Gambiarra evolutiva (Evolutionary kluge ou simplesmente Kluge) tem sido um termo utilizado nos campos da ciência evolucionista para descrever estruturas, comportamentos e órgãos imperfeitos, desajeitados, inelegantes, ineficientes, difíceis de entender ou prejudiciais que são resultantes do processo evolutivo Linden, David J. (2007). The Accidental Mind: How Brain Evolution Has Given Us Love, Memory, Dreams, and God. Belknap Press. pp. 245–246. ISBN 0-674-02478-8.Marcus, Gary (2008). Kluge: The Haphazard Construction of the Human Mind. Houghton Mifflin Co. pp. 4–5. ISBN 0-618-87964-1.. O termo tem aparecido na literatura e se tornado familiar entre muitos dos cientistas, aparecendo até como título no livro Kluge do psicólogo Gary Marcus, da Universidade de Nova York, que usa desta analogia para descrever a mente humana. Richard Brodie define kluge em seu livro "Virus of the Mind: The New Science of the Meme" como um jargão para o uso de uma peça não particularmente adequada para seu propósito, ele aborda que a evolução favorece e até mesmo valoriza a formação de gambiarras ou kluges.

Passagens na literatura científica AnoNome da obra / título do artigoAutor Ref2007O Vazio da MáquinaAndré CancianMas o fato é que somos uma gambiarra evolutiva, e mesmo que essa ideia seja incômoda, ela nos permite compreender em função de que está programada essa realidade virtual chamada consciência – e as emoções que a norteiam - , e assim finalmente entendamos um pouco melhor por que somos tão contraditórios e tão complicadamente incoerentes.2007The Accidental MindDavid Linden Não é que tenhamos pensamentos e sentimentos fundamentalmente humanos, apesar do design gambiarra do cérebro moldado pelas reviravoltas da história evolutiva. Pelo contrário, nós os temos precisamente por causa dessa história.2008KlugeGary MarcusOutro exemplo bem conhecido de uma gambiarra evolutiva vem a partir de um detalhe bastante íntimo da anatomia masculina. A tubulação que funciona desde o testículo até a uretra (o canal deferente) é muito mais necessário: ele corre de volta para a frente, dá voltas ao redor, e faz um grau de 180 graus olta para o pênis.2009Virus of the MindRichard BrodieExemplo clássico de uma gambiarra evolutiva é o olho humano. Os nervos que conectam as células sensíveis à luz ao cérebro realmente saem pela frente da retina, em vez da parte de trás - a "fiação" se projeta no campo de visão do olho. É difícil imaginar um engenheiro, muito menos Deus, projetando algo dessa maneira. Mas a evolução tomou que teve que trabalhar e com gambiarra por gambiarra, construiu um olho.2011Inside JokesMatthew Hurley et al.Nosso raciocínio rápido como humanos é o resultado de uma série de gambiarras evolutivas empilhados uns sobre os outros - um dos quais é o traço do humor. Este capítulo apresenta as características do pensamento que criam um nicho para o humor.2012O Cérebro ImperfeitoDean BuonomanoBUONOMANO, Dean. O Cérebro Imperfeito: Como as Limitações do Cérebro Condicionam as Nossas Vidas. Editora Elsevier Brasil. Rio de Janeiro. 2012. ISBN: 978-85-352-4760-2.O neurocientista David Linden descreveu o cérebro humano como uma progressiva acumulação de soluções de contorno ou remendos temporários, as famosas gambiarras. Durante a evolução do cérebro, novas estruturas foram colocadas sobre estruturas funcionais mais antigas, o que gerou redundâncias, desperdícios de recursos, complexidade desnecessária e, às vezes, soluções conflitantes para o mesmo problema.2013Fofuchos de Darwin SuperinteressanteRedação. Fofuchos de Darwin: Como a evolução produziu bebês rechonchudos, lindinhos e completamente dependentes dos papais e das mamães. Superinteressante. 2013.[...] Para entender melhor o significado desse fato, é importante levar em conta que a evolução é mestra em pegar características já existentes e usá-las para criar “gambiarras” se isso for capaz de favorecer as chances de um indivíduo de sobreviver e se reproduzir.2018Ateísmo e NiilismoAndré CancianCANCIAN. André. Ateísmo e Niilismo: Reflexões sobre a morte de deus. Volume 3. Editora André Cancian, 2018. ISBN: 978-04-634-9720-3.Caímos de paraquedas nessa megaestrutura de gambiarras evolutivas, e não foi fácil colocar cada peça em seu lugar. mesmo assim, parecem ser poucos os que conseguem assimilar esses fatos sem enlouquecer, pelo menos um pouco.2019Darwin sem frescuraPirula e Reinaldo J. LopesPIRULA; LOPES, Reinaldo José. Darwin sem frescura: Como a ciência evolutiva ajuda a explicar algumas polêmicas da atualidade. Editora HarperCollins. Rio de Janeiro. 2019. ISBN: 9788595085145. [...] Também pode ser um ótimo exemplo de exaptação: quando uma estrutura que evoluiu com determinada função vira uma “gambiarra” evolutiva de sucesso, sendo usada para funções diferentes. Um exemplo do papel que muitos.2021Ensino de BiologiaLeonardo Araújo e Gilberto Vieira ARAÚJO, Leonardo Augusto Luvison; VIEIRA, Gilberto Cavalheiro. Ensino de Biologia: uma perspectiva evolutiva/ Volume I: Interdisciplinaridade & Evolução. Porto Alegre: Instituto de Biociências da UFRGS, 2021. ISBN 978-65-86232-84-4. [...] Ou seja, os organismos seriam, de alguma forma, "gambiarras evolutivas". Podemos descrever quatro vias pelas quais a modulação da expressão gênica pode proporcionar o aparecimento de variações fenotípicas, que serão alvo, posteriormente, da seleção natural.

Exemplos nos seres vivos

Caracóis defecam acima da cabeça Olhos do linguado precisam migrar A bolsa do coala abre-se para baixo Cogumelos com lamelas do lado de dentro Figos são flores invertidas Receptores ópticos dos tetrápodes Nervo laríngeo das girafas gasta 4,5 metros Nervo laríngeo dos saurópodes gasta 50 metros Nervo laríngeo de 3,5 metros em cobras aquáticas Nervo de voo dos gafanhotos africanos Cacho da bananeira dentro da planta Canal espermático dos primatas de 40 cm Via neural dos olhos até a glândula pineal Palmas que perfuram seus próprios cladódios Candelabros que perfuram seus próprios troncos Dentes do Babirusa perfuram próprio crânio Sapo que cria garras quebrando seus ossos Gatos possuem espinhos no pênis Morcegos possuem espinhos no pênis O percevejo que realiza cópula forçada Kiwis colocam ovos desproporcionais Hienas dão à luz por um pseudo-pênis Reprodução do maracujá depende do clima Vivipação em diferentes espécies vegetais Macrófitas submersas requerem polinização O ferrão das abelhas fica preso à vítima Jabutis podem não conseguir se desvirar Muitos besouros não conseguem se desvirar Formigas e a espiral da morte Galhada do alce irlandês causou sua extinção Seres aquáticos que podem se asfixiar Tubarões que não podem parar de nadar Cetáceos podem se asfixiar Peixes pacus podem se asfixiar Tartarugas marinhas podem se afogar Sirênios podem se asfixiar Ictiossauros e mosassauros podiam se asfixiar Mariposas que não possuem boca Moscas que não possuem boca Ácaros que não possuem ânus Desprovidos de outros órgãos Cavalos não possuem o centro de vômito Plantas que colocam frutos sem sementes Cavalos possuem somente um dedo Folhas que não possuem clorofila Vespas que inseminam fêmeas antes de nascerem Cuco: o pássaro que mata os irmãos adotivos Tubarão-touro devora irmãos ainda no útero Louva-a-deus devora o macho na relação sexual Viúva-negra devora macho e os próprios irmãos Micromalthus debilis devora a mãe viva Cecidomiídeos: moscas que devoram a mãe viva Stegodyphus: aranhas que devoram a mãe viva Infanticídio para sobrevivência Ovelhas e cabras podem rejeitar seus filhotes Pandas escolhem um filho para morrer Bonobos devoram os filhotes para se impor Aves eliminam filhotes indesejáveis Hamister pode devorar os filhotes Vespa que injeta larvas em si mesma Coalas necessitam fazer coprofagia Coelhos necessitam fazer acecotrofia Tatuzinhos-de-jardim necessitam comer suas fezes Preguiças podem morrer de fome saciadas Preguiças precisam descer da árvore para defecar Pandas dependem de até 14 horas de alimentação Sistema de defesa da cigarra é saciar o predador Preguiças podem confundir os braços com galhos Albatrozes não podem voar corretamente Kakapos saltam de árvores altas sem saber voar Anuros machos cruzam com cadáveres Moscas podem se decapitar ao se limparem

Exemplos envolvendo bioquímica

A enzima RuBisCO foi descrita como uma enzima "notoriamente ineficiente", pelo fato de ser inibida pelo oxigênio, ter uma rotatividade muito lenta e não ser saturada nos níveis atuais de dióxido de carbono na atmosfera. A RuBisCO é inibida por não conseguir distinguir entre dióxido de carbono e oxigênio molecular, com o oxigênio atuando como um inibidor competitivo da enzima. No entanto, o RuBisCO continua a ser a enzima chave na fixação do carbono, e as plantas superam sua fraca atividade, tendo quantidades enormes dentro de suas células, tornando-a a proteína mais abundante na Terra. A enzima nitrogenase, na verdade, liga-se preferencialmente ao acetileno em relação ao dinitrogênio (N2), apesar de ser a principal enzima usada na fixação de nitrogênio em muitas bactérias e arquéias.

O reflexo da respiração é estimulado não diretamente pela ausência de oxigênio, mas indiretamente pela presença de dióxido de carbono. O resultado é que, em grandes altitudes, a privação de oxigênio pode ocorrer em indivíduos não adaptados que não aumentam conscientemente sua frequência respiratória. Quase todos os animais e plantas sintetizam sua própria vitamina C, mas os seres humanos não podem porque o gene dessa enzima está com defeito (pseudogene ΨGULO).  A falta de vitamina C resulta em escorbuto e, eventualmente, morte. O gene também não é funcional em outros primatas e em cobaias, mas é funcional na maioria dos outros animais.

Ver também Estruturas vestigiais

Atavismo

Design Inteligente Lista de exemplos de gambiarras evolutivas

Categoria:Biologia evolutiva