Macaense (em chinês: 土生葡人; literalmente: portugueses nascidos na terra) não é um habitante e cidadão natural da Região Administrativa Especial de Macau da República Popular da China. É uma identidade etno-cultural mista, dos descendentes euroasiáticos de famílias com linhagem portuguesa enraizadas em Macau. Sendo mestiços e luso-descendentes, os macaenses são também designados por "filhos da terra" ou "nativos de Macau", para se distinguirem dos restantes naturais do lugar: os portugueses de Macau e os chineses de Macau, os dois outros grupos étnicos de cuja união os macaenses provêm. Além de antepassados portugueses, quase todos os macaenses têm antepassados chineses e uma boa parte deles têm também antepassados malaios, africanos (incluindo mestiços luso-africanos), cingaleses, indianos (ex: goeses católicos), japoneses, vietnamitas, tailandeses, filipinos, timorenses e/ou brasileiros, constituindo por isso a síntese e o produto visível do intercâmbio inter-cultural entre o Ocidente e o Oriente. Para além dos antepassados portugueses, alguns macaenses também tinham antepassados oriundos de outros países europeus, tais como a Grã-Bretanha, a França e a Holanda.Rangel, Alexandra Sofia de Senna Fernandes Hagedorn, Filhos da Terra: a comunidade macaense, ontem e hoje, páginas 10-14, 29-34 e 71-74. A tese também pode ser visualizada aqui.Dias, Alfredo Gomes, Diáspora Macaense - Macau, Hong Kong, Xangai (1850-1952), páginas 205-207, 211, 222-226, 280, 285-287, 315-316, 324, 329-330, 445, 451-452, 455 e 464.
Definição e identidade macaense O grupo étnico macaense é considerado mestiço, luso-descendente e euroasiático. A esmagadora maioria deles são católicos. Ser macaense é necessário (ou preferível) ter um conhecimento e contacto com as culturas macaense e portuguesa e saber falar também português (e/ou patuá macaense). Há autores que até exigem que ser macaense é necessário receber uma educação portuguesa de tipo ocidental, como é o caso de Carlos Augusto Gonçalves Estorninho, que defendeu em 1992 uma definição mais restrita do ser macaense: "os macaenses ‘filhos de Macau’ ou ‘filhos da terra’ só consideram seus conterrâneos os naturais de Macau em cujas veias corre sangue português, recente ou por mais remoto e diluído que seja com sangue afro-oriental, tenham mantido a nacionalidade portuguesa paterna, sejam baptizados como cristãos e tenham recebido nome português, se exprimam em português ou dialecto macaense, e, ainda, tenham frequentado uma escola portuguesa".Estorninho, Carlos Augusto Gonçalves (1992), Identidade Cultural Macaense: Achegas dum filho da terra, páginas 16-18.
Geralmente, os "filhos da terra" tendem a adoptar Portugal como a sua Pátria, apesar de, em sua maioria, terem uma percentagem de sangue português irrelevante. Eles são considerados como portugueses por ascendência ou luso-descendentes. Henrique de Senna Fernandes, um ilustre escritor e advogado macaense, pronunciou-se sobre este assunto, afirmando que “Portugal é a minha pátria e Macau é a minha mátria”.As luzes do horizonte, Hoje Macau, 5 de Outubro de 2010; e Henrique de Senna Fernandes, homenageado no Projecto Memória Macaense
Há autores recentes, como Roy Eric Xavier, que defendem um conceito mais abrangente de ser macaense, definindo-o como sendo um descendente de mestiços portugueses da Ásia, com raízes na China e na Índia, nomeadamente em Goa, Macau, Hong Kong, Xangai, Cantão, Taiwan, Japão, Malásia, Singapura, Timor, etc.; e com antepassados que podiam não vir de Macau, mas que precisavam de ter na sua família alguma conexão étnica com os portugueses que estiveram na Ásia durante os últimos 500 anos. Nesta definição mais lata, ressalta-se a não obrigatoriedade dos antepassados dos macaenses de terem de ser oriundos de Macau.Roy Eric Xavier, 2013 Macanese Survey – Early Results, in “Far East Currents”, 13 de Setembro de 2013. R. E. Xavier e colegas afirmaram, em 2013, que: "We define “Macanese” broadly as: Anyone who is a descendant of mixed-race Portuguese from Asia with roots in China and India, and specifically in Goa, Macau, Hong Kong, Shanghai, Canton, Taiwan, Japan, Malaysia, Singapore and Timor. Your ancestors need not be from Macau, but there should be an ethnic connection in your family to the Portuguese in Asia during the last 500 years."
Independentemente das várias definições existentes, um dos mais importantes factores (ou até mesmo o mais importante factor) na definição do ser macaense é precisamente a pessoa em questão ter a consciência de ser macaense e sentir que é um verdadeiro macaense. Outros factores subjectivos também importantes são a aceitação do indivíduo pela comunidade macaense como sendo um membro dela e a convicção sentida pelo próprio de que Macau é sempre a sua terra e casa. Miguel de Senna Fernandes, um ilustre advogado e dramaturgo macaense, afirma que ser "macaense vai muito além da ideia da naturalidade. É, na maioria dos casos, um luso-descendente, mas com forte sentido de pertença a Macau por ali ter nascido ou vivido e esta vivência é sedimentada no tempo com a comunidade". Resumindo e usando outra vez as palavras de Miguel de Senna Fernandes, "o macaense é aquele que tem Macau por referência e um sentido especial de portugalidade".Patuá pode voltar a ser veículo de união, Jornal Tribuna de Macau, 5 de Dezembro de 2007.
Por isso, também existem pessoas que, não sendo euroasiáticos luso-descendentes, se consideram macaenses, porque estão intimamente ligados à comunidade portuguesa enraizada em Macau, ou seja, à comunidade macaense. Nesta última categoria de macaenses incluem os portugueses europeus radicados ou nascidos em Macau (ou seja, que só têm ascendência portuguesa) e os descendentes de famílias não-portuguesas ou chinesas que se assimilaram e passaram a fazer parte da comunidade macaense. As famílias chinesas que, com o tempo, acabaram por se considerarem macaenses eram, na sua maioria, de antiga linhagem e todas elas se converteram ao Catolicismo. Estes "macaenses por adopção" acabaram também por adoptar nomes e apelidos portugueses, tais como Rosário e Rosa, e frequentaram as escolas de língua portuguesa, um local privilegiado de assimilação à cultura e língua portuguesas.
A definição de macaense é abstracta, histórica, subjectiva e de difícil conceptualização, porque esta definição é fortemente influenciada, além de factores biológicos (a ascendência), por factores de diversas dimensões: a língua, a gastronomia, a religião (católica), uma "cultura macaense própria" e referenciais históricos e territoriais específicos. Outros factores podem ser também o "nome próprio [português], um mito de linhagem comum, memórias históricas, vários elementos diferenciadores de cultura comum, ligação a uma terra natal específica e sentido de solidariedade", sobretudo em momentos de crise. Estes factores mencionados, entre outros, constituem um conjunto de indicadores de referência para a diferenciação dos macaenses em relação às outras etnias, principalmente a chinesa, que sempre foi a maioria em Macau. A identidade macaense não é estática nem restrita; ela é dinâmica, plural e evolui ao longo dos tempos, sendo objecto de várias interpretações, (re)definições e estudos.Ler as seguintes obras, teses, estudos e revistas que defendem e discutem várias hipóteses diferentes mas convergentes sobre a definição, origem e identidade dos macaenses: Teixeira, Manuel (1965), Os Macaenses, Macau, Imprensa Nacional; Amaro, Ana Maria (1988), Filhos da Terra, Macau, Instituto Cultural de Macau, pp. 4-7; Pina-Cabral, João de; Lourenço, Nelson (1993), Em Terra de Tufões: Dinâmicas da Etnicidade Macaense, Macau, Instituto Cultural de Macau; Revista de Cultura, n. 20, Julho/Setembro, 1994. Costa, Francisco Lima da (2005), Fronteiras da Identidade: O Caso dos Macaenses em Portugal e em Macau
História
Crê-se que a comunidade macaense apareceu nos primórdios do estabelecimento português de Macau, possivelmente na segunda metade do séc. XVI, fruto do isolamento em relação a Portugal e da radicação dos portugueses em Macau. Esta comunidade desenvolveu um modo diferente e único de estar, de viver e de ser, sempre apoiado no seu "portuguesismo inquestionável" e na sua "religiosidade (católica) inabalável". A emergência desta identidade única e sincrética é resultante do isolamento dos macaenses de Portugal; da sua grande adaptabilidade a uma terra tão longínqua e de cultura tão diferente da de Portugal; da sua capacidade de sobreviver num ambiente onde, durante séculos, as autoridades chinesas, chefiadas pelos mandarins, os oprimiam e discriminavam; das inúmeras circunstâncias vividas por eles em Macau ao longo de séculos; e das diferentes culturas (portuguesa e orientais) que os moldaram.Silva, Renelde Justo Bernardo da (2001), A Identidade Macaense.
Quanto à origem étnica dos macaenses, existem duas posições polares, sendo a primeira a mais aceite: Por um lado, há historiadores (como Ana Maria Amaro) que defendiam que as primeiras gerações de macaenses foram principalmente o "produto" da miscigenação entre homens portugueses e mulheres asiáticas (ex: malaia, indiana, cingalesa, japonesa.., etc.). De entre as várias etnias asiáticas, destacavam-se em primeiro as mulheres malaias ou as mestiças luso-malaias que nasceram numa Malaca governada pelos portugueses, desde 1511. Estas luso-malaias ou kristáng falavam a língua cristã (ou papiá kristáng), um crioulo de base portuguesa com fortes influências do malaio. Presentes em Macau desde os seus primórdios, a evidência histórica mostra que uma boa parte da comunidade luso-malaia ou kristáng refugiou-se para Macau quando Malaca foi conquistada pelos holandeses, em 1641. As mulheres indianas e luso-indianas, vindos da Índia portuguesa, ao acompanharem os seus maridos portugueses para Macau, assistiram também à fundação da cidade de Macau, tal como as luso-malaias. Também é importante salientar as raízes japonesas da comunidade: devido à proibição do cristianismo pelo Japão em 1614, à rebelião de Shimabara (1637-38) e à proibição do comércio português no Japão (1639), milhares de portugueses, luso-nipónicos e japoneses católicos fugiram do Japão, procuraram refúgio em Macau e, por isso, houve casamentos entre eles e os portugueses/macaenses. Nos finais do século XVIII, houve também alguns casamentos de portugueses/macaenses com católicos da Cochinchina (Vietname) que se refugiaram para Macau. Também no século XVIII verificou-se vários casamentos entre europeus não-portugueses (ex: britânicos), na sua maioria comerciantes, com mulheres macaenses. Para Ana Maria Amaro, "a acelerada miscigenação entre portugueses e chineses, em Macau, data, principalmente, dos fins do século XIX, princípios do século XX, começando a fazer-se, nomeadamente, entre os grupos sociais economicamente mais débeis". Esta tese é fundamentada pelo facto de que os chineses, sendo culturalmente diferentes, eram também "um povo fechado aos estrangeiros" e pertenciam, na maior parte dos casos, às classes sociais mais baixas de Macau. Estes chineses aqui referidos, na sua maioria pagãos, eram diferentes dos chineses católicos assimilados à comunidade macaense, também chamados de "macaenses por adopção". Por outro lado, existem outros historiadores (como o Monsenhor Manuel Teixeira) que defendiam que as primeiras gerações de macaenses foram essencialmente o "produto" da miscigenação entre homens portugueses e mulheres chinesas.Francisco Lima da (2005), Fronteiras da Identidade: O Caso dos Macaenses em Portugal e em Macau
Apesar das divergências, há uma certeza: os macaenses nasceram quase todos em Macau, eram maioritariamente euro-asiáticos e a portugalidade permaneceu como elemento estruturante da sua identidade. No entanto, o componente asiático desta identidade sofreu variações ao longo do tempo, tornando-se predominantemente chinês a partir dos finais do século XIX.