thumb|direita|Mosaico do Cristo Pantocrator, nomeado com seu nomem sacrum, na Catedral de Cefalù, na Sicília, Itália. thumb|direita|Mosaico da Virgem com o Menino na igreja de Santa Maria Assunta, em Torcello, Itália. Nomina sacra (singular: nomen sacrum) significa "nomes sagrados" em latim e é uma referência à prática dos escribas cristãos de abreviar diversos nomes ou títulos divinos que aparecem com frequência na Bíblia, especialmente nos manuscritos gregos. Um nomem sacrum consiste de duas ou mais letras escolhidas da palavra original unidas por uma sobrelinha.
Metzger lista quinze nomina sacra encontrados nos papiros gregos, os nomes gregos de "Deus", "Senhor", "Jesus", "Cristo", "Filho", "Espírito", "David", "Cruz", "Mãe", "Pai", "Israel", "Salvador", "Homem", "Jerusalém" e "Céu"Bruce Metzger, Manuscripts of the Greek Bible, pp.36-37. Estes nomina já são encontrados em praticamente todo os manuscritos gregos do século III e anteriores, com exceção de "Mãe", que só aparece no século IVText of the Earliest New Testament Greek Manuscripts - Philip Comfort and David Barrett (1999) pp.34-35.
Os nomina sacra também ocorrem de forma diferente em latim, copta, armênia, gótica, núbio antigo e nas línguas que utilizam o alfabeto cirílico.
Origem e desenvolvimento Nomina sacra são consistentemente observados mesmo nos mais antigos textos cristãos ainda existentes, nos códice e nos papiros, o que implica que, quando eles foram escritos, por volta do século II, a prática já estava bem estabelecida. Porém, não se sabe exatamente quando o costume surgiu.
O sistema mais antigo de nomina sacra aparentemente consistia de apenas quatro ou cinco palavras, chamadas nomina divina: as versões gregas de "Jesus", "Cristo", "Senhor", "Deus" e, possivelmente, "Espírito". A prática rapidamente se expandiu para outras palavras consideradas sagradasS. D. Charlesworth, "Consensus standardization in the systematic approach to nomina sacra in second- and third-century gospel manuscripts", Aegyptus 86 (2006), pp. 37-68..
No sistema que prevaleceu, a abreviação se deu por "contração", ou seja, a utilização de (pelo menos) a primeira e a última letra da palavra. Em uns poucos casos antigos aparece a prática da abreviação por "suspensão", no qual (pelo menos) as duas letras iniciais da palavra são utilizadas.
É evidente que o uso de nomina sacra eram um ato de reverência e não apenas um artifício puramente prático de economia de espaço, pois eram empregados mesmo quando abreviações bem estabelecidas de palavras muito mais frequentes, como "e", eram evitadas e o próprio nomen sacrum era escrito com generoso espaçamento. Além disto, os primeiros escribas geralmente distinguiam entre ocorrências sagradas e mundanas da mesma palavra, como "espírito" e "Espírito", e aplicavam os nomina sacra apenas nas sagradas (o que, por vezes, revelava com clareza uma escolha exegética); escribas posteriores geralmente abreviavam mecanicamente todas as ocorrências.
Estudiosos propuseram diversas teorias sobre a origem dos nomina sacra. Um paralelo óbvio que provavelmente serviu de inspiração era a prática judaica de escrever o nome de Deus como o tetragrama YHWH mesmo nas escrituras gregas. A cultura grega também já aplicava diversas formas de abreviar nomes próprios, embora nenhuma delas fosse idêntica aos nomina sacra. Inspiração para formas contraídas (usando a primeira e a última letras) também aparece no Apocalipse, onde Jesus fala de si próprio como o "princípio e o fim", "o primeiro e o último" e também como "o alfa e ômega"Colin H. Roberts, Manuscript, Society, and Belief in Early Christian Egypt (1979), p. 37.. Os numerais gregos já foram sugeridos como a origem da sobrelinha que une todo o nomem sacrum, com a forma suspensa sendo apenas a forma ordinária de escrever "dezoito" por exemploLarry Hurtado, "The Origin of the Nomina Sacra: A Proposal", JBL 117 (1998), pp. 655-673..
Lista de nomina sacra gregas No caso nominativo (ou caso reto), a palavra aparece como sujeito ("Deus", "Senhor"). No caso genitivo (ou possessivo), indica-se a posse ("de Deus", "do Senhor"). SignificadoPalavra gregaNominativo (Sujeito)Genitivo (Possessivo)Deus Senhor Jesus Cristo/Messias Filho Espírito David Cruz Mãe Portadora de Deus ou Mãe de Deus Pai Israel Salvador Homem Jerusalém Céu(s)
Manuscritos gregos do Novo Testamento com nomina sacra (antes de 300) thumb|direita|Início do Evangelho de João no Codex Vaticanus sublinhando os nomina sacra. Todos os nomina sacra e datas retiradas de "Text of the Earliest New Testament Greek Manuscripts" (1999), de Philip Comfort e David Barrett. Manuscrito gregoData do manuscritoNomina sacra utilizada (P. Oxy. 2)~250 (Suppl. Gr. 1120)150–225 (P. Oxy. 208 + 1781)~250 (P. Oxy. 402)~250 (P. Amherst. 3b)~285 (P. Oxy. 657 + PSI 1292)225–250 (P. Oxy. 1008)200–300 (P. Oxy. 1009)250–300 (P. Oxy. 1078)~300 (P. Oxy. 1079)250–300 (P. Oxy. 1171)200–250 (P. Oxy. 1228)200–250 (P. Oxy. 1230)~300 (P. Oxy. 1395)200–250 (P. Oxy. 1596)255–300 (P. Oxy. 1597)200–250 (P. Oxy. 1598)200–250 (P. Rylands 5)150–200 (PSI 1)~300 (P. Mich. Inv. 1570)~260 (P. Mich. Inv. 1571)~225 (P. Oxy. 1780)200–300 (P. Heidelberg G. 645)200–300 (P. Chester Beatty I)~250 (P. Chester Beatty II + P. Mich. Inv. 6238)175–225
(P. Chester Beatty III)200–300 (PSI 1165)200–300 (P. Yale 415 + 531)200–300 (P. Yal 1543)~300 (P. Mich. inv. 6652)~250 (Gr. 17)~150 (PSI XIV 1373)~250 (P. Bodmer II + Inv. Nr. 4274/4298150–200
(P. Oxy. 2383)~200 (P. Oxy. 2384 + PSI Inv. CNR 419, 420)250–300 (P. Bodmer VII e VIII)200–300 (P. Bodmer XIV e XV)175–225
(P. Oxy 2684)250–300 (P. Oxy 3523)150–200 (P. Mil. Vogl. Inv. 1224 + P. Macquarie Inv. 360)~250 (P. Narmuthis 69.39a + 69.229a)~300 (P. Oxy 4449)~300 (P. Oxy 4401)200–300 (P. Oxy 4445)200–250 (P. Oxy 4447)175–225 (P. Oxy. 4494)~300 (P. Oxy 4495)200–250 (P. Oxy. 4497)200–250 (P. Oxy. 4498)200–250 (P. Oxy. 4499)225–275 (P. Oxy. 4805) ~250 0162 (P. Oxy 847)~300 0171 (PSI 2.124)~300 0189 (P. Berlin 11765)~200 0220 (MS 113)~300
Notas
Bibliografia
Don C. Barker, "P.Lond.Lit. 207 and the origin of the nomina sacra: a tentative proposal", Studia Humaniora Tartuensia 8.A.2, 2007, 1–14. Philip Comfort and David Barrett. Text of the Earliest New Testament Greek Manuscripts (1999). Philip Comfort, Encountering the Manuscripts: An Introduction to New Testament Paleography and Textual Criticism, Broadman & Holman Publishers, 2005, pp. 199–253. Larry W. Hurtado, The Earliest Christian Artifacts: Manuscripts and Christian Origins, Cambridge 2006, pp. 95–134. Bruce M. Metzger. Manuscripts of the Greek Bible (1981). A.H.R.E. Paap, Nomina Sacra in the Greek Papyri of the First Five Centuries, Papyrologica Lugduno-Batava VIII (Leiden 1959). Ludwig Traube. Nomina Sacra. Versuch einer Geschichte der christlichen Kürzung, Munich 1907.
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