O Cerco de Mutina, em , foi um dos primeiros episódios da Segunda Guerra Púnica. Os embaixadores de Aníbal na Gália Cisalpina haviam conseguido levar os gauleses boios e ínsubres à revolta. Eles rapidamente expulsaram os colonos de Placência, forçando-os a fugir para Mutina, que foi cercada e, por pouco, não foi ocupadaLívio, Ab Urbe Condita XXI, 25..

Contexto histórico

O expansionismo romano levou seus exércitos a atravessarem pela primeira vez o rio Pó em . A dura resistência das tribos gaulesas, especialmente dos boios, fez com que os romanos percebessem o quão difícil seria a guerra na região nos anos seguintesDyson (1985), p. 31.. Os comandantes naquele ano foram os dois cônsules, Tito Mânlio Torquato e Quinto Fúlvio FlacoPolíbio, Histórias II, 31.8-10; Lívio, Ab Urbe Condita Periochae 20; Paulo Orósio, IV, 13; João Zonaras, Epitome VIII, 20..

Esta nova ofensiva romana foi uma reação natural da invasão gaulesa que levou à Batalha de Telamão (). Logo depois, os romanos atravessaram os Apeninos e atacaram o território dos boios. Nos anos seguintes vieram os cônsules Caio Flamínio Nepos e Públio Fúrio Filo (), que lutaram contra os ínsubresPolíbio, Histórias II, 32–33. e conseguiram um triunfo "De Galleis"Fastos Triunfais; Lívio, Ab Urbe Condita XXI, 63.2 e XXIII, 14.4; Sílio Itálico, Punica VI, 653–635; João Zonaras, Epitome VIII, 20., que acabou sendo recusado a Flamínio por questões religiosas e políticasSílio Itálico, Punica IV, 704–706; V, 107–113 e 649–655; Plutarco, Vidas Paralelas Fabius 2.4; Floro I, 20.4; Paulo Orósio, IV, 13.4.. Em , depois da vitória decisiva na Batalha de Clastídio, os romanos tomaram a capital ínsubre, Mediolano (moderna Milão)Dyson (1985), p. 32..

Para consolidar seu próprio domínio na região, Roma fundou as colônias de Placência, no território dos boios, e Cremona, no dos ínsubres. Os gauleses da Itália setentrional se revoltaram novamente quando Aníbal invadiu a Itália depois de atravessar os Alpes.

Casus belli

Quando chegou a notícia de Aníbal havia conseguido invadir a Itália, os boios, depois de terem instigado também os ínsubres, se revoltaram. Segundo Lívio, o principal motivo foi a fundação, em território gaulês, das duas colônias romanas (Placência e Cremona)Lívio, Ab Urbe Condita XXI, 25.2..

Os gauleses decidiram atacar o território das colônias de forma improvisada, gerando terror e destruição não apenas entre os colonos mas também nos triúnviros romanos que eram responsáveis pela distribuição das terras e pela fundação das colônias. Sem confiar nas defesas de Placência, os romanos preferiram refugiar-se em Mutina (moderna Módena).

Cerco Uma vez cercada a cidade de Mutina, os gauleses, que não tinham experiência nenhuma em cercos, já "preguiçosa e inertemente acampados sob as muralhas", começaram a tratar da pazLívio, Ab Urbe Condita XXI, 25.6.. Lívio reconta os líderes gauleses convidaram os embaixadores romanos para um colóquio, mas, depois de prendê-los, violando todas as leis do direito das gentes, se recusaram a libertá-los se não fossem libertados seus próprios refénsLívio, Ab Urbe Condita XXI, 25.7..

Quando esta notícia chegou até o pretor Lúcio Mânlio Vulsão, ele ficou furioso e levou seu próprio exército, de forma desordenada, até a vizinhança de Mutina, repleta de florestas. Suas tropas foram emboscadas pelos gauleses, pois, não tendo explorado anteriormente e adequadamente território, os romanos mal conseguiram correr para o campo aberto, sofrendo numerosas baixasLívio, Ab Urbe Condita XXI, 25.8-9..

Já acampados e fortificados, Vulsão recuperou a coragem depois das perdas sofridas (500- homens). Quando ele retomou a marcha, o exército romano encontrou mais florestas e, mais uma vez, os gauleses atacaram, desta vez pela retaguarda, causando grandes estragos: 700 foram as vítimas romanas e seis insígnias perdidasLívio, Ab Urbe Condita XXI, 25.11-12..

Juntos novamente em uma planície, os romanos se refugiaram na vizinhança da vila de Taneto, perto do rio Pó. Ali, fortificaram novamente seu acampamento e passaram a transportar suas provisões pelo rio graças ao apoio dos gauleses cenomanos e dos habitantes de BríxiaLívio, Ab Urbe Condita XXI, 25.13-14..

Teatro de operações thumb|upright=3.6|center|A Gália Cisalpina, teatro das operações no outono de : da revolta dos boios com Cerco de Mutina às vitórias de Aníbal na Batalha de Ticino e na Batalha de Trébia

Consequências Assim que a notícia da revolta dos gauleses chegou a Roma, o Senado Romano determinou o envio do pretor Caio Atílio Serrano com uma legião e soldados aliados (uma ala), uma força que havia sido recém-alistada pelo cônsul Públio Cornélio Cipião. Atílio Serrano conseguiu chegar até Taneto sem ser atacado, pois os gauleses se retiraram para suas fortalezas para não enfrentar os romanosLívio, Ab Urbe Condita XXI, 26.1-2..

Notas

Bibliografia Fontes primárias

Apiano, História de Roma (Ῥωμαϊκά), VII e VIII Fastos Triunfais: e em inglês. Lívio, Ab Urbe Condita XXI Lívio, Ab Urbe Condita Periochae 21-30 Paulo Orósio, Historiarum adversus paganos libri septem (em latim) Plutarco, Vidas Paralelas Epaminondas e Cipião Africano; Péricles e Fábio Máximo; Pelópidas e Marcelo (em inglês) Políbio, Histórias III-XV Sílio Itálico, Punica (em latim) João Zonaras, Epitome (em francês)

Fontes secundários

Categoria:Batalhas da Segunda Guerra Púnica Categoria:Cercos envolvendo a República Romana