Hemípteros (Hemiptera; /hɛˈmɪptərə/, do grego hemi = metade; pteron = asa) é a maior e mais diversa ordem de paraneoptera (superodem dos insetos), que inclui aproximadamente 119 mil espécies em todo mundo, incluindo as cigarras, percevejos, pulgões e cochonilhas. São insetos hemimetábolos, ou seja, que apresentam ninfas muito semelhantes aos insetos adultos e que não passam por metamorfose completa. Variam de 0,5 mm a 15 cm de comprimento, com coloração geralmente uniforme. Caracterizam-se pelo aparelho bucal em forma de um rostro, constituído pelo lábio articulado onde se alojam as demais peças bucais sugadoras.

A diversidade de nichos que ocupam é muito grande, podem ocupar ambientes terrestres, aquáticos ou semiaquáticos, os hemipteras ainda apresentam uma variedade de hábitos alimentares sendo: fitófagos (alimentam-se de plantas), usando suas peças bucais em forma de agulha pra perfurar, sugar e extrair a seiva dos vegetais, ou alguns são parasitas de outros animais e utilizam o mesmo sistema de peças bucais para sugarem sangue por exemplo, enquanto outros ainda são predadores e se alimentam de outros insetos, pequenos invertebrados, ou até pequenos peixes, como é no caso das baratas d'água. É um grupo que pode apresentar bastante complexidade no seu ciclo de vida, tomando os pulgões por exemplo, é possível encontrar etapas partenogênicas, que promovem uma grande multiplicação dos indivíduos. Esse fator somado às altas capacidades locomotoras, permite que a dispersão desses insetos seja bastante eficiente, o que levanta especial preocupação para agricultura, devido a diversas famílias de hemipteras que são parasitas de plantas de interesse econômico.

Taxonomia e filogenia A ordem Hemiptera está inserida na superordem Paraneoptera, que inclui também as ordens Psocoptera, Phthiraptera e Thysanoptera, sendo esta última considerada grupo-irmão dos hemípteros. Com esta circunscrição taxonómica, a ordem Hemiptera é composta por quatro subordens:GULLAN, P. J.; CRASTON, P.S. “The insects: An outline of entomology”. Malden, MA: Blackwell Pub, 2005.

+ Diversidade de Hemiptera Subordens Nº de espécies Exemplos Auchenorrhyncha 35.000 cigarra, jequitiranaboia Coleorrhyncha cerca de 30 moss bug (Peloridiidae) Heteroptera 38.000 barbeiro, maria-fedida Sternorrhyncha 16.000 pulgão, mosca branca, cochonilha

Anteriormente, as classificações clássicas do agrupamento taxonómico Hemiptera apresentavam Homoptera (Sternorrhyncha + Auchenorrhyncha) como uma ordem separada devido às diferenças na estrutura da asa e na posição do rostro. Esta estruturação do grupo, porém, foi rejeitada, porque Homoptera não era monofilético, já que Sternorrhyncha é grupo-irmão de todos os outros hemípteros.RAFAEL, José Albertino et al. "Insetos do Brasil: diversidade e taxonomia". Ribeirão Preto: Holos, 2012.

A classificação é ainda controversa, existem autores que propõem que Auchenorrhynca não é monofilético e, portanto, deve ser dividido em duas novas subordens (Fulgoromorpha e Cicadomorpha), atribuindo cinco subordens a Hemiptera. Outras classificações reúnem Heteroptera e Coleorrhyncha em um grupo denominado Prosorrhyncha, que é monofilético. Desta forma, a classificação apresentada no cladograma abaixo não deve ser tomada como definitiva:

Segundo a sistemática cladística, tanto baseada em dados morfológicos como em dados moleculares, os heterópteros formam um clado, sendo portanto monofiléticos, enquanto que os hemípteros não heterópteros (antigos homópteros) são claramente parafiléticos, como pode comprovar-se no seguinte cladograma:Sorensen J. T., Campbell B. C., Gill R. J. & Steffen-Campbell J. D., 1995. Non-monophyly of Auchenorrhyncha ("Homoptera"), based upon 18S rDNA phylogeny: eco-evolutionary and cladistic implications with pre-Heteropteroidea Hemiptera (s.l.) and a proposal for new monophyletic suborders. Pan-Pacific Entomologist, 71(1): 31-60

Morfologia Morfologia externa Exoesqueleto thumb|Exoesqueleto de uma cigarra deixado após uma muda.|292x292px Assim como todos os artrópodes (filo que inclui os insetos), os hemípteros apresentam um esqueleto externo denominado exoesqueleto. Ele funciona como uma carapaça de proteção contra choques mecânicos e até mesmo como uma barreira contra a penetração de microrganismos, gases deletérios e água para o interior do corpo, além de evitar a desidratação. Essa carapaça também é fundamental na integridade física do corpo, fornecendo elementos de apoio ou ligação da musculatura.MARANHÃO, Zilkar Cavalcante. “Morfologia geral dos insetos”. São Paulo: Nobel, 1978.

O exoesqueleto é composto de três camadas: cutícula, epiderme e membrana basal. A cutícula apresenta basicamente uma camada mais externa de cera (importante para evitar a desidratação), uma camada proteica intermediária e uma camada mais interna de quitina (polissacarídeos nitrogenados), que está sempre associada a proteínas e outros compostos complexos, conferindo rigidez.LARA, Fernando Mesquita. “Princípios de Entomologia”. São Paulo: Icone, 1977. A segunda camada da parede do corpo é epiderme, cuja principal função é produzir a cutícula, já que possui glândulas secretoras exclusivas da quitina. A membrana basal, que marca o limite interno da parede, é uma fina membrana intimamente associada à epiderme.

Cabeça É a região anterior dos insetos, nela estão contidos apêndices, que são as antenas, os olhos e as peças bucais. Além de alojar o cérebro, parte principal do sistema nervoso, que coordena todos os fenômenos sensitivos e motores.

Antenas Em Hemiptera é possível encontrar diferentes tipos de antenas de acordo com a subordem, mas o mais comum são antenas longas compostas de quatro ou cinco segmentos.BORROR, Donald J.; DELONG, Dwight M. “Introdução ao estudo dos insetos”. São Paulo: Edgard Blucher, 1988. Em Auchenorrhyncha, as antenas são setáceas ou cerdiformes, por se assemelharem a uma cerda, já que os segmentos das antenas vão diminuindo gradativamente da base para o ápice. Em Sternorrhyncha, por exemplo, as antenas são filiformes, semelhantes a um fio, apresentando o mesmo diâmetro ao longo de todo comprimento.

Olhos Os olhos compostos típicos dos insetos são quase sempre bem desenvolvidos em hemípteros. Porém, neste grupo, os ocelos (em múltiplos de dois) podem ou não estar presentes. Os olhos compostos são os responsáveis por formar a imagem, enquanto que a função exata dos ocelos ainda não é certa, mas acredita-se que estão envolvidos no aumento da sensibilidade à luz.

Peças bucais O aparelho bucal encontrado em hemípteros é o chamado picador-sugador, apresentando as mandíbulas e as maxilas transformadas em estiletes filiformes. O lábio inferior é convertido em rostro, um tubo sugador, alongado e dirigido para trás, que aloja em seu interior as peças modificadas em estilete. As maxilas encontram-se unidas ao longo de suas margens para formar um tubo que serve de canal alimentar, através do qual os líquidos são aspirados para a faringe sugadora.

Existem diversas variações em relação a esse tipo de aparelho bucal, de acordo com o modo de vida do inseto. Aqueles que se alimentam de seiva apresentam um rostro mais ou menos longo, fino e reto. No caso dos hematófagos (aqueles que se alimentam de sangue), o rostro é geralmente mais curto, robusto e reto ou levemente curvado. Nos hemípteros aquáticos, como as baratas d’água, o rostro também é muito curto e recurvado. Alguns grupos de Hemiptera que possuem estiletes muito longos e filamentosos apresentam uma bolsa chamada crumena, no interior da cabeça, que serve para alojar as peças bucais quando o animal não está se alimentando.

Tórax O tórax é a segunda região do corpo dos insetos, sendo facilmente reconhecida nos adultos por apresentar as estruturas locomotoras (pernas e asas). É a região mais compacta e robusta do corpo, sendo também a mais pesada e resistente.

Pernas Os hemípteros, assim como os insetos (salvo raras exceções) apresentam 6 pernas articuladas como apêndices torácicos. Cada perna apresenta cinco peças: coxa, trocânter, fêmur, tíbia e tarso. Em Hemíptera, elas são do tipo ambulatoriais, que são as mais comuns dos insetos, servindo para a locomoção terrestre. Os três pares de patas são, geralmente, do mesmo comprimento. Algumas vezes elas apresentam modificações, sendo as anteriores raptatórias, prensoras e fossoriais (para captura de alimento) e as posteriores saltatórias ou natatórias.

Asas thumb|Cigarra com asas abertas. Note a asa anterior do tipo hemiélitro e a posterior, membranosa.|271x271px Os hemípteros são classificados como tretápteros em relação ao número de asas, ou seja, possuem dois pares de asas. O primeiro par de asas, as chamadas asas anteriores, são do tipo hemiélitro em quase todos os hemípteros, sendo importantes tanto para o voo, como para proteção do corpo do animal. A parte basal desse tipo de asa é quitinizada, sendo, portanto, mais dura e resistente. Enquanto que o restante da asa, a parte apical, é membranosa (mais frágil e delicada). Já o segundo par de asas, as posteriores, é membranosa, sendo estas mais finas e transparentes e envolvidas apenas no voo.

Abdome O abdome é a última região do corpo dos hemípteros (assim como de todos os insetos). Ela é o centro da nutrição e da reprodução, pois é onde se encontram as vísceras e o aparelho genital.

Produção de som Alguns grupos de hemípteros, como as cigarras, são capazes de produzir sons muito estridentes, o mais alto entre todos os insetos. Isso ocorre muito comumente em épocas mais quentes do ano como primavera e verão, período no qual esses animais se reproduzem. O som produzido pelos machos é uma forma de tentar atrair as fêmeas para a cópula. Ele é gerado pelo timbal, que é uma membrana associada a musculatura presente entre as placas que compõem a cutícula no abdome. Essa musculatura é responsável por fazer as placas cuticulares se chocarem umas contra as outras, gerando o som percussivo.SIMMONS, Peter; YOUNG, David. "The Tymbal Mechanism and Song Patterns of the Bladder Cicada, Cystosoma saundersii". Journal of Experimental Biology, 1978.

Morfologia interna Sistema digestório e excretório O aparelho digestório em Hemíptera é similar ao do restante dos insetos, apesar de alguns grupos apresentares algumas diferenças. Esse sistema compreende o tubo digestivo, glândulas acessórias e órgão excretores. O tubo digestivo é um canal alimentar que se estende da boca ao ânus, ele é dividido em três regiões: intestino anterior (estomodeu), intestino médio (mesêntero) e intestino posterior (proctodeu). O estomodeu é uma ligação da boca ao estômago que corresponde ao mesêntero, onde ocorre a digestão. O proctodeu é um conduto direto para o ânus e na ligação entre mesêntero e proctodeu estão localizados os túbulos de Malpighi, envolvidos na excreção, principalmente de ácido úrico.

Em Hemíptera, as subordens Auchenorrhynca e Sternorrhyncha diferem dos demais insetos quanto à anatomia do sistema digestório, pois apresentam uma estrutura chamada câmara filtro. Ela possibilita que os excessos de água e carboidratos ingeridos passem diretamente do estomodeu para a porção final do mesêntero ou para o proctodeu. Esse transporte envolve gasto de energia, ocorrendo inicialmente uma absorção e posteriormente uma secreção. Por esse motivo, a excreção desses grupos apresenta alto teor de água e açúcares.

Sistema respiratório Nos hemípteros assim como na grande maioria dos insetos, a respiração é realizada por meio de uma rede de tubos internos, denominados traqueias. Estas se ramificam até os órgãos e apêndices do corpo, possibilitando a troca gasosa a nível celular. O ar entra e sai das traqueias por meio de orifícios laterais no tórax e no abdome, chamados de espiráculos.

Sistema circulatório