Trindade (no original em inglês, Trinity) é o título de uma revistas em quadrinhos americana publicada pela editora DC Comics. A revista é protagonizada pelos três super-heróis que compõem a "trindade" central do universo ficcional da editora: Batman, Superman e Mulher-Maravilha. O trio, formado por personagens que são considerados como os mais importantes super-heróis daquele mundo, é apresentado nas histórias em posição de igual destaque, de forma a demonstrar sua importância não apenas um para o outro, mas para o universo ficcional em que se inserem. Apesar dos personagens terem sido criados com poucos meses de diferença, entre 1938 e 1941, levaria anos para que o conceito de "trindade" se formasse dentro da editora.
Após uma bem-sucedida minissérie em 2003, a revista teve uma primeira versão publicada entre 2008 e 2009, com 52 edições, publicadas com uma excepcional periodicidade semanal, escritas integralmente por Kurt Busiek e Fabian Nicieza, e ilustradas majoritariamente por Mark Bagley. A segunda versão da revista começou a ser publicada em 2016, como parte da iniciativa DC Rebirth, que visava resgatar os principais conceitos da editora, perdidos após o o relançamento de toda a linha editorial em 2011. Na nova versão, escrita e desenhada por Francis Manapul, também são retratadas aventuras protagonizadas pelos três personagens.
Antecedentes e contexto O surgimento do conceito de "trindade" O personagem Superman surgiu em 1938, e ainda em 1939 já se percebia o impacto do sucesso de suas histórias, então publicadas em Action Comics: no início do ano, Bob Kane foi contratado pela editora para criar "um novo combatente do crime", que veio a ser publicado na 27ª edição de Detective Comics. Batman, inicialmente chamado de "Bat-Man", posteriormente viria a se tornar o herói mais popular da revista, e de forma similar ao que ocorria com Superman em Action, passaria a figurar na maioria das capas da publicação. Ainda em 1939, a editora decidiria dar a Superman uma revista própria. Todas as publicações atraiam milhares de leitores por mês, tornando o gênero de "quadrinhos de super-herói" muito popular, e ensejando a criação de novos personagens todos os meses, na tentativa de repetir o sucesso obtido por Batman e Superman.
Em seus primeiros anos, os quadrinhos americanos, apesar de sua popularidade, eram vistos como um gênero "inferior" da literatura. Numa entrevista publicada em 1940, o psicólogo e advogado William Moulton Marston, um dos inventores do polígrafo, apontaria os quadrinhos como um meio viável, de imenso potencial ainda não explorado. A declaração chamou a atenção de Max Gaines, um dos editores responsáveis pelas revistas em quadrinhos de super-herói então publicadas pela editora que viria a se tornar a DC Comics, e este convidou Marston para contribuir com a editora, inicialmente como consultor e posteriormente criando um novo personagem. Marston, vendo que não haviam, à época, personagens femininas fortes, estabeleceu um conceito para Gaines: a editora precisava de uma heroína, que "tivesse toda a força de um Superman somada ao fascínio próprio de uma mulher boa e bonita". Assim, surgiria, em 1941, a Mulher-Maravilha. Embora ela não tenha sido a primeira super-heroína efetivamente criada e publicada numa histórias em quadrinhos, ela se tornaria, com o tempo, a mais popular.
O conceito de "trindade", que colocaria os três personagens como as figuras centrais do Universo DC não surgiria antes de um considerável período de evolução dos próprios personagens. Durante o período conhecido como "Era de Ouro" dos quadrinhos americanos, entre o final da década de 1930 e meados da década de 1950, a Mulher-Maravilha não era um figura de proeminência comparável a Batman e Superman. No período histórico seguinte, a "Era de Prata", que se estendeu de 1956 até meados de 1970, o cenário começaria a mudar, ainda que lentamente: Batman e Superman estrelavam uma série de revistas bem-sucedidas, inclusive uma em que atuavam sempre em dupla, intitulada World's Finest Comics, e seus editores à época - respectivamente, Jack Schiff e Mort Weisinger - não permitiam que os heróis fossem usados por Julius Schwartz com frequência nas primeiras aventuras da "Liga da Justiça", uma equipe de super-heróis que surgiria no período. Assim, a Mulher-Maravilha acabaria se tornando um dos destaques da revista, ao lado de Flash e Lanterna Verde. Entretanto, apesar de figurar com destaque nas histórias da equipe, em sua própria revista, a personagem não era retratada interagindo com outros heróis.
Nos anos seguintes, enquanto Batman e Superman mantinham equipes regulares de escritores e desenhistas envolvidos na produção de suas histórias, a revista da Mulher-Maravilha mantinha a mesma instabilidade e irregularidade que havia atingido a publicação desde o falecimento do criador da personagem em 1947. Num período de poucos anos, 8 escritores diferentes seriam contratados para contribuir com a revista, sempre com a missão de tornar a personagem mais atraente ao grande público, e sempre fracassando. Somente a partir de 1986, após o evento Crise nas Infinitas Terras, que a personagem conseguiria, na figura do escritor e desenhista George Pérez, ganhar a estabilidade que a elevaria ao mesmo patamar de Batman e Superman. Foi estabelecida uma nova continuidade, que ignorou grande parte do que havia sido produzido até ali, e os três personagens começariam "do zero" nas histórias então publicadas. Nessas novas histórias, Batman e Superman ainda não possuíam a amizade que caracterizava os personagens nas décadas anteriores - ao contrário, a editora passaria a retratá-los com frequência como oponentes, e levaria anos para que os personagens aprendessem a confiar um no outro. Nesse meio-termo, Superman e Mulher-Maravilha desenvolveram um relacionamento de forte amizade.
Não se formaria nenhum conceito de "trindade" juntando os três personagens até a década de 1990 - uma influência direta do trabalho do roteirista Mark Waid, que em 1996, colocaria os três personagens em posição de destaque na Liga da Justiça, na formação da revista JLA, escrita por Grant Morrison. No mesmo ano, Waid ainda se tornaria autor da emblemática minissérie O Reino do Amanhã, uma obra influente que estabeleceria a Mulher-Maravilha como uma heroína de caráter fortemente guerreiro, dotada de métodos bastante violentos. E, na visão do crítica Tom Bondurant, Waid faria mais do que isso:
O Reino do Amanhã influenciou inúmeros autores, e várias histórias publicadas a partir daquele momento passariam a não mais se limitar à tendência que a editora até então apresentava de colocar Superman e Batman como oponentes, mas a incluir a Mulher-Maravilha nas tramas, das mais variadas formas, seja como parte do confronto entre os dois, como na minissérie Superman: Red Son, seja como a oponente de Batman, como na graphic novel de Greg Rucka e J. G. Jones, Wonder Woman: The Hiketeia, ou no arco de história Gods of Gotham, escrito e desenhado por Phil Jimenez e publicado na revista Wonder Woman.
Trindade de Matt Wagner (2003) thumb|160px|left|Matt Wagner, autor de Batman/Superman/Wonder Woman: Trinity, publicada em 2003.
A primeira publicação a ostentar oficialmente o título de "Trindade" foi a minissérie em três edições Batman/Superman/Wonder Woman: Trinity, escrita e desenhada por Matt Wagner e publicada em 2003 pela DC Comics. A minissérie se situava, cronologicamente, no início da carreira dos três personagens, e revelou o primeiro momento em que os três se uniram por um objetivo em comum, antes da formação da Liga da Justiça, para enfrentar Ra’s al-Ghul, Bizarro e uma Amazona renegada.
Segundo Jesse Schedeen, do site americano "IGN", a história estabeleceria, frente ao público e a crítica, uma demanda pela substituição do conceito estabelecido na revista World's Finest Comics anos antes, limitado a Batman e Superman, por histórias que retratassem o trio.http://www.ign.com/articles/2009/09/22/the-greatest-supermanbatman-stories A influência seria sentida já no ano seguinte: em 2004, apesar da revista Superman/Batman não ter seu nome no título, a Mulher-Maravilha figuraria em papel de destaque nas histórias.
Em 2005, mais de uma história colocaria o trio em posição de igual destaque. O arco de história Sacríficio foi o mais significativo exemplo. A trama foi publicada em quatro partes, durante o mês de julho de 2005, nas revistas Superman #219, Action Comics #829, Adventures of Superman #642 e Wonder Woman #219, e era relacionada aos eventos retratados na minissérie O Projeto OMAC, escrita por Greg Rucka.
Rucka escreveu as duas últimas partes, cujos eventos se situam pouco antes da trama apresentada na quarta edição da minissérie também escrita por ele. A segunda parte, publicada em Action Comics, foi escrita por Gail Simone sob a coordenação de Rucka, e foi a terceira edição escrita por ela e ilustrada por John Byrne, que recentemente havia começado a trabalhar juntos naquela revista. Em Sacrifice, Superman é dominado pelo vilão Maxwell Lord e é levado a atacar Batman e a Mulher-Maravilha, acreditando que seriam na verdade super-vilões. A trama foi um sucesso de vendas, com todas as revistas tendo recebido novas tiragens após esgotarem.
O confronto entre o dominado Superman e Mulher-Maravilha e, posteriormente, entre a Mulher-Maravilha e Maxwell Lord são comumente citados como alguns dos eventos mais significativos não apenas da trama, mas da própria história dos personagens que veio a continuar nas edições do mês seguinte de Wonder Woman e Adventures of Superman e em The OMAC Project #4. A trama de Projeto OMAC fazia parte da "Contagem Regressiva para a Crise Infinita" e era literalmente dividida por Sacrifice: as três primeiras edições mostravam Batman e a Mulher-Maravilha realizando investigações diferentes: enquanto Batman acompanhava a organização Xeque-Mate e a agente infiltrada Sasha Bordeaux, a Mulher-Maravilha se juntou ao Gladiador Dourado com a intenção de descobrir o paradeiro do Besouro Azul, que havia desaparecido.
A minissérie se dedicou aos temas políticos e a estrutura de espionagem formada dentro do universo ficcional da DC Comics. Maxwell havia assassinado o Besouro Azul para evitar que seus planos para utilizar o satélite "Brother I" e os robôs OMAC fosse revelado. The OMAC Project #3 terminava com a revelação de que Lord havia sido bem-sucedido em dominar Superman. A minissérie fora planejada de forma que a publicação da terceira edição coincidisse com o início da publicação de Sacrifice e, da mesma forma, a publicação da conclusão de Sacrifice em Wonder Woman #219 e da quarta edição da minissérie também coincidiram intencionalmente.
As quatro capas de cada edição de Sacrifice foram produzidas de forma a retratar a relação entre si. Em Action Comics #829 Superman é retratado na mesma pose que em Superman #219 e Adventures of Superman #642, mas enfrentando um vilão diferente. Em Wonder Woman #219 a arte é invertida, e Superman é retratado sempre enfrentado pela Mulher-Maravilha. O final da revista, em que a heroína assassina Lord para impedir que ele continuasse a controlar Superman é determinante para a continuação de The OMAC Project.