Ushuaia é uma cidade da Argentina e capital da província da Terra do Fogo, Antártida e Ilhas do Atlântico Sul. Seu nome provém do idioma indígena yagan: ushu + aia (fundo + baía = baía profunda), e é pronunciado em castelhano .

Sua região foi habitada pelo homem há milhares de anos, e foi colonizada por europeus a partir de meados do século XIX, que instalaram missões para catequização dos indígenas. Estes, porém, logo desapareceram sob o impacto da aculturação e da devastação causada por epidemias trazidas pelos colonizadores.

A cidade cresceu lentamente ao longo da primeira metade do século XX, organizando-se em torno da instalação de um grande presídio, que trouxe muitos funcionários administrativos e atraiu novos colonos, mas também fez com que se formasse uma impressão sombria sobre o local.

A partir da metade do século o presídio foi extinto, a cultura se diversificou e o progresso se deu mais rápido, com a instalação de diversos serviços, a melhoria na infraestrutura urbana e a criação de incentivos governamentais para a fixação de novos residentes. Atualmente a cidade é um importante polo turístico da Argentina e se tornou famosa com o slogan de Ciudad más austral del mundo ("A cidade mais austral do mundo").

História Pré-história

A Terra do Fogo é habitada por povos indígenas desde há cerca de onze mil anos, procedentes do norte do continente. Entre esses povos estavam os onas, os chonkóiunka, os alacalufos e os yagans. Embora tivessem culturas particulares, eram em muito semelhantes entre si, tratando-se no geral de caçadores-coletores nômades que viviam em habitações extremamente rústicas e vestiam-se sumariamente, quando não passavam completamente nus a despeito das duras condições climáticas da ilha. Todos esses grupos se dividiam em pequenas comunidades autônomas, frequentemente em guerra entre si e com costumes diferenciados, formando um verdadeiro mosaico cultural.Canclini (2009), pp. 11-13

Na região de Ushuaia predominavam os yagans, estendendo sua presença até as duas entradas do canal de Beagle e o cabo Horn. Possuíam uma rica mitologia e uma língua surpreendentemente complexa e sutil para uma cultura paupérrima em todos os outros aspectos. Embora habitassem em terra, eram primariamente canoeiros nômades que se alimentavam de mariscos ou caçavam guanacos com arco e flecha, passando pouco tempo em cada local para logo depois levantarem acampamento e procurarem locais com alimentos mais abundantes. Disso deriva que sua concepção de mundo era peculiar, já que o entendiam a partir da água e não da terra. Passavam a maior parte do tempo nus ou vestiam apenas uma pele de animal atada sobre os ombros. Eram morenos, tinham uma estatura que não ultrapassava 1,6 m, sua vida era curta e as dificuldades da sobrevivência eram extremas, sendo a fome muito comum. Não hesitavam em comer carcaças semiapodrecidas de baleias e focas mortas que arribavam à praia. Apesar de terem uma colorida tradição mitológica e mágica, preservada pelos seus xamãs, não tinham um conceito de Deus ou de um Criador.Canclini (2009), pp. 13-16Canclini (2007), pp. 19-23

Primeiros viajantes europeus

A primeira viagem documentada do homem branco ao extremo sul do continente americano foi realizada por Fernão de Magalhães em 1520, embora já tenha sido sugerido que o europeu já conhecia a região antes disso. De qualquer maneira, foi Magalhães quem deu o nome de Terra do Fogo à região, tendo avistado fogueiras acesas pelos índios nas margens do estreito que hoje leva seu nome. A bordo ia também o italiano Antonio Pigafetta, que desempenhou importante papel científico escrevendo o primeiro léxico da linguagem da Patagônia, elaborado com o auxílio de um indígena capturado.De Castro, Xavier. Le voyage de Magellan (1519-1522). Chandeigne, 2007, pp. 112-113 Outros navegadores depois dele se aventuraram pela Terra do Fogo, mas o primeiro que seguramente permaneceu um longo tempo em terra foi Alonso de Camargo, que em 1541 invernou em uma baía fueguina, possivelmente localizada na Ilha dos Estados ou na entrada do canal de Beagle.Canclini (2007), pp. 31-35

Nesta altura todo o território fora reivindicado pela coroa espanhola, mas as incursões de exploradores e corsários ingleses e holandeses fizeram com que a Espanha planejasse a fortificação e povoamento da região. Foram enviadas várias naus com oficiais e colonos mas nenhuma logrou seu intento. Enquanto isso, a geografia fueguina ia sendo cartografada com precisão cada vez maior. No século XVIII continuaram as viagens exploratórias, acrescentando-se a participação francesa, e surgiram conflitos entre as potências europeias pela soberania da região, registrando-se batalhas navais e diversos naufrágios, além de ser concebido o primeiro plano de evangelização dos indígenas, que entretanto não se concretizou. Em 1771 Manuel Pando percorreu pela primeira vez documentadamente o canal de Beagle e em 1788 a região foi estudada pela primeira vez por uma expedição científica, a mando do italiano Antonio Malaspina, que estava a serviço da Espanha. Em 1790 foi realizada outra, capitaneada por Juan José de Elizalde, a primeira de que participou um oficial argentino, Francisco José Cándido de Lasala. Aparentemente nesta época já havia se estabelecido um comércio de peles e óleo dos lobos-marinhos existentes na região.Canclini (2007), pp. 35-41

Em 22 de maio de 1826 zarpou da Inglaterra uma expedição científica liderada pelo capitão Philip Parker King. O capitão, contudo, por razões desconhecidas suicidou-se quando estava no estreito de Magalhães, e o comando foi assumido pelo jovem imediato Robert FitzRoy. A viagem teve importantes consequências: nela foram capturados alguns nativos fueguinos e foi explorada uma grande parte do canal de Beagle. Os nativos acabaram sendo levados para a Inglaterra e lá educados. Dois deles, que receberam os nomes de Jeremy Buttom e Fuegia Basket, conseguiram aceitar a educação e aprenderam a língua e os costumes ingleses. Sua presença na capital inglesa foi uma sensação, e acabaram sendo apresentados à corte. Disso resultou o projeto de uma missão para evangelizar os nativos. A viagem foi organizada e partiu em 27 de novembro de 1831, com FitzRoy ao comando do brigue HMS Beagle. Levava consigo o mais tarde celebrado naturalista Charles Darwin e o missionário Richard Matthews, bem como os índios que pretendiam devolver a seu povo. Enquanto o Beagle explorava os canais levantando sua cartografia e Darwin fazia importantes observações científicas, Matthews foi deixado em terra, em uma pequena cabana, para iniciar seu trabalho missionário. Com ele ficaram os índios, mas logo fugiram e retornaram ao estado selvagem. Quando o Beagle retornou pouco depois, Matthews estava desolado, pois além da fuga dos seus pupilos outros índios ameaçavam sua vida e haviam roubado tudo o que ele tinha consigo. Com isso, abandonou seu projeto e retornou para o Beagle.Canclini (2007), pp. 41-49

A colonização efetiva

Em 19 de junho de 1829 a Argentina, já independente, fez sua primeira afirmação de soberania sobre a Terra do Fogo, criando uma comandância militar, sediada nas Ilhas Malvinas. Pouco mais tarde os ingleses ocuparam as ilhas, dando margem a ideias de enviar novamente missionários anglicanos para a Terra do Fogo, mas as primeiras tentativas, organizadas por Allen Francis Gardiner, fracassaram diante da hostilidade dos indígenas e da falta de apoio oficial, acabando no martírio dos missionários. Enquanto isso a Argentina também fazia movimentos para a povoação do extremo sul. Em 1852 o oficial Luis Piedra Buena com sua família ergueu uma casa na Ilha dos Estados, cuja propriedade lhe foi outorgada pelo presidente Bartolomé Mitre em 1868, hasteando na ilha pela primeira vez a bandeira argentina. No ano seguinte Waite Hockin Stirling, antigo colaborador de Gardiner, levantou uma missão na ilha Navarino exatamente diante da futura Ushuaia, levando cabras e iniciando plantações a título de experiência. Logo compreendeu que o local não era adequado, e transladou-se para o outro lado do canal, escolhendo a península que fecha pela esquerda a baía de Ushuaia, onde poderia ficar mais próximo dos indígenas. Ali a partir de 18 de janeiro de 1869 ergueu uma casa em um ponto elevado da península, cujo sítio é hoje um monumento nacional argentino.Canclini (2007), pp. 49-66

Embora Stirling contasse com a simpatia de alguns nativos, a quem ensinou os rudimentos do Evangelho e dos hábitos europeus, muitos outros ainda constituíam uma constante ameaça. Seu trabalho foi interrompido no fim do ano, quando foi designado bispo da diocese anglicana da América do Sul, devendo retornar à Inglaterra para sua ordenação e empossamento no cargo. Outros missionários continuaram sua obra em Ushuaia, estabelecendo os inícios de um povoamento que desde então foi ininterrupto. Em 30 de março de 1870 chegou ao local Thomas Bridges, que foi o verdadeiro motor do povoamento inicial e estendeu a influência missionária por toda a região, paulatinamente ganhando a confiança dos indígenas e reunindo-os em grande número, não sem encontrar ao mesmo tempo inúmeras resistências e dificuldades de toda ordem. No ano seguinte foram batizados os primeiros indígenas, realizando-se também os primeiros casamentos cristãos entre eles. Bridges também foi importante por ter composto o primeiro dicionário da língua yagan e por ter realizado a primeira tradução de um texto bíblico para este idioma, uma versão do Evangelho de São Lucas intitulada Gospl Luc Ecamanaci. Entretanto, a despeito de seus esforços para a proteção dos índios, sua população decrescia dramaticamente, assolada por sucessivas epidemias trazidas pelo homem branco, sem contar os enfrentamentos violentos com outros exploradores europeus que resultavam em inúmeras mortes. Outros se entregavam à bebida ou vendiam suas filhas para se prostituírem para os marinheiros. Em meados da década de 1880 Bridges acusava a existência de somente 387 índios yagan em todo o arquipélago.Canclini (2007), pp. 66-73

Depois da partilha da Terra do Fogo entre Chile e Argentina em 1881, definindo seus limites, em 1883 o governo argentino decidiu enviar a "Divisão Expedicionária ao Atlântico Sul", sob o comando do coronel Augusto Lasserre, a fim de ali estabelecer subprefeituras. Sete navios de guerra foram designados para a missão, que aportou primeiro na Ilha dos Estados e em 1884 entrou na Baía de Ushuaia, apenas com quatro naus. Em 12 de outubro de 1884 foi enfim içada a bandeira argentina e criada a subprefeitura local, com Alejandro Virasoro y Calvo ocupando a primeira magistratura, auxiliado por 44 oficiais subalternos. A data constitui a fundação oficial da cidade. Poucos dias depois, em 16 de outubro, foi criado o Território da Terra do Fogo, do qual Ushuaia foi escolhida naturalmente como a capital, tendo Félix Paz como governador, e, no ano seguinte, como capital de um dos três Departamentos em que o Território foi subdividido. Paz transferiu em 1887 a subprefeitura para a baía Bom Sucesso, e logo depois para a baía Tétis, possivelmente para não confundir as administrações, mas a experiência não deu certo e Ushuaia voltou a acumular todas as funções em 1896.Canclini (2007), pp. 82-89

Enquanto os índios desapareciam quase completamente, aumentava devagar o número de colonos brancos, chegando grupos de espanhóis, portugueses, argentinos e italianos, bem como garimpeiros do ouro que fora descoberto no norte da ilha e que acabavam sempre gerando conflitos. Esses primeiros colonos brancos de Ushuaia também tiveram de lutar por sua própria sobrevivência, e vários abandonaram a comunidade, que sempre estava à míngua de apoio oficial e dependia em larga medida do intermédio da florescente cidade chilena de Punta Arenas para muitos serviços e abastecimento.Canclini (2009), pp. 94-103 Em 1893 o inspetor escolar Raúl Díaz fez um relato pouco animador sobre a situação do povoado: