O conflito coreano baseia-se na disputa entre a República Popular Democrática da Coreia ao norte e a República da Coreia ao sul, que reivindicam ser o governo de todo o país. Durante a Guerra Fria, a Coreia do Norte foi apoiada pela União Soviética, pela China e outros estados comunistas, e a Coreia do Sul foi apoiada pelos Estados Unidos e seus aliados. A divisão da Coreia ocorreu no final da Segunda Guerra Mundial em 1945 e as tensões resultantes eclodiriam na Guerra da Coreia em 1950.

Quando a guerra terminou, o país estava devastado, porém a divisão permaneceu. A Coreia do Norte e a Coreia do Sul continuaram num impasse militar com confrontos periódicos. O conflito sobreviveu ao colapso do Bloco Oriental de 1989 a 1991. Os Estados Unidos mantêm uma presença militar no sul para impedir uma invasão do norte. Em 1997, o presidente Bill Clinton descreveu a divisão da Coreia como a "última divisão da Guerra Fria". Em 2002, o presidente dos Estados Unidos, George W. Bush, descreveu a Coreia do Norte como membro de um "Eixo do Mal". Diante do crescente isolamento, a Coreia do Norte começou a desenvolver mísseis nucleares.

Antecedentes

A Coreia foi anexada pelo Império do Japão em 1910. Nas décadas seguintes, durante a ocupação japonesa da Coreia, grupos nacionalistas e radicais surgiram, principalmente no exílio, para lutar pela independência. Divergentes em suas perspectivas e abordagens, estes grupos não conseguiriam se unir em um movimento nacional. Com base na China, o governo provisório coreano não conseguiu um amplo reconhecimento. Syngman Rhee, pressionava o governo dos Estados Unidos, e o comunista Kim Il-sung, lutava numa guerra de guerrilha contra os japoneses na vizinha Manchúria ao norte da Coreia. Os coreanos que permaneceram em sua terra natal após a anexação foram submetidos a duras repressões políticas e forçados a aderir aos padrões culturais japoneses, enquanto o Japão tentava incorporar a Coreia.

Após o fim da ocupação, muitos coreanos de alta patente foram acusados de colaborar com o imperialismo japonês. Uma luta intensa entre várias figuras e grupos políticos que aspiravam liderar a Coreia se seguiu, e muitos, como Kim Gu e Lyuh Woon-hyung, foram assassinados ou reprimidos.

Fim do domínio japonês e partição

Em 9 de agosto de 1945, nos dias finais da Segunda Guerra Mundial, a União Soviética declarou guerra ao Japão e avançou até a Coreia. Embora a declaração de guerra soviética tivesse sido acordada pelos Aliados na Conferência de Yalta, o governo dos Estados Unidos ficou preocupado com a perspectiva de que toda a Coreia ficasse sob controle soviético. O governo estadunidense, portanto, solicitou que as forças soviéticas parassem seu avanço no 38º paralelo norte, deixando o sul da península, incluindo a capital, Seul, para ser ocupada pelos Estados Unidos. Isto seria incorporado na Ordem Geral nº 1 às forças japonesas após a rendição do Japão em 15 de agosto. Em 24 de agosto, o Exército Vermelho entrou em Pyongyang e estabeleceu um governo militar sobre a Coreia ao norte do paralelo. As forças estadunidenses desembarcariam no sul em 8 de setembro e estabeleceram o Governo militar do Exército dos Estados Unidos na Coreia.

Os Aliados tinham inicialmente previsto uma tutela conjunta que conduziria a Coreia à independência, porém a maioria dos nacionalistas coreanos desejavam a independência imediatamente. Enquanto isso, a cooperação durante o período de guerra entre a União Soviética e os Estados Unidos se deteriorava à medida que a Guerra Fria se agravava. Ambas as potências ocupantes passaram a promover a posições de autoridade coreanos alinhados com seu lado da política e marginalizar seus oponentes. Muitos desses líderes políticos emergentes exilados estavam retornando, com pouco apoio popular. Na Coreia do Norte, a União Soviética apoiou os comunistas coreanos. Kim Il-sung, que desde 1941 estava servindo no exército soviético, tornou-se a principal figura política. A sociedade foi centralizada e coletivizada, seguindo o modelo soviético. A política na Coreia do Sul foi mais tumultuada, porém o fortemente anticomunista Syngman Rhee, que tinha sido educado nos Estados Unidos, foi posicionado como o político mais proeminente.

Como resultado, surgiram dois proto-estados antagônicos, com sistemas políticos, econômicos e sociais diretamente opostos. Na Coreia do Sul, uma eleição geral foi realizada em 10 de maio de 1948. A República da Coreia foi estabelecida com Syngman Rhee como presidente e substituiu formalmente a ocupação militar dos Estados Unidos em 15 de agosto. Na Coreia do Norte, a República Popular Democrática da Coreia foi declarada em 9 de setembro, com Kim Il-sung, como primeiro-ministro. Esses eventos solidificaram a partição da Coreia em dois estados antagônicos. As forças de ocupação soviéticas deixaram a República Popular Democrática da Coreia em 10 de dezembro de 1948. As forças dos Estados Unidos deixaram a República da Coreia no ano seguinte, embora o Korean Military Advisory Group dos Estados Unidos continuasse a treinar o Exército da República da Coreia. Os novos regimes também adotaram diferentes nomes para a Coreia: o Norte escolheu Choson e o Sul optou por Hanguk.

Ambos os governos opositores consideraram-se o governo de toda a Coreia (ambos fazem tais reivindicações até hoje), além disso, consideraram a divisão como temporária. Kim Il-sung tentou persuadir Josef Stalin e Mao Tsé-Tung para um apoio em uma guerra de reunificação. Syngman Rhee repetidamente expressou seu desejo de conquistar o Norte. Em 1948, a Coreia do Norte, que possuía quase todos os geradores, desligou o fornecimento de eletricidade para a Coreia do Sul. No período que antecedeu o início da Guerra da Coreia, houve frequentes confrontos ao longo do paralelo 38, especialmente em Kaesong e Ongjin, iniciados por ambos os lados.

Durante todo esse período houve revoltas no Sul, como a Revolta de Jeju e a Rebelião Yeosu–Suncheon, que foram brutalmente reprimidas. Ao todo, mais de cem mil pessoas perderam suas vidas em combates na Coreia antes da Guerra da Coreia começar.

Guerra da Coreia right|160px|thumb|Mapa da Guerra da Coreia mostrando:

Em 1950, a Coreia do Norte tinha uma clara superioridade militar sobre a Coreia do Sul. Os ocupantes soviéticos a tinham armado com o armamento excedente e fornecido treinamento. Muitos soldados que retornaram à Coreia do Norte estavam endurecidos pela batalha por sua participação na Guerra Civil Chinesa, que acabara de terminar. Kim Il-sung esperava uma rápida vitória, prevendo que haveria levantes pró-comunistas no Sul e que os Estados Unidos não iriam intervir. Ao invés de perceber o conflito como uma guerra civil, no entanto, o Ocidente considerou em termos da Guerra Fria como uma agressão comunista, relacionada com os recentes acontecimentos na China e na Europa Oriental.

A Coreia do Norte invadiu o Sul em 25 de junho de 1950 e rapidamente avançou pela maior parte do país. Em setembro de 1950, a força das Nações Unidas, liderada pelos Estados Unidos, interveio para defender o Sul e, após o desembarque de Incheon e a retirada ao perímetro de Busan, avançou rapidamente para a Coreia do Norte. Assim que se aproximaram da fronteira com a China, as forças chinesas intervieram em nome da Coreia do Norte, mudando o equilíbrio da guerra novamente. Os combates terminaram em 27 de julho de 1953, com um armistício que restaurou aproximadamente os limites originais entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul.

A Coreia ficou devastada. Mais de um milhão de civis e soldados foram mortos. Seul estava em ruínas, tendo trocado de mãos quatro vezes. Quase todos os principais edifícios da Coreia do Norte haviam sido destruídos. Como resultado, os norte-coreanos desenvolveram uma inimizade profundamente arraigada em relação aos Estados Unidos.

Armistício

As negociações para um armistício começaram em 10 de julho de 1951, enquanto a guerra continuava. As principais questões foram o estabelecimento de uma nova linha de demarcação e a troca de prisioneiros. Depois que Josef Stalin morreu, a União Soviética negociou concessões que levaram a um acordo em 27 de julho de 1953.

Syngman Rhee opôs-se ao armistício porque este deixava a Coreia dividida. À medida que as negociações chegavam ao fim, ele tentou sabotar os arranjos para a libertação dos prisioneiros e liderou manifestações em massa contra o armistício. Ele se recusou a assinar o acordo, mas relutantemente concordou em respeitá-lo.

O armistício inaugurou um cessar-fogo oficial, mas não conduziu a um tratado de paz. Estabeleceu a Zona Desmilitarizada Coreana, uma zona tampão entre os dois lados, que cruza o paralelo 38 mas não o segue. Apesar de seu nome, a fronteira era, e continua a ser, uma das mais militarizadas do mundo.

A Coreia do Norte anunciou que não cumpriria mais o armistício em pelo menos seis ocasiões: nos anos de 1994, 1996, 2003, 2006, 2009 e 2013.

Conflito após a Guerra da Coreia Depois da guerra, as forças chinesas partiram, porém as forças estadunidenses permaneceram no sul. O conflito esporádico continuou entre a Coreia do Norte e a Coreia do Sul. Em 1 de outubro de 1953, os Estados Unidos e a Coreia do Sul assinaram um tratado de defesa. Em 1958, os Estados Unidos posicionaram armas nucleares na Coreia do Sul. Em 1961, a Coreia do Norte assinou tratados de defesa mútua com a União Soviética e a China. Durante esse período, a Coreia do Norte foi descrita pelo ex-diretor da CIA, Robert Gates, como o "alvo de inteligência mais difícil do mundo". Ao lado do confronto militar, ocorreu uma guerra de propaganda, incluindo campanhas de propaganda de balões.

Os regimes opostos alinharam-se com lados opostos na Guerra Fria. Ambos os lados receberam o reconhecimento como governo legítimo da Coreia pelos blocos opostos.

A Coreia do Norte se apresentou como defensora do comunismo ortodoxo, distinto da União Soviética e da China. O regime desenvolveu a doutrina do Juche ou autossuficiência, que incluía a mobilização militar extrema. Em resposta à ameaça de guerra nuclear, construiu extensas instalações subterrâneas e nas montanhas. O Metrô de Pyongyang foi aberto na década de 1970, com capacidade para funcionar como abrigo contra bombas. Até o início dos anos 1970, a Coreia do Norte era economicamente igual a Coreia do Sul.

A Coreia do Sul tornou-se uma ditadura militar fortemente anticomunista e esteve profundamente envolvida na Guerra do Vietnã. A ocupação da Coreia do Norte deixou para trás um movimento de guerrilha que persistiu nas províncias de Cholla.

As tensões entre o Norte e o Sul aumentaram no final dos anos 1960 com uma série de confrontos armados de baixo nível conhecidos como Conflito da Zona Desmilitarizada da Coreia. Em 1966, Kim declarou a "libertação do sul" como um "dever nacional". Em 1968, os comandos norte-coreanos lançaram o ataque a Casa Azul, uma tentativa mal sucedida de assassinar o presidente sul-coreano Park Chung-hee. Pouco depois, o navio de espionagem estadunidense Pueblo foi capturado pela marinha norte-coreana. Os estadunidenses perceberam a crise em termos de confronto global com o comunismo, porém ao invés de orquestrar o incidente, o governo soviético estava preocupado com ele. Kim estava, no entanto, inspirado pelos sucessos comunistas na Guerra do Vietnã.

Em 1969, a Coreia do Norte derrubou um avião de espionagem estadunidense EC-121 sobre o Mar do Japão, matando todos os 31 tripulantes a bordo, no que constituiu a maior perda de tripulação aérea dos Estados Unidos durante a Guerra Fria. Em 1969, um avião YS-11 da Korean Air Lines foi sequestrado e levado para a Coreia do Norte. Da mesma forma, em 1970, os sequestradores do voo 351 da Japan Airlines receberam asilo na Coreia do Norte. Em resposta ao ataque a Casa Azul, o governo sul-coreano criou uma unidade especial para assassinar Kim Il-sung, mas a missão foi abortada em 1972.