miniaturadaimagem|140px|Yahya Jammeh. miniaturadaimagem|140px|Adama Barrow. A crise constitucional na Gâmbia refere-se a uma crise política causada pela relutância do então presidente da Gâmbia Yahya Jammeh, cujo mandato expirou em 21 de janeiro de 2017, em deixar o cargo e entregar o poder ao presidente eleito nas eleições presidenciais ocorridas em 1 de dezembro de 2016, o líder da oposição Adama Barrow.

Nas eleições presidenciais de 2016 se enfrentaram Yahya Jammeh, que liderava o país desde o golpe de Estado de 1994 que dirigiu contra o então presidente Dawda Jawara e visava alcançar um outro mandato; e Adama Barrow, líder da oposição gambiana, com o último saindo vitorioso. Jammeh não reconheceu o resultado e decidiu permanecer no poder por um período indeterminado. Barrow, com receio de represálias, foi para o exterior, encontrando refúgio no Senegal.

Embora o presidente tivesse inicialmente reconhecido o resultados das eleições, depois de oito dias se recusou a aceitar sua derrota. Jammeh entrou com recurso na Suprema Corte do país com o objetivo de anular a eleição e, posteriormente, decretou estado de emergência. Na capital Banjul e na cidade de Serekunda, tropas foram implantadas. A comunidade internacional reagiu de forma muito negativa a decisão de Jammeh, com a Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) enviando uma delegação à Gâmbia para tentar persuadir Jammeh a renunciar.

Uma vez que os delegados da CEDEAO não conseguiram convencer Jammeh a abandonar o poder, uma coalizão formada por Senegal, Nigéria e Gana decidiu intervir na Gâmbia. No dia 19 de janeiro tropas senegalesas invadiram a Gâmbia, tomando a vila de Kalinai, terra natal de Jammeh, após vencerem a resistência das forças do Movimento das Forças Democráticas de Casamança, que apoiam Jammeh. O avanço foi suspenso por um dia para criar condições para negociações. Um acordo foi anunciado no qual Jammeh deixaria o país e pouco tempo depois ele anunciou na televisão estatal que ele estava deixando o cargo. Depois que ele foi para o exílio, a CEDEAO anunciou que suas tropas permanecerão estacionadas no país para garantir a segurança.

Reações iniciais Após o anúncio dos resultados das eleições, os apoiadores da oposição celebraram amplamente a vitória surpresa e ficaram atordoados com a concessão da derrota de Jammeh. Milhares de pessoas celebraram nas ruas de Banjul. No entanto, alguns expressaram cautela sobre o que Jammeh poderia fazer a seguir - sugerindo que ele ainda tentaria reter o poder, apesar do que havia acontecido.

Poucos dias após a eleição, 19 prisioneiros da oposição foram libertados, incluindo Ousainou Darboe, o líder do Partido Democrático Unido de Barrow. Darboe foi preso em abril de 2016 e condenado a três anos de prisão, e sua detenção levou à candidatura de Barrow.

Entrevistado logo após a eleição, Barrow agradeceu ao povo gambiano, incluindo aqueles da diáspora no exterior, e apelou para que deixassem de lado suas diferenças e trabalhassem juntos para o desenvolvimento de seu país. Ele disse: "Sei que os gambianos estão com pressa, mas nem tudo será alcançado em um dia. Gostaria, portanto, de apelar a todos os gambianos e amigos da Gâmbia para que se juntem a nós e ajudem a mover este grande país para a frente. Não quero esta mudança de regime seja uma mera mudança. Eu quero que isso seja sentido e visto no bem-estar do país e de todos os gambianos. Por isso, pedimos a todos os gambianos e amigos da Gâmbia que nos ajudem a tornar a Gâmbia grande novamente."

Barrow disse que suas primeiras prioridades incluem ajudar o setor agrícola: "Não temos minerais aqui. A espinha dorsal deste país é a agricultura. ... Sob o governo do presidente Yahya, todos aqueles centros agrícolas ruíram completamente e eles não existem mais." Questionado sobre seus planos para a reforma judicial, declarou: "Queremos um judiciário livre e independente, onde ninguém possa influenciar o judiciário. Vamos criar leis para proteger as pessoas que dirigem o judiciário. Eles terão essa estabilidade no emprego, terão essa independência. Vamos reduzir o poderes do presidente."

Jammeh rejeita resultados Em 9 de dezembro de 2016, Jammeh apareceu na televisão estatal gambiana para anunciar que tinha "decidido rejeitar o resultado das recentes eleições" devido a "anomalias graves e inaceitáveis ... durante o processo eleitoral", também declarou que uma nova eleição deveria ser realizada sob "uma comissão eleitoral independente e temente a Deus". O anúncio foi feito depois que Fatoumata Tambajang, presidente da coalizão de oposição, solicitou uma ação penal contra Jammeh um ano após a transferência de poder em janeiro de 2017 e disse: "Vamos ter uma comissão nacional para recuperação de ativos" para obter devolução do dinheiro e propriedades de Jammeh e sua família.

Em 10 de dezembro, os militares gambianos foram implantados em pontos estratégicos em Banjul, a capital, e montaram posições com sacos de areia e com metralhadoras, embora estivessem apenas acenando para os cidadãos através dos postos de controle. As tropas também foram implantadas em Serekunda, a maior cidade da Gâmbia. O correspondente africano do The Guardian especulou que a perspectiva de um processo sob um novo governo poderia levar os líderes militares e de segurança a apoiar Jammeh. Uma tentativa do presidente da Comunidade Econômica dos Estados da África Ocidental (CEDEAO) e da Presidente da Libéria Ellen Johnson Sirleaf de negociar uma resolução para a disputa falhou quando o avião de Sirleaf não foi autorizado a entrar no país.

O partido de Jammeh, a Aliança Patriótica para a Reorientação e a Construção (APRC), declarou que seguiria a declaração de Jammeh no requerimento ao Supremo Tribunal para que invalidasse os resultados da eleição, cumprindo um prazo de 10 dias estabelecido por lei para contestar uma eleição. Existia um Chefe de Justiça da Gâmbia, mas não havia um Supremo Tribunal ativo no país há um ano e meio (desde maio de 2015), e acreditava-se que pelo menos quatro juízes adicionais teriam de ser nomeados para que a Suprema Corte se reunisse para analisar o caso. De acordo com grupos de direitos humanos entrevistados pela Reuters, Jammeh exerce considerável influência nos tribunais. Dos três chefes de justiça entre 2013 e 2015, um foi preso, outro foi demitido, enquanto o terceiro fugiu do país após absolver alguém que Jammeh queria que fosse condenado. Alieu Momarr Njai, o chefe da comissão eleitoral, disse que se fosse a tribunal, eles seriam capazes de mostrar que a contagem final estava correta.

Em 13 de dezembro, as forças de segurança apoderaram-se dos escritórios da comissão eleitoral e impediram o chefe da comissão e seu pessoal de entrar no prédio. A APRC apresentou o seu recurso visando a invalidação dos resultados. Enquanto isso, os quatro líderes regionais enviados pela CEDEAO se encontraram com Jammeh, mas saíram sem um acordo. Os militares cessaram a ocupação dos gabinetes da comissão eleitoral no final de dezembro e o governo disse que o seu pessoal estava livre para regressar ao trabalho, afirmando que a ocupação tinha como objetivo evitar um ataque ao edifício. Também pediu calma e disse que a rotina diária deve continuar normalmente. Em seu discurso de Ano Novo de 2017, Jammeh criticou furiosamente a posição assumida pela CEDEAO, dizendo que "é totalmente ilegal, pois viola o princípio de não interferência nos assuntos internos dos Estados-membros" e "é, com efeito, uma declaração de guerra e um insulto à nossa constituição ". Ele jurou que estava "pronto para defender este país contra qualquer agressão e não haverá nenhuma concessão sobre isso".

Reações domésticas No mesmo dia em que Jammeh rejeitou os resultados, Barrow afirmou que o mandatário não tinha autoridade constitucional para anular a votação e convocar novas eleições, argumentando que apenas a Comissão Eleitoral Independente poderia fazer isso. Também disse que se mudou para uma casa segura para proteção. De acordo com apoiadores que protegiam a residência de Barrow, a polícia e os militares gambianos se recusaram a proteger o presidente eleito. A terceira candidata na eleição, Mamma Kandeh, também pediu a Jammeh que renunciasse, dizendo que "sua rápida decisão anterior de admitir a derrota e sua ação subsequente de ligar para Adama Barrow para parabenizá-lo foi elogiada em todo o mundo. Portanto, persuadimos você a reconsiderar sua decisão."

Em 12 de dezembro, a Ordem dos Advogados da Gâmbia realizou uma reunião de emergência. Eles consideraram a rejeição dos resultados das eleições por Jammeh como "equivalente a traição" e aprovaram uma resolução unânime pedindo a renúncia do Chefe de Justiça da Suprema Corte, o juiz nigeriano Emmanuel Oluwasegun Fagbenle, por má conduta grosseira, dizendo que ele havia mostrado falta de independência e imparcialidade ao fazer campanha por Jammeh e interferir de forma inadequada nas decisões tomadas por funcionários judiciais. O sindicato dos professores da Gâmbia chamou a ação de Jammeh de "uma receita para o caos e a desordem que, sem dúvida, põe em perigo a vida de todos os gambianos, especialmente nossas crianças". O Sindicato da Imprensa da Gâmbia, a Universidade da Gâmbia e a associação médica do país e o Conselho Supremo Islâmico também apoiaram a opinião de que Jammeh deveria se afastar e permitir que Barrow assumisse a presidência. Em 20 de dezembro, doze embaixadores da Gâmbia enviaram uma carta de congratulações a Barrow e conclamaram Jammeh a renunciar. Em resposta, o novo Ministro da Informação de Jammeh, Seedy Njie, disse em 10 de janeiro de 2017, que os doze embaixadores foram demitidos.

Em 13 de janeiro, Barrow disse que Jammeh não deveria buscar asilo na Nigéria, o que havia sido sugerido por alguns congressistas do Parlamento nigeriano. O presidente da Nigéria continuou tentando negociar um fim pacífico para o impasse. Barrow também afirmou que ainda seria empossado em 19 de janeiro, apesar da disputa. As negociações para acabar com a crise terminaram sem acordo em 14 de janeiro, levando a União Africana (UA) a declarar que não reconheceria Jammeh como presidente da Gâmbia após 19 de janeiro. Em vez disso, Barrow foi convidado para uma cúpula regional no Mali para continuar a discutir a respeito da transição de poder. O próprio Barrow foi ao Senegal alguns dias antes de sua posse, devido a preocupações com sua segurança. Ele também sofreu uma tragédia pessoal durante este período, quando seu filho de oito anos morreu após ser mordido por cães. Barrow perdeu o funeral do menino em 16 de janeiro de 2017, pois não se sentia seguro em retornar à Gâmbia para participar.

Reações internacionais A ação de Jammeh foi condenada pelos governos dos Estados Unidos e do Senegal. A UA também declarou que as ações de Jammeh eram "nulas e sem efeito". Depois que o Senegal convocou uma reunião de emergência do Conselho de Segurança das Nações Unidas (CSNU), o órgão fez uma declaração unânime de que o mandatário gambiano deveria entregar pacificamente o poder.