Augusto (; Roma, — Nuvlana, ) foi o fundador do Império Romano e seu primeiro imperador, governando de até sua morte em Nascido Caio Otávio, pertenceu a um rico e antigo ramo equestre da família plebeia dos Otávios. Depois do assassinato de seu tio-avô Júlio César em , o testamento de César nomeou Otávio como seu filho adotivo e herdeiro. Junto com Marco Antônio e Lépido, formou o Segundo Triunvirato e derrotou os assassinos de César. Após a vitória na Batalha de Filipos, os três dividiram a República Romana entre si, passando a governar como ditadores militares. O triunvirato foi posteriormente posto de lado sob as ambições conflitantes de seus membros: Lépido foi exilado e despojado de sua posição e Marco Antônio cometeu suicídio após sua derrota na Batalha de Áccio em
Após o fim do Segundo Triunvirato, Augusto restaurou a fachada externa de república livre, com o poder governamental investido no senado romano, os magistrados executivos e as assembleias legislativas. Porém, na realidade, manteve seu poder autocrático sobre a República como um ditador militar. Por lei, reteve um conjunto de poderes atribuídos vitaliciamente pelo senado, incluindo o comando militar supremo e aqueles de tribuno e censor. Criou o primeiro programa de previdência pública do mundo, assegurando a lealdade do exército, tornando-se algo que nenhum romano havia sido antes: o comandante em chefe de todas as Forças Armadas. Rejeitou os títulos monárquicos e em vez disso denominou-se "Primeiro Cidadão do Estado" (Princeps Civitatis). O quadro constitucional resultante tornou-se conhecido como o Principado, a primeira fase do Império Romano.
O reinado de Augusto iniciou uma era de relativa paz conhecida como Pax Romana ("Paz Romana"). Apesar de contínuas guerras de expansão nas fronteiras imperiais e uma guerra civil de um ano devido à sucessão imperial, o mundo romano esteve praticamente livre de conflitos em larga escala por mais de dois séculos. Ele dramaticamente aumentou o império, anexando Egito, Dalmácia, Panônia, Nórica e Récia, expandindo as possessões da África e Germânia e completando a conquista da Hispânia. Além das fronteiras, protegeu o Império com uma região tampão composta por Estados clientes e fez paz com o Império Parta por vias diplomáticas. Reformou o sistema romano de tributação, desenvolveu redes de estradas com um sistema de correio oficial, estabeleceu um exército permanente e a guarda pretoriana, criou serviços oficiais de policiais e bombeiros para Roma e reconstruiu grande parte da cidade durante seu reinado.
Augusto morreu em , com 75 anos. Pode ter morrido de causas naturais, embora tenha havido rumores não confirmados de que sua esposa Lívia Drusa o teria envenenado. Foi sucedido como imperador por seu filho adotivo Tibério (também enteado e, anteriormente, cunhado). Com 41 anos, foi o soberano com maior tempo de mandato em Roma.
Nomes Ao longo de sua vida, Augusto foi conhecido por muitos nomes:
Ao nascer, foi chamado Caio Otávio (Gaius Octavius) em homenagem a seu pai biológico. Os historiadores tipicamente referem-se a ele simplesmente como Otávio (ou Otaviano) entre seu nascimento em e sua adoção por Júlio César em (depois da morte de Júlio César); Com sua adoção por César, tomou o nome de seu pai adotivo e tornou-se Caio Júlio César Otaviano (Caius Julius Caesar Octavianus), de acordo com o padrão romano de nomenclatura por adoção. Ele abandonou o "Otaviano" rapidamente e seus contemporâneos se referiam a ele como "César" durante o período, porém os historiadores chamam-no Otaviano entre e ; Em , Otaviano iniciou o Templo do Divino Júlio, ou Templo do Cometa Estelar, e adicionou "Filho do Divino" (Divi Filius) em seu nome, visando fortalecer seus laços políticos com os antigos soldados de César, após a deificação deste, tornando-se Caio Júlio César, Filho do Divino (Gaius Julius Caesar Divi Filius); Em , Otaviano substituiu seu prenome "Caio" e seu nome "Júlio" por "Imperador" (Imperator), o título com o qual as tropas saudavam o seu líder após um sucesso militar, tornando-se oficialmente "Imperador César, Filho do Divino" (Imperator Caesar Divi Filius). Em , após a derrota de Marco Antônio e Cleópatra, o senado romano votou novos títulos para ele, que se tornou oficialmente "Imperador César, Filho do Divino, Augusto" (Imperator Caesar Divi Filius Augustus). Foi nos eventos de que obteve seu tradicional nome de Augusto, que os historiadores usam para se referir a ele desde esta época até sua morte em .
thumb|Ácia segundo o Promptuarii Iconum Insigniorum
Biografia Primeiros anos
Enquanto sua família paterna provinha da cidade de Velitras, a aproximadamente 40 km de Roma, Otávio nasceu na capital em 23 de setembro de , na Cabeça do Touro, uma pequena propriedade no Palatino, muito próxima ao Fórum Romano. A ele foi dado o nome "Caio Otávio Turino", sendo seu cognome uma possível alusão à vitória de seu pai em Túrio contra um bando de escravos rebeldes. Devido à lotação de Roma à época, Otávio foi levado por seu pai para ser criado em Velitras. Ele menciona somente brevemente a família equestre de seu pai em suas memórias. Seu tataravô foi um equestre, seu bisavô paterno foi um tribuno militar da província romana da Sicília durante a Segunda Guerra Púnica, seu avô serviu em várias funções políticas locais e seu pai foi governador da Macedônia. Sua mãe, Ácia, era sobrinha de Júlio César.
Seu pai morreu em , quando ele tinha quatro anos. Sua mãe casou-se em com Lúcio Márcio Filipo, que havia sido propretor da Síria. Filipo alegou descender de Alexandre, o Grande e foi eleito cônsul em . Filipo nunca teve muito interesse pelo jovem Otávio e, por isso, ele foi criado por sua avó, , irmã de Júlio César. Ela morreu em 52 ou e Otávio realizou a oração fúnebre.
thumb|esquerda|Denário de , mostrando Júlio César no anverso e Vênus no reverso
A partir deste momento, sua mãe e seu padrasto desempenharam um papel mais ativo em sua criação. Ele vestiu a toga viril quatro anos depois e foi eleito para o Colégio dos Pontífices em . No ano seguinte, foi responsável pelos jogos gregos, que foram realizados em honra ao Templo de Vénus Genetrix, construído por Júlio César. De acordo com Nicolau de Damasco, Otávio desejava juntar-se à equipe de César em sua campanha na África, mas desistiu quando sua mãe protestou.
Em , Ácia consentiu que se juntasse a Júlio César na Hispânia, onde planejava lutar contra as forças de Pompeu, o último inimigo de César, mas Otávio adoeceu e ficou impossibilitado de viajar. Quando se recuperou, velejou à fronte, mas naufragou. Após alcançar a costa com alguns companheiros, cruzou território hostil ao campo de César, impressionando consideravelmente seu tio-avô. Veleio Patérculo registra que, depois desse momento, César permitiu que o jovem compartilhasse sua carruagem. Ao voltar a Roma, César depositou novo testamento com as virgens vestais, nomeando Otaviano como seu primeiro beneficiário.
Ascensão ao poder Herdeiro de César esquerda|thumb|A Morte de César, por Jean-Léon Gérôme (1867). Em 15 de março de , Júlio César foi assassinado por uma conspiração liderada por Marco Júnio Bruto e Caio Cássio Longino. Museu de Arte Walters, Baltimore Otaviano estava estudando e passando por treinamento militar em Apolônia, na província romana da Ilíria, quando César foi morto nos Idos de Março, em 15 de março de . Rejeitando o conselho de alguns oficiais do exército para refugiar-se com as tropas na Macedônia, navegou à Itália para verificar se tinha potenciais fortunas política ou financeira. César não tinha filhos vivos legítimos sob as leis de Roma, e por isso havia adotado Otávio como seu herdeiro. Marco Antônio, mais tarde, acusou Otaviano de ter obtido sua adoção por César por meio de favores sexuais, embora Suetônio, em sua obra Vida dos Doze Césares, descreva a acusação como calúnia política. Após desembarcar em Lúpias, próximo de Brundísio (atual Brindisi), Otávio soube do conteúdo do testamento de César e só então decidiu tornar-se seu herdeiro político, bem como de dois terços de seu patrimônio.
Após a sua adoção, Otávio assumiu o nome de seu tio-avô, Caio Júlio César. Os romanos que eram adotados por uma nova família geralmente mantinham seus nomes antigos na forma de cognome (por exemplo, Otaviano por alguém que tivesse sido Otávio). Porém, não há evidência de que tenha portado oficialmente o nome Otaviano, pois isto teria tornado suas origens modestas muito óbvias. Os historiadores costumam se referir ao novo César como Otaviano no período entre sua adoção e a assunção do nome Augusto, em , para evitar a confusão do ditador morto com seu herdeiro.
Para fazer uma entrada bem-sucedida nos altos escalões da hierarquia política romana, Otaviano não podia se basear em seus fundos limitados. Após uma calorosa recepção pelos soldados de César em Brundísio, exigiu uma parte dos recursos que haviam sido alocados à pretendida guerra contra o Império Parta no Oriente Médio. Isso equivalia a 700 milhões de sestércios armazenados em Brundísio, o campo de preparação na Itália às operações militares no Oriente.
Uma investigação senatorial posterior a respeito do desaparecimento dos recursos públicos não levou a ação alguma contra Otaviano, uma vez que ele subsequentemente usou o dinheiro para recrutar tropas contra o inimigo do senado, Marco Antônio. Otaviano fez outro movimento ousado em , quando, sem permissão oficial, apropriou-se do tributo anual que havia sido enviado pela província romana do Oriente Próximo à Itália.
thumb|Busto de Otaviano datado de ca. Museus Capitolinos
Otaviano começou a reforçar suas forças pessoais com legionários veteranos de César e com tropas designadas à guerra na Pártia, coletando apoio ao enfatizar sua condição de herdeiro de César. Em sua marcha para Roma através da Itália, a presença de Otaviano com fundos recém-adquiridos atraiu muitos e conquistou vários ex-veteranos de Júlio César estacionados em Campânia. Até o mês de junho, havia formado um exército de veteranos leais, pagando para cada um o salário de 500 denários.
Tensões crescentes Ao chegar a Roma em 6 de maio de , Otaviano encontrou o cônsul Marco Antônio, antigo colega de Júlio César, em uma incômoda trégua com os assassinos do ditador; a eles havia sido garantida uma anistia geral em 17 de março, porém Antônio conseguiu conduzir a maioria deles para fora de Roma. Isto se deveu ao discurso "inflamado" feito por ele no funeral de César, que criou uma opinião pública contrária aos assassinos.
Marco Antônio estava acumulando apoio político, mas Otaviano ainda tinha a oportunidade de rivalizar com ele como principal membro da facção dos apoiadores de César. Marco Antônio tinha perdido o apoio de muitos romanos e apoiadores de Júlio César quando, inicialmente, opôs-se à moção para elevá-lo ao estatuto de divino. Otaviano não conseguiu persuadir Marco Antônio a renunciar ao dinheiro do ditador para si. Contudo, durante o verão, conseguiu ganhar apoio dos cesarianos simpatizantes, que viram o jovem herdeiro como o mal menor e esperavam manipulá-lo ou ser pacientes com ele durante seus esforços para livrarem-se de Marco Antônio.
Otaviano começou a fazer causa comum com os Optimates, os antigos inimigos de Júlio César. Em setembro, o principal orador optimate, Marco Túlio Cícero, começou a atacar Marco Antônio numa série de discursos retratando-o como uma ameaça à ordem republicana. Com a opinião em Roma virando-se contra ele e seu ano de poder consular próximo do fim, Antônio tentou aprovar leis que lhe dariam controle sobre a Gália Cisalpina, que tinha sido atribuída como parte de sua província por Décimo Júnio Bruto Albino, um dos assassinos de César.