miniatura|Capa da revista Exame de 5 de agosto de 2015, sobre a crise econômica|alt=Capa da revista Exame de 5 de agosto de 2015. Contém o texto "Prepare-se, a crise vai ser longa" sobre um fundo vermelho
A crise econômica brasileira de 2014, também conhecida como a recessão de 2015/2016, crise político-econômica ou a grande recessão brasileira, teve início em 2014, embora só fosse claramente percebida nos anos seguintes. O produto interno bruto (PIB) do país caiu % em 2015 e % em 2016. Em 2017, o desemprego atingiu seu auge, com uma taxa de %, o que representava 14,2 milhões de brasileiros desempregados.
A crise econômica foi acompanhada e intensificada por uma crise política que começou em 2013 com as Jornadas de Junho. A crise se agravou em março do ano seguinte com os escândalos de corrupção investigados pela Operação Lava Jato. Alguns meses depois, na eleição presidencial de 2014, Dilma Rousseff se reelegeu para seu segundo mandato, derrotando o candidato Aécio Neves por uma margem estreita, o que gerou insatisfação em parte da sociedade e entre os oposicionistas. Esses fatores, somados ao início da crise econômica, contribuíram para o aumento generalizado da insatisfação popular em relação à política, resultando em protestos contra o governo por todo o país. Em 2016, Dilma foi afastada do cargo por um processo de impeachment, tendo assumido seu vice, Michel Temer, que também foi alvo de protestos.
Entre as causas apontadas para a crise econômica está, além da já mencionada crise política, o fim do ciclo de alta dos preços das commodities no mercado externo, que afetou as exportações brasileiras e diminuiu a entrada de capital estrangeiro no país. Entretanto, a principal causa foi interna e está associada a medidas econômicas que não surtiram os efeitos desejados. Adotado a partir de 2011, o conjunto de medidas conhecido como nova matriz econômica, que incluía políticas de forte intervenção governamental na economia, redução da taxa de juros, concessões de subsídios e intervenção em preços, gerou a crise de sustentabilidade fiscal que se seguiu e elevou o risco-país, a taxa de juros de longo prazo e a incerteza, o que reduziu o consumo e o investimento em 2015 e 2016. O ajuste fiscal promovido no final de 2014 e ao longo de 2015 acabou por aprofundar a crise.
No primeiro trimestre de 2017, o PIB subiu 1%, sendo o primeiro aumento após oito quedas trimestrais consecutivas. O Ministro da Fazenda Henrique Meirelles declarou que o país "saiu da maior recessão do século". Porém, o crescimento registrado caracterizou apenas o fim da recessão técnica, o que não significava o fim da crise. O desemprego continuou alto e ainda havia incertezas quanto ao futuro da economia, especialmente após diversos escândalos políticos. A recessão foi a segunda maior da história do país, sendo acompanhada pela mais lenta recuperação de todas. A crise de 2014 foi sucedida pela recessão causada pela pandemia de COVID-19, que chegou ao Brasil em 2020.
Contexto
Na década de 2000, houve um forte aumento no preço das commodities, impulsionado pela crescente demanda da China. Foi um período favorável à economia brasileira, que depende em grande parte da exportação de matérias primas (como petróleo, minério de ferro e soja), e o consequente crescimento econômico gerou euforia. Esse aumento favoreceu as exportações, que fizeram o PIB crescer nos primeiros anos da década. As exportações foram o principal motor do crescimento no primeiro Governo Lula, dando início ao período que o economista Edmar Bacha chamou de "Milagrinho brasileiro". Esse milagrinho foi retratado mais tarde na capa da revista The Economist em 2009.
Apesar do crescimento, ele não foi tão significativo quanto os apoiadores de Lula esperavam. O governo foi acusado de ser moderado e de não promover a mudança na política econômica esperada pela base eleitoral do Partido dos Trabalhadores. Isso mudou ao final do primeiro mandato e ao longo do segundo. Nesse período, o crescimento foi puxado sobretudo pelo mercado interno, não mais pelas exportações. As políticas do governo passaram a ser responsáveis pelo crescimento, e não mais a sorte de uma conjuntura externa favorável. Essas políticas internas envolviam, a saber: maior distribuição de renda, maior acesso ao crédito e maiores investimentos públicos.
O mercado interno forte foi o responsável por o Brasil ter atravessado a crise econômica global de 2008, que começou nos Estados Unidos, com relativamente poucos danos. Houve, de fato, uma recessão por dois trimestres (o que já configura uma recessão técnica). Mas, devido ao mercado interno, e também a diversas medidas adotadas para contornar a crise, o país retomou o crescimento, de modo que, em 2009, a The Economist publica a edição intitulada "o brasil decola", e no ano seguinte, ao final do governo Lula, o país registrou a maior taxa de crescimento do PIB desde 1986. Porém, o estímulo ao consumo no governo Lula não foi acompanhado pelo crescimento na produtividade, deixando a economia do país ainda muito dependente das commodities exportadas. De fato, ao contrário do "milagre econômico brasileiro" da ditadura militar, a indústria não foi protagonista do crescimento. Conforme explica Laura Carvalho, "o Brasil não tinha a estrutura produtiva necessária para atender à nova demanda criada" pelas políticas internas do segundo governo Lula. Outros limites à perpetuação do modelo de crescimento do governo Lula eram seu caráter inflacionário e a concentração de renda no topo (a distribuição de renda não afetava os mais ricos).
Em 2013, antes do início da crise, a revista liberal britânica The Economist já havia feito críticas à gestão econômica do governo, tendo lançado um relatório que foi matéria de capa. A matéria faz um contraste entre dois momentos discrepantes da economia brasileira. Antes, o país sinalizava um futuro bastante promissor ao registrar crescimento alto em 2010, sendo o melhor desempenho em décadas. Para aumentar o entusiasmo, o Brasil foi escolhido para sediar tanto a Copa do Mundo em 2014 quanto as Olimpíadas em 2016. Porém, o país fez poucas reformas durante os anos de crescimento econômico.
Causas
Mudança na política fiscal do Governo Lula Na sequência do escândalo do mensalão, ocorrido em 2005, no qual a popularidade do Presidente Lula atingiu seu menor ponto, chegando a ser cogitada a abertura de um processo de impeachment, da saída de Antonio Palocci do Ministério da Fazenda, em 2006, em decorrência do escândalo da quebra ilegal do sigilo do caseiro Francenildo Santos Costa, e sua substituição por Guido Mantega, a política fiscal do Governo Lula foi alterada drasticamente. As ambiciosas metas de superávit primário foram paulatinamente sendo reduzidas, ano após ano. Os servidores públicos federais receberam aumentos substanciais em seus vencimentos, ampliando as despesas do governo federal. O salário mínimo nacional, indexador de parcela significativa das despesas públicas, como os benefícios previdenciários e assistenciais pagos pelo INSS, o seguro-desemprego e o abono salarial, foi reajustado acima da inflação repetidas vezes. O benefício assistencial à pessoa com deficiência teve os critérios para reconhecimento da deficiência, até então puramente técnicos, flexibilizados, passando a contar também com critérios subjetivos na decisão, operacionalizados por profissionais politicamente engajados. Junto com as medidas de expansão dos gastos governamentais vieram as políticas de estímulo do crédito, com a criação dos empréstimos consignados para os aposentados e pensionistas do INSS e para os servidores públicos federais, a facilitação do acesso ao financiamento imobiliário, a ampliação das linhas de crédito junto ao BNDES e a flexibilização dos critérios para concessão de empréstimo junto aos bancos públicos federais, ampliando significativamente a demanda por bens de consumo no curto prazo, ao custo da diminuição do poder de compra da população brasileira nos anos seguintes.
Erros na política macroeconômica thumb|Capa da The Economist em janeiro de 2016 ("A queda do Brasil: Dilma Rousseff e o ano desastroso à frente"), destacando negativamente a então presidente|upright=0.925
Conforme Gustavo Franco, presidente do Banco Central durante o governo FHC, a principal causa da crise foi interna e relacionada a "medidas macroeconômicas locais que deram errado".
Em um estudo acadêmico de 2017 sobre o assunto, chegou-se à seguinte conclusão sobre a origem da crise:
thumb|esquerda|Guido Mantega, Ministro da Fazenda durante o primeiro governo Dilma. Em julho de 2012, Mantega admitiu pela primeira vez que o governo praticava uma nova "matriz macroeconômica"
Anteriormente, o Estado havia sido determinante na expansão do mercado interno através do incentivo ao consumo, com aumento do salário mínimo, transferência de renda e expansão do crédito. Porém, ao final do governo Lula, crescia a visão de que essa estratégia seria insustentável. No dia 26 de maio de 2011, um artigo publicado na Folha de S.Paulo intitulado "um acordo pela indústria brasileira", reafirmava a importância daquela política econômica do governo Lula, mas criticava o encolhimento da participação da indústria nacional no PIB e a substituição da produção nacional por produtos industriais importados. O artigo foi assinado, entre outros, por Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP), que anos mais tarde pediria e apoiaria o impeachment de Dilma.
Dilma, formada em economia por uma escola de tradição industrialista, concordou com as demandas. A nova matriz econômica foi, portanto, um conjunto de medidas para beneficiar o setor industrial, visando a redução dos custos das empresas nacionais e o aumento da competitividade diante da concorrência estrangeira. Porém, a indústria não reagiu. A produção industrial, que tinha crescido 2,7% em 2010, caiu 0,9% e 3,7% nos dois anos seguintes, prejudicando a arrecadação do governo e, por consequência, os investimentos públicos.
thumb|Joaquim Levy, ministro responsável pelo ajuste fiscal, em março de 2015 Em uma tentativa de reverter o processo de deterioração nas contas públicas, devido à queda da arrecadação, foi aplicado, em 2014, um ajuste fiscal que incluía políticas fortemente recessivas (ou seja, que visavam reduzir as despesas e aumentar os impostos). Essas políticas envolveram principalmente o corte de despesas e investimentos públicos, como os cortes do Programa de Aceleração do Crescimento (PAC). O ajuste prosseguiu ao longo de 2015. Nesse ano, houve um corte brusco nos preços administrados. (Ver seção Medidas anticrise.) Essas medidas acabaram por aprofundar mais ainda a crise, pois, segundo Carvalho, houve uma diminuição dos investimentos públicos. Além disso, o brusco reajuste dos preços administrados e a forte desvalorização cambial fizeram disparar a inflação, que chegou a mais de 10%. Esse aumento, por sua vez, fez com que a Taxa Selic aumentasse sucessivamente até chegar ao patamar de 14,25% ao ano. O ajuste fiscal não foi bem-sucedido nem mesmo em seu principal objetivo, que era atingir um superávit nas contas públicas, pois a recessão em que o país se encontrava diminuiu as receitas do governo.
Desvalorização das commodities
Crescimento anual médio dospreços das commoditiesFMI (Primary Commodities Price Index). Dados extraídos do livro A Valsa Brasileira (ver bibliografia)PeríodoVariação(% ao ano)1999–200210,32003–200519,12006–201010,52011–2014–7,02015–2016–6,5