas antes, em Maio, num ano em que rarearam as prestações ao vivo, os Mão Morta, num lotado Cinema Alvalade, fazem mais um apoteótico concerto em Lisboa, na primeira parte dos suíços Young Gods, onde apresentam a integralidade de Corações Felpudos e que contou com a estreia ao vivo de António Rafael nas teclas. António Rafael já participara nas gravações do disco, enquanto músico convidado, mas com este concerto tornava-se oficial a sua entrada no grupo. Corações Felpudos seria editado apenas em Setembro de 1990 através da marca Fungui, a fábrica de sacos e carteiras de Vítor Silva, 'manager' da banda desde os tempos da Malucos da Pátria.
No final de 1990 estão em estúdio a gravar aquele que seria o seu 3.º disco: O.D., Rainha do Rock & Crawl. A editora independente Área Total, da Guarda, mostrara-se interessada em editar o Corações Felpudos, mas não tendo disponibilidade financeira para pagar o seu custo convencera a banda a editar um novo registo, gravado num estúdio mais barato. E em Janeiro de 1991, enquanto os balanços referentes a 1990 do semanário cultural Se7e e do jornal generalista Público incluíam Corações Felpudos como um dos melhores álbuns do ano, já os Mão Morta tinham um novo disco pronto. A sua edição estava prevista para Fevereiro, quando a banda se apresentou para dois concertos esgotados na nova sala lisboeta Johnny Guitar, mas por atrasos vários na feitura das capas, que acabaram por sair com cores adulteradas e com os rótulos da rodela de vinil por colar, a sua edição só aconteceria em Junho, num concerto na Covilhã, na discoteca Fábrica. Este seria também o último concerto de Zé dos Eclipses com a banda, uma vez que estava de partida para Santa Bárbara, nos EUA, primeira etapa de uma carreira de leitor de Português e de adido cultural que o levaria ainda a Santiago do Chile, no Chile, a Fez, em Marrocos, e a Paris, em França. Dois dias antes, num concerto em Santo Tirso, tinha-se estreado Sapo, anteriormente guitarrista dos Pop Dell’Arte, que o iria substituir na guitarra.
1991 contou com bastantes mais concertos do que o ano anterior, embora sem atingir o número a que a banda se habituara até 1989, mas sobretudo voltou a haver interesse mediático pelo trabalho do grupo, com o jornal Blitz a dar capa aos Mão Morta em Fevereiro, a propósito da edição, entretanto adiada, de O.D., Rainha do Rock & Crawl, e o Se7E a fazer outro tanto em Junho, tal como o semanário regional Minho. Por sua vez, em Dezembro, no seu balanço anual, o jornal Público inclui O.D., Rainha do Rock & Crawl na sua lista das dez melhores edições do ano.
Apesar disso, com os problemas que houve nas edições de Corações Felpudos e O.D., Rainha do Rock & Crawl e com um novo rarear de concertos, o moral da banda encontrava-se de rastos – em 1992 fazem um único concerto, em Abril, na primeira parte dos britânicos Jesus & Mary Chain, no Pavilhão Carlos Lopes, em Lisboa, e mesmo esse com sabor amargo, com José Pedro Moura - retido por uma rusga policial no bairro do Casal Ventoso, onde a sua dependência de heroína o obrigara a deslocar-se - a ter de ser substituído à última da hora por António Rafael... Face à inércia que se instalava, Adolfo Luxúria Canibal convence Vítor Silva a apostar num novo disco e em Maio os Mão Morta entram novamente em gravações. Escolhem o melhor estúdio português da época, o Angel, onde se mantêm até Julho e onde conhecem o produtor e técnico de som José Fortes, com quem entram em perfeita sintonia. Apesar da ausência de José Pedro Moura, que aparece um único dia em estúdio, a banda ganha confiança e entrega-se de alma e coração à produção daquele que viria a ser o seu disco mais celebrado: Mutantes S.21. Editado no início de Dezembro, novamente pela marca Fungui, o disco, que é uma viagem pelos bastidores de nove cidades, ainda vai a tempo de ser contabilizado nos balanços anuais da imprensa, sendo “melhor disco nacional do ano” para o Diário de Notícias e incluído na lista dos dez melhores do ano do Público e do Se7e, enquanto o grupo é capa do Blitz e do Se7e.
1993-1995 - do Pop-Off à medalha de mérito thumb|200px|esquerda
O magazine de cultura juvenil Pop-Off, difundido pela RTP2, apresentava semanalmente videoclipes por si realizados de bandas independentes e mais uma vez, a exemplo do que acontecera quando da edição de Corações Felpudos e de O.D., Rainha do Rock & Crawl, convida os Mão Morta para fazerem um vídeo de Mutantes S.21. O tema escolhido é Budapeste e para o realizar foi destacado Nuno Tudela, com quem a partir daí o grupo mantém uma relação de duradoura cumplicidade. O clip de Budapeste acaba por ser o mais solicitado num outro programa diário do canal 1 da televisão pública, o Vira o Vídeo, onde se mantém semanas a fio em 1º lugar do seu Top Vídeo, arrastando consigo um inesperado airplay radiofónico, que faria com que em 11 de Fevereiro de 1993 Mutantes S.21 entrasse no 28.º lugar do Top Nacional de Vendas. Ainda nesse mês os Mão Morta fazem a capa da revista Académica.
O êxito de Budapeste e de Mutantes S.21 não poderia deixar de se reflectir na solicitação de concertos, tanto mais que o grupo contratara com uma nova agência de espectáculos (de Mário Dimas, um experiente agente), e 1993 é um ano de tournée triunfal, com várias actuações míticas. Iniciada em Março, com as primeiras partes dos americanos Tubes, no Pavilhão Carlos Lopes em Lisboa e no Coliseu do Porto, a tournée de Mutantes S.21 leva ainda os Mão Morta, como cabeças de cartaz, à Queima das Fitas da Universidade do Porto ou à Semana do Enterro da Universidade de Aveiro, onde o deboche em palco lhes vale uma interdição da academia por vários anos. Outros concertos desse ano ficariam gravados na memória, como em Março os confrontos que provocaram com a polícia em Mirandela ou em Junho a invasão do palco por uma fã com seios nus numa lotada Incrível Almadense, em Almada, mas nenhum se aproxima do que em Maio protagonizaram no Teatro-Circo, em Braga: a assistência, numa sala mais que esgotada, rendeu-se ao grupo e foi como se levitasse, completamente inconsciente dos seus actos, num histerismo colectivo de difícil explicação, para só aterrar no final, num Teatro-Circo destruído, de que quase só as centenárias paredes resistiram. Pelo meio tinha havido de tudo, desde mergulhos para a multidão até uma tentativa de sexo oral com Adolfo Luxúria Canibal por parte de uma fã mais incontrolada.
Esse concerto tinha tido como pretexto o lançamento de uma edição especial de Mutantes S.21, com um livro de banda-desenhada a ilustrar os diversos temas do disco, numa espécie de despedida ao velho vinil: Mutantes S.21 era também a primeira edição do grupo no novo suporte CD. O álbum teria ainda uma nomeação para os Se7e de Ouro de 1993, na categoria "melhor disco" (os Se7e de Ouro eram um prestigiado galardão anual instituído pelo semanário Se7e, que premiava as diversas manifestações dentro da área do espectáculo – música, teatro, cinema – que mais se tinham distinguido no ano), e em Novembro seria incluído na selecção Os Melhores Discos de Sempre da Música Portuguesa, o primeiro balanço sobre a edição musical portuguesa, organizado pelo Diário de Notícias.