miniatura|Westminster Hall e seu telhado de hammerbeam, retratado no início do século XIX.

Gótico inglês (English Gothic) é o estilo arquitetónico que se desenvolveu na Inglaterra a partir do final do século XII e que, em sentido amplo, permaneceu em uso até o século XVII, muito depois de a arquitetura gótica ter sido substituída pelo Renascimento na maior parte da Europa Continental. Em sentido histórico mais estrito, a periodização tradicional de Thomas Rickman compreende os estilos que vão do final do século XII à Reforma Inglesa, dividindo-os em Gótico Inglês Inicial, Gótico Decorado e Gótico Perpendicular.

A partir da segunda metade do século XII, o estilo gótico desenvolvido na Île-de-France difundiu-se na Inglaterra, onde adquiriu características próprias. O contacto entre os dois países era particularmente estreito em razão das relações políticas entre a monarquia inglesa e os territórios franceses sob seu domínio. A arquitetura inglesa já apresentava, entretanto, importantes experiências anteriores com arcos apontados e abóbadas nervuradas. A Catedral de Durham, por exemplo, iniciada no final do século XI, apresenta algumas das primeiras experiências conhecidas com abóbadas de nervuras e arcos apontados, embora a sua conceção geral permaneça essencialmente românica ou normanda.

Como a arquitetura gótica de outras regiões da Europa, o Gótico inglês empregou sistematicamente o arco apontado, a abóbada de nervuras, os contrafortes, os arcobotantes e grandes janelas com vitrais. A combinação desses elementos permitiu reduzir a função estrutural das paredes, aumentar a altura e a amplitude dos espaços interiores e criar superfícies extensas para a iluminação através de vitrais. A arquitetura gótica foi introduzida na Inglaterra a partir da França, onde diversos desses elementos haviam sido reunidos numa conceção coerente no coro da Basílica de Saint-Denis, ao norte de Paris, reconstruído sob o abade Suger e consagrado em 1144.

Os arquitetos ingleses, contudo, desenvolveram rapidamente uma linguagem própria. Em comparação com muitas catedrais francesas, as catedrais inglesas tendem a ser muito longas e relativamente baixas, com forte desenvolvimento horizontal. As plantas frequentemente apresentam cabeceiras retas ou quadradas, em contraste com as cabeceiras absidais e radiais comuns na França. Os transeptos podem ser particularmente salientes, e as fachadas ocidentais são muitas vezes largas e concebidas como grandes fachadas-paravento, em vez das fachadas de duas torres mais compactas características de muitas catedrais francesas. A tradição construtiva anglo-normanda, com paredes espessas, arcadas profundas e uma relação particular entre nave, trifório e clerestório, continuou a influenciar a arquitetura inglesa mesmo depois da introdução das formas góticas.

Muitas das maiores obras da arquitetura medieval inglesa foram construídas em estilo gótico, incluindo as catedrais de Cantuária, Salisbury, Lincoln, York, Wells, Exeter, Gloucester e Ely, bem como a Abadia de Westminster. O estilo foi igualmente empregado em abadias, igrejas paroquiais, castelos, palácios, colégios universitários, salas capitulares, hospitais, edifícios comerciais e outras construções civis. Um exemplo particularmente importante de arquitetura secular é o Westminster Hall, cuja grande cobertura de madeira em sistema de hammerbeam foi erguida no final do século XIV.

O Gótico inglês desenvolveu-se em linhas parcialmente paralelas e parcialmente divergentes das da arquitetura gótica continental. A longa duração das obras de muitas catedrais fez com que diferentes estilos coexistissem no mesmo edifício. A Catedral de Salisbury, por exemplo, conserva uma unidade excecional porque o seu corpo principal foi construído num período relativamente curto, enquanto outras catedrais, como Cantuária, Lincoln, Ely, York e Gloucester, apresentam sucessivas campanhas de construção, ampliação e reconstrução que incorporam diferentes fases do gótico inglês.

Periodização

A classificação tradicional dos estilos góticos ingleses foi formulada por Thomas Rickman em An Attempt to Discriminate the Styles of English Architecture, from the Conquest to the Reformation, publicado inicialmente em 1817. Rickman distinguiu os estilos que chamou de Early English, Decorated e Perpendicular, categorias que permaneceram fundamentais na historiografia da arquitetura inglesa.

Gótico Inglês Inicial (Early English ou First Pointed): aproximadamente de 1180 a 1275; Gótico Decorado (Decorated, também chamado Second Pointed): aproximadamente de 1275 a 1350/1380; Gótico Perpendicular (Perpendicular ou Third Pointed): aproximadamente de 1330/1350 até o início do século XVI, prolongando-se em algumas regiões e edifícios até o século XVII.

As datas são aproximativas e não constituem fronteiras rígidas. A transição entre o românico e o gótico ocorreu gradualmente, e diferentes regiões e edifícios adotaram novas formas em momentos distintos. A própria Catedral de Durham demonstra que elementos posteriormente associados ao gótico podiam aparecer em edifícios ainda essencialmente românicos.

Edmund Sharpe, em The Seven Periods of English Architecture (1851), propôs uma terminologia alternativa baseada sobretudo na evolução das formas das janelas. Chamou ao primeiro período de Lancet Period, subdividiu o Decorado em Geometrical e Curvilinear e propôs Rectilinear para o Perpendicular. Também reconheceu um período de transição anterior, no qual coexistiam arcos redondos e apontados. Embora a terminologia de Sharpe tenha tido importância na historiografia, a divisão de Rickman tornou-se a mais difundida.

Gótico Inglês Inicial

miniatura|left|Coro da Catedral de Cantuária, reconstruído entre 1175 e 1184, uma das primeiras grandes realizações do Gótico inglês.

O Gótico Inglês Inicial desenvolveu-se entre o final do século XII e a segunda metade do século XIII. O estilo recebeu forte influência da arquitetura da Île-de-France, mas foi rapidamente reinterpretado pelos mestres construtores ingleses. O arco apontado e as abóbadas de nervuras tornaram-se elementos fundamentais, enquanto as janelas assumiram frequentemente a forma de altas lancetas, razão pela qual a fase é por vezes designada Lancet Style.

A reconstrução da Catedral de Cantuária foi decisiva para a introdução do novo estilo. Em setembro de 1174, um incêndio destruiu grande parte do coro normando. A reconstrução foi iniciada sob a direção do mestre francês Guilherme de Sens, que trabalhou aproximadamente entre 1175 e 1178, sendo sucedido por Guilherme, o Inglês, depois de ter sofrido um acidente no estaleiro. A nova construção foi realizada sobre a cripta preexistente e combinou soluções de origem francesa com elementos derivados da tradição normanda inglesa.

O coro de Cantuária apresenta um alçado de vários níveis, abóbadas nervuradas e uma sucessão de suportes relativamente esbeltos, muitos deles constituídos por feixes de colunas. O uso de mármore de Purbeck polido nos fustes produziu um efeito cromático e visual característico. Guilherme de Sens e, depois dele, Guilherme, o Inglês, desenvolveram ainda o deambulatório, a Trinity Chapel e a chamada Corona ou Becket's Crown, associada ao culto de Tomás Becket, assassinado na catedral em 1170. A obra de Cantuária exerceu enorme influência sobre a arquitetura posterior.

Entre os elementos característicos do primeiro gótico inglês encontram-se as lancetas, as molduras profundas, os fustes delgados, frequentemente de mármore de Purbeck, e o ornamento conhecido como dog-tooth. Os capitéis apresentam folhagens ainda relativamente convencionais, enquanto os rendilhados das janelas permanecem simples em comparação com as formas desenvolvidas no período Decorado.

O estilo difundiu-se rapidamente. As Abadia de Rievaulx e Abadia de Whitby, no Yorkshire, e outras fundações cistercienses apresentam formas góticas caracterizadas por grande austeridade. A Catedral de Wells, iniciada por volta de 1175, desenvolveu uma interpretação particularmente original, enquanto as catedrais de Chichester, Rochester e Winchester também incorporaram importantes elementos do novo estilo.

miniatura|left|A chamada crazy vaulting no coro de Santo Hugo da Catedral de Lincoln.

A Catedral de Lincoln foi particularmente importante para o desenvolvimento independente do gótico inglês. A reconstrução do coro de Santo Hugo começou em 1192 e introduziu uma abóbada de grande complexidade, com nervuras secundárias que enfatizam o desenho ornamental. O sistema é frequentemente conhecido como crazy vaulting. Lincoln desenvolveu ainda uma utilização particular de arcadas sobrepostas e de paredes relativamente espessas, conservando soluções herdadas da tradição normanda. A sua influência pode ser percebida em edifícios posteriores, especialmente em Ely e Salisbury.

A Catedral de Salisbury constitui uma das realizações mais completas do Gótico Inglês Inicial. A maior parte da igreja foi construída entre 1220 e 1258, o que lhe conferiu uma unidade estilística excecional. A nave é longa, relativamente baixa e fortemente horizontal, e a cabeceira é reta, segundo uma característica frequente da arquitetura inglesa. A fachada oeste é larga e funciona como uma grande superfície paravento, preenchida por arcadas, nichos e esculturas. A torre e a flecha pertencem sobretudo ao século XIV; a flecha, com cerca de 123 metros, tornou-se a mais alta da Grã-Bretanha medieval e continua sendo a mais alta de qualquer igreja medieval inglesa.

Salisbury apresenta ainda um duplo transepto, um coro profundo, uma utilização sistemática do mármore de Purbeck e uma organização particularmente refinada das proporções. O claustro e a sala do capítulo foram construídos posteriormente; esta última, de planta octogonal, apresenta amplas janelas e soluções decorativas que já anunciam o período Decorado.

miniatura|Abadia de Westminster, nave central, iniciada em 1245.

A Abadia de Westminster introduziu outra importante combinação de tradições inglesas e francesas. A igreja românica construída por Eduardo, o Confessor foi reconstruída a partir de 1245 sob Henrique III de Inglaterra, seguindo em parte modelos franceses. A nave é mais alta que a de muitas catedrais inglesas contemporâneas, e o coro e a cabeceira utilizam deambulatório, capelas radiais e arcobotantes de forma mais próxima da tradição francesa. Ao mesmo tempo, permanecem características inglesas, como a forte expressão dos transeptos, a profundidade do trifório e determinadas soluções da articulação mural.

A sala do capítulo de Westminster, concluída em meados do século XIII, possui planta octogonal e grandes janelas com rendilhado de inspiração francesa, antecipando o desenvolvimento do estilo Decorado. A igreja medieval só recebeu a sua fachada ocidental e torres atuais muito mais tarde, no século XVIII, sob a direção de Nicholas Hawksmoor.

Outros exemplos importantes do Gótico Inglês Inicial incluem a nave e os transeptos de Wells, a fachada oeste de Peterborough, partes de Beverley, a Galileia da Catedral de Ely e edifícios universitários como o antigo quadrângulo do Merton College, em Oxford.

Gótico Decorado

miniatura|A fachada oeste da Catedral de York, um dos grandes exemplos do Gótico Decorado, especialmente pelo complexo rendilhado da sua janela.

O Gótico Decorado desenvolveu-se aproximadamente entre o final do século XIII e o século XIV. É caracterizado pela crescente elaboração do rendilhado das janelas, pelo aumento da complexidade das abóbadas e pela utilização de motivos curvilíneos e vegetais mais fluidos. Na historiografia tradicional costuma ser dividido em uma fase Geométrica e outra Curvilínea.