Osvaldo Valentim Palmiro Artico (Caxias do Sul, 3 de abril de 1898 — 29 de janeiro de 1971) foi um comerciante, futebolista e político brasileiro, lembrado como um dos fundadores e uma das lideranças do Sport Club Ideal, o primeiro time de futebol da cidade; pela sua colaboração no Esporte Clube Juventude, do qual foi fundador, jogador, capitão, diretor de departamentos e presidente, e pela elogiada atuação como sub-prefeito do Distrito de São Marcos. Foi também um dos fundadores do Recreio da Juventude, um dos mais tradicionais clubes sociais de Caxias, em Nova Pádua, da Ação Integralista Brasileira, e em São Marcos, da Liga de Defesa Nacional, da Associação Rural, do Tiro de Guerra e do Grêmio Americano.

Família

Osvaldo Artico era descendente de uma antiga e nobre família italiana estabelecida em Ceneda, cujos primeiros registros são de fins do século XIII, que produziu membros e deputados do Conselho, notários e personalidades como Alessandro, arquiteto militar, um dos encarregados de fortificar o Castelo de Ceneda, Federico, presidente do Monte di Pietà (entidade assistencialista), o venerável Angelo, monge e místico franciscano a quem se atribuem milagres, e Filippo, príncipe e bispo de Asti, erudito e filantropo.Frantz, Ricardo A. L. Crônica das famílias Artico e Longhi de Caxias do Sul e sua parentela: estórias, história e genealogia - Volume IV: o passado na Europa. Academia.edu, 2025, pp. 107-147

O avô de Osvaldo, como ele chamado Osvaldo, nascido em Ceneda em c. 1845, casado com Magdalena de Nadai, segundo a tradição foi militar e oficial de Giuseppe Garibaldi, lutando no Risorgimento italiano. Emigrou para o Brasil em 1879 com os pais, a mulher e filhos, fixando-se em Caxias do Sul, onde participou dos trabalhos de fundação da cidade, ganhando a vida como professor, ferreiro e dono de uma bodega e um açougue, além de ser fabriqueiro da primeira Igreja Matriz, ferreiro da Fabriqueria da segunda Matriz (a atual Catedral), e um dos fundadores da Sociedade Príncipe de Nápoles.Gardelin, Mário & Costa, Rovílio. Os Povoadores da Colônia Caxias, EST / Folha de Hoje, 1992, p. 337Município de Caxias. Livros de Registro de Imposto sobre Indústrias e Profissões, 1893-1900 "Necrologia". O Brazil, 29/05/1909Município de Caxias. A Municipalidade de Caxias em Memória aos seus Pioneiros no Primeiro Cincoentenario de sua Fundação 1875-1925 Abriu também a primeira fábrica de fogões a lenha da cidadeAdami, João Spadari. Festas da Uva 1881-1965. São Miguel, s/d. e na virada para o século XX tornou-se industrial do vinho, falecendo em 1909 em confortável situação financeira e prestigiado socialmente. Seu sepultamento foi um dos mais concorridos da época. Deixou seis filhos: Antonio, Augusto, José, João, Celestina e Maria.Frantz, Ricardo A. L. Crônica das famílias Artico e Longhi de Caxias do Sul e sua parentela: estórias, história e genealogia - Volume II. Academia.edu, 2025, pp. 13-62

Seu tio Augusto, casado com Ema Panigas, deu continuidade à ferraria, e seu pai, Antonio, casado com Teresa Segalla, assumiu a direção da cantina fundada pelo velho Osvaldo e a ampliou significativamente, exportando dez mil barris por ano e tendo seu produto premiado."Visitando lo stabilimento vinicolo del sig. Antonio Artico". Città di Caxias, 14/10/1915“" Exposição". O Brazil, 11/03/1916"Inauguração de uma cantina". O Brazil, 30/06/1917"Os srs. Artico & Cia." Città di Caxias, 12/01/1920 Foi também dirigente do Partido Republicano Rio-Grandense,"Os Republicanos e A Federação". A Federação, 08/03/1905"Estadual". A Federação, 21/03/1916 e membro da Diretoria da Associação dos Comerciantes."Da distincta Associação dos Commerciantes". O Brazil, 20/01/1917 Contudo, em 1921 Antonio faliu."Notas forenses". O Brasil, 02/07/1921"Notas forenses". O Brasil, 25/03/1922 Depois abriu um pequeno hotel com restaurante, onde organizava banquetes de encomenda."Caxias". Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1935"Um almoço". O Momento, 24/05/1937 Faleceu em 6 de março de 1936. Com Teresa teve o filho Osvaldo e as filhas Ilda, falecida na infância, Irma, Norma, Graciema e Rina.

Esporte

Desde cedo um entusiasta do futebol, em 3 de outubro de 1910 Osvaldo participou da fundação do primeiro time da cidade, o Sport Club Ideal, formado por jovens amadores que praticavam de maneira precária, sem um campo fixo e sem equipamentos, jogando com bolas de pano, laranjas ou bexigas de animais. Até mesmo seu uniforme era improvisado, como lembrou o historiador João Spadari Adami, que também foi um dos fundadores:

"Os do Ideal fizeram seus primeiros calções com sacos de linhagem, que tiravam de seus progenitores. Pois se lhes pedissem numerário para sua aquisição, lhes era negado na certa. No fundo dos ditos sacos, eram feitos os buracos para passar as pernas, e, na boca dos mesmos, amarravam uma corda qualquer, como se usa nos pijamas. Ficando, assim, equipados, pelo menos até que seus pais e mesmo a população familiar caxiense se acostumasse ver guris ou adultos mesmo com pernas à vista do respeitável público".Adami, João Spadari. História de Caxias do Sul. Tomo IV – Sociedade. Editora São Pedro, 1966, pp. 33-36

Adami conta que Osvaldo — então apelidado Mirim para distingui-lo de seu avô homônimo, apelido que carregaria pela vida adulta — foi uma liderança no Ideal, e nas brigas que frequentemente aconteciam entre essa meninada, quando a razão não bastava para decidir as disputas, impunha sua vontade ameaçando espancar os oponentes com um cinturão de onde pendia pesada fivela de metal. Cruz et alii, estudando os primórdios do futebol caxiense, dizem que o Ideal também promovia "matinés dançantes" que atraíam os jovens de todos os cantos da cidade, e onde imperava um rígido código de conduta. Os moços não podiam tocar nas moças e deviam manter uma postura militar, um reflexo dos valores sustentados por aquela sociedade em formação, onde a religião e a moral católica eram princípios fundamentais. No entanto, as atividades do Ideal não deixaram de causar escândalo pelo simples fato de os jogadores se mostrarem em público com as pernas descobertas. Cruz et alii também referem que o surgimento do Ideal foi uma iniciativa "muito significativa numa cidade conservadora onde até então os principais esportes a serem disputados eram o jogo de cartas, o jogo da mora e o jogo da bocha. A instauração do S. C. Ideal acabou como o impulsionador e difusor da prática futebolística que, muito em breve, seria absorvida e disseminada como mais uma atividade de cunho social pelos clubes recreativos da cidade".Cruz, Priscilla Postali et al. "O futebol e a italianidade brasileira: a emergência da prática futebolística em Caxias do Sul". In: Revista Didática Sistêmica, Edição Especial - Evento Extremos do Sul Ao mesmo tempo, contribuiu para a formação de um senso de identidade:

"Como os clubes sócio-recreativos eram instituições que construíam e reafirmavam a identidade étnica ítalo-brasileira dos moradores da cidade, o futebol tornou-se mais um disseminador dos valores morais e da concepção de trabalho dos imigrantes que elevaram a Vila Caxias à condição de cidade. O futebol foi apropriado pelos imigrantes de forma diferenciada e única. Viu-se no futebol, mesmo que subjetivamente, mais uma forma de, através das rivalidades alimentadas por esse esporte, reforçar a identidade étnica daquela gente que, na Itália, se encontrava tão desunificada".

Em 29 de junho de 1913 Osvaldo participou da fundação do Esporte Clube Juventude,Rodrigues, Paulo. "E.C.Juventude". Revista Acontece Sul, 03/06/2014 sendo "titular desde a primeira partida, e por muitos anos, jogando como centromédio", como lembrou Francisco Michielin, historiador do clube.Michielin, Francisco. "Papos na História". Esporte Clube Juventude, 04/03/2010 O clube era formado basicamente por adultos, e para criar um quadro de juniores Osvaldo propôs ao Ideal se fundir ao Juventude. A proposta não agradou a todos, ocorrendo uma cisão. Cerca de metade dos integrantes aceitaram a fusão, mas a outra parte aderiu ao Clube Juvenil, fundando o seu Departamento de Futebol. Após a recepção dos novatos, Osvaldo foi designado seu capitão-instrutor. Atuou como diretor de Campo do Juventude em 1915,"La rispetabile segretaria del Club Juventude". Città di Caxias, 21/06/1915 em 1917 foi presidente, e atuava também como destacado jogador, sendo o capitão em 1917 e 1918."Notas sportivas". O Brazil, 20/07/1918 Em sua história do clube Michielin o descreveu como um dos "imortais". Na partida contra o Cruzeiro em 1918, o cronista qualificou sua atuação como "fantástica", e sobre a partida contra o 14 de Julho de Livramento, na temporada de 1919, ele diz: "Osvaldo Artico, depois de sete temporadas seguidas, está no auge de sua classe, jogando com uma gana incrível. Sua raça é indomável, não há leão que o assuste. Toma conta do campo e marca o terceiro e quarto tentos. No placar, Ju 4 x 1. É uma loucura".Michielin, Francisco. Assim na Terra como no Céu. Sagra / D. C. Luzzatto, 1994, pp. 125-145 A referência ao leão remete ao 14 de Julho, chamado Leão da Fronteira, que nesta temporada ainda estava invicto. Sua invencibilidade veio a ser perdida justamente para o Juventude "com uma implacável goleada de 4 x 1, de enorme repercussão na época. [...] A partir dessa vitória histórica, o Juventude passou a ser rotulado pela imprensa da capital de Tigre da Serra".

Ocuparia várias outras funções no Juventude, deixando uma importante marca na história do clube. Em 1924 estava no Conselho Fiscal, em 1931 ocupou a Presidência outra vez, em 1933 e 1934 integrava o Conselho Técnico,"Esporte Clube Juventude". O Momento, 22/02/1933"S. C. Juventude". O Momento, 15/03/1934 em 1935 e 1936 foi capitão-geral,"Sport Club Juventude". O Momento, 30/03/1936"S. C. Juventude". O Momento, 14/02/1935 e em 1938 foi diretor técnico."Esporte Clube Juventude". O Momento, 07/02/1938 Presidiu o Conselho Consultivo de 1947 a 1956,“Nem o peso dos 60 anos conseguiram dobrar o entusiasmo de Osvaldo Artico pelo Juventude”. Pioneiro, 05/04/1958 em 1955 era diretor do Departamento de Finanças,“Nova diretoria do EC Juventude”. Pioneiro, 05/11/1955 em 1959 foi o paraninfo da inauguração da capela do Estádio Alfredo Jaconi,"Inaugurada a capela no Estádio Alfredo Jaconi". Pioneiro, 08/08/1959 em 1961 era responsável pelo Departamento de Cadeiras Cativas,“Juventude entra com o pé direito”. Pioneiro, 07/01/1961 e em 1964 era conselheiro fiscal.“Nova diretoria do EC Juventude”. Pioneiro, 15/01/1964

Em 1934 foi um dos fundadores e primeiro presidente da Liga Interna Caxiense de Foot-Ball, depois renomeada Liga Esportiva Caxiense."Liga Interna Caxiense de Foot-Ball". O Momento, 11/10/1934 "Figura de destaque no meio esportivo caxiense","Falecimentos". O Momento, 06/03/1939 pelos seus relevantes esforços neste setor recebeu homenagens públicas em banquete organizado em 1935 "por elementos influentes da vida esportiva de Caxias"."Jubileu Esportivo". O Momento, 13/01/1935

Sociedade e política