Casino Royale é o romance de estreia do escritor britânico Ian Fleming e o primeiro da série James Bond, sendo sucedido por mais onze romances e duas coleções de contos. A história acompanha o agente secreto britânico James Bond enquanto joga uma partida de bacará em um cassino na França com o objetivo de tentar falir Le Chiffre, tesoureiro de um sindicato francês e membro do serviço secreto soviético. Bond também conta com o apoio dos agentes secretos Vesper Lynd, Felix Leiter e René Mathis.

Fleming elaborou muitos dos elementos do enredo a partir de suas experiências na Segunda Guerra Mundial como membro da Divisão de Inteligência Naval e também de pessoas que conheceu, com o próprio personagem de Bond refletindo muitos de seus gostos pessoais. Ele escreveu o rascunho de Casino Royale no início de 1952 em sua propriedade Goldeneye na Jamaica enquanto esperava por seu casamento. Fleming inicialmente não tinha certeza se seu trabalho estava pronto para publicação, mas seu amigo William Plomer lhe assegurou que a obra tinha potencial. Foi publicado pela editora Jonathan Cape em abril de 1953.

Casino Royale lida com temas como a posição do Reino Unido no mundo, especialmente seu relacionamento com os Estados Unidos no contexto da Guerra Fria. O livro foi bem recebido pela crítica literária ao ser lançado, com sua tiragem inicial esgotando em menos de um mês no Reino Unido, porém as vendas nos Estados Unidos um ano depois foram bem mais lentas. O livro foi primeiro adaptado como uma tira de quadrinhos no jornal Daily Express e depois em formato audiovisual três vezes: um episódio de 1954 da série estadunidense Climax! com Barry Nelson, um filme de 1967 com David Niven e um filme de 2006 com Daniel Craig.

Enredo M, chefe do Serviço Secreto de Inteligência britânico, designa o agente James Bond, codinome 007, para jogar um jogo de bacará de altas apostas no cassino de Royale-les-Eaux no norte da França. Seu objetivo é falir Le Chiffre, tesoureiro de uma organização sindical controlada pela agência soviética SMERSH. Bond vai para o jogo com o disfarce de um jamaicano rico e como parte disto M designa como sua companheira a agente Vesper Lynd, a assistente pessoal do Chefe da Seção S. A estadunidense Agência de Inteligência Central e a francesa Deuxième Bureau também enviam agentes como observadores. O jogo logo se transforma em um confronto intenso entre Bond e Le Chiffre, com o segundo vencendo a primeira rodada e tomando todo o dinheiro do primeiro. Bond contempla a perspectiva de ter que relatar seu fracasso à M, mas Felix Leiter, o agente da CIA, lhe dá um envelope com dinheiro e um bilhete que diz: "Plano Marshall. Trinta e dois milhões de francos. Com os cumprimentos dos EUA". O jogo continua, apesar das tentativas de um dos capangas de Le Chiffre de matar Bond. Este vence a partida, tomando de Le Chiffre oitenta dois milhões de francos que pertencem à SMERSH.

Le Chiffre fica desesperado para recuperar o dinheiro, sequestrando Vesper e torturando Bond, ameaçando matar ambos caso Bond não lhe devolva o dinheiro. Entretanto, durante a tortura, um assassino da SMERSH entra e mata Le Chiffre como punição pela perda do dinheiro. O assassino não mata Bond, afirmando que tem ordens para não fazer isso, mas corta uma letra cirílica Ш de шпион (russo para "espião") na mão de Bond para que desta forma agentes da SMERSH possam no futuro identificá-lo como tal.

Vesper visita Bond todos os dias no hospital e ele gradualmente percebe que está apaixonado, chegando a contemplar deixar o serviço secreto para ficar com ela. Bond recebe alta e os dois passam um tempo juntos, tornando-se amantes. Certo dia eles avistam um homem misterioso chamado Gettler que está os rastreando, com isto enchendo Vesper de pavor. Ela comete suicídio no dia seguinte. Vesper deixa um bilhete em que explica que estava trabalhando como agente dupla contra sua vontade para o Ministério de Assuntos Internos soviético. A SMERSH tinha sequestrado seu amante, um piloto polonês, que revelou informações sobre ela sob tortura, com os soviéticos usando essas informações para chantageá-la a minar a missão de Bond, incluindo fingir seu próprio sequestro. Vesper tentou começar uma nova vida com Bond, mas ao ver Gettler, um agente da SMERSH, ela percebeu que nunca ficaria livre e que permanecer com Bond iria colocá-lo em perigo. Bond friamente informa o serviço secreto britânico da duplicidade de Vesper.

Antecedentes e escrita Ian Fleming nasceu em 1908, filho de Valentine Fleming, um banqueiro e parlamentar que morreu em combate em maio de 1917 na Frente Ocidental da Primeira Guerra Mundial. Estudou em Eton, Sandhurst e brevemente nas universidades de Munique e Genebra, passando por vários empregos até ser recrutado pelo contra-almirante John Henry Godfrey, o chefe da Divisão de Inteligência Naval, para ser seu assistente pessoal. Fleming juntou-se à organização em tempo integral em agosto de 1939, recebendo o codinome "17F", trabalhando nela durante a Segunda Guerra Mundial. No início de 1939 iniciou um caso com Ann Charteris, na época casada com lorde Shane O'Neill, 3º Barão O'Neill.

thumb|esquerda|240px|Goldeneye, onde Fleming escreveu todos os romances de James Bond Fleming compareceu em 1942 a uma conferência de inteligência anglo-americana na Jamaica e, apesar da chuva constante durante a viagem, decidiu ir morar no local assim que a guerra acabasse. Seu amigo Ivar Bryce lhe ajudou a encontrar um terreno na Paróquia de Santa Maria, onde Fleming construiu uma casa em 1945, nomeando-a de Goldeneye. Esse nome tem várias origens possíveis. Fleming mencionou seu plano de guerra Operação Goldeneye e o romance Reflections in a Golden Eye de Carson McCullers.

Ele foi dispensado em maio de 1945 e se tornou o Gerente Estrangeiro no grupo jornalístico Kemsley, que na época era dono do jornal The Sunday Times. Nesta função supervisionou a rede mundial de correspondentes do jornal. Seu contrato lhe permitia dois meses de férias anuais na Jamaica no inverno. Charteris deu à luz em 1948 a uma filha natimorta de Fleming, Mary. O casal noivou em 1951.

Fleming tinha anteriormente mencionado a seus amigos que tinha o desejo de escrever um romance de espionagem, mas foi apenas em 1952 que ele começou a escrever aquilo que se tornaria Casino Royale em Goldeneye em 17 de fevereiro com o objetivo de se distrair de seu casamento iminente. Ele escreveu duas mil palavras pela manhã, inspirado diretamente de suas próprias imaginação e experiências, terminando o trabalho em um manuscrito em março. Foi um padrão que Fleming repetiu para todos os seus romances futuros. Ele escreveu em maio de 1963 um artigo para a revista Books and Bookmen em que descrevia seu processo normal de escrita: "Eu escrevo por cerca de três horas pela manhã ... e faço outra hora de trabalho entre seis e sete da noite. Nunca corrijo nada ou volto atrás para ver o que escrevi ... Pela minha fórmula, você escreve duas palavras por dia".

Fleming voltou para Londres no final de suas férias e fez com que o manuscrito, que ele descreveu como sua "obra idiota e terrível", fosse redigitado por Joan Howe, sua secretária no The Times e a inspiração parcial por trás da personagem de Moneypenny. Clare Blanchard, uma ex-namorada, lhe aconselhou a não publicar o livro, ou pelo menos o fazê-lo sob um pseudônimo. Fleming permitiu que seu amigo e posteriormente editor William Plomer lesse uma cópia durante os estágios finais de escrita, comentando que "Eu realmente estou completamente envergonhado dele ... depois de revirar essa sujeira você provavelmente nunca mais falará comigo, mas eu tenho que aproveitar essa chance". Entretanto, Plomer achou que o livro era promissor o bastante e enviou uma cópia para a editora Jonathan Cape. Esta inicialmente não demonstrou muito entusiasmo, mas foi persuadida a publicá-lo pela recomendação de Peter Fleming, irmão de Ian, um escritor de viagens bem-sucedido cujos livros a editora lidava.

Fleming deu poucas informações sobre datas dentro de suas obras, mas dois escritores identificaram linhas do tempo diferentes a partir de eventos e situações relatados dentro da série James Bond como um todo. John Griswold e Henry Chancellor, ambos os quais escreveram livros à pedido da Ian Fleming Publications, colocam os eventos de Casino Royale se passando em 1951. Griswold permite um possível segundo intervalo de tempo e considera que a história se passa entre maio e julho de 1951 ou entre maio e julho de 1952. Ele também destacou que o próprio Fleming identificou em Goldfinger que os eventos de Casino Royale ocorreram em meados de 1951.

Desenvolvimento Inspirações Casino Royale foi inspirado por certos incidentes que ocorreram durante a carreira de Fleming na guerra ou por eventos que ele sabia que tinham ocorrido. Ele e Godfrey visitaram o Casino Estoril em Portugal enquanto estavam em uma viagem para os Estados Unidos. Como Portugal era um país neutro, a população de Estoril tinha sido invadida por espiões e agentes dos diferentes países em guerra. Fleming afirmou que ganhou todo o dinheiro de um "agente alemão chefe" em uma mesa de chemin de fer. Entretanto, Godfrey contou uma história diferente, dizendo que Fleming jogou apenas contra empresários portugueses e depois fantasiou que tinha jogado contra agentes alemães.

A fracassada tentativa de matar Bond em Royale-Les-Eaux foi inspirada pelo que Fleming sabia da tentativa de assassinato de Franz von Papen, embaixador de Adolf Hitler, em 1942. Papen e Bond sobreviveram às tentativas, ambas realizadas por búlgaros, porque árvores os protegeram de uma explosão. Fleming também incluiu quatro referências aos "Índios Vermelhos", incluindo duas vezes na última página, que veio da unidade de comandos conhecida como Comando Nº 30 ou Unidade de Assalto 30, composta por tropas de especialistas em inteligência. A unidade tinha sido ideia de Fleming e ele deu o apelido de "Índios Vermelhos", porém as tropas não gostavam do nome.

Personagens thumb|170px|Fleming imaginou Bond como Hoagy Carmichael O personagem principal de Casino Royale é James Bond, um agente do Serviço Secreto de Inteligência. Fleming inicialmente nomeou o personagem como James Secretan antes de apropriar o nome de James Bond, um ornitólogo que escreveu o livro Birds of the West Indies. Fleming explicou para a esposa de Bond que "aquele nome breve, nada romântico, anglo-saxão e ainda assim muito masculino era exatamente o que eu precisava, e assim um segundo James Bond nasceu". Ele elaborou dizendo que "Quando escrevi o primeiro em 1953, eu queria que Bond fosse um homem extremamente tedioso e desinteressante a quem coisas aconteceram; eu queria que ele fosse um instrumento cego ... quando eu estava caçando por aí por um nome para meu protagonista eu pensei, 'Por Deus, [James Bond] é o nome mais maçante que eu já ouvi'".

Fleming decidiu que Bond deveria se parecer tanto com o cantor estadunidense Hoagy Carmichael quanto si mesmo, com Vesper Lynd comentando no livro que "Bond me lembra um pouco de Hoagy Carmichael, mas há algo frio e implacável". Segundo Andrew Lycett, biógrafo de Fleming, "nas primeiras páginas ... [Fleming] introduziu a maioria das idiossincrasias e marcas registradas de Bond", incluindo sua aparência, seu Bentley e seus hábitos de bebida e de fumar. Os detalhes completos do martíni de Bond foram mantidos em segredo até o capítulo sete e ele acaba nomeando a bebida de "Vesper". O pedido de Bond, para ser servido em uma taça de champanhe, era de "três medidas de Gordon's, uma de vodca, meia medida de Kina Lillet. Agite bem até estar geladíssimo, então adicione uma fatia grande e fina de casca de limão".