Museu da Inconfidência é um museu histórico e artístico que ocupa a antiga Casa de Câmara e Cadeia de Vila Rica e mais quatro prédios auxiliares na cidade de Ouro Preto, no estado de Minas Gerais. O museu é dedicado à preservação da memória da Inconfidência Mineira e também oferece um rico painel da sociedade e cultura mineiras no período do ciclo do ouro e dos diamantes no século XVIII, incluindo obras de Manuel da Costa Ataíde e Aleijadinho. Localiza-se na praça Tiradentes, em frente ao monumento a Joaquim José da Silva Xavier, o mais famoso ativista da Inconfidência.
História thumb|left|João Nepomuceno Correia e Castro (atribuição): Imaculada Conceição, século XVIII.
Antecedentes A Inconfidência Mineira ocorreu no ano de 1789, em um contexto de crise da monarquia absolutista portuguesa e da emergência dos pensamentos iluministas. Neste cenário, se destacam também outros movimentos que possuíam um viés anticolonial e de independência, como os casos da Conjuração Baiana e da Conjuração Carioca. Além disso, é importante ressaltar que no mesmo período, ocorria o enfraquecimento na economia mineradora. Diante de tal panorama, a Coroa Portuguesa aumentou a pressão sobre a colônia. Dessa forma, a situação acabou por acarretar uma série de motins durante o século XVIII, como a Revolta de Vila Rica, por exemplo. O próprio movimento da Inconfidência, no entanto, foi interrompido antes mesmo de ganhar força. Seus participantes foram presos e exilados no continente africano e apenas um dos integrantes foi sentenciado a morte, Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes. Em 21 de abril de 1792, no Rio de Janeiro, o alferes foi condenado a forca, tendo seu corpo esquartejado e exposto em pontos estratégicos da Estrada Real. Sua cabeça foi exposta na antiga Vila Rica, onde hoje está localizada a Praça Tirandentes em Ouro Preto.
Iniciativas em prol da memória de Tiradentes e dos Inconfidentes iniciaram já no século XIX. Um exemplo disso foi a Coluna Saldanha Marinho na praça principal de Ouro Preto, em 1867. Ela é assim chamada por referência ao presidente da província de Minas Gerais, Joaquim Saldanha Marinho, e está localizada nas imediações da antiga estação ferroviária. Após a Proclamação da República em 1889, os republicanos planejaram a substituição desse monumento, pois o consideravam modesto demais para homenagear os inconfidentes. Em 1894, a Coluna foi substituída pela estátua de Tiradentes, juntamente com o decreto de feriado nacional no dia 21 de abril.FONSECA, Thaís Nívia de Lima. Representações de um passado de ouro: mitos, memória e imaginário da Inconfidência. In: Resende, Maria Efigênia Lage de; Villalta, Luís Carlos (orgs.). As Minas setecentistas, v. 2. Belo Horizonte: Autêntica, Companhia do Tempo, 2007, p. 649-668.
Fundação do Museu da Inconfidência O Museu da Inconfidência é um dos principais museus históricos brasileiros. No período republicano, o Estado brasileiro criou outros museus com a temática histórica. Entre os mais destacados, encontram-se o Museu do Ipiranga (1895), reformado em 1917 para se tornar efetivamente um museu de história, o Museu Histórico Nacional (1922) e o Museu Imperial de Petrópolis, fundado em 1940. Estes museus fizeram parte do processo de construção republicana da Independência do Brasil. Em vista disso, contexto histórico do surgimento do Museu da Inconfidência compreende o período do modernismo brasileiro, ou seja, a primeira metade do século XX. A instituição de memória foi destinada a rememorar um passado coletivo, o que envolvia a monumentalização dos espaços associados ao movimento político colonial. Logo, o museu visou construir um acervo que contemplasse ao movimento da Inconfidência, o ciclo da mineração e a arte barroca.
O Museu da Inconfidência teve sua formulação inicial na decisão do governo de Getúlio Vargas em resgatar os despojos dos líderes da Inconfidência Mineira, então sepultados na África, onde haviam sido degredados. A decisão de criar um museu em Ouro Preto dedicado à Inconfidência Mineira é parte integrante de um movimento mais amplo de construção de uma memória nacional pelo Estado brasileiro, no qual a preservação de monumentos e objetos do período colonial eram fundamentais. Para atingir este objetivo foi criado um órgão federal responsável pela defesa do patrimônio histórico e artístico brasileiro, o IPHAN.O Museu da Inconfidência. Série Museus Brasileiros. São Paulo: Banco Safra, 1995A criação de órgãos especializados e instituições públicas, como o Iphan, Museu da Inconfidência e Museu Imperial, foi uma iniciativa do Estado Novo de concentrar e recuperar o passado brasileiro. Esse processo histórico é caracterizado por uma articulação entre poder político e produções de intelectuais nacionais. Onde esses produtores de saberes científicos, artísticos, sociais, históricos e outros, teriam a responsabilidade de traduzir em suas obras a nacionalidade brasileira. Ou seja, cabia a esses especialistas fazer o estudo do passado brasileiro, com intuito de encontrar elos culturais e sociais entre passado e presente da nação. Iniciativas de articulações entre o poder político e intelectuais são uma marca forte do órgão DIP e a segunda geração do movimento modernista.
Augusto de Lima Júnior foi incumbido da missão de descobrir o local do sepultamento e repatriar os restos mortais dos conjuradores. Antes do fim do ano de 1936, o intelectual mineiro desembarcou no Rio de Janeiro com o resultado de suas buscas. As urnas foram depositadas no Arquivo Histórico Nacional. A antiga Casa da Câmara e Cadeia da cidade de Ouro Preto foi escolhida para abrigar os restos mortais. O edifício serviu como penitenciária até 1937, quando os presos foram transferidos para uma nova penitenciária estadual em Belo Horizonte. Após a transferência, teve início um conjunto de reformas transformar o prédio histórico em museu e local adequado ao Panteão da Inconfidência.O primeiro diretor do Museu foi o Cônego Raimundo Trindade, religioso, historiador e pesquisador. Esse evento carrega consigo o reconhecimento do poder político e social da Igreja Católica no governo brasileiro. Essa nomeação veio do desejo de transformar o Museu não apenas num espaço que reúne objetos materiais sobre a Inconfidência Mineira, mas também para expor a história da Igreja Católica em Minas Gerais e o seu papel fundamental na tarefa de civilização do povo brasileiro.
As primeiras peças do museu foram coletadas em várias cidades e vilas da região, especialmente de Mariana. Getúlio Vargas ordenou a doação ao museu do 7º volume dos Autos da Devassa e das traves da forca de Tiradentes que estavam no Rio. Além disso foi adquirida a grande coleção de arte colonial de Vicente Raccioppi e com o passar dos anos o acervo foi sendo ampliado com aquisições variadas, incluindo a transferência de grande coleção documental em depósito em outras instituições nacionais e regionais e a grande biblioteca de Tarquínio de Oliveira, com mais de 12 mil volumes e que incluía muitas obras raras.Em 1938, Getúlio Vargas e sua comitiva se dirigiram à Ouro Preto para a entrega oficial das relíquias dos heróis à sua cidade de origem. As reformas do edifício ainda demoravam, e os restos mortais foram provisoriamente depositadas, em um grande cortejo cívico-religioso, na Igreja de Nossa Senhora da Conceição, Matriz de Antônio Dias, onde permaneceram por quatro anos.thumb|Panteão dos InconfidentesTerminada a reforma na Casa da Câmara, que incluiu a supressão de acréscimos espúrios e a recuperação do aspecto original do edifício já bastante desfigurado, o Panteão da Inconfidência foi inaugurado com o traslado dos restos mortais do grupo em 21 de abril de 1942, na comemoração do 150º aniversário da decretação da sentença condenatória dos inconfidentes. Também foi instalado numa sala contígua o túmulo de Maria Dorotéia Joaquina de Seixas, a Marília, musa de Tomás Antônio Gonzaga, e o cenotáfio de Bárbara Heliodora da Silveira, esposa e incentivadora de Alvarenga Peixoto. Entretanto o museu propriamente dito só foi inaugurado em 11 de agosto de 1944, no bicentenário de Tomás Antônio Gonzaga, e sua organização foi saudada na época como avançada para o tipo de museologia praticada no Brasil de então. Em vista disso, o Estado Novo utilizou-se da narrativa de que os inconfidentes lutaram para defender a liberdade dos habitantes da colônia, perante as exigências econômicas de Portugal. Supostamente guiados por um sentimento de fraternidade e nacionalidade, um povo extorquido e desprotegido, que teve que se unir em prol de sua própria proteção. Em outras palavras, a narrativa Estado-novista tentou convencer a população brasileira, através de museus e patrimônios, como o Museu da Inconfidência e a Praça Tiradentes, da existência de uma identidade nacional antes até da independência do Brasil, motivada por um senso de soberania popular.FURTADO, João Pinto. O manto de Penélope: história, mito e memória da Inconfidência Mineira de 1788-9. Companhia das Letras, 2002.
Depois do período inicial, quando a instituição gozou de grande prestígio e publicava um Anuário reputado pela qualidade de seus artigos, a queda de Getúlio transformou o panorama político nacional, e por causa de sua associação com antigo regime, o museu entrou em uma fase de decadência. O quadro de funcionários foi reduzido a um mínimo, o prédio histórico começou a decair sem receber manutenção, o Anuário foi suspenso e todo o segundo andar teve de ser fechado à visitação. A situação só mudaria com a chegada de Delso Renault, enviado pelo IPHAN, realizando a recuperação do prédio, o restauro de numerosas peças de mobiliário, a reabertura do segundo piso e instituição da cobrança de ingressos como forma de obtenção de alguma renda. Em 1973, inaugura-se o Centro de Estudos do Ciclo do Ouro, que consistia em levantar toda a documentação histórica econômica fiscal daquele período.Em 1974, houve a inauguração do Museu Casa dos Contos. O edifício foi construído entre 1782 a 1784, originalmente para residência e Casa dos Contratos do arrematante da Arrecadação Tributária das Entradas e Dízimos, João Rodrigues de Macedo, comerciante e contratador na Capitania de Minas Gerais, que tinha uma das maiores fortunas da colônia no século XVIII. Durante a Inconfidência, o edifício serviu como prisão nobre para os conjurados, como Padre Rolim e Cláudio Manuel da Costa. O prédio histórico thumb|Detalhe do edifício. thumb|Penitenciária de Ouro Preto. miniaturadaimagem|Fachada do museu ao entardecer.