A história da Etiópia está documentada como uma das mais antigas do mundo. Segundo descobertas recentes, a espécie Homo sapiens seria originária dessa região e daí se teria espalhado pelo mundo.
Junto com os países vizinhos de Eritreia, Sudão, Djibouti, Somália e Somalilândia, esta região hospedou também o Império de Axum. A origem de Axum, por sua vez, remonta ao reino de Sabá (ou Shebah), no Iêmen, referido na Bíblia, que, por volta do ano 1000 a.C., se estendia, aparentemente, por todo o Corno de África e por parte da Península Arábica.
Desde aproximadamente o século IV a.C. os gregos chamavam de "Etiópia" a todos os países com população de raça negra, sem distinguir reinos nem países. Portanto, a Etiópia, segundo os gregos poderia ser a Núbia do sul de Egito e Sudão, ou poderia ser o Império de Axum, que se concentrava nos arredores da Eritreia e ao norte da própria Etiópia, mas não há certeza histórica sobre isso.
Fontes gregas referem que o Império de Axum era extremamente rico no século I e a cidade de Adúlis (que fica no país vizinho da Eritreia) é frequentemente mencionada como um dos mais importantes portos de África. Documentos oficiais, contudo, colocam a cidade de Axum como a capital onde se encontrava a corte da Rainha de Sabá. Esse reino tinha, no século II, direito de receber tributos de estados da Península Arábica e tinha inclusivamente conquistado o Reino de Cuxe, no actual Sudão.
Há indicações do carácter cosmopolita desse reino, com populações judaicas, núbias, cristãs e mesmo minorias budistas.
Linha do tempo
Pré-história thumb|left|Lucy, Australopithecus afarensis
A Etiópia é considerada uma das áreas mais antigas de ocupação humana do mundo, senão a maior, de acordo com algumas descobertas científicas. Lucy, descoberta no no Vale de Awash da região Afar da Etiópia, é considerado o segundo mais antigo, mais bem preservado e mais completo fóssil adulto Australopithecus. A espécie de Lucy é chamada de Australopithecus afarensis, que significa 'macaco do sul de Afar', região da Etiópia onde a descoberta foi feita. É estimado que Lucy tenha vivido na Etiópia a 3,2 milhões de anos atrás. Houve várias outras descobertas notáveis de fósseis no país, incluindo o fóssil humano mais velho, Ardi.
Por volta do século VIII a.C., um reino conhecido como Dʿmt foi estabelecido ao norte da Etiópia e Eritreia, com sua capital em Yeha, norte etíope. Muitos historiadores modernos consideram esta civilização nativa da África, embora influenciada pelos sabeus, por causa de sua tardia hegemonia do Mar Vermelho,Stuart Munro-Hay, Aksum: An African Civilization of Late Antiquity. Edinburgh: University Press, 1991, pp.57. enquanto outros consideram os Dʿmt como o resultado de uma mistura dos sabeus e populações indígenas.Taddesse Tamrat, Church and State in Ethiopia: 1270–1527 (Oxford: Oxford University Press, 1972), pp. 5–13. No entanto, ge'ez, a língua semítica mais antiga da Etiópia, é agora considerada não sendo derivada dos sabeus (também semitas do sul). Há evidências da presença de povos semíticos na Etiópia e na Eritreia pelo menos no início de 2 000 a.C..Herausgegeben von Uhlig, Siegbert. Encyclopaedia Aethiopica, "Ge'ez". Wiesbaden:Harrassowitz Verlag, 2005, pp. 732. A influência sabeia é agora considerada por ter sido menor, limitada a poucas localidades, e desaparecendo após poucas décadas ou um século, talvez representando uma colônia comercial ou militar em algum tipo de simbiose ou aliança militar com a civilização etíope de Dʿmt.Munro-Hay, Aksum, pp. 57.
Após a queda dos Dʿmt no século IV a.C., o planalto veio a ser dominado por reinos sucessores menores, até a ascensão de um desses reinos durante o século I a.C., o Império Axumita, ancestral da Etiópia moderna e medieval, que era capaz de reunir a área.Pankhurst, Richard K.P. Addis Tribune, "Let's Look Across the Red Sea I", 17 January 2003. Eles estabeleceram bases nas terras altas do norte do Planalto Etíope e de lá, expandiram-se em direção ao sul. A figura religiosa persa Maniqueu listou Axum junto a Roma, Pérsia, e China como uma das quatro grandes potências de seu tempo.Stuart Munro-Hay, Aksum: A Civilization of Late Antiquity (Edinburgh: University Press, 1991), pp. 13.
Dinastias Etíopes O Reino Zagué governou algumas partes da região em que atualmente se situam a Etiópia e a Eritreia de, aproximadamente, 1137 a 1270. O nome da dinastia vem do povo Agau, que falam línguas cuxíticas, ao norte da Etiópia. O Estado mais conhecido da região era o reino cristão nas montanhas setentrionais da Etiópia, que em 1270 passou das mãos do Reino Zagué para o Reino Salomônida. Iecuno-Amelaque, com a ajuda da dinastia vizinha Makhzumi, depôs o último dos reis Zagué e se casou com uma de suas filhas.
Reino Salomônida (1270-XVI) Sob a dinastia salomônida, as principais províncias tornaram-se Tigré (norte), o que é agora Amara (central) e Xoa (sul). A sede do governo, ou melhor, da soberania, geralmente ficava em Amara ou Xoa, cujo governante, chamando a si mesmo de nəgusä nägäst, exigia tributo, quando podia, das outras províncias. O título de nəgusä nägäst era em grande parte baseado em sua suposta descendência direta de Salomão e da rainha de Sabá; mas é desnecessário dizer que em muitos, se não na maioria, dos casos seu sucesso se deveu mais à força de suas armas do que à pureza de sua linhagem.
Os primeiros tempos da dominação salomônida foram marcados por grandes dificuldades, uma vez que essa nova dinastia teve de consolidar tanto sua autoridade dentro do reino cristão quanto suas relações com os povos vizinhos. A tarefa mais árdua era estabelecer relações harmoniosas com as colônias e grupos muçulmanos, cujo poder estava aumentando, na região entre o golfo de Aden e o vale do Awash. Durante os primeiros 50 anos da hegemonia salomônida, as relações entre cristãos e muçulmanos atingiram um ponto de equilíbrio forçado. Foi somente durante o reinado decisivo do enérgico Amde Tsion (1314‑1344), neto de Iecuno-Amelaque, que o reino cristão, pouco a pouco, estendeu sobre a região o domínio militar, que se manteve durante todo o período.
O território dos salomônidas ainda se limitava ao antigo território do reino de Zagué. Amde Tsion, então, empreendeu campanhas contra os chefes reinantes de Damot e Hadya, de 1316 a 1317, e, pouco depois, contra Godjam. Todas as campanhas foram completadas com sucesso e os territórios foram anexados ao reino salomônida. Além das terras, os novos territórios proporcionaram grandes populações para o exército e garantiram o controle completo sobre os terminais das rotas comerciais provenientes do golfo de Aden. As revoltas contra Amde Tsion eram comuns, não só nas províncias recém-conquistadas, mas também em outras áreas já bem integradas ao reino. Por volta de 1320, por exemplo, Tsion teve que reprimir uma revolta de cristãos no norte da província do Tigré.
Os reis salomônidas administravam seus vastos territórios de forma singular. Ao invés de se fixarem em uma capital permanente, era optado por uma corte itinerante, estabelecendo acampamentos móveis que acompanhavam o monarca em suas viagens por todo o reino. A corte imperial era sempre o centro da vida econômica e política para todos os súditos do reino, com uma multidão de pessoas de todas as partes do império seguindo-a em seus deslocamentos. O acampamento real também tendia a se tornar um centro de troca de provisões e mercadorias. As conquistas de Amde Tsion não apenas expandiram a corte e o exército, mas também trouxeram riqueza para o rei e seus sucessores.
Quanto ao cenário étnico e linguístico da Etiópia, ele é extremamente antigo e complexo. Grupos congolês-kordofanês e khoisan, junto com duas outras grandes famílias linguísticas africanas, a afro-asiática e a nilo-saariana, estão estabelecidos há muito tempo na região. O grupo afro-asiático é o mais relevante em termos de distribuição e interesse, pois três de seus seis ramos são falados no Chifre da África – o semítico, o cuxítico e o omótico – cada um com uma diversidade considerável de dialetos.
Contacto restaurado com a Europa No início do século XV, a Etiópia procurou realizar contactos diplomáticos com reinos europeus pela primeira vez desde os tempos dos axumitas. Uma carta do Rei Henrique IV de Inglaterra ao Imperador da Abissínia ainda existe.Ian Mortimer, The Fears of Henry IV (2007), p.111 Em 1428, o Imperador Yeshaq, da Etiópia, enviou dois emissários para Afonso V de Aragão, que enviou emissários retornando, porém estes falharam em completar a viagem de retorno.Girma Beshah and Merid Wolde Aregay, The Question of the Union of the Churches in Luso-Ethiopian Relations (1500–1632) (Lisbon: Junta de Investigações do Ultramar and Centro de Estudos Históricos Ultramarinos, 1964), pp. 13–4. As primeiras relações contínuas com um país europeu começaram em 1508, com Portugal, sob o Imperador Lebna Dengel, que havia acabado de herdar o trono de seu pai.Girma and Merid, Question of the Union of the Churches, pp. 25. Na embaixada enviada em 1515 em resposta ao envio a Portugal do embaixador etíope Mateus, seguia Francisco Álvares, que faria um relato do reino, incluindo o testemunho de Pêro da Covilhã.Beckingham and Huntingford, translators, Prester John, p.307.
thumb|Castelo do Rei Fasilides.
Isto provou ser um passo importante, pois quando o Império foi submetido aos ataques do General Adal e Imame, Ahmad ibn Ibrihim al-Ghazi, Portugal ajudou o Imperador etíope, enviando-lhe armas e quatrocentos homens, que ajudaram seu filho Gelawdewos a derrotar Ahmad e restabelecer seu governo.Girma and Merid, Question of the Union of the Churches, pp. 45–52. Esta guerra Etíope-Adal foi também uma das primeiras guerras procuração na região, tornando-se quando o Império Otomano e Portugal tomaram conta das partes envolventes no conflito. Em 1624, o Imperador Susenyos converteu-se ao Catolicismo, ano de revolta e agitação civil, resultando em milhares de mortes.Girma and Merid, Question of the Union of the Churches, pp. 91, 97–104. Os missionários jesuítas ofenderam a fé ortodoxa dos etíopes locais, e em 25 de junho de 1632, o filho de Susenyos, o Imperador Fasilides, declarou a religião do Estado sendo novamente a Igreja Ortodoxa Etíope, e expulsou os missionários jesuítas e outros europeus.Girma and Merid, Question of the Union of the Churches, p. 105.van Donzel, Emeri, "Fasilädäs" in Siegbert von Uhlig, ed., Encyclopaedia Aethiopica: D-Ha (Wiesbaden:Harrassowitz Verlag, 2005), p. 500. ' Zemene Mesafint Tudo isto contribuiu para o isolamento da Etiópia, de 1755 a 1855, período chamado de Zemene Mesafint ou "Idade dos Príncipes". Os imperadores tornaram-se figurativos, controlados por senhores de guerra, como Ras Mikael Sehul de Tigré, e pela dinastia Oromo Yejju, que mais tarde levou ao domínio dos Gondar no século XVII, mudando o idioma da corte de aramaico para afaan oromo.Pankhurst, Richard, The Ethiopian Royal Chronicles, (London:Oxford University Press, 1967), pp. 139–43.
O isolacionismo etíope terminou após uma missão britânica que concluiu uma aliança entre as duas nações; no entanto, não foi até 1855 que a Etiópia foi completamente unida e o poder do Imperador foi restaurado, começando com o reinado do Imperador Tewodros II. Após sua subida ao poder, apesar de ainda haver grandes forças centrífugas, ele começou modernizando a Etiópia e recentralizando o poder no Imperador, e o país começou a tomar parte dos assuntos externos mais uma vez.
thumb|left|180px|Yohannes IV, Imperador da Etiópia e Rei de Zion, com seu filho, Ras Araya Selassie Yohannis.